«Deixei o hotel, meti-me no metropolitano, saí em Franklin D. Roosevelt, na Rotunda dos Campos Elísios, comprei o Le Monde e o Le Parisien e procurei uma esplanada. Em menos de cinco minutos estava sentado a uma mesinha de mármore com um requintado pé único em ferro finamente trabalhado, a tomar um café e uma água, com uma esplêndida vista sobre a Via Triunfal. A vida é bela. Às vezes.
É isto Paris. Ao fundo, à direita, destaca-se o augusto volume do Arco do Triunfo, e à esquerda esgueira-se o topo do obelisco da Praça da Concórdia. Dali desce em direcção ao Sena a avenue Montaigne, onde Marlene Dietrich viveu enclausurada os últimos dezanove anos de vida. Os mitos brotam férteis, até nos terrenos mais áridos. Que desgosto arrasador o dela quando, no rescaldo da II Guerra Mundial, vem a saber que uma irmã fora comandante do campo de extermínio de Bergen‑Belsen, onde apenas alguns meses antes da libertação morrera Anne Frank. E não muito longe dali, lembrei‑me então também, outra mulher de génio, senhora dos palcos e de públicos universais, terminara amargurada os seus dias, também retirada do mundo num apartamento da avenue Georges Mandel. Maria Callas, a divina. Ela sim, a Voz!
Estava uma manhã não muito fria, um céu de um azul intenso, magnífico, e uma luz perfeita. Há uns decénios, se afirmasse que aquele era o centro do mundo, ninguém ousaria desmentir-me. Um ou outro poderia manifestar opinião diferente, mas seria difícil encontrar alguém que abertamente me contrariasse. Hoje, mesmo que eu o afirmasse com alguma reserva, olhar-me-iam de esguelha, esboçariam um sorriso condescendente, como a dizer-me que estaria a delirar ou há muito afastado do mundo real e, caso eu quisesse fazer vingar a minha opinião, acabariam por pronunciar com todos os sons o nome da Grande Maçã, a Big Apple, essa sim, o verdadeiro centro do mundo. Muito bem, diria eu, Nova Iorque é fabulosa, sem dúvida, mas Paris continua a ser outro mundo...
Um cartaz publicitário espalhado pela cidade em paragens de autocarro e estações do metropolitano era disso a prova. Um jovem e perfeito busto feminino, de rosto inclinado de um modo que lembrava os retratos de Amedeo Modigliani, de belos seios véneros desnudos, era o suporte de uma mensagem que ainda há pouco seria, sem mais, proibida por lei da República. «No Frenchwoman would ever feel silicone silly cones as a Triumph. Silly if she did…» Na margem inferior do cartaz, em letra miúda, a versão em Francês era apenas um arremedo. Tradução é traição. A jovem geração já não pensa em lutas contra o corsage, o soutien-gorge ou a brassière, que gerou o wonder bra, e rendeu-se em bloco ao Inglês americano. Mais ainda, ao propalado American way of life! A moda tudo pode, e um subtil ideário de tempos idos volta a insinuar-se, pronto a regressar. Já só falta o espartilho e o corpete. E a haver alguma batalha, nem sequer será contra o franglais, cuja proliferação levara Étiemble a chamar aos franceses uns cocardiers e coquardiers. Patrioteiros zarolhos. Mas isso já foi há mais de quarenta anos. Era outro, o mundo, nem mais novo, nem mais velho. Apenas outro. E era outra, a França. Intrigou-me aquele laxismo linguístico invasivo, coisa rara ou mesmo impensável ainda há pouco tempo. Pois é, mas todo o estatismo é mera abstracção. Tudo é perpétuo movimento, contínua mudança ininterrupta. É, e será sempre, muito forte a tentação de querer ver o perene no efémero.
Ao arrumar o saco para arranjar espaço para os jornais, dei com os postais que trouxera do Beaubourg. Estavam selados e endereçados e alguns já escritos desde o dia em que os comprara, mas esquecera-os numa das bolsas interiores do saco. Que cabeça a minha… Pus os jornais de lado e resolvi ali mesmo acabar o que deixara a meio. E entre umas frases rápidas e uns goles alternados de café e água, ia observando quem passava. Uns seguiam com a calma de quem tem todo o tempo do mundo, outros riscavam o espaço com a pressa de quem, já sem tempo, deveria estar alhures há muito tempo. Sempre o tempo. Sempre a corrida contra o tempo. Gentes dos quatro cantos do mundo que o acaso ali juntava, naquele preciso instante, vestindo roupas exóticas, exibindo gestos que mal entendo, talvez exercendo profissões que desconheço e revelando hábitos e costumes das mais diversas formas e feitios, espelhos de outras tantas tradições de que nunca ouvi nem ouvirei falar.
Mais do que todas as palavras bem-intencionadas a favor disto e daquilo, mas cada vez menos eficazes por serem cada vez menos as gentes que lhes dão ouvidos, urge promover a xenofilia, não com mais palavras e palavras, mas com acções que incluam todos e lhes façam sentir a necessidade de se aproximarem dos outros, interrogá-los, partilhar com eles fragmentos do dia-a-dia, indagá-los sobre sonhos e ansiedades, enfim, conhecê-los. É simplista, e muito fácil até, dizer, por exemplo, que os italianos têm olhos grandes, os franceses boquinhas pequeninas, os alemães enormes manápulas ou os ingleses esquisitos cortes de cabelo. Ao invés, é fomentando atitudes e comportamentos xenófilos que se contraria o levantamento de barreiras entre comunidades que, embora com hábitos diferentes, são vizinhas e vivem quotidianos semelhantes. É o resultado de viver em espaços alucinados de anonimato e indiferença. O conhecimento de línguas é essencial, e os melhores laboratórios são as grandes metrópoles, onde o cosmopolitismo é hoje, porém, enganosa aparência. A xenofilia seria uma salvação possível. De resto, de que serviria viajar se fosse apenas para ver pedras amontoadas ou ficar estendido numa praia ao sol dos trópicos? Nisto fiquei a pensar, olhando para toda aquela gente e sentindo-me mais prosélito que nunca. Se não me precaver com os cuidados necessários, ainda dou comigo a proferir discursos muito cheios de boas intenções ou a aplaudir perorações absurdas de abstrusos discursos alheios...
(Seguir-se-á a 2.ª parte em breve…)
RIC


























