terça-feira, 31 de julho de 2007

Reflectindo…

Em certos momentos, creio e sinto que me faz falta olhar-me mais detidamente ao espelho. Não chegarei a ver a alma, como alguns crêem, mas poderei sempre tentar melhorar aquilo que a janela dela me permitir observar.


Muitas vezes, não compreendo as minhas reacções, as minhas atitudes, os meus comportamentos. Isto, para alguém que se considera um racionalista "romântico" – com a carrada de contradições e paradoxos inerentes a esta designação, criada por quem se tem vivido a si próprio no fio da navalha – é desconcertante e, as mais das vezes, causa de grandes frustrações.
Ao interrogar-me sobre porquês, aos poucos vou-me dando conta de padrões recorrentes presentes em mim desde que pela primeira vez me terei auto-analisado. Um deles identifiquei-o cedo como uma tendência quixotesca de lutar contra moinhos de vento ou de remar contra a maré. Numa época em que o visual exterior dá cartas de todas as formas, feitios e maneiras, surpreendo-me a tentar negar esta evidência irrefutável e a procurar, irracionalmente, que de mim seja "visto", também e sobretudo, esse mundo interior, de facto, a única riqueza que creio possuir. Ociosa e vã tarefa…
Conquanto a blogosfera seja um espaço privilegiado para dar largas a esta tendência, a verdade é que continuo a viver no mundo, com o mundo, pelo mundo e para o mundo. Logo, não me posso alhear de que o que os outros vêem de mim em primeiro lugar é o que os olhos lhes oferecem e não o que há de mais ou menos rico dentro de mim.
E quando a consciência me alerta para os perigos deste abismo, uma dor nasce-me no peito, cresce desmesuradamente e obriga-me a reconhecer que, afinal, poderá ser bem menor a tal riqueza interior.
Aparências e essências – o eterno problema, o constante dilema. Não creio que o Sr. Segismundo Alegria – saborosa ironia das ironias! – me pudesse valer nestas minhas andanças entre o aquém e o além do espelho…

Stultitia ad sapientiam erepit, sapientia in stultitiam non revolvitur.
Séneca, Epistulæ Morales
A ignorância pode erguer-se à sabedoria, mas a sabedoria não retorna à ignorância.

Stultum nimis est, cum tu pravissima tentes, alterius censor ut vitiosa notes.
Aviano, Fabulæ
É nímia tolice, quando se vive vida depravadíssima, fazer-se censor dos vícios alheios.

Stultus, nisi quod ipse facit, nil rectum putat.
Epígrafe de Fábula de Fedro
O néscio, salvo o que ele próprio faz, nada reputa certo.

RIC

segunda-feira, 30 de julho de 2007

«Sabor a mi»…


"Music was my first love, and it will be my last.
Music of the future, and music of the past."



de Álvaro Carrillo

Tanto tiempo disfrutamos de este amor
nuestras almas se acercaron tanto así
que yo guardo tu sabor
pero tu llevas también sabor a mi.

Si negaras mi presencia en tu vivir
bastaría con abrazarte y conversar,
tanta vida yo te di
que por fuerza tienes ya sabor a mi.

No pretendo ser tu dueño
no soy nada, yo no tengo vanidad,
de mi vida doy lo bueno
soy tan pobre, que otra cosa puedo dar.

Pasarán mas de mil años, muchos mas,
yo no sé si tenga amor la eternidad
pero allá tal como aquí
en la boca llevarás sabor a mi.


My essence in you

So much time we have enjoyed this love
Our souls got so close
that I feel your essence
but you also carry my essence

If you were to deny my presence in your life
I would only need to hug you and talk
I gave you so much life
that you can't help to carry my essence

I do not pretend to be in control
I am nobody. I am not vane.
From my life, I only give out good things.
I am so poor, what else can I give?

More than a thousand years will pass by, many more
I don't know if eternity has love
but there, just like here
in your mouth you'll have my essence.

I did write in my profile over a year ago I am mad about music!
I just melt down completely listening to a cadenced bolero…
I believe this must be my camp side… Lol!
Enjoy it lavishly!

RIC

domingo, 29 de julho de 2007

«Pater Noster»

de Jacques Prévert

Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuileries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-mêmes d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Avec leurs tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.


Pai Nosso que estais no céu
Ficai aí.
Que nós ficaremos aqui na terra
Que é por vezes tão bela
Com os seus mistérios de Nova Iorque
E ainda os seus mistérios de Paris
Que valem bem o da Trindade
Com o seu canalzinho do Ourcq
A sua grande muralha da China
A sua ribeira de Morlaix
As suas parvoíces de Cambrai
Com o seu oceano Pacífico
E os seus dois tanques das Tulherias
Com os seus bons filhos e os seus maus tipos
Com todas as maravilhas do mundo
Que estão aqui
Simplesmente sobre a terra
Oferecidas a toda a gente
Espalhadas
Maravilhadas elas próprias por serem tais maravilhas
E que não ousam confessá-lo
Como uma jovem nua que não ousa mostrar-se
Com as terríveis infelicidades do mundo
Que fazem legião
Com os seus legionários
Com os seus torcionários
Com os mestres deste mundo
Os mestres com os seus padres os seus traidores e os seus caserneiros
Com as estações
Com os anos
Com as belas raparigas e com os velhos estupores
Com a palha da miséria a apodrecer no aço dos canhões.

© Tradução de RIC

Our Father who art in heaven
Stay there
And we'll stay here on earth
Which is sometimes so pretty
With its mysteries of New York
And its mysteries of Paris
At least as good as that of the Trinity
With its little canal at Ourcq
Its great wall of China
Its river at Morlaix
Its candy canes
With its Pacific Ocean
And its two basins in the Tuileries
With its good children and bad people
With all the wonders of the world
Which are here
Simply on the earth
Offered to everyone
Strewn about
Wondering at the wonder of themselves
And daring not avow it
As a naked pretty girl dares not show herself
With the world's outrageous misfortunes
Which are legion
With legionaries
With torturers
With the masters of this world
The masters with their priests their traitors and their troops
With the seasons
With the years
With the pretty girls and with the old bastards
With the straw of misery rotting in the steel of cannons.

Un beau dimanche à tout le monde!
Um belo domingo para todos!
A nice Sunday for everybody!

RIC

sábado, 28 de julho de 2007

Augusto Gil e Belém


De seu nome completo Augusto César Ferreira Gil, o poeta nasceu em Lordelo do Ouro, Porto, a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Belém, Lisboa, a 26 de Novembro de 1929.

Não meço nem avalio os poetas pelos eruditismos (vulgo "palavras caras") que utilizam, mas antes pelo eco que as suas palavras encontram no meu íntimo. E esta é a minha razão maior para considerar Fernando Pessoa o maior poeta português.

Para ser sincero, nunca fui grande apreciador da poesia de Augusto Gil. Porém, reconheço-lhe as qualidades que fazem dela um modelo de discurso poético que, em termos pedagógicos, deveria ser bem mais explorado.

Recordo uma época da minha vida profissional em que leccionei Português ao 7.º ano. Duas turmas tinham aulas ao sábado, o que tornava qualquer actividade lectiva mais tradicional quase impossível. Assim, chegámos a um acordo: os que estivessem interessados em divulgar à turma os seus poetas de eleição deveriam entregar-me, durante a semana, um papelinho dando conta do poema, do poeta e do/a "declamador(a)". Se o número fosse suficiente, sábado seria dedicado à poesia; senão, a aula seria "normal".
Escusado será dizer que quase todos os sábados foram dias de poesia. E aprendi então o que nenhum manual me ensinara: a natural predisposição daquela faixa etária para a memorização (alguns poemas eram bem longos!) e a candura com que os dizem, sentindo cada palavra ao seu modo e de acordo com a respectiva maturidade.
E eu, que só os ouvia falar nos "Duran Duran" e os via andar com a "Bravo" entre os livros e cadernos, fui surpreendido com escolhas como Florbela Espanca, António Gedeão, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almeida Garrett, Bocage, Camões… Nunca poderia imaginar. E também Augusto Gil.

Em Belém, numa pequena faixa relvada entre o Centro Cultural de Belém e as instalações do Planetário Calouste Gulbenkian e de parte do Museu de Marinha, encontra-se esta lápide comemorativa do centenário do seu nascimento.


© RPorter


© RPorter

De «Luar de Janeiro»

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Ou ainda de «A Canção das Perdidas»

IX

Como querem ver contente
Este país desgraçado,
Se dão só livros à gente
Nas escolas do pecado…

… Até parece Eça, livra! Certeiro! Em cheio!

No Ministério da Educação e no da Cultura, talvez não fosse má ideia fazerem, de vez em quando, uma sabatinas culturais, em vez de passarem tanto tempo nos "Messengers" e quejandos. É que os "referrals" não inventam ligações… E o saber não ocupa lugar.

Alguns "sites" contêm informações erradas sobre o poeta, e o artigo da Wikipédia está ainda por escrever, tendo sido iniciado no Brasil. Para um poeta que o povo não esquece… Imaginem o que seria se o povo o tivesse esquecido…
Quanto a fotografias, não consegui encontrar praticamente nada, nem mesmo na página da Biblioteca Nacional. Mas pode muito bem ter sido falha minha.

RIC

sexta-feira, 27 de julho de 2007

«Ce soir, mon amour»


de Georges Moustaki
par Serge Reggiani

Ce soir, mon amour, je ne t'aime plus.
Tu es plus loin que la distance qui nous sépare,
Et d'autant plus absente que tu n'es nulle part,
Plus étrangère que la première venue.

Ce soir, mon amour, je ne te cherche plus
Parmi mes souvenirs au fond de ma mémoire,
Je ne t'attends plus sur le quai d'aucune gare,
Je me souviens à peine t'y avoir attendue.

Je sais que nous buvions du vin après l'amour,
Que la nuit commençait quand se levait le jour.
Comme un torrent d'ébène, tes cheveux sur ton cou,
Et ton regard meurtri quand tu fais les yeux doux.

Ce soir, mon amour, je ne te trompe plus
Avec cette fille qui dort à mes côtés.
J'étais seul, je lui ai demandé de rester,
Je suis seul très souvent et je m'y habitue.

Ce soir, mon amour, tu ne me manques plus,
Tu ne me manques pas, il me manque d'aimer,
De ne plus être inutile, inanimé,
De n'avoir rien à perdre et d'avoir tout perdu.

Je connais ta folie, je connais ta pudeur,
Je sais qu'on se ressemble comme frère et sœur
Je connais ton odeur, je connais ton parfum,
Je te connais par cœur et je ne sais plus rien

De toi, mon amour, que je n'aime plus,
Sans arriver à me sentir enfin libre,
Pareil à un danseur qui perdrait l'équilibre,
Comme un prince en disgrâce, comme un ange déchu.

… Aimez-vous jusqu'à la dernière goutte du vin après l'amour…
… Love one another until that last drop of wine after love…

RIC

quinta-feira, 26 de julho de 2007

«Очи чёрные» | «Olhos Negros»…


Здравствуйте!
Как вы все делаете, мои дорогие друзья?
Сегодня я нахожусь в Москве.
До скорой встречи в Лиссабоне!

Hello!
How are you all, my dear friends?
Today I am in Moscow.
See you soon in Lisbon!

Очи чёрные, очи страстные,
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.

[…]

Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись,
Вы сгубили меня очи чёрные
Унесли на век моё счастье.

Очи чёрные, очи страстные,
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.


Dark eyes, frightful eyes
Burning and beautiful eyes
I love you so, I fear you so
For sure I've seen you at a sinister hour

[…]

Without meeting you, I wouldn't be suffering so
I would have lived my life smiling
You have ruined me, dark eyes
You have taken my happiness forever away

Dark eyes, frightful eyes
Burning and beautiful eyes
I love you so, I fear you so
For sure I've seen you at a sinister hour

… The lights that keep shining through the white nights in Saint Petersburg, the sounds that echo in your mind from Moscow tolling bells in the Red Square…

… A pair of dark eyes that tell you secrets from the depths of the Russian soul, and steal your tranquillity, your peace of mind away forever…

From Russia with love!

RIC

quarta-feira, 25 de julho de 2007

«Italienische Reise» | «Italian Journey»


«Den 3. September 1786

Früh drei Uhr stahl ich mich aus Karlsbad, weil man mich sonst nicht fortgelassen hätte. Die Gesellschaft, die den achtundzwanzigsten August, meinen Geburtstag, auf eine sehr freundliche Weise feiern mochte, erwarb sich wohl dadurch ein Recht, mich festzuhalten; allein hier war nicht länger zu säumen. Ich warf mich, ganz allein, nur einen Mantelsack und Dachsranzen aufpackend, in eine Postchaise und gelangte halb acht Uhr nach Zwota, an einem schönen stillen Nebelmorgen. Die obern Wolken streifig und wollig, die untern schwer. Mir schienen das gute Anzeichen. Ich hoffte, nach einem so schlimmen Sommer einen guten Herbst zu genießen. Um zwölf in Eger, bei heißem Sonnenschein; und nun erinnerte ich mich, dass dieser Ort dieselbe Polhöhe habe wie meine Vaterstadt, und ich freute mich, wieder einmal bei klarem Himmel unter dem fünfzigsten Grad zu Mittag zu essen.»

«3 September 1786

I slipped out of Carlsbad at three in the morning; otherwise, I would not have been allowed to leave. Perhaps my friends, who had so kindly celebrated my birthday on 28 August, had thereby acquired the right to detain me, but I could wait no longer. I packed a single portmanteau and a valise, jumped into the mail-coach, and arrived in Zwota at 7.30. The morning was misty, calm and beautiful, and this seemed a good omen. The upper clouds were like streeked wool, the lower heavy. After such a wretched summer, I looked forward to enjoying a fine autumn. At noon I arrived in Eger. The sun was hot, and it occurred to me that this place lay on the same latitude as my native town, I felt very happy to be taking my midday meal under a cloudless sky on the fiftieth parallel.»

© Penguin Classics, 1982

From this journey, which Goethe undertakes incognito as "Filippo Miller, Tedesco (German), Pittore (Painter)", he returns in June 1788 as one, who found "Arcadia" and himself.
But only thirty years later he publishes in a worked form the travel diary originally dedicated to Charlotte von Stein. The "Italian Journey" finally got its title in the last hand edition from 1829, now completed with the report about his second staying in Rome.

… I'm off to Italy myself as well. I'll be back tomorrow.

RIC

terça-feira, 24 de julho de 2007

Silly season at its best! Boring as hell…


The silly season is the period lasting for a few months (starting in mid- to late summer) in the United States, the United Kingdom and Australia, typified by the emergence of frivolous news stories in the media.

This term was known by the end of the 19.th century and listed in the 2.nd edition of "Brewer's Dictionary of Phrase and Fable" and remains in use at the start of the 21.st century. The 15.th edition of Brewer's expands on the 2.nd, defining the silly season as "the part of the year when Parliament and the Law Courts are not sitting (about August and September)".

Typically, the latter half of the summer is slow in terms of newsworthy events. Newspapers as their primary means of income rely on advertisements, which rely on readers seeing them, but historically newspaper readership drops off during this time when in the UK, Parliament takes its summer recess, so that parliamentary debates and Prime Minister's Questions, which generate much news footage, do not happen.

To retain – and attract – subscribers, newspapers would print attention-grabbing headlines and articles to boost sales, often to do with minor moral panics or child abductions. Other countries have comparable periods, for example the "Sommerloch" (summer hole) in Germany and "Mätäkuun juttu" (rotten-month feature) in Finland.

Wikipedia (abridged and adapted)

In Portugal, one would tend to see this period as an absolute void.
Nothing happens (or seems not to happen), everyone heads for the very same places, newspapers and "heart"/socialite magazines "offer" whatever they can come up with to ensure a minimal amount of "readers": slippers, handbags, beach towels, "shades", skin protectors, you name it…
Even the national part of the bloggosphere seems to have been deserted. Many diligent bloggers just vanish for a while, but some of them seem not to resist that drive that takes them to a near cybercafé to have a look at what others keep on posting. I believe they read as many posts as they can, but just don't have the time or the home comfort to comment.
Living in Lisbon turns into some kind of a short staying in paradise: much less cars, much less people, and great opportunities to enjoy evening/night cultural life.
Well, it's not so bad after all…
Enjoy it lavishly if you happen to be around!

RIC

segunda-feira, 23 de julho de 2007

«Aquarela» de Toquinho

In my opinion this is one of the most beautiful MPB (Música Popular Brasileira - Brazilian Pop Music) songs ever.
I still remember quite vividly the very first time I listened to it many years ago: a shiver went down my spine, and I felt a sudden, unexplainable urge to cry. And ever since that moment it has always been like that every single time I listen to it. I guess I'm turning into a cry-baby as age progresses…
Please listen carefully to those guitar accords in the end! Heavenly!



Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América à outra eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

This is also meant as a heartfelt homage to those unfortunate people who perished in the TAM aircraft crash in São Paulo, Brazil, and their mourning families.

RIC

domingo, 22 de julho de 2007

«Belle Toujours»!


«Ao descer a escada rolante do Metropolitano, pareceu-me avistar, de longe ainda, uma loja de fotografia entre as muitas da vasta galeria comercial subterrânea. Sabes bem da minha fraca apetência pela fotografia de lazer, mas aquela loja parecia diferente. Aproximei-me e, à medida que caminhava, fui reconhecendo um e outro rosto em reproduções saídas dos ecrãs da sétima arte. A maioria era a preto e branco, o que me atraiu ainda mais, e em vários formatos. Hoje, o preto-e-branco é apenas uma busca, quase sempre mimética, de um passado irrecuperável. Uma pseudo-afirmação de não se sabe muito bem o quê.



Fui entrando e, ao circunvagar o olhar maravilhado de um extremo ao outro da loja, julguei estar a abarcar naqueles expositores toda a História do cinema: actores e actrizes, divas e galãs, vampes e vedetas, realizadores e argumentistas, cartazes publicitários e fotos de imprensa que fizeram História – tudo o que marcava a sétima arte estava ali.

Devo ter deambulado pela loja algumas horas – talvez o tempo de uma sessão de cinema – e foi num brusco relance do olhar que a vi. Por uma razão ou por outra, lembrava-me dela sempre que vinha a Paris e acalentava o sonho de, a qualquer instante, ao dobrar uma esquina ou ao caminhar por um boulevard, poder cruzar-me com ela. Um desejo de adolescente que nunca senti na adolescência. Não me lembro de alguma vez ter idolatrado monstros sagrados do cinema, da música ou do desporto. Apreciava-os muitíssimo, sim, pelos raros talentos que exibiam e pouco mais. Com ela, porém, foi diferente desde a primeira vez, já eu não era adolescente. Vira-a, ainda menina, em excelentes desempenhos, mas o fascínio só surgiu quando eu era já adulto e ela, uma mulher madura. A constante beleza fina, o cabelo magnífico, as intraduzíveis expressões do rosto e do olhar, a voz inconfundível, a serenidade natural, o corpo coleante, o charme absoluto, enfim, tudo o que provoca atracção, sedução e paixão, quais mortificadoras delícias do inatingível e do intocável...

Onde estaria ela naquele instante, a deslumbrante Odette de Forcheville – inigualável alegoria proustiana da eterna juventude –, enquanto eu me ia aproximando de um cartaz de grandes dimensões que a mostrava de corpo inteiro, cabelos curtos soltos ao vento e envolta na luz dourada e quente de um poente da Indochina. Vira aquele cartaz – e o filme que ele anunciava – há uns anos e nunca o esqueci. Como não hei-de esquecer tantos outros.


Comprei-o e a mais umas quantas fotografias escolhidas pacientemente entre as muitas de uma pasta com o seu nome e um registo meticuloso dos formatos existentes, dos filmes que a celebrizaram e dos respectivos anos de estreia. Já nem me lembrava de umas já velhinhas «Vacances portugaises» de 1963, que em Portugal foram «Os Sorrisos do Destino».
E ao sair da loja desejei que, numa das minhas caminhadas – ô la bienheureuse rencontre! – aquela descoberta fosse o sinal de tomber nez à nez avec Catherine Dorléac, a Belle de jour, a genuína musa de Cannes.
A Deneuve.»

RIC

sábado, 21 de julho de 2007

Saturday's serenity…


"Veni, vidi, vici."
Suetónio, Cæsar

I came, I saw, and I won.

Vim, vi e venci.

Je vins, je vis et je vainquis.

Ich kam, ich sah und ich gewann.

Ik kwam, ik zag en ik won.



(…)

O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama.
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

Alberto Caeiro
Do II poema de "O Guardador de Rebanhos"
8 de Março de 1914

[Obras de Fernando Pessoa (poética e em prosa)
Introduções, organização, biobibliografias e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa,
vol. I, p. 743, Lello & Irmãos – Editores, Porto, 1986]

Um delicioso fim-de-semana para todos!
Have you all a delicious weekend!

RIC

sexta-feira, 20 de julho de 2007

«La bêtise, un monstre moderne»






Bernard Fauconnier

«Un spectre hante la conscience moderne, la bêtise.
Le mot, attesté au Moyen Âge, disparaît en tant que tel à l’âge classique pour resurgir au XVIIIe siècle, sous la plume de Diderot.
Bêtise, sottise, crétinerie, connerie.
La bêtise remonte à la plus haute antiquité, sans doute, comme eût dit Alexandre Vialatte, mais quiconque tente aujourd’hui encore d’enfermer la bête immonde en un concept opératoire, sinon définitif, se casse les dents. En témoigne, récemment, Stupidity, un essai de la philosophe américaine post-derridienne Avital Ronell, qui de déconstructions en références tournoyantes, semble mordiller les mollets de son sujet sans jamais lui régler son compte.
Mais peut-il en être autrement? Oui, la bêtise est un monstre moderne, rusé, qui résiste à toute forme de théorisation, même si les meilleurs qui s’y sont essayés, à l’instar de Robert Musil, doivent rendre les armes: "C’est que j’ignore ce qu’elle est, note-t-il non sans ironie. Je n’ai pas découvert de théorie de la bêtise à l’aide de laquelle je pourrais entreprendre de sauver le monde."
Un monstre multiforme, réversible, insaisissable, d’une infinie plasticité, tout étant relatif et réciproquement. Un monstre aussi résistant qu’un virus, et dont le vaccin reste à ce jour inconnu. Pas un écrivain, pas un penseur digne de ce nom qui, depuis l’aube des Temps modernes, n’ait éprouvé la nécessité de se confronter à cette Chose, aussi terrifiante, obsédante et grand-guignolesque que la pieuvre du capitaine Nemo.»

La Bêtise, escultura em madeira de Jean Escaffre (1985)

Um espectro assombra a consciência moderna: a estupidez.
A palavra, atestada na Idade Média, desaparece como tal na época clássica para reaparecer no século XVIII, sob a pena de Diderot.
Estupidez, estultícia, idiotia, burrice.
A estupidez remonta à mais alta antiguidade, sem dúvida, como disse Alexandre Vialatte, mas quem quer que tente ainda hoje encerrar o animal imundo num conceito operacional, mas não definitivo, quebra os dentes. É testemunha disso, recentemente, Stupidity, um ensaio da filósofa americana pós-Derrida Avital Ronell, que de desconstruções em referências rodopiantes parece mordiscar os tornozelos ao assunto sem jamais acertar contas com ele.
Mas pode ser de outro modo? Sim, a estupidez é um monstro moderno, astuto, que se opõe a qualquer forma de teorização, mesmo que os melhores que o tentaram, a exemplo de Robert Musil, tenham de depor as armas: "É que ignoro o que ela é, nota não sem ironia. Não descobri teoria da estupidez com a ajuda da qual pudesse tentar salvar o mundo."
Um monstro multiforme, reversível, intangível, de uma infinita plasticidade, sendo todo ele relativo e vice-versa. Um monstro tão resistente como um vírus, cuja vacina continua a ser até hoje desconhecida. Não houve um escritor, um pensador digno deste nome que, desde a aurora dos tempos modernos, não tenha sentido a necessidade de se confrontar com esta Coisa tão assustadora, obsessiva e teatral como o polvo do capitão Nemo.




• Matthijs van Boxsel, The Encyclopedia of Stupidity, The University of Chicago Press, 2005

Matthijs van Boxsel (born in 1957) is a Dutch literary historian who believes that no one is intelligent enough to understand their own stupidity. In "De Encyclopedie van de Domheid" (The Encyclopaedia of Stupidity) – 1986-2006 – he shows how stupidity manifests itself in all areas, in everyone, at all times, proposing that stupidity is the foundation of our civilization.
In short sections with such titles as "The Blunderers' Club", "Fools in Hell", "Genealogy of Idiots", and "The Aesthetics of the Empty Gesture", stupidity is analysed on the basis of fairy tales, cartoons, triumphal arches, garden architecture, Baroque ceilings, jokes, flimsy excuses and science fiction. But Van Boxsel wants to do more than just assemble a "shadow cabinet" of wisdom; he tries to fathom the logic of this opposite world.
Where do understanding and intelligence begin and end? He examines mythic fools such as Cyclops and King Midas, cities such as Gotham, archetypes including the dumb blonde, and traditionally stupid animals such as the goose, the donkey and the headless chicken.
Van Boxsel posits that stupidity is a condition for intelligence, that blunders stimulate progress, that failure is the basis for success.
In this erudite and witty book he maintains that our culture is the product of a series of failed attempts to comprehend stupidity.

Veja aqui o "trailer" de um documentário norte-americano intitulado "Stupidity". Esperemos que possamos vê-lo em breve.

Em tempos de tão grandes avanços em termos de educação, instrução e formação – ao longo de toda a vida! – e para uma considerável maioria de cidadãos do mundo ocidental, é no mínimo com justificada apreensão que assistimos às mais descabeladas manifestações de estupidez, nos mais variados sectores da vida contemporânea: económico, social, político, cultural, etc.
E o pior é ainda o que sucede quando levamos todos – por razões que só Deus discernirá… – roda de estúpidos…
Indubitavelmente, a estupidez tornou-se um monstro moderno. Será talvez a nossa quota-parte na herança da mítica hidra grega…

RIC

quinta-feira, 19 de julho de 2007

«De distinctionibus et catenis...»






A blogosfera também tem destas coisas – distinções e cadeias. E quando menos se espera, dá-se uma reviravolta de atenções, os olhares seguem noutras direcções e o que parecia distante torna-se próximo.

O André Benjamim escolheu-me (há que tempos… As minhas sinceras desculpas pela desatenção!) para citar os últimos cinco livros que li, e passar a palavra a outros bloguistas.
Respondo muito agradado.

As minhas leituras mais recentes têm sido sobretudo releituras:

- Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, Lello & Irmãos
- Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, Europa-América
- Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber fiction classics
- Maria Belo, Filhos da Mãe, Edeline
- Pierre Janton, L'Espéranto, Presses Universitaires de France

Por uma questão de correcção não quero, neste caso, quebrar a cadeia, pelo que muito respeitosamente passo a palavra a:

Luís
Manuel B. S.
Maurice
Paulo
Oz

Quando já tinha esta resposta quase pronta, outra novidade me chegou do André Benjamim. Desta feita, trata-se da nomeação "MomentUS de Excelência". Pela atenção a este blogue que a dita revela, os meus sinceros agradecimentos!

Considero que a importância principal destas distinções reside sobretudo no facto de com elas se estreitarem laços entre bloguistas que, em princípio, têm algo comum entre si. E isto é, a meu ver, muito positivo e, portanto, louvável.

Também neste caso devo proceder à passagem do testemunho. Como na blogosfera leituras e escritas andam geralmente de mãos dadas (sem que isto constitua regra, bem entendido), nomeio os bloguistas acima referidos. Não posso saber o que cada um pensa deste tipo de cadeias ou correntes e só posso desejar que não me levem a mal por os chamar assim à liça…

Os respectivos blogues são bem mais do que o resultado de leituras e de escritas, bem entendido, e também outros poderiam de igual modo ter sido nomeados. Não há, pois, nesta nomeação lugar para méritos e/ou deméritos. Não se trata – nem de perto nem de longe! – de uma avaliação. É tão-só e apenas a minha escolha, com toda a carga subjectiva inerente.
Abraços amigos para todos! Adoro a vossa companhia! :-)

RIC

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Liberté!

Para uma tradução portuguesa deste poema, queira seguir este elo.
Porventura não será a melhor, mas será decerto melhor do que nenhuma…


For an English version of this poem, please click on "Liberty". I'm sure you'll enjoy it!

Paul Éluard

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.

"Poésie et Vérité", Éditions de Minuit, Paris, 1942.

RIC

terça-feira, 17 de julho de 2007

II. ... E Zé Mário Branco dá-nos Natália Correia

Queixa das Jovens Almas Censuradas



Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte.

• "Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades", 1971
• "O Nosso Amargo Cancioneiro", 1972

… Para que as memórias não pereçam nunca!

RIC

I. Natália Correia dá-nos D. Dinis...


Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.

Pero que troban e saben loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles poden, soõ sabedor
que os que troban quand'a frol sazon
á, e non ante, se Deus mi perdon,
non an tal coita qual eu ei sen par.

Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven en qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.

D. Dinis
Cancioneiro da Vaticana, 127, e Cancioneiro da Biblioteca Nacional, 489


Os provençais que bem sabem trovar!
e dizem eles que trovam com amor,
mas os que só na estação da flor
vejo trovar jamais no coração
semelhante tristeza sentirão
qual por minha senhora ando a levar.

Muito bem trovam! Que bem sabem louvar
as suas bem-amadas! Com que ardor
os provençais lhes tecem um louvor!
Mas os que trovam durante a estação
da flor e nunca antes, sei que não
conhecem dor que à minha se compare.

Os que trovam e alegres vejo estar
quando na flor está derramada a cor
e que depois quando a estação se for,
de trovar não mais se lembrarão,
esses, sei eu que nunca morrerão
da desventura que vejo a mim matar.

Natália Correia
Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, editorial estampa, p. 251

Expoente da cultura portuguesa do século XX, personalidade única no meio português, mulher irreverente e impetuosa, furacão da política, celebradora do Amor, criadora de vasta obra de qualidade ímpar, cultora do Português clássico e erudito como poucos.
Estes cantares dos trovadores são a prova (se necessária fosse) da mestria com que dominou e assimilou na perfeição séculos de cultura portuguesa.
Da obra poética de Natália Correia destaco, apenas guiado pelo meu gosto,
Sonetos Românticos (1990).

RIC

segunda-feira, 16 de julho de 2007

The Art of Steve Walker


«As a homosexual I have been moved, educated, and inspired by works that deal with a heterosexual context. Why would I assume that a heterosexual would be incapable of appreciating work that speaks to common themes in life, as seen through my eyes as a gay man? If the heterosexual population is unable to do this, then the loss is theirs, not mine.»


The focus of his paintings often depicts sadness and loneliness to reflect the reality that much of anyone's life is sad and lonely.


«Any minority wants and needs to find artistic voices that reflect their own personal situations, and, in doing so, validate and record their lives and cultures for themselves and for the larger world.»


«My art is about love, hate, pain, joy, touch, communication, beauty, loneliness, attraction, hope, despair, life and death.»


In recent years Steve Walker's work has been exhibited in galleries in Toronto, Montreal, New York, Philadelphia and Key West.
In 2002 his work was exhibited at the First International Salon of Contemporary Artists, in Lisbon, Portugal.

Steve Walker
RIC

domingo, 15 de julho de 2007

«Mestre são plácidas todas as horas»

De 1972 data o meu primeiro contacto com a obra de Pessoa, através de "O Menino de Sua Mãe", à época um poema subversivo, só anos depois vim a sabê-lo. Também então havia professores que não se vergavam ao poder dos ignaros imbecis…
Em 1975 comecei a saber distinguir as diversas faces do Poeta, ainda de forma incipiente, mas o suficiente para começar a perceber o diálogo constante entre ortónimo e heterónimos. E o gosto foi crescendo à medida que me ia apercebendo de como "tudo aquilo", afinal, encaixava na perfeição.
Em 1979 foi a revelação. Total e absoluta. Tive o privilégio de ser conduzido através do universo do Poeta pela mão de alguém que tem o condão de o tornar quase transparente, tão perceptível e ao mesmo tempo tão distante e complexo como alguém com quem convivemos diariamente e, mesmo assim, temos sempre a vívida sensação de que jamais chegaremos a conhecê-lo minimamente.
Porque ele é como aquelas bolas de espelhos das discotecas, cintilantes e perturbadoras, multifacetadas e rodopiantes, emitindo reflexos simultâneos em todas as direcções.
É esta personalidade dramática, no sentido de teatral, que aprendi a apreciar e a manter sempre junto de mim pela mão da pessoana poetisa, dramaturga e professora de Literatura que é Teresa Rita Lopes. Obrigado.
Hoje, à distância de trinta anos dessa fantástica viagem que foi essa inesquecível iniciação, homenageio aqui três mestres de uma vez: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Teresa Rita.
Devo ainda acrescentar um quarto elemento (e, pelo caminho, um quinto...): José Saramago, que dedicou o seu melhor romance de sempre a Ricardo Reis, e Antonio Tabucchi, o italiano mais português.
Bem hajam por me darem um mundo onde sou sempre mais português.

Teresa Rita Lopes

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Ricardo Reis
12 de Junho de 1914

[Obras de Fernando Pessoa (poética e em prosa)
Introduções, organização, biobibliografias e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa,
vol. I, pp. 806-8, Lello & Irmãos – Editores, Porto, 1986]

RIC

sábado, 14 de julho de 2007

II. A quem os deuses amam...


… Por praias de ouro da antiquíssima Ática, que águas turquesa de um Mediterrâneo sem tempo lascivas vêm beijar, um magnífico corcel segue à desfilada, impetuoso, levantando à passagem uma chuva que é de prata.
Traz no dorso o diligente Hermes, bem-amado mensageiro dos olímpicos deuses, que é portador de mais um feito do lúbrico Zeus: assolapado de amores por radiosa camponesa helena, não descansou enquanto não a seduziu. Da divina união nasceu o estonteante Ματθιας/Matthias, cujo nome diz tudo sobre quem é: a "dádiva dos deuses"…








I want to express my gratitude to Akis/Ακις for the all the breathtaking photos he posts on a daily basis on his astonishingly beautiful blog Greece - Land of Gods.
This "Gift of the Gods" has just been kidnapped from his home place… By me!

RIC

I. 355 posts = 365 days!


Não me parece ter sido grande a deriva em relação às intenções iniciais. Um balanço mais detalhado ficará, porém, para um momento (próximo, prometo) menos agitado, menos dominado pela emoção.
Aqui começa um festejo que pretendo possa de algum modo ser representativo do que neste espaço foi acontecendo e aparecendo ao longo deste ano. Como não disponho de estatísticas (e mesmo que dispusesse…), a representatividade é avaliada a «olhómetro». Ah pois! Que festas não se fazem em função de percentagens! Desejo tão-só que pela diversidade possa agradar a muitos. Já me darei por satisfeito.
A todos os meus amigos bloguistas lusófonos, os meus sinceros agradecimentos pela preciosa ajuda que a vossa presença e intervenção tem sido para mim – um expresso de luxo que me tem trazido através de paisagens de outro modo inacessíveis e que me permitiu atravessar um deserto que, sem o vosso apoio insistente, teria sido um suplício.
Pelo bem que me têm feito, bem hajam!

Segue a versão inglesa do original português publicado há exactamente um ano, que encontrarão
aqui.


«The road that brought me here was a long one, but the journey was worth all the troubles I've encountered.
By a coincidence that I wish to be a good omen, it's in the middle of the seventh month of the fifth/sixth year (you'll choose the hypothesis that your knowledge of History will tell you to) of the third millennium that I start this activity.
I'm expectant about myself because of the goals I intend to reach. I know it won't always be easy, but – I'm sure of it – it will be quite stimulating and amusing. I will do my best. I will count on your best as well.
As to the heading of this space, well… Firstly Latin, a so-called dead language, right?
But all over Europe the number of those who enrol in this subject, learn it, and come to master it has been growing each school year. Maybe Portugal won't miss this train. Even if it gets in the last wagon, it won't matter in this case. But fear nothing: there will be no posts in Latin, I guarantee you. Yet, as to other languages, I intend to post in English, French, and German with some frequency. I wouldn't like to exclude Spanish, Italian and Dutch, languages that I dearly treasure in my heart. But I cannot predict what is for the future to determine. My will is strong. So may some ingenuity help it and make it company.
Then, what the heading means… On (the) handsome men and others (subjects). I'll have many chances of uttering myself, exemplifying, and exchanging opinions on what this means. Right now – and to hinder an exclusively gay, reductive reading of it – I'll say not only that but also that: both exterior and interior (little valued) masculine beauty, ways trod by the new man in search of everything that converges with a value that is absolute to me – respect. Respect for oneself, for others, for the space he inhabits, for future generations, for the past. For differences and diversities. For the immense richness that we all can be on this planet. If this will happen to be the way to cover, I have no doubt in my mind that men will be really handsome. One has not to fear words. I don't.
I know, it's the plain truth, women are more beautiful. They've always been and will always be. A disadvantage for Y chromosome, well known, that provokes asymmetries prevented by the X one. What to do? Well, while the "strong" sex (oh, what a pain!…) doesn't die out, may it have enough discernment to please – a lot – to all around it, always in accordance with the respectful and respectable inclinations of each and every one. The world will certainly be much better a place, much more beautiful.
The good omen referred to above relates to July 14.th – France National Day.
May the cybernautical ether promote and materialize the taking of many more Bastilles, so that "The Foam of the Days" may be light, white, and luminous.
So, dear blogger friends, this is the moment for you to start leaving your comments. May suggestions, advices, and critiques, whatever will come, be a guide to me.»

This is the English translation of my very first post ever. One year ago!

Thanks a lot to all my blogger friends who came to mean so much to me!
I hereby declare the weekend party open!
Enjoy!

RIC

sexta-feira, 13 de julho de 2007

«O Sentimento de Um Ocidental»

… «E releio, até me arderem os olhos, o Livro de Cesário Verde.»



A Guerra Junqueiro

I

AVE-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!


Devagar se vai ao longe.
As duas partes seguintes deste grandioso poema e sublime políptico da Lisboa do final do século XIX ficarão para a próxima semana, porque cada verso deve ser degustado na sua espantosa perfeição.
Como é que Fernando Pessoa não poderia ser um incondicional admirador de Cesário Verde?...

Se, no ser Português, não amarmos isto, então o que nos resta para amar?

A todos um excelente fim-de-semana!

RIC

quinta-feira, 12 de julho de 2007

II. «Strani Amori»



Mi dispiace devo andare via
Ma sapevo che era una bugia
Quanto tempo perso dietro a lui
Che promette poi non cambia mai
Strani amori mettono nei guai
Ma in realtà siamo noi

E lo aspetti ad un telefono
Litigando che sia libero
Con il cuore nello stomaco
Un gomitolo nell'angolo
Lì da solo dentro un brivido
Ma perché lui non c'è, e sono

Strani amori che fanno crescere
E sorridere tra le lacrime
Quante pagine, lì da scrivere
Sogni e lividi da dividere

Sono amori che spesso a questa età
Si confondono dentro a quest'anima
Che s'interroga senza decidere
Se è un amore che fa per noi

E quante notti perse a piangere
Rileggendo quelle lettere
Che non riesci più a buttare via
Dal labirinto della nostalgia
Grandi amori che finiscono
Ma perché restano, nel cuore

Strani amori che vanno e vengono
Nei pensieri che li nascondono
Storie vere che ci appartengono
Ma si lasciano come noi

Strani amori fragili,
Prigionieri liberi
Strani amori mettono nei guai
Ma in realtà siamo noi

Strani amori fragili,
Prigionieri liberi
Strani amori che non sanno vivere
E si perdono dentro noi

Mi dispiace devo andare via
Questa volta l'ho promesso a me
Perché ho voglia di un amore vero
Senza te.

Renato Russo / Renato Manfredini Júnior:
N. Rio de Janeiro, a 27 de Março de 1960
† Rio de Janeiro, a 11 de Outubro de 1996
Cantor, compositor e músico da banda "Legião Urbana".

Lamento, devo ir-me embora
Mas sabia que era uma mentira
Quanto tempo perdido atrás dele
Que promete mas depois nunca muda
Estranhos amores metem-se em apuros
Mas na realidade somos nós.

E esperas por ele ao telefone
Lutando para que esteja livre
Com o coração no estômago
Um sentido enrolado
Ali sozinho, por dentro um arrepio
Mas porque é que ele não está, e são

Estranhos amores que fazem crescer
E sorrir entre as lágrimas
Quantas páginas, ali a escrever
Sonhos e marcas a dividir.

São amores frequentes nesta idade
Confundem-se dentro desta alma
Que se interroga sem decidir
Se é um amor que se faz por nós

E quantas noites perdidas a chorar
Relendo aquelas cartas
Que já não consegues deitar fora
Do labirinto das saudades
Grandes amores que terminam
Mas porque é que ficam, no coração

Estranhos amores que vão e vêm
Nos pensamentos que os escondem
Histórias verdadeiras que nos pertencem
Mas que se deixam como nós

Estranhos amores frágeis
Prisioneiros livres
Estranhos amores metem-se em apuros
Mas na realidade somos nós

Estranhos amores frágeis
Prisioneiros livres
Estranhos amores que não sabem viver
E se perdem dentro de nós

Lamento, devo ir-me embora
Desta vez prometi-o a mim mesmo
Porque quero um amor de verdade,
Sem ti.

Tradução revista por RIC

I. Brothers, sisters, and a few more...








Matthew Rhys as Kevin Walker
&
Jason Lewis as Chad Barry
Aren't they so cute?…


Rob Lowe as Robert McCallister



Eric Winter as Jason McCallister


Caution! This is a kind of a spoiler!
Don't read if you don't want to know beforehand what is going to happen.

«In his relationship with Chad, Kevin almost convinced him to come out, but Chad's manager told him if Chad came out, Chad would depend on him and constantly cling to him, and Chad's career would be ruined.
Kevin, wary of being too attached to Chad, convinced him not to come out. Shortly afterwards, Chad did come out, but no longer wanted to be in a relationship with Kevin.

While Kitty was working on her boyfriend Senator Robert McCallister's Presidential campaign, she met his brother, Jason. Kitty thought he was smart and witty and a good match for Kevin, and set them up for a date. The two men had a good time on their date until Kevin began insulting Robert. Jason soon became offended and made up an excuse to leave early.
At the end of the season, Kevin met up with Jason again when they had to plan Kitty's and Robert's engagement party. After a few drinks and some banter, they made out in the pantry. To Kevin's shock, not long after the kiss he found out Jason was an ordained minister. As the party wound down, Jason told Kevin he was a traditional person. While Kevin was not entirely sure how he felt about Jason or the situation, he replied that he could use some tradition in his life…»

Enjoy each and every minute of it lavishly! Don't miss it: Friday evening!
Não percam! Na sexta-feira à noite, cerca das 22:30!

RIC

quarta-feira, 11 de julho de 2007

As Sete Maravilhas de Portugal…

Para concluir de vez este assunto – que se mantinha em aberto desde que, pela primeira vez, me referi aqui às Sete Maravilhas do Mundo de Hoje, em 4 de Novembro passado –, deixo aqui algumas notas que me parecem merecer o registo.
Eis as minhas escolhas aqui apresentadas em 20 de Janeiro transacto:

Mosteiro dos Jerónimos, Torre de Belém, Palácio da Pena, Castelo de Almourol, Convento de Cristo, Mosteiro da Batalha e Ruínas de Conímbriga.



Afinal, parece que a maioria só se lembrou do Norte por causa de Guimarães. Na minha lista, facilmente substituiria um dos não eleitos pelo Solar de Mateus, de Vila Real, ou pela Igreja e Torre dos Clérigos, do Porto, precisamente para que a lista fosse mais diversificada e mais representativa de uma maior riqueza arquitectónica. Sem estar a fazer qualquer favor ao Norte, ao Centro ou ao Sul, entenda-se. Mas a maioria votou de forma… entediante! Para não dizer outra coisa…

Mosteiro de Alcobaça, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio da Pena, Mosteiro da Batalha, Castelo de Óbidos, Torre de Belém e Castelo de Guimarães foram os monumentos eleitos como as Sete Maravilhas de Portugal.


Monotonia? Muita.
Tradicionalismo? Muito.
Imobilismo? Muito.

Não faz sentido que o património construído nacional valorizável seja composto por apenas castelos e mosteiros. Certo é que a lista das 21 hipóteses iniciais é categorizável em três subgrupos arquitectónicos: militar e/ou defensivo, religioso e palaciano. Assim, a deficiência está na origem, não no fim.

Para mim, uma coisa são os símbolos identitários da nacionalidade, entre os quais há, naturalmente, monumentos; outra, bem diferente, são os marcos do nosso património construído, as verdadeiras jóias arquitectónicas.

Mas esta simples destrinça, pelos vistos, passou bem ao largo, qual caravela à deriva em mar borrascoso…

Às vezes, irrita-me profundamente que as nossas elites sejam tão estupidamente egoístas e tão desinteressadas do bem público!
Só parecem interessar-lhes as vulgaridades obscenas que alimentam as suas invejazinhas de trazer por casa.

… Mais uma foto para o volumoso álbum do "Portugal Mísero e Pindérico"…

RIC

terça-feira, 10 de julho de 2007

The Thinking Blogger Award


«I've chosen as my first nominee, a gentleman from Lisbon, Portugal, my dear friend Ric of "De Viris Pulchris et Aliis". Ric has introduced me to a world of literature, art, music, history and of course the beautiful country where he resides, Portugal. Ric writes in several languages but English and Portuguese dominate. I truly admire and respect Ric.»


These are the words I came across tonight when I visited my dearest friend Don. A moving moment indeed…

I'm honoured to have been nominated for the "Thinking Blogger Award" by one of my dearest blogger friends – Don of "
Dondon009" – whom I met some months ago in a quite distant place from both our homes…
Don is indeed one of the "natural" members of the "Happy Few Club" I love so much.

In Don's own words, he writes "about life, love and loss. I write about fear and anger. I write against hypocrisy, bigotry, discrimination and intolerance. My blogmasters include an eclectic mix of sometimes brilliant, sometimes witty, always interesting men and women of all ages, races and sexual orientations. I wouldn't live my life any other way!"

Besides the aesthetic exquisiteness he's always in search of for his blog (which means it is always a unique adventure "going over" to Florida and finding great new changes), Don also presents a personal look into historical, political, and social matters – that really matter! Oh yes, and diviiine eye candies too, every now and then!
Thank you so very much, dear Don, for your beautiful friendship!

As thinking is something you generally do in your own native language, I now have the pleasure of nominating five bloggers who usually post in Portuguese. And the nominees are:

1. Leo Carioca at "
CECG&B";
2. Luís at "GayFEEL";
4. Pinguim at "whynotnow";
5. Special K at "O Melhor dos Dois Mundos".

Each one of you makes me think differently.
Each one of you gives me new perspectives to think the world we live in.
Each one of you knows how to draw my attention to subjects I might not happen to consider otherwise.
At least for these reasons I do thank you all so very much for being now part of my daily set of references.
"Go spreading the news!"


[1. If you get tagged, write a post with links to five blogs that make you think.
2. Link to this post so that people can easily find the exact origin of the tag.
3. Proudly display the ‘Thinking Blogger Award’ with a link to the post that you wrote.]

Best wishes!
Felicidades!

RIC

segunda-feira, 9 de julho de 2007

La vie en rose ou… l'avion rose?

O hábito de escrever acabou por enraizar-se fundo no quotidiano recente pela simples força de um capricho. Também aqui o insiste-insiste dá os seus frutos. O treino é tudo, ou quase. Pego no bloco que tem sido a boa companhia destes dias e começo a escrever um esboço de diário de bordo, só para me distrair. Nunca chegará a sê-lo, bem sei. Não passará de meia dúzia de apontamentos que, mal chegue a Lisboa, o mais certo é metê-los numa pasta qualquer que irá parar ao fundo de uma gaveta. Não seria a primeira vez.

A pouco mais de duas horas de Lisboa, tento dominar uma inquietação invasiva e recuperar alguma tranquilidade. Sou arrastado por um turbilhão de sensações, sentimentos e emoções indestrinçáveis, sem descortinar que ordem virá destruir este caos. Vou entredizendo as mesmas frases, pausadamente, na esperança que da monotonia do acto venha o efeito calmante, quase dormente, como uma litania ou uma lengalenga. Mas a inquietação teima em persistir e parece mesmo aumentar. Não são muitos os passageiros que seguem comigo para Lisboa, quase todos eles portugueses. Depois de uma indecifrável refeição plástica servida no lapso que medeia entre a entrega e a recolha de um tabuleiro, mantenho a mesinha rebatível aberta à minha frente, peço mais um café e vou-me obrigando a este solilóquio que parece poder reconciliar-me com a serenidade perdida.


Espreito pela vigia, e o que os olhos me oferecem consegue por instantes acalmar-me. Pairo sobre um alvo mar de algodão-em-rama que reflecte a luz crua do sol, um incómodo para olhos já habituados à penumbra de Inverno. Vão-se fazendo e desfazendo minúsculos cristais de gelo na juntura da vigia com a fuselagem, como um colar de microscópicos brilhantes refractando a luz em sucessivos arcos-íris e acendendo um formidável caleidoscópio. Acima deste mar há apenas o azul luminoso e cavo da alta atmosfera. Se o avião se afastasse indefinidamente da Terra, começa o devaneio, o azul passaria ao negro de breu do espaço sideral, pontilhado pelos cerca de duzentos mil milhões de estrelas existentes em todo o Universo, dizem. Imagino-me a caminho de um destino algures no espaço exterior, já não num avião mas numa nave a propulsão iónica ou helioeólica ou fotónica, por um túnel através do espaço-tempo, ansioso por compreender o que haja mais além. Vou-me interrogando sobre que paisagens se ofereceriam à contemplação, que jogos de luz e cor me toldariam a visão, que belezas outras e que temores me subjugariam os sentidos e revolveriam o espírito. Um esplendoroso cosmorama de sonho.

Terá sido há quase catorze mil milhões de anos que, num espaço que não seria ainda espaço, uma espécie de assombrosa explosão terá dado origem a tudo o que existe, sendo este tudo tanto o que foi como o que é. Terá ocorrido numa ínfima fracção de segundo – dez elevado a menos quarenta e três, dizem –, lapso de tempo que nunca conseguirei conceber. Mas quem sou eu para conceber dimensão tão diminuta, mesmo que percebesse alguma coisa de Matemática e do que aquela potência traduz?


Se a velocidade da luz tiver diminuído de acordo com uma constante ainda por desvendar, esse tudo-o-que-existe é também o tudo-o-que-virá-a-existir. Esta talvez seja uma forma muito simples de um leigo se aproximar, de mansinho, da compreensão do contínuo espaço-tempo. Se não for, não vislumbro melhor caminho. Tal como se sabe que um dia o Sol se apagará, talvez se venha a prever que, à distância de muitos milhares de milhões de anos, um fulminante apagão cósmico deterá tudo o que a explosão primordial pôs em movimento, como se o universo inteiro seja tragado por um único buraco negro incomensurável. E o derradeiro silêncio, o absoluto, dominará um espaço que voltaria de novo a não ser espaço. Esse espaço talvez tenha sido a face do deus da criação e volte a sê-lo. Pode ainda ter sido visível durante a ínfima fracção de segundo que logo se seguiu à gigantesca explosão, instante para todo o sempre interdito ao olhar humano, dizem. O universo primevo terá sido simples e invisível.

Interrogo-me a medo se terá sido realmente simples e invisível. Se antes da portentosa explosão haveria movimento ou repouso. Se o infinito é tempo e espaço juntos. Enfim, interrogo-me, remexendo fundo na mais impérvia ignorância. Que mais poderá fazer uma ínfima partícula de pó estelar? A cosmologia e a teologia parecem irmanadas num acordo concertado, quem sabe se para garantir que o mistério do deus permaneça oculto, mesmo que um dia se percorra o cosmos à velocidade da luz, em direcção ao instante inicial. E mesmo que se venha a fazê-lo, um esconso privilégio que lhe concedesse a ele, homem, a visão da face desse deus seria só mais um mistério a adensar a massa interstelar e a juntar-se a todos os demais. A mim, mais uma vez, eram apenas as questões do princípio e do fim que não me davam tréguas. Como os do amor.


A turbulência de um poço de ar abala de vez o devaneio, e no limite de um reflexo automático evito que a chávena ainda cheia tombe e me derrame o café por cima das calças. Enquanto sorvo mais um gole, continuo a sentir a mesma intranquilidade, o mesmo desassossego, que há dias não afrouxam. É um nervosismo que não vai acabar nem diminuir com a chegada a Lisboa, um doloroso pressentimento que se tem exacerbado desde o Ano Novo. A primeira tarefa que poderá trazer nova vida ao novo ano é a de aliviar este amargo vazio de desamor. Começo a crer que outrem possa ser a causa do pertinaz afastamento, do silêncio hostil. Mas ciúmes só viriam toldar ainda mais a débil visão dos acontecimentos. Não quero ceder agora a uma suspeita que desprezo e que sempre tentei combater, até enfim perceber que exigir moderação a um sentimento é tão absurdo como querer pintar uma parede a crayon. É possível mas é inglório, tanto pela tarefa como pelo resultado. O melhor é ir recolhendo o fio do tempo tal como ele se for desenrolando e, ao tocar a ponta solta, então sim, sentir o que houver a sentir e decidir o que houver a decidir. Se só reajo com esta frieza impassível, com esta placidez podre de indiferença, então é porque a tarefa estará facilitada. Não haverá muito mais por que me deva ou possa bater.

RIC