domingo, 22 de julho de 2007

«Belle Toujours»!


«Ao descer a escada rolante do Metropolitano, pareceu-me avistar, de longe ainda, uma loja de fotografia entre as muitas da vasta galeria comercial subterrânea. Sabes bem da minha fraca apetência pela fotografia de lazer, mas aquela loja parecia diferente. Aproximei-me e, à medida que caminhava, fui reconhecendo um e outro rosto em reproduções saídas dos ecrãs da sétima arte. A maioria era a preto e branco, o que me atraiu ainda mais, e em vários formatos. Hoje, o preto-e-branco é apenas uma busca, quase sempre mimética, de um passado irrecuperável. Uma pseudo-afirmação de não se sabe muito bem o quê.



Fui entrando e, ao circunvagar o olhar maravilhado de um extremo ao outro da loja, julguei estar a abarcar naqueles expositores toda a História do cinema: actores e actrizes, divas e galãs, vampes e vedetas, realizadores e argumentistas, cartazes publicitários e fotos de imprensa que fizeram História – tudo o que marcava a sétima arte estava ali.

Devo ter deambulado pela loja algumas horas – talvez o tempo de uma sessão de cinema – e foi num brusco relance do olhar que a vi. Por uma razão ou por outra, lembrava-me dela sempre que vinha a Paris e acalentava o sonho de, a qualquer instante, ao dobrar uma esquina ou ao caminhar por um boulevard, poder cruzar-me com ela. Um desejo de adolescente que nunca senti na adolescência. Não me lembro de alguma vez ter idolatrado monstros sagrados do cinema, da música ou do desporto. Apreciava-os muitíssimo, sim, pelos raros talentos que exibiam e pouco mais. Com ela, porém, foi diferente desde a primeira vez, já eu não era adolescente. Vira-a, ainda menina, em excelentes desempenhos, mas o fascínio só surgiu quando eu era já adulto e ela, uma mulher madura. A constante beleza fina, o cabelo magnífico, as intraduzíveis expressões do rosto e do olhar, a voz inconfundível, a serenidade natural, o corpo coleante, o charme absoluto, enfim, tudo o que provoca atracção, sedução e paixão, quais mortificadoras delícias do inatingível e do intocável...

Onde estaria ela naquele instante, a deslumbrante Odette de Forcheville – inigualável alegoria proustiana da eterna juventude –, enquanto eu me ia aproximando de um cartaz de grandes dimensões que a mostrava de corpo inteiro, cabelos curtos soltos ao vento e envolta na luz dourada e quente de um poente da Indochina. Vira aquele cartaz – e o filme que ele anunciava – há uns anos e nunca o esqueci. Como não hei-de esquecer tantos outros.


Comprei-o e a mais umas quantas fotografias escolhidas pacientemente entre as muitas de uma pasta com o seu nome e um registo meticuloso dos formatos existentes, dos filmes que a celebrizaram e dos respectivos anos de estreia. Já nem me lembrava de umas já velhinhas «Vacances portugaises» de 1963, que em Portugal foram «Os Sorrisos do Destino».
E ao sair da loja desejei que, numa das minhas caminhadas – ô la bienheureuse rencontre! – aquela descoberta fosse o sinal de tomber nez à nez avec Catherine Dorléac, a Belle de jour, a genuína musa de Cannes.
A Deneuve.»

RIC

10 comentários:

pinguim disse...

Tens toda a razão, caro Ric
Catherine Deneuve, foi, e é das mais talentosas artistas francesas e mundiais, nunca se deixando seduzir por Hollywood, curiosamente, e ´foi e é uma mulher deslumbrante. Pode não ser única, seria demasiado redundante, mas é ums das minhas musas da 7ªArte, e é curioso também, verificar que todas as grandes, ou quase, actizes que combinam na minha memória, o bom desempenho e a beleza são europeias, e muitas francesas: Binoche,Moreau,Hupert, Adjanni, Loren, I.Bergman, v.Redgrave, enfim...
Só mais um apontamento: sendo eu um perfeito admirados do corpo masculino, não sou, evidentemente , indiferente à beleza feminina; e, talvez o ser humano mais deslumbrante, sob o ponto de vista estético que já vi, foi uma parisiense perfeitamente anónima, com que me cruzei uma tarde nas Tulherias, que me fez, por momentos desejar algo mais que observá-la...
Abraço.

Shadow disse...

Não sei se foi por «falares» em fotografia, nomeadamente a P&B, fui invadida por um desejo de iniciar o Black/White. De uma forma desajeitada, assim o fiz.

Quanto à ficção, pois... Gostei desta em partilcular. Não será difícil adivinhar o porquê...
Ah! Tenho vindo a reparar que não sou a única, por aqui, de pormenores e sensibilidades, «pois é»? :-)
Rendo-me ao talento e à elegância de Catherine Deneuve e rendo-me também, à forma como (des)escreves a beleza feminina. Obrigada!

Desejo-te um final de Domingo tranquilo.
Beijinhos! :-)

RIC disse...

Olá João C.!
Concordo contigo quanto à preferência pelas belezas europeias da 7.ª Arte! Creio que pelos grandes papéis desempenhados ao longo da carreira adquiriram uma dimensão e uma densidade intelectuais que por exemplo são raras no cinema holywoodesco.
Deixaste as alemãs de parte, mas eu não deixo! Pelo menos uma, que foi a Musa maior do grande Rainer Werner Fassbinder - Hanna Schygula! Ah como eu gosto desta mulher!!! Compreendo perfeitamente que a «homenzarrada» corra atrás delas! Rsrsrs! Se as minhas proclividades fossem também nesse sentido, acho que seria obsessivo como o cardador: não pensaria senão em lã!... Rsrsrs!
Além de que na memória há (quase) sempre uma bela história de cama... Mesmo que tenha sido fugaz...
Eis que «la week-end s'achève, mon cher»! Felicidades!
Um abraço! :-)

RIC disse...

Olá minha querida Carla!
Viva!!! Parabéns! Abençoada Catherine Deneuve que teve o condão de despoletar esta série de acontecimentos felizes! Que maravilha!
Eu não acho nada desajeitada! Bem pelo contrário! Aquela foto vem bem a propósito, e o primeiro texto diz o que deve ser dito, como se fosse o editorial 0 (zero) de um jornal que acaba de ser lançado!
Ah, mas é lisonja por demais dizeres que eu (des)crevo bem a beleza feminina! Fico muito orgulhoso, podes crer! Talvez porque a minha vida está povoada por algumas mulheres de excepção, umas vivas, outras que já partiram... E também pelas minhas amigas e conhecidas.
O domingo chega ao fim, e eu deixo aqui um beijinho para ti e votos de uma semana tão levezinha quanto possível! E amanhã, por ser um dia especial, voltamos a falar!... :-)
Muitas felicidades!

Vinc disse...

Je ne comprend pas très bien mais il me semble que tu comprends le français. J'adore Catherine Deneuve, l'une des plus grande actrice française. Quelle splendeur!

RIC disse...

Bonsoir cher Vinc!
Si, mon cher, tu l'as très bien compris: le Français est ma toute première langue étrangère et j'en suis très fier!
Merci beaucoup de ta visite, mon cher! Soit le bienvenue!
Moi aussi, j'adore Catherine Deneuve depuis bien longtemps! Depuis les années 70 peut-être, lorsque j'ai commencé à faire plus d'attention au cinéma européen.
Elle est tout à fait ravissante!
Salut, mon cher! :-)

Bernardo Moura disse...

Viva!
É sempre bom ler os teus textos.
Tens uma forma de escrever fantástica.
Catherine Deneuve é sem dúvida uma diva. Aparenta ser uma pessoa muito simples e de bem com a vida.
Abraço

RIC disse...

Olá Bernardo!
Viva, meu caro amigo! Ah muito obrigado! És muito simpático!
Eu também a vejo assim como tu: de aparência simples (mas cá com um impacto!...) e de bem com a vida. E nas várias entrevistas (imprensa e televisão) que fui lendo ao longo dos anos fiquei sempre com a sensação de que ela se tem mantido igual a si própria, sem aqueles devaneios de estrelato tão habituais...
Uma diva, uma senhora e... uma belíssima mulher!!!
Abraço! :-)

(Foram curtinhas as tuas férias. Mas ainda terás mais, não?)

Bernardo Moura disse...

Caro Ric,
as férias foram muito curtas mas boas.Espero ter mais uns dias de férias.
Abraço

RIC disse...

... Ainda bem que foram boas, senão seria frustrante. E vindo aí mais uns diazinhos, ainda vai saber melhor!
Abraço! :-)