quinta-feira, 31 de maio de 2007

II. A Lisboa e O Tejo


«Caminhava pela beira-rio e ia pensando nas relações que os habitantes das cidades estabelecem com os rios que as banham. Lisboa parece ser um caso especial, talvez só comparável à Istambul do Bósforo e do mar de Mármara, ou a São Francisco e à região da baía.

Foi na sinistra madrugada do incêndio do Chiado que me apercebi da real dimensão e do valor do sentimento que me une a esta cidade, quando o facto simples e banal de ser a minha cidade natal se revelou essencial ao espaço tangível de que hei-de sempre precisar para viver. Sem ele, uma boa parte de mim desapareceria em recordações esfumadas, como em cinzas desapareceram pelo fogo ruas elegantes e condignos edifícios.

Desde esse dia a nossa relação nunca mais foi a mesma. Em silêncio, em segredo, declarámos o nosso amor nos meus olhos marejados e nas suas ruas, pelas quais escorria ainda a água que a salvara de martírio maior. E nos longos anos de abandono que se seguiram, em que o Chiado permaneceu moribundo à espera de alento vital, partia-se-me o coração sempre que por ali passava e me sentia um reles mirone daquelas entranhas esventradas, postas a nu sem pudor nem reverência, num incompreensível campo arqueológico descomunal, escavado num átimo por algum louco. E o meu amor por Lisboa foi-se fortalecendo.

Com o Tejo, o lisboeta mantém uma relação dúbia. Vê nele o seu rio, mas não um riozinho qualquer, e tem-lhe por isso respeito e mantém a distância que o mar profundo impõe. Há séculos que a outra margem é a outra banda, expressão eloquente da lonjura e do perigo que a travessia sempre representou. Ainda hoje, vista da Ponte sobre o Tejo – aquela que nasceu refém de um nome, foi libertada por uma data, mas é e será sempre conhecida pelo lugar que ocupa –, toda aquela vasta extensão de rio-mar deslizando ao encontro do Atlântico concita a fantasias sobre a imensidão do mundo e a tal vontade dilacerante, mais imensa ainda, de ficar e querer partir. É das paisagens mais grandiosas que jamais os olhos me ofereceram, e sempre lamentei não poder parar sobre a ponte, quando voltava da praia pela tardinha que se ia fechando, para desfrutar de todo aquele deslumbramento ao sol poente, quando sobre o Bugio os alaranjados se vão carregando de um vermelho cada vez mais intenso.

E só de ter pensado na Caparica percorreu-me um arrepio tão forte que me arrancou do sonho acordado e me fez voltar à margem do Sena. Apesar daquele seu caudal grado, é um rio a uma escala mais humana, como o Tamisa em Londres, o Liffey em Dublin, o Reno em Colónia, o Tibre em Roma, o Moldava em Praga, o Vístula em Varsóvia, o Neva em São Petersburgo, o Moscova em Moscovo ou mesmo o Danúbio em Viena, Bratislava, Budapeste ou Belgrado.

O parisiense trata o Sena por tu, ao que nenhum lisboeta se atreverá em relação ao Tejo. Para o parisiense, o Sena é a Sena, que o Paris tenta reter junto de si, fazendo-a colear nuns quantos meandros em torno do seu corpo. Ela, porém, nem sempre cordata, cede à inconstância e de vez em quando obriga-o a arregaçar as calças, ao ameaçar extravasar do seu leito de núpcias. Souvent femme varie. Pois é. Já o Tejo é sempre o Tejo, mesmo quando ainda é el Tajo, aquele que talha na rocha o seu caminho, correndo para a foz onde, pouco antes de enfim se entregar ao vasto oceano, tem ainda um instante folgazão para cortejar e seduzir a airosa Lisboa.

Eis os eternos amantes míticos que um fado um dia juntou e consagrou. Este ambiente de namoro, ainda que marcado por fatais contrariedades, tem sido o cenário de histórias enternecedoras como «Die Nacht von Lissabon» e «Les amants du Tage». E ambas as formas de encarar as relações entre cidades e rios fazem sentido perfeito. Nada de essencial se perde ou ganha com a troca de ele por ela ou vice-versa. O género, pelo menos o gramatical, é uma falácia acabada, como muitas línguas bem demonstram.

Voltei costas ao Sena e fui andando para o Jardin des Plantes


RIC

I. Da Língua Portuguesa (8)


"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.

Johann Wolfgang von Goethe

Dia da Língua Portuguesa na UNESCO

«As notícias dão conta da 2.ª Comemoração do Dia da Língua Portuguesa na UNESCO. Esta iniciativa resulta dos laços de cooperação que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a UNESCO mantêm desde 2000 nas áreas da Educação, Comunicação, Cultura, Ciência e Tecnologia. Esperamos que esta comemoração se repita por muitos e muitos anos.

Além das respostas em destaque, outras completam esta actualização, retomando tópicos conhecidos:
- o significado da variação de género em nomes não animados (
saco vs. saca);
- o uso de variantes populares como
arrebentar, amandar;
- a atestação de palavras (por exemplo,
convivial, societal);
- a morfologia de verbos irregulares como
dizer;
- as funções sintácticas do pronome
que.

No Pelourinho (espaço do «Ciberdúvidas» onde casos particulares e/ou especiais são analisados e esclarecidos), Maria Regina Rocha relembra que a regência do adjectivo
confiante é feita com a preposição em

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Nem de propósito! Depois da minha ácida diatribe de ontem contra o descalabro em que se tem vindo a atolar a educação portuguesa, nomeadamente a escolar, nada me poderia reconfortar mais do que tomar conhecimento desta iniciativa da CPLP e da UNESCO.
Bem hajam todos aqueles que pugnam por um uso mais correcto e com mais propriedade da nossa língua!
Custa tão pouco questionarmo-nos sobre o que dizemos, escrevemos e ouvimos, termos dúvidas e procurarmos esclarecer-nos a fim de evitar aqueles erros crassos que abundam – e proliferam sem cessar! – nos media.

Aproveitando o ensejo e num registo agora mais pessoal, faço muito gosto em esclarecer alguns amigos bloguistas portugueses que já por várias vezes me «lançaram algumas indirectas» pelo facto de haver aqui «estrangeirice» além da conta.

Em primeiro lugar, tal facto prende-se com a formação que recebi desde jovem. Sou assim, gosto de ser assim e é provável que assim venha a morrer.

Depois, desde cedo verifiquei que a aprendizagem de (mais) uma língua conduz invariavelmente a um domínio mais seguro e a um conhecimento mais sedimentado da língua materna. Ou seja, é por esta razão que a epígrafe desta rubrica é em Alemão. Mas poderia muito bem ser em Latim, pois Francis Bacon disse «Quot linguas calles, tot homines vales», i. e., «saber línguas é ser várias vezes homem».

Não há pois qualquer razão válida para que se pense que valorizo menos, ou que mesmo desprezo, a minha língua materna. Ela é inquestionavelmente a minha melhor Pátria!

RIC

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Something to be seriously pondered…

Study: 38 Percent of People Not Actually Entitled To Their Opinion

CHICAGO – In a surprising refutation of the conventional wisdom on opinion entitlement, a study conducted by the University of Chicago's School for Behavioral Science concluded that more than one-third of the U.S. population is neither entitled nor qualified to have opinions.

"On topics from evolution to the environment to gay marriage to immigration reform, we found that many of the opinions expressed were so off-base and ill-informed that they actually hurt society by being voiced," said chief researcher Professor Mark Fultz, who based the findings on hundreds of telephone, office, and dinner-party conversations compiled over a three-year period.

"While people have long asserted that it takes all kinds, our research shows that American society currently has a drastic oversupply of the kinds who don't have any good or worthwhile thoughts whatsoever. We could actually do just fine without them."

In 2002, Fultz's team shook the academic world by conclusively proving the existence of both bad ideas during brainstorming and dumb questions during question-and-answer sessions.

From The Onion - America's Finest News Source


Quite an apprehensive situation!

Depending democracy so much on the making – and, of course, on the makers – of public opinion these days, what will become of our societies if people keep on not wanting to know anything whatsoever about what is happening around them?

In Portugal, should we for instance close down schools once and for all? The question is rather provocative, I know, but so many huge mistakes have been being made – and still go on being – as far as education is concerned for the last say 25-30 years that I honestly see no defensible alternative…

Shut them down altogether for good, and tell parents overtly what they've always believed in: 'Schools are good for nothing!'
They may not say it, but they do think so. Otherwise they'd be so much more committed to making their progeny realise schools are no places 'to have fun'. If you have to have fun at all you go anywhere else, but not to school. At school you work, for crying out loud!

Meritocracy?! Information and knowledge society?! Are they joking?! How only, if no sense of responsibility is involved in the growing up process? It is not fomented, it is not developed, and no one cares anymore whether or not you have principles or act according to a set of values. 'Rubbish from the past', that's what they think, parents and children alike.




Let them sit all day long playing obnoxious videogames.
Maybe they'll eventually learn something after all.
By osmosis.
And – the main thing – they'll be having fun.

RIC

terça-feira, 29 de maio de 2007

II. Roma (The Empire strikes again...)













Uma das muito poucas excepções que confirmam a regra: televisões generalistas limitam-se a transmitir enlatados sem qualidade ou dos mais baratinhos.

Roma, agora na segunda temporada, é sem dúvida uma excepção de luxo: pelo momento histórico escolhido, pelo guião, pelas personagens em destaque e – não menos! – pelos intérpretes.

Actrizes e actores de gabarito dão vida a um tormentoso período da História imperial: César Augusto, Marco António, Octávio, triunviratos, jogos de poder, as convulsões da vida anónima, tudo tem o seu lugar neste fabuloso políptico.

Já lá vai o tempo em que este tipo de produções era acintosamente épico; hoje, é humano, muito humano. A forte carga erótica é uma constante que se impõe de uma forma ora subtil, ora avassaladora. Nunca antes uma série histórica de qualidade fizera uso sistemático do nu masculino… E os modelos expostos… Pelos deuses do Olimpo que alto moram!

Pois… James Purefoy… É pura fé, é! Regalem-se!...



... E o tema musical do genérico de abertura?! Genial! Vinte valores!

RIC

I. Fui galardoado!…







Primo, manda a boa educação que se agradeça uma distinção recebida. Assim, meu caro Bernardo Moura, aqui torno público o meu agradecimento por te teres lembrado particularmente de mim, quando em «tua casa» (cuaoleu.blogspot.com) recebes tantas visitas tão ou mais merecedoras do que eu… Muito obrigado!

Secundo, não me tendo na conta de ser especialmente aguerrido nas minhas convicções e nos pontos de vista que defendo, reconheço que, quando me agarro a um assunto, é mesmo para pegar o touro pelos cornos. (Salvo seja, que nada tenho nem quero ter que ver com tauromaquias!) Assim, talvez entenda melhor as razões do Bernardo.

Tertio, e de acordo com o regulamento do galardão, devo agora nomear cinco blogues que, na minha modesta opinião, deverão ser distinguidos. Antes de fazê-lo, porém, e à guisa de declaração de voto, faço notar que há muitas formas de exibir os ditos «cujos»: da mais explícita à mais subtil; bastam, às vezes, poucas palavras, uma imagem ou uma canção para suscitar uma polémica necessária e bem-vinda.

… And the balls go to…

- Carioca (contigo, o prémio torna-se lusófono)
- Luís (pela divulgação elegante do que muitos preferem calar/ocultar)
- Maurice (pela facilidade da palavra que desnuda assuntos reservados)
- Thiago (com o devido respeito, assenta-te que nem uma luva)
- Tongzhi (atribuição matematicamente previsível)

… E exibam-nos com orgulho e altivez!

RIC

segunda-feira, 28 de maio de 2007

«Nella Fantasia»…



Nella fantasia io vedo un mondo giusto,
Li tutti vivono in pace e in onestà.
Io sogno d'anime che sono sempre libere,
Come le nuvole che volano,
Pien' d'umanità in fondo all'anima.

Nella fantasia io vedo un mondo chiaro,
Li anche la notte è meno oscura.
Io sogno d'anime che sono sempre libere,
Come le nuvole che volano.
(Nella fantasia io vedo un mondo chiaro.)

Nella fantasia esiste un vento caldo,
Che soffia sulle città, come amico.
Io sogno d'anime che sono sempre libere,
Come le nuvole che volano,
Pien' d'umanità in fondo all'anima.

Russell Watson












Una settimana di Maggio dovrà cominciare il meglio possibile!
È importantissimo quello che sentiamo, ma anche quello che vediamo…

Right!… A week of May should start the best way possible!
It's quite important what one listens to, but also what one watches…
So have a fantabulous week!

RIC

domingo, 27 de maio de 2007

Parati… para mim!…

I wish we could all chose our last place on Earth to spend our own very last instants of this life the best way possible…

Sorry, I don't mean to be morbid at all. It's just that I've found myself some years ago pondering the possibility of definitely leaving Portugal and settling somewhere else for the rest of my days. I know I was only indulging myself with that characteristic we Portuguese like so much to call «universalism» of the Lusitanian soul – that strong inner voice calling us all one way or the other, sooner or later, to leave this western European strip of land, and to travel about in the world…

All in all, we may be about 200 million people speaking Portuguese, but the truth is wherever you go you're somehow bound to hear someone speak in Camoens's and Pessoa's idiom… It has happened to me! Quite far away from Belém, as a matter of fact, in North America, which is not that odd anyway, if you consider what emigration has meant in Portuguese culture ever since the 15.th century…

I've somehow fallen under the Brazilian spell. In the 50s an uncle of mine had left for Rio, and only some years ago he was still very much alive and kicking in his eighties, having a great time in São Paulo… So I guess I was destined to listen to the Brazilian call…


And then one day 'it' just came over me like a flood of unspeakable beauty!
It's Parati I would like to write about, but I'm not so sure whether or not I can. Not much, just an appetizer, for the photos speak for themselves. The colonial town lies on the Rio de Janeiro-Santos axe, on the Atlantic Ocean, on the shore of the magnificent Ilha Grande bay. The place is just what you may easily consider a paradise on Earth, and it has no less than 300 (!) enchanted beaches!

But there's somehow more to it than just its stunning beauty. When I first saw it in a movie I finally understood it: if I ever believed in reincarnation I most surely had to admit I've lived there before. Have I?


So now you see, Minge, what I meant when I answered 'yes' to your question about my ability of portraying myself living in Brazil. With just a slight difference: whereas you've been to Portugal already, I've never been to Brazil… Yet!

Just when I was trying to gather some more information about the place a few hours ago, here is what I've come across:

«International Literary Party at Parati
Quite a few well-known Portuguese speaking writers have been invited.
Sponsored by FLIP, great lexicographic electronic devices!
Next July 4.th to 8.th



Could I ever wish for a better place to be? I don't think so…
Oh if I only could…
Parati… for me!

I advise you to google 'Parati', and you'll come across some very interesting sites, a few of them with pages in English!

(Also meant as a dear homage to Carioca, , Ricardo, and all other Brazilian blogger friends.)

RIC

sábado, 26 de maio de 2007

II. «Aux Champs Élysées…» (2.ª parte)

(1.ª parte: terça-feira passada)

«Terminados os postais passei à leitura dos jornais apenas para lamentar desanimado que o mundo piora cada dia a olhos vistos. Começava já a sentir-me desmoralizado quando reparei numa notícia que, afastada das primeiras páginas, decerto não produziria o efeito pretendido. Mas, se calhar, era eu que me enganava. Estranhei o tratamento dado a uma dessas muitas mensagens pseudoproféticas, quase sempre ridículas e muito desinteressantes, que se lêem no início de todos os anos, com previsões sobre o que de bom e de mau nos reservam os próximos trezentos e sessenta e cinco dias. Se o texto aparecia escondido num canto discreto de uma página interior, o título era suficientemente intrigante para atrair olhares curiosos. «Profecia escatológica dá prisão» encabeçava um texto lacónico que, não obstante as dimensões, tinha muito que contar.

Algures num Estado semidesértico do abissal interior ocidental dos Estados Unidos da América do Norte, um indivíduo de seu nome Josh W. Bull, que desde os bancos da escola carregava a alcunha de Rato Mickey por causa de umas grotescas orelhas de abano, anunciara que o país se extinguiria na madrugada de 4 de Setembro de 2053. Afinal, a profecia cingia-se a um eventual fim político de uma parte do continente, perdendo-se assim uma substancial parcela da dita dimensão escatológica. E o nome do indivíduo ou era falso, ou suportava uma tremenda crueldade do destino, como todos aqueles que carregam consigo o anátema de terem recebido o nome de Benedict. Mas o mais espantoso vinha a seguir. A ignorância mal dissimulada, a imbecilidade generalizada, o provincianismo embandeirado e a arrogância desmesurada de um povo ensimesmado seriam as causas da miséria e da ruína da nação. E o meu interesse ia aumentando. Arrastam-se em vidas patéticas, dizia, milhões de morónicos alarves e lorpas, sempre de tacha arreganhada, orgulhosos de um alheamento inaudito de tudo e de todos à face da Terra, tresandando ao álcool que emborcam a eito e sempre prontos a bradar aos quatro ventos, de preferência diante de câmaras de cadeias nacionais de televisão, que têm muito orgulho em tudo aquilo de que muito se gabam os falhados que se julgam vencedores, só porque outro falhado qualquer jura que «és sim senhor, és o maior, eu seja ceguinho, goddammit!».

Com todas as letras, comparava o país ao III Reich, o doutrinador do Heimatland über alles – pois é, acima de tudo. Porque o histerismo incendiário da demagogia patrioteira substitui agora a nation de sempre por homeland ou God's own country. Porque são flagrantes as manipulações dos resultados eleitorais. Porque o Projecto 112 ocupou muitos mais doutores Mengele norte-americanos do que os que se puseram ao serviço da morte em Auschwitz-Birkenau, Buchenwald, Sachsenhausen, Treblinka, Chełmno, Mauthausen, Ravensbrück, Teresienstadt, Sobibór, Majdanek, Belżec, Dachau, Bergen-Belsen. Esta é a toponímia espectral da nossa culpa, aumentada pela miserável existência de todos os Antons Ahlers, delatores e denunciantes de todas as Annes Frank exterminadas pelo ódio feito gás. A chamada comunidade internacional ter-se-ia apressado a condenar todos os alemães sem excepção, caso tivessem sido médicos nazis os mandantes dessas barbaridades, acrescentou. Mas como foram norte-americanos, nem sequer houve atrocidades, e o dito projecto foi ciência pura. A culpa de uns é a glória de outros. No país da investigação científica pura e dura, com todos os meios topo de gama fornecidos por todas as tecnologias de ponta, o criacionismo, prosseguiu, é a aberração anacrónica que só a mais descabelada imaginação desencantaria nos mais recônditos refegos das circunvoluções cerebrais. É o guião de leitura mais fantasioso, o mais infantil e o mais simplório de sempre.

Mas então e se…? Alguém apanhado na teia daquelas alusões interrompeu-o e verbalizou então a pergunta desnecessária. Se ele se referia à Alemanha ou ao Iraque. Acenderam-se os ânimos, e Josh W. Bull limitou-se a redarguir que em Guantánamo e Abu Graíbe se encontravam os réus mais desprotegidos e mais indefesos do mundo e que a Constituição se tornara letra morta. Tudo o que não seja a favor dos nossos interesses é terrorismo. Num arroubo de inteligência, o mesmo alguém acusou-o então de defender a al-Qaeda. E as mesmas imagens a fogo, negro e cinza de torres pulverizadas, aviões esmagados e inocentes chacinados foram mais uma vez projectadas em ecrã gigante, na sala onde decorria a conferência de imprensa. Exibidas assim, a torto e a direito e quase sempre a despropósito, disse Josh W. Bull, estas imagens, que deveriam permanecer símbolos da demência que exibem, desgarram-se da realidade, são rebaixadas ao nível da mais chã banalidade e transformadas em poderosa propaganda, como se devessem apenas servir de pano de fundo a mais uma campanha publicitária qualquer, vista hoje e amanhã logo esquecida.

Como se ninguém soubesse que a imagem, tal como a palavra, não se limita a evocar. Uma só vez que a imagem seja vista ou a palavra ouvida é quanto basta para que se liberte um poder desmesurado. Elas invocam. O que é virtual, espectral, irreal, materializa-se diante de nós e torna-se parte da vida. Ninguém recorrerá à superstição para tentar perceber que os males muitas vezes mostrados ou ditos se reificam e misturam na massa concreta do quotidiano. E não é por magia nenhuma ou por algum efeito parapsicológico inexplicável. Quem pensa proceder a um esconjuro, a um exorcismo, está em vez disso a banalizar uma maldição que tarde ou cedo o atingirá. É que há muito tempo, mesmo sem ciência, se sabe que o abismo chama o abismo. «É dever irrefutável da humanidade pôr fim a toda e qualquer guerra, ou qualquer guerra porá fim à humanidade.» Só há guerras por haver sempre uns quantos mentecaptos com poder, prontos e desejosos de declará-las, mas raramente de fazê-las. Isto sabia-o Kennedy muito bem. E o que é que soubemos fazer melhor ainda, por exemplo, aos ameríndios, perguntou. Primeiro, chamámos-lhes selvagens e roubámos-lhes as terras. Depois, encharcámo-los em álcool e chamámos-lhes bêbedos. Por fim, magnanimamente, permitimos-lhes fazer uns quantos negócios insignificantes, para depois ainda os obrigarmos a esmolar o respectivo produto. Agora, para que possam preservar as suas «riquíssimas raízes e tradições», confinámo-los a reservas de miséria. Teremos entretanto aprendido alguma coisa? As lições sucederam-se ao longo do século XX. Primeiro o Japão, a seguir a Coreia, depois o Vietname, mais tarde o Afeganistão e agora o Iraque. Será que apesar de tudo isto haveremos ainda de teimar que somos senhores do mundo?

Por toda esta caracterização demolidora do mainstream e do estado da nação, o indivíduo fora detido, e o Ministério Público tencionava acusá-lo de traição, actividades antiamericanas e incitamento ao terrorismo. Fiquei a cogitar, incrédulo, no que é que seria considerado mais grave por mais esta prodigiosa bizarria de que é relapso aquele sistema judicial, e quase delirei com o tom anedótico daquela história. Mas, de súbito, um calafrio percorreu-me todo o corpo e causou-me um desagradável mal-estar. É que o McCarthy não foi anedota nenhuma. Nem sequer anedótico. Interrogado ainda sobre a origem daquela data derradeira, como se isso pudesse indiciar alguma teia conspirativa mais obscura, Josh W. Bull recusou dar pormenores e limitou-se a afirmar que, desde tempos imemoriais, a aritmética faz parte do quotidiano da humanidade e que todos os impérios, do bem e do mal, haviam tido um início e um fim. «You put two and two together and add it up.» Que o intrigava ainda a liberdade tão fartamente apregoada que via ir-se abrasando a fogo lento numa demencial pirolatria colectiva. Que o irritava a suprema idiotice de que tudo na vida tem de ser supremamente «fun, fun, fun! Let's just all get high and have some fun». Para divertir, ter piada, ser folgazão, hilariante ou histriónico, mais nada. Porque senão, é a pior das chatices, uma fuckin' seca desgraçada. Que era a esta grotesca tragicomédia que estava reduzida a busca da felicidade proclamada por uma Declaração de Independência repleta de boas intenções. Analisem isto, e assim rematou as declarações, enquanto era levado pelas autoridades. Afinal, aquele Rato Mickey, ao invés de outros famigerados, sabia e pensava mais e melhor do que todas as escatologias fariam supor. Aquela notícia era uma pérola e uma boutade também, apesar da ridícula seriedade dada à encenação hollywoodesca. Fiquei ainda algum tempo atónito com a perversa comicidade – ou a cómica perversidade – daquela detenção. Ainda agora não consigo discernir o que será mais importante, se o perverso, se o cómico. Até o título da notícia me parecia já, ao mesmo tempo, grotescamente cómico e perverso...


Place de la Concorde, Obélisque – Praça da Concórdia, Obelisco

Dobrei o jornal, guardei-o e ao pagar perguntei ao garçon onde é que encontraria por perto um marco de correio. Se descesse os Campos Elísios, havia um à entrada da Praça da Concórdia, disse-me. A passo lento caminhei em direcção ao belo obelisco cravejado de magníficas jóias hieroglíficas que, à minha frente, parecia ir saindo do chão e subindo no ar. Junto ao marco de correio despedi-me dos postais, que chegariam depois de mim. Paciência. Foi sem intenção que me esqueci deles no saco. Que me possam desculpar parentes e amigos. Fiquei por momentos a cismar em que mensagens, saudações, relatos, conteria aquele esguio monólito de granito rosa com três mil e duzentos anos, trazido das margens do Nilo há quase duzentos. De súbito, ocorreu-me a incómoda questão se não estaria bem melhor no seu ambiente originário. Em Luxor, a antiquíssima Tebas. Do centro daquela praça, a perspectiva é das mais admiráveis do mundo ou, pelo menos, das mais impressionantes. Da fachada da Madeleine, o olhar desce a sumptuosa rue Royale, cruza a praça a todo o comprimento, atravessa a ponte da Concórdia e projecta-se na fachada também clássica do Palais Bourbon, a Assembleia Nacional. E este olhar relanceado abarca mais um farto trecho de património mundial da humanidade. E de mundo.»

A todos, desejo um excelente domingo!
RIC

I. «Guantanamera»










Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma.

Guantanamera,
Guajira Guantanamera.
Guantanamera,
Guajira Guantanamera.

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido,
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.

Cultivo una rosa blanca
En julio como en enero,
Para el amigo sincero
Que me da su mano franca.

Con los pobres de la tierra
Quiero yo mi suerte echar.
El arroyo de la sierra
Me complace más que el mar.

"Versos Sencillos" de José Martí
y música de José Fernández Díaz




Un arroyo en la Sierra Maestra


«(…) Entre los posibles creadores de tan conocida canción además de Joseíto, están nuestro Apóstol José Martí, Julián Orbón, Héctor Angulo, Peter Seeger, Herminio 'Diablo' Wilson y Ramón Espígul.
José Pardo Llada, en su Diccionario de Nostalgias Cubanas escribió que "La Guantanamera no tiene autor conocido. Nació de la inspiración de algún trovador popular posiblemente de la provincia de Oriente, al cantar en homenaje a una guajira de Guantánamo. En 1961 un guitarrista, Leo Browder, cantó la Guantanamera con Versos Sencillos de José Martí y así se popularizó mundialmente"(…).»
(María Argelia Vizcaíno)

A Fidel Castro, el Comandante.
¡Para que se mantenga una parte del equilibrio en el Mundo!
¡Para que no se olvide a Guantánamo!

RIC

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Une prédilection cardinalice…

«J'aime mieux un tilleul que la simple nature
Élève sur les bords d'une onde toujours pure,
Qu'un arbuste servile, un lierre tortueux,
Qui surmonte, en rampant, les chênes fastueux.
»

François-Joachim de Pierre, Comte de Lyon et Cardinal de Bernis

Il est né le 22 mai 1715 à Saint-Marcel-d'Ardèche et décédé le 3 novembre 1794 à Rome.
Homme de lettres, il fut aussi un homme d'Église, un diplomate français qui fut Ambassadeur à Venise, ministre d'État de Louis XVIII, secrétaire d'État des Affaires Etrangères, ordonné prêtre et chargé d'affaires auprès du Saint-Siège.


«Gosto mais duma tília que a natureza singela
Ergue à beira de águas sempre puras
Que dum arbusto rasteiro, duma retorcida hera,
Que soberba triunfa dos faustosos carvalhos.
»

(Traduit par RIC)

quinta-feira, 24 de maio de 2007

II. À guisa de balanço para meu governo

Foi na noite de 6 para 7 de Fevereiro. Tudo decorria como habitualmente, desde que começara em Julho esta blogosférica descoberta e aventura, quando de súbito a noite se fez noite. E um relâmpago muito azul rasgou então o negrume incompreensível do ecrã para me mostrar uma fugaz imagem da desgraça: ocorrera um «erro fatal». Que eu deveria desligar o computador e levá-lo a um especialista. Que a placa gráfica estaria em coma, moribunda, mais morte que viva. E seguiu-se uma pirotecnia de arcos-íris que não prenunciaria nada de bom. Negro.

Assim fiz, inconformado, lançando culpas em todas as direcções como armas de arremesso. Foi daquele sítio/site que um vírus veio! Não deveria ter aberto nunca aquela porcaria! Eu e as minhas manias de pesquisar e investigar! «Bella roba»! Se tivesse andado de site em site de temáticas inconfessáveis já nada disto teria acontecido!

E as lamúrias, muitas, prosseguiram insanas até o cansaço me obrigar a abandonar a cadeira a que parecia colado. Foi com a visão toldada que afundei a cabeça na almofada e terei adormecido logo depois. Estava instalado o ambiente que mais temo. Um vento depressivo soprava novamente sobre mim.

Passo em branco sobre os dias que se seguiram. Foram negros.
Com as finanças abaladas por despesas recentes imprevistas e inevitáveis, foi com um nó na garganta que ouvi o diagnóstico do primeiro técnico. «Não se substituem placas gráficas de portáteis… O melhor é comprar outro. Quaisquer 1000 € resolvem o assunto…» E, na montra, uma bela máquina fazia-me olhinhos, impudica e desalmada.

Virei costas e fui à minha vida. Encontrei-me com uma amiga que, ao ver a minha cara, me disse: «Estás a ficar magérrimo! Tens comido?! Olha lá, o mundo não acabou, sabes?» Little did she know… E foi ela quem me falou então de um primo, um craque em cenas computacionais, um virtuoso do hardware, que uma boa empresa detém e chama seu… Tempo livre seria coisa que o dito primo não teria, mas… quem sabe… talvez arranjasse uns intervalitos para olhar para a coisa…

Uma segunda opinião. Seja. Antes isso que nada. De qualquer dos modos, teria de esperar pelo menos mais um mês para que o cash-flow me autorizasse a extravagância inaudita de deitar fora um computador e comprar outro. Logo eu, que odeio consumismos irracionais!…

Passou o tempo, e eu fiz tudo quanto pude para o acelerar. Devaneio, loucura, estado depressivo confirmado. Silêncio. E um dia, ei-lo de volta às minhas mãos. Diferente. Uma lavagem ao cérebro? Parece que não se lembra de muita coisa que lhe era familiar… Uma amnésia provocada com vista a salvá-lo de males maiores? É bem provável. Mas parece – não é certo – que uma terapia bem orientada poderá devolver-lhe algumas capacidades ora inactivas.

Com a nova ligação à Internet ficou restabelecido o cordão umbilical, pelo qual desde Julho me alimentava sofregamente. All's well that ends well.
Entretanto, alguns fins de tarde foram passados em frente de outro ecrã. Deu para manter um contacto precário e lançar alguns olhares desconsolados à mistura com soluços inconformados.

Mas a verdade é que foram os comentários que ia lendo que me mantiveram à tona de água. Sem eles, ter-me-ia atolado e afundado no pântano de um desespero serenado, amansado. Daí a ideia de passar todos esses éditos em revista e fazer o levantamento dessas intervenções miríficas. Achei que devia fazê-lo agora, já que então não me foi possível responder a cada um individualmente, como é tanto do meu gosto. E é também uma forma «pública» de agradecer a todos vocês, meus caros amigos bloguistas, pela sacrossanta paciência que tiveram comigo.

Muito obrigado a todos por tudo!

Os números que apresento são tão-só e apenas a medida da minha proporcional gratidão para com cada um de vocês. Não há – nem poderia haver – qualquer outra intenção. Sabem bem, estou certo, da minha aversão a listas ordenado-graduadas (vulgo «rânquingues»). É assim que se escreve, não é?…
A todos e a cada um, um abraço amigo!

Bernardo - 15; Brian - 4; Bruce - 1; Captain - 4;

Carioca - 9; Carla aka Shadow - 14; Don - 11;
Eskimo Friend - 1; Gray - 5; Gumby - 5;
João C. aka Pinguim - 15; João Gouveia - 1;
João M. aka Catatau - 6; Joël - 7; Karla - 1;
Kevin - 1; Lampejo - 14; Lê - 4; Lemuel - 1;
Leone - 4; Lover - 6; Luís - 3; Maurice - 7;
Me - 2; Minge - 14; Mozzart - 2; Ny - 1;
Oz - 1; Peciscas - 1; Rian - 1; Ricardo - 1;
Teddy Bear - 14; Thiago - 6; Tiago - 1;
Tongzhi - 14; Will - 18.

Names and figures above tell a codified story: the support and consolation I've received from each and every one of you, dear blogger friends, while I was trying to solve all the problems and troubles that came over my computer. Those figures stand for my gratitude, nothing else.
Thank you all for your kind, gentle support and patience!

RIC

I. Se eu fosse…

Se fosse uma hora do dia, seria o pôr-do-sol.
Se fosse um astro, seria Saturno.
Se fosse uma direcção, seria a vertical ascendente.
Se fosse um móvel, seria o cadeirão.
Se fosse um líquido, seria água pura.
Se fosse um pecado, seria a luxúria.
Se fosse uma virtude, seria a inocência.
Se fosse uma pedra, seria a turmalina.
Se fosse um monumento, seria o Taj Mahal.
Se fosse uma árvore, seria a sequóia.
Se fosse um fruto, seria a banana.
Se fosse um clima, seria o temperado marítimo.
Se fosse uma ave, seria o cisne negro.
Se fosse um instrumento musical, seria o piano.
Se fosse um elemento, seria o fogo.
Se fosse uma cor, seria o vermelho.
Se fosse um animal, seria o gato.
Se fosse um som, seria o marulhar das ondas.


Se fosse uma flor, seria a camélia.
Se fosse uma música, seria o concerto n.º 21 para piano e orquestra de Mozart.
Se fosse um estilo musical, seria o adágio.
Se fosse um sentimento, seria a melancolia.
Se fosse um livro, seria «O Ano da Morte de Ricardo Reis».
Se fosse uma comida, seria a sopa.
Se fosse um lugar, seria a praia.
Se fosse um gosto, seria o doce.
Se fosse um cheiro, seria o da canela.
Se fosse uma palavra, seria «liberdade».
Se fosse um verbo, seria «respeitar».
Se fosse um objecto, seria a caneta de tinta permanente.
Se fosse uma peça de roupa, seria a camisola de gola alta.
Se fosse uma parte do corpo, seria os olhos.
Se fosse uma expressão facial, seria o sorriso.
Se fosse uma personagem (de BD), seria Tintim.
Se fosse um filme, seria «Out of Africa».
Se fosse uma forma, seria o triângulo.
Se fosse um número, seria o 8.
Se fosse uma estação do ano, seria o Outono.
Se fosse uma frase, seria «aprender até morrer».

(Copiado com ligeiras alterações. Para quem quiser copiar…)

RIC

quarta-feira, 23 de maio de 2007

II. «Tag Nab It!» ???

Tag – You are it.

I got tagged by Gumby...

So here are the rules of the tag:

* Post a similar post like this one and add a link back to the person who tagged you.
* List 5 reasons why you blog about the things you blog on your blog.
* Choose your 5 tag ‘victims’ and tag them nicely, just like Gumby did :)
* Write a comment on their blog letting them know that you tagged them. Voilà! Or, as less literate people will say, "Viola!" (Will they?…)

i) I like blogging about different subjects in several languages.
ii) I've always liked writing and editing.
iii) I enjoy knowing that people read my «stuff», and some may even enjoy it.
iv) I love, cherish, and miss the company of my blogger friends.
v) Last but not least: I feel as if I were a globetrotter.

So the Tag goes to:

Don
Joël
Knottyboy
Leone
Minge

I. Lissabon: geschichtliches Porträt einer Weltstadt

Bereits die Phönizier und die Karthager sollen den Platz Alis Ubo («Liebliche Bucht») als einzigen großen Naturhafen an der iberischen Atlantikküste genutzt haben.
Archäologisch wurde dies bisher nicht bewiesen, hingegen aber griechische Siedlungsspuren sind gefunden worden.
Nach Plinius dem Älteren war Lissabon eine Gründung von Odysseus.
Ab 205 v. Chr. hieß die Stadt unter römischer Herrschaft Olisipo.
48 v. Chr. erhält sie unter Julius Caesar die römischen Stadtrechte und wird als Felicitas Julia Hauptort der Provinz Lusitania.
719 wird die Stadt von den Mauren erobert. Lissabon heißt al-Usbuna und erlebt seine erste Blütezeit.
• 1147: Es gelingt die Reconquista («Rückeroberung») der Christen unter König Afonso Henriques, dem ersten König Portugals.
• 12. Jahrhundert: Gegen Ende des 12. Jahrhunderts wird in Lissabon der heilige Antonius von Padua geboren, der zuweilen auch Antonius von Lissabon genannt und zelebriert wird.
1256 verlegt König Alfons III seine Residenz von Coimbra nach Lissabon.
• 1499: Am 9. September wird Vasco da Gama nach seiner ersten Indienreise ein triumphaler Empfang bereitet. Der in den folgenden beiden Jahrhunderten wachsende Handel mit den portugiesischen Gebieten in Afrika, Asien und Südamerika, aber auch deren Ausbeutung, führen zum Wohlstand der Stadt.


Das «Casa dos Bicos» ist wohl das auffallendste Haus in Lissabon. Obwohl die Fassade modern wirkt, geht sie auf das 16. Jahrhundert zurück.

• 16. Jahrhundert: Zu Anfang des Jahrhunderts ist Lissabon mit 350.000 Einwohnern die größte Stadt der damals bekannten Welt.
1569 fordert eine Pestepidemie in Lissabon und Umgebung 60.000 Menschenleben.
• 1755: Am Morgen vom 1. November wird Lissabon durch ein furchtbares Erdbeben zu zwei Dritteln zerstört.
Nach heutigen Schätzungen hatte es die Stärke 8,7 bis 9,0.
Zeitgenössische Quellen geben allein für Lissabon bis zu 60.000 Todesopfer an.
Die Erschütterungen sind in ganz Europa und Nordafrika zu spüren.
Planmäßig wiederaufgebaut wird die Stadt von dem Markgrafen von Pombal, Minister des Königs Joseph I.
Besonders typisch für diesen Wiederaufbau ist die Baixa, die Unterstadt, mit ihren rechtwinklig angelegten Straßen im Bereich um die Rua Augusta.
Neben den physischen Schäden, die das Erdbeben anrichtet, erschüttert es auch die aufklärerischen und theistischen Denkrichtungen vieler Philosophen, die den Grund dieser Naturkatastrophe nicht sehen und ihren Optimismus aufgeben.
Voltaire schrieb als Reaktion auf das Beben sein "Poème sur le désastre de Lisbonne" (1756).
• 1910: Am 5. Oktober wird auf dem Balkon des Rathauses die Erste Portugiesische Republik ausgerufen. König Manuel II flieht ins Exil nach England.
• 1926: Ein Militärputsch beendet die Republik.
• 1928: António Salazar wird Finanzminister und später Ministerpräsident.
Während der Diktatur des Estado Novo («Neuen Staates») von 1926 bis 1974 wächst die Stadt weiter. Sie wird zu Lasten des restlichen Landes ausgebaut.
• 1959: Im Dezember wird die erste Metro-Linie in Lissabon eröffnet.
• 1966: Eine Hängebrücke über den Tejo nach Almada wird fertiggestellt, die der Golden-Gate-Brücke in San Francisco gleicht.
Vor der Nelkenrevolution (Revolução dos Cravos) noch nach António Salazar benannt, heißt sie nun Ponte 25 de Abril (Brücke des 25. April).
Oberhalb Almada steht mit Cristo-Rei zudem eine große Christus-Statue mit ausgebreiteten Armen, die der in Rio de Janeiro ähnlich sieht.
• 1968: Salazar erkrankt und stirbt 1970; Marcello Caetano wird sein Nachfolger.
• 1974: Am Frühmorgen vom 25. April ist Lissabon das Zentrum der Nelkenrevolution.
• 1988: Teile des Altstadtviertels Chiado werden durch einen Brand zerstört.
• 1994: Lissabon ist Kulturhauptstadt Europas.
• 1998: Fertigstellung der insgesamt über 17 km langen Autobahn-Brücke Ponte Vasco da Gama über den Tejo anlässlich der Weltausstellung EXPO '98.
• 2004: Haupt-Austragungsort und Schauplatz des Finales der Fußball Europameisterschaft.
• 2007: Am 7. Juli werden die 7 Neuen Weltwunder im Benfica-Stadion erklärt und bekanntgemacht werden.

«Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa.» (Sprichwort)
Wer Lissabon nicht gesehen hat, hat nichts Schönes gesehen.

RIC

terça-feira, 22 de maio de 2007

«Aux Champs Élysées…» (1.ª parte)

«Deixei o hotel, meti-me no metropolitano, saí em Franklin D. Roosevelt, na Rotunda dos Campos Elísios, comprei o Le Monde e o Le Parisien e procurei uma esplanada. Em menos de cinco minutos estava sentado a uma mesinha de mármore com um requintado pé único em ferro finamente trabalhado, a tomar um café e uma água, com uma esplêndida vista sobre a Via Triunfal. A vida é bela. Às vezes.

É isto Paris. Ao fundo, à direita, destaca-se o augusto volume do Arco do Triunfo, e à esquerda esgueira-se o topo do obelisco da Praça da Concórdia. Dali desce em direcção ao Sena a avenue Montaigne, onde Marlene Dietrich viveu enclausurada os últimos dezanove anos de vida. Os mitos brotam férteis, até nos terrenos mais áridos. Que desgosto arrasador o dela quando, no rescaldo da II Guerra Mundial, vem a saber que uma irmã fora comandante do campo de extermínio de Bergen‑Belsen, onde apenas alguns meses antes da libertação morrera Anne Frank. E não muito longe dali, lembrei‑me então também, outra mulher de génio, senhora dos palcos e de públicos universais, terminara amargurada os seus dias, também retirada do mundo num apartamento da avenue Georges Mandel. Maria Callas, a divina. Ela sim, a Voz!

Estava uma manhã não muito fria, um céu de um azul intenso, magnífico, e uma luz perfeita. Há uns decénios, se afirmasse que aquele era o centro do mundo, ninguém ousaria desmentir-me. Um ou outro poderia manifestar opinião diferente, mas seria difícil encontrar alguém que abertamente me contrariasse. Hoje, mesmo que eu o afirmasse com alguma reserva, olhar-me-iam de esguelha, esboçariam um sorriso condescendente, como a dizer-me que estaria a delirar ou há muito afastado do mundo real e, caso eu quisesse fazer vingar a minha opinião, acabariam por pronunciar com todos os sons o nome da Grande Maçã, a Big Apple, essa sim, o verdadeiro centro do mundo. Muito bem, diria eu, Nova Iorque é fabulosa, sem dúvida, mas Paris continua a ser outro mundo...


Rond-point des Champs Élysées – Rotunda dos Campos Elísios

Um cartaz publicitário espalhado pela cidade em paragens de autocarro e estações do metropolitano era disso a prova. Um jovem e perfeito busto feminino, de rosto inclinado de um modo que lembrava os retratos de Amedeo Modigliani, de belos seios véneros desnudos, era o suporte de uma mensagem que ainda há pouco seria, sem mais, proibida por lei da República. «No Frenchwoman would ever feel silicone silly cones as a Triumph. Silly if she did…» Na margem inferior do cartaz, em letra miúda, a versão em Francês era apenas um arremedo. Tradução é traição. A jovem geração já não pensa em lutas contra o corsage, o soutien-gorge ou a brassière, que gerou o wonder bra, e rendeu-se em bloco ao Inglês americano. Mais ainda, ao propalado American way of life! A moda tudo pode, e um subtil ideário de tempos idos volta a insinuar-se, pronto a regressar. Já só falta o espartilho e o corpete. E a haver alguma batalha, nem sequer será contra o franglais, cuja proliferação levara Étiemble a chamar aos franceses uns cocardiers e coquardiers. Patrioteiros zarolhos. Mas isso já foi há mais de quarenta anos. Era outro, o mundo, nem mais novo, nem mais velho. Apenas outro. E era outra, a França. Intrigou-me aquele laxismo linguístico invasivo, coisa rara ou mesmo impensável ainda há pouco tempo. Pois é, mas todo o estatismo é mera abstracção. Tudo é perpétuo movimento, contínua mudança ininterrupta. É, e será sempre, muito forte a tentação de querer ver o perene no efémero.

Ao arrumar o saco para arranjar espaço para os jornais, dei com os postais que trouxera do Beaubourg. Estavam selados e endereçados e alguns já escritos desde o dia em que os comprara, mas esquecera-os numa das bolsas interiores do saco. Que cabeça a minha… Pus os jornais de lado e resolvi ali mesmo acabar o que deixara a meio. E entre umas frases rápidas e uns goles alternados de café e água, ia observando quem passava. Uns seguiam com a calma de quem tem todo o tempo do mundo, outros riscavam o espaço com a pressa de quem, já sem tempo, deveria estar alhures há muito tempo. Sempre o tempo. Sempre a corrida contra o tempo. Gentes dos quatro cantos do mundo que o acaso ali juntava, naquele preciso instante, vestindo roupas exóticas, exibindo gestos que mal entendo, talvez exercendo profissões que desconheço e revelando hábitos e costumes das mais diversas formas e feitios, espelhos de outras tantas tradições de que nunca ouvi nem ouvirei falar.

Mais do que todas as palavras bem-intencionadas a favor disto e daquilo, mas cada vez menos eficazes por serem cada vez menos as gentes que lhes dão ouvidos, urge promover a xenofilia, não com mais palavras e palavras, mas com acções que incluam todos e lhes façam sentir a necessidade de se aproximarem dos outros, interrogá-los, partilhar com eles fragmentos do dia-a-dia, indagá-los sobre sonhos e ansiedades, enfim, conhecê-los. É simplista, e muito fácil até, dizer, por exemplo, que os italianos têm olhos grandes, os franceses boquinhas pequeninas, os alemães enormes manápulas ou os ingleses esquisitos cortes de cabelo. Ao invés, é fomentando atitudes e comportamentos xenófilos que se contraria o levantamento de barreiras entre comunidades que, embora com hábitos diferentes, são vizinhas e vivem quotidianos semelhantes. É o resultado de viver em espaços alucinados de anonimato e indiferença. O conhecimento de línguas é essencial, e os melhores laboratórios são as grandes metrópoles, onde o cosmopolitismo é hoje, porém, enganosa aparência. A xenofilia seria uma salvação possível. De resto, de que serviria viajar se fosse apenas para ver pedras amontoadas ou ficar estendido numa praia ao sol dos trópicos? Nisto fiquei a pensar, olhando para toda aquela gente e sentindo-me mais prosélito que nunca. Se não me precaver com os cuidados necessários, ainda dou comigo a proferir discursos muito cheios de boas intenções ou a aplaudir perorações absurdas de abstrusos discursos alheios...
E Paris, conquanto já não seja o centro do mundo, para bem ou para mal é ainda uma metrópole onde se olha em volta e se vê mundo. Muito mundo.»

(Seguir-se-á a 2.ª parte em breve…)

RIC

segunda-feira, 21 de maio de 2007

The 12 Basic Hellenic Characteristics


1. Hellenic Paideia – Παιδεία –, and the ability to understand the abstract Hellenic meanings and ideas in their full depth.

2. Polytheistic perspective of Cosmos – self creation, non-linear time, multiplicity of the Divine…

3. Eleutheroprepeia – Ελευθεροπρεπεία –, and Parrhesia – Παρρεσία: to stand and act as a free person.
The status of the free has to be proven in an everyday basis.

4. Tolerance – Επιεικεία – and Understanding – Καταληψις – for all the other ethnic cultures.
Dialectical and reasonable word → Λόγος.

5. Eugeneia – Ευγενεία –, Eunomia – Ευνομία –, and Euseveia – Ευσεβεία: harmonious personal and socio-political ways. Respect for the Divine.

6. Constant awareness and desire for the Excellent – Aristevein – Αριστεβείν.

7. Bravery – Ανδρεία –, and Fearlessness – Αφοβία.

8. «Kata physin zein» – κατα φύσιν ζειν: living according to the Natural Laws, familiarity with the human body, high ecological conscience.

9. Prudence – Φρόνησις –, disinterestedness – εαυτοΰ καταφρόνησις –, and frugality – Λιτότης.

10. Direct democracy, Panarchy – Παναρχή – full socio-political participation –, emphasis on the socio-political rather than on the private element of everyday life.

11. Personal and ethnical self-knowledge, the «know yourself» saying – γνώθι σεαυτόν –, for both the individual and the ethnos.

12. Polymereia – Πολυμερεία – multifacetedness – and industriousness – Φιλοτεχνία.

… How much farther away from our «founding fathers» can we stand yet?…

RIC

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Pelo Município de Lisboa!

Basta de caixeiros-viajantes!
Basta de pára-quedistas!
Basta de espantalhos!
Basta de fantoches!
Basta de oportunistas mancomunados com tudo o que é pato-bravo!
Basta de hordas de assessores da treta para tudo quanto é tanga, a 5.000 € por cabeça!
Basta de um Município com pretensões a empresa privada de má qualidade!

Vamos limpar a casa e pôr ordem nos assuntos municipais!
Vamos eleger a próxima autarca, de quem esta cidade está tão precisada!
Vamos apoiar Helena Roseta!


A Minha Candidata

RIC

quarta-feira, 16 de maio de 2007

II. Avez-vous jamais lu Camoens… en français?

Qu'Amour cherche autres tours et autres ruses
Pour me tuer, qu'il cherche d'autres feintes;
Il ne saurait m'ôter mes espérances
Puisqu'il ne peut m'ôter ce dont je suis privé.

Voyez de quels espoirs je me nourris!
De quelles périlleuses assurances!
À la dérive sur la mer houleuse
Je ne crains ni revers ni changements.

Mais s'il ne peut y avoir déplaisir
Où l'espoir fait défaut, Amour pour moi
Abrite un mal qui tue sans être vu;

Car depuis bien longtemps il a mis en mon âme
Je ne sais quoi, qui naît je ne sais où,
Vient je ne sais comment, et blesse, mais pourquoi?

Trad. de Maryvonne Boudoy et Anne-Marie Quint


Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

I. My Fondest Greetings to the World!

I've been trying to deal with this subject ever since I watched the number of those red dots growing on that enchanting map a few months ago now.
But then there wasn't that much yet to write about, and now I just couldn't find the time to go through my atlases and try to match each and every dot with a name on the map…
At first I thought it wouldn't be such a difficult task… Little did I know…
It took me really a long time checking all the possibilities for place names, especially as far as Europe, USA, and Brazil are concerned…
Gosh! It was really hard, but it was great fun as well, I do admit.
I believe I was careful enough (!) as not to let out any place where I know a dear blogger friend is at home. But the truth is the dots are there, as you can clearly see, so I just had to mention them all anyhow…
All I can wish for now is that each and every one of you will feel happy when you check out the following list and find your dwelling place or, at least, the place nearby that is a little bit larger so that I could spot it on the map…
It's quite possible I may have made some mistakes… I'm the only one to blame for them. All I can hope is that you'll be kind enough as to forgive me. Thanks a lot!
Watch and enjoy!


Africa:
Egypt: Alexandria, Asyut
Cape Verde
Ghana: Kumasi
Nigeria: Abuja
São Tomé and Príncipe
Kenya: Nairobi
Angola: Luanda
Mozambique: Maputo
South African Republic: Johannesburg, Pretoria
Mascarene Islands

Americas:
Canada: Calgary, Regina, Winnipeg, Sault Sainte Marie, Churchill, Montréal, Gaspé, Saint John, Port au Port/Stephenville…
USA: Fairbanks, Anchorage, Honolulu, Seattle, Pendleton, San Francisco, San Diego, Las Vegas, Kemmerer, Denver, Santa Fe, Phoenix, Missoula, Kansas City, Miles City, Wichita Falls, Dallas/Fort Worth, New Orleans, Chicago, Columbus, Minot, Atlanta, Boston, New York City, Philadelphia, Washington DC, Savannah, Tampa, Tallahassee…
Puerto Rico: San Juan
Bahamas: Nassau
Jamaica: Kingston
Dominican Republic: Santo Domingo
Guadeloupe & Martinique
Mexico: Monterrey, La Paz, Hermosillo, Mazatlán, Guadalajara, Mexico City, Mérida, Villahermosa,
Guatemala: Guatemala
Nicaragua: Manágua
Panama: Panama City
Colombia: Bogotá
Venezuela: Maracaíbo, Caracas, Cumaná
Ecuador: Quito
Peru: Chiclayo, Lima, Arequipa
Brazil: Rio Branco, Boa Vista, Manaus, Santarém, Belém, São Luís do Maranhão, Imperatriz, Gurupi, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Itabuna/Ilhéus, Rondônia, Cuiabá, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Campo Grande, Londrina, Curitiba, Porto Alegre…
Bolivia: La Paz
Paraguay: Asunción
Chile: Santiago, Antofagasta
Argentina: Buenos Aires, Mercedes, Mendoza, Mar del Plata, Bahía Blanca, Rawson

Asia:
Russia: Yekaterinburg, Irkutsk
Turkey: Istanbul, Trabzon, Tarsus
Israel: Tel Aviv
Iraq: Basra
Iran: Teheran
Saudi Arabia: Riyadh, Jeddah
Dubai
Muscat
Qatar/Bahrain
India: Amritsar, Bombay, Indore, Cuttack, Madras
Thailand: Krung Thep (Bangkok)
Vietnam: Hanoi, Ho Chi Minh City
Singapore
Malaysia: Sibu
Brunei: Bandar Seri Begawan
Indonesia: Jakarta, Ujung Pandang
The Philippines: Manila, Cebu, Davao
Taiwan: Taipei
China: Beijing, Shanghai, Zhenzhou, Chunking, Macao/Hong Kong
South Korea: Seoul
Japan: Sapporo, Tokyo, Osaka, Kyoto, Kobe, Naha

Europe:
Portugal, Azores & Madeira
Spain & Canary Islands
France
Italy: Venice, Naples, Bari, Cagliari, Palermo…
Macedonia: Skopje
Greece: Athens
United Kingdom: Edinburgh, Portsmouth
Ireland: Dublin…
The Netherlands: Amsterdam…
Germany: Berlin, Hamburg, Stuttgart
Austria: Vienna
Hungary: Budapest
Romania: Bucharest, Cluj
Iceland: Reykjavík
Norway: Tromsø, Stavanger, Oslo
Sweden: Stockholm
Finland: Oulu, Helsinki
Poland: Warsaw
Lithuania: Vilnius
Russia: Saint Petersburg, Moscow

Oceania:
Australia: Perth, Alice Springs, Adelaide, Melbourne, Sydney, Brisbane
New Zealand: Auckland, Wellington, Christchurch

So here is my humble homage to you all, dear blogger friends, wherever you may be on this «small» planet Earth that seems to be growing smaller and smaller everyday, as our countless seconds, minutes, hours just go by and fade away. And we with them…
But while we are here, let us all make the very best of it by sharing our personal worlds with one another on these some times quite remarkable, wondrous, and amazingly strengthening pages of the bloggosphere. For the «small» miracles they've been working on me, my many thanks and my best wishes to you all!

RIC

segunda-feira, 14 de maio de 2007

II. The 52.nd Eurovision Song Contest

«Hyvää iltaa, Helsinki!
Good evening!
This is Lisbon calling!
And these are the results of RIC jury (on a 0-20 points scale):

1. Bosnia and Herzegovina – 14
2. Spain – 10
3. Belarus – 10
4. Ireland – 14
5. Finland – 8
6. Macedonia – 10
7. Slovenia – 12
8. Hungary – 16
9. Lithuania – 16
10. Greece – 8
11. Georgia – 8
12. Sweden – 8
13. France – 12
14. Latvia – 18 − Bonaparti.lv: «Questa Notte»!
15. Russia – 8
16. Germany – 16
17. Serbia – 16
18. Ukraine – 10
19. United Kingdom – 14
20. Romania – 14
21. Bulgaria – 12
22. Turkey – 12
23. Armenia – 10
24. Moldova – 8

Thank you, Latvia, so very much for having brought back the Italian language to this contest! Great song! Marvellous voices!
Even absent, Italy is not forgotten! Ever!
… Incidentally, if I were to vote for the Portuguese song I would have to «bestow» it an 8… or perhaps less… What a piece of «pimba» crap we had to listen to last Thursday!
Let us all vote well, and may the very best win!

(Some time later)


Congratulations, Srbija, for your great victory!
Beginner's luck, I'd say (laughing out loud)!
But your «Molitva/Prayer», dear Marija Šerifović, did work a wondrous miracle! Superb on stage!
What a great voice!
What an enchanting melody!
What a fabulous performance!

Sadly enough I don't understand Serbian, but even so I do feel inclined to bet the lyrics are formidably inspired by one of the greatest poetesses ever – Sappho! Am I perhaps wrong? Guess not…
All the more a reason to warmly welcome Marija – and Serbia – in «our» European community! If you know what I mean…

Hyvästi, Helsinki ja Suomi!
Kiitoksia paljon
– for the great TV show you've offered us all!
Goodbye!

Hello Beograd!
Enjoy your merited victory! Lavishly!
I'm looking forward to meeting you on the green banks of the blue Dunav next year! Farewell!»

Friendly greetings to all Eurovision Song Contest fans all over the world, wherever you may be!

RIC

I. «Les derniers instants d'une année…» (Final)

«Que a propriedade possa hoje ser um roubo é ideia que em tempos lhe pareceu mais subversiva, dispara o escritor sobre um Mark perplexo. E já que a política viera à colação, alvitra que ainda se pode crer na democracia, da qual, porém, os cidadãos estão a afastar‑se cada vez mais, resvalando da descrença para o desprezo. Já ninguém suporta tanto bolodório imbecil. Em tempos não muito distantes mas já perdidos, o democrático era um bom regime. Confundindo bom com óptimo, nada temos feito que impeça o trabalho de sapa a que os eméritos mestres do improviso e do atamanco se têm dedicado, sem pudor nem embaraço. É o menos mau, vão dizendo, mas a verdade é que ainda não está completamente ao gosto deles. Ainda não está a cair de podre. E os media vão dando uma preciosa ajuda. Estão para a política como o dinheiro sempre tem estado para a felicidade. Não a compra, mas manda‑a buscar.

Ao político dito mediático, que deve ser, sempre ou quase, um tecnocrata e nunca, por exemplo, um artista, basta‑lhe já só a ilusão, a miragem de algum carisma para ir vencendo, mesmo sendo generalizada a convicção de que dele ressumam apenas estultícia e incompetência. Assanha‑se contra os adversários e promete mundos e fundos a quem já não está à espera de nada e o apelida de troca‑tintas. Mas ele, dedicado a uma cabotinagem que já não engana ninguém, lá vai louvando os muitos méritos da sua democraciazinha, como é sua obrigação. A muitos títulos, a pornocracia é mais honesta, diz o escritor numa gargalhada breve a esconder desconforto. É que a democratura, como é apelidada, se vai instalando sobre este descalabro irracional, impondo a ganância, a corrupção e a impunidade e expendendo as opiniões e os alvitres mais ignaros arvorados em verdades sempiternas. O objectivo final é um só. Instituir o que é mais rasca, reles e ruim, e, desenfreada e soezmente, nivelar tudo por baixo, para que os seduzidos, os submissos e os subornados se sintam promovidos na mediocridade em que vivem atolados. É assim que uma qualquer jovem suburbana, semianalfabeta, sem sombra de uma única ideia na cabeça a que possa chamar sua, é transformada da noite para o dia em celebridade, ainda que por um lapso de tempo tão ínfimo que nada a pode compensar da frustração e da raiva de logo ser remetida ao anonimato originário, onde se lhe refina a malvadez com que vive desde que veio ao mundo. Só os míseros de espírito vivem bem, talvez mesmo felizes. Todos os outros sofrem com uma consciência que nada consegue aliviar.

Quanto à adaptação ao cinema do seu romance, argumenta o escritor que o filme, tal como o livro, pretende ser uma reflexão, um estudo de casos, uma exposição do fenómeno, e não apenas mais uma sequela epifenomenal, e que muito ficou a dever à leitura atenta, perspicaz, original e inteligente do realizador. Em resposta a um tímido reparo sobre esta concepção tão niilista e tão apocalíptica do homem e do mundo, o escritor confessa a um Mark abismado que, com cada vez mais homens e mais mulheres redimensionados, é extremamente difícil, é praticamente impossível criar a beleza de que muitos ainda se lembram, mas que já só poucos vão cultivando. Resta‑lhe saber por quanto tempo ainda será possível fazê‑lo. Mas, avisa, quanto mais obscuro e feio se for tornando o mundo, mais bela e luminosa se desvelará a poesia. Afinal, cada um de nós encontra‑se sempre mais facilmente consigo próprio na visão de uma copa frondosa da árvore mais próxima do que numa obra‑prima realizada por mãos de bípede, remata o escritor com um ar ausente, que desfaz depois com uma súbita gargalhada, fixando o olhar vivo e perscrutador na janela da sala, que enquadra uma das magníficas árvores do jardim. E interroga‑se como se poderá ainda sonhar, se não se redescobrir um qualquer outro pancalismo, na arte como na vida. É que o mal sempre soube proliferar sem precisar das ajudas que hoje tudo e todos lhe dispensam. Diz‑se com muita frequência que "o que é doce nunca amargou", quando se deveria repetir com muito mais insistência que "o que é belo nunca afeou". É aqui que se revela a obscena escropragia materialista dos nossos dias.



O – à época – belíssimo James Spader no papel do escritor inglês, no filme…

Nesta busca da beleza, o Mark julga entrever uma faceta das vivências orientais do escritor, a qual se revela também numa perturbadora perspectiva de futuro. Se a espécie humana estiver destinada a extinguir‑se às suas próprias mãos, como parece poder vir a acontecer, ao menos que este auto‑aniquilamento seja uma bênção para as formas de vida que, vitoriosas, lhe consigam sobreviver. Quem sabe se não será uma espécie com desígnios mais altruístas? A História segue o seu curso, com sobressaltos e solavancos, quer haja ou não homens que continuem a escrevê‑la. Mas, como se estivéssemos sempre a assobiar para o lado, mostramo‑nos a toda a hora muito admirados por ela seguir o rumo que lhe vamos imprimindo e não aquele que declaramos querer que ela siga. Em resumo, não há nenhum motivo para espantos. É normal que aconteça o que acontece, já que somos todos nós os autores e os actores desta farsa de muito maus costumes.

Terminada a entrevista, ambos bebiam um whisky ao lusco‑fusco do Inverno britânico antes de seguirem para Londres, onde o escritor faria uma palestra sobre o último romance e daria autógrafos, quando, entre o irónico e o profético, o escritor se terá virado para o Mark e lançado o desafio. "Se acaso considerar que o que acabo de lhe dizer é apenas fruto da caturrice de um velho desadaptado, ao menos durante o trajecto para a City tente observar o que o rodeia à luz desta nossa conversa e liberte a mente dos modelos rotineiros de análise. Logo me dirá se estou assim tão equivocado e também, como já houve quem com isso pretendesse apoucar‑me, se as minhas palavras lhe soam como as de mais um profeta da desgraça. Já pensou que nem toda a literatura de terror poderá dar uma imagem, por mais pálida que seja, dos horrores hodiernos deste mundo?"

Eu começava a lembrar‑me de cenas, por sinal bastante acabrunhantes, do filme que o Mark, visivelmente ainda mal refeito do choque sofrido, ia contando a traços largos. Ia‑me apercebendo da extensão do pesadelo posto a nu por aquela visão desapiedada de um mundo que era também o meu. Como fazer um balanço sereno do ano que está prestes a findar‑se, começava a interrogar‑me. De súbito, um ambiente estrepitoso anunciou a chegada da meia‑noite. E no ar saturado do café‑bar pairava já um odor mordente a outro tempo.
Bom Ano Novo.»

Então?…
Que tal este «breve instante» de uma pré‑passagem de ano?
Aproveito para vos deixar aqui um pequeno desafio. Cá vai:
Qual o escritor inglês que poderá ter sido a inspiração para este «escritor inglês»?
Ele é célebre, galardoado, e alguns dos seus romances foram adaptados ao cinema com algum sucesso e mestria…
Make your bets! (Laughing out loud!…)

RIC

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Learning English in the Seventies...


When I was remembering the story I now want to write about, I suddenly realised that any story you tell has to start with «once upon a time». So once upon a time in another world, in another country right here in Southwest Europe, obedience and silence were compulsory. No one can value what he ignores.

Freedom of thinking? Of expression? Hollow concepts for a teenager in those days... The rest of the world is something quite far away; so far away that he has no idea of what it is or who lives there. Wars are unfolding: a Portuguese one in African colonies since the beginning of the 60s, and an American one in Southeast Asia «against communism», as the teenager is told in TV news everyday. A young girl is running for her life along a never‑ending road: naked, burnt, and crying in pain and horror. Thick memories...

In Portugal Salazar is dead since 1969; in the United States Nixon has just made the mistake of his life. In London Marcelo Caetano, the Portuguese regime's epigone faces furious demonstrations against the colonial war and the Lisbon political regime. Times are changing. Meanwhile in the outskirts of Lisbon, on the mouth of the Tagus, the teenager goes to school (photo). Wonderful building, beautifully located. In the classroom he looks out of the window onto the river mouth. The scenery is overwhelming. He has been learning English for almost two years now. He likes it and enjoys every lesson. His teacher is a middle-aged «lady», Mrs. Carmona, member of a Portuguese well-known traditional family, who had finished her studies in Germanic philology in Oxford a long time ago. The Munich Olympic Games are approaching, and the teenager, always curious, wants to know what strange word is that he sees everywhere – München. So one day he asks Mrs. Carmona, knowing that she is a German teacher as well. She gives him a thorough answer, and teaches him how to pronounce that strange «ch», sounding so fascinating in his ears; so much so that it will change the course of his future studies...

Mrs. Carmona isn't an easy person to deal with. She is severe, suspicious of us boys (in public schools reigns a gender apartheid in classrooms), always looking over her shoulder, not allowing the slightest indiscipline, insisting on her own set of rules, which as a matter of fact is regime akin, and being in control of whatever happens in classroom. But the teenager is willing to oversee this less bright side of her personality in order to enjoy what he's learning everyday. Fascinating texts about London, the City, all the monuments, about England, about the United Kingdom, the British Isles, the Monarchy, the traditional institutions, History and Literature, you name it… The teenager has always shown some conservative tendencies, but he is not yet aware of it…

English written test today! O man, Mrs. Carmona's tests are always so difficult! What will she come up with now to put us guys against the wall? And the marks, Gosh! Better not think about that. «The Prince and The Pauper» is the text he has to read through very carefully in order to give the right answers to a long set of questions. And then grammar. And still a composition subject… In the end he's happy about his performance. He believes in a good outcome. So he may still get a good mark.

A few days later Mrs. Carmona returns the tests. The teenager is nervous; he takes his work at school very seriously. «Mr. M.! Well now, you succeeded at surprising me. You’ve got an 18!», she says. Being 20 the best mark, the teenager has all reasons to be happy. He may get a rather good mark at the end of that term. Great! But Mrs. Carmona is about to surprise him too. Until the end of that term she will keep him under strict surveillance, and he just cannot understand why. When the term is about to end, Mrs. Carmona indulges in giving a short explanation, which coming from her is more than odd. «At first I thought you'd managed to crib from Mr. V.. I think otherwise now. I still want to ponder the mark I'll give you this term though.» Not a single word more. The teenager is appalled. How could she ever? After school, while telling the story to his best friend, furious tears come to his eyes. «If she said that it's surely because she wants to give you a good mark, I bet.» he says to reassure his mate.

The official marks became public less than a week later. In the school lounge the teenager headed straight on to the official marks register of his class, looked for his name's row and the English column, between French and History. At the intersection he found «18». Mission accomplished.

How easy the teenager’s life was in those days...

RIC

quarta-feira, 9 de maio de 2007

II. «Les derniers instants d'une année…» (2.ª parte)

«À saída das salas de cinema, mas não só aí, a vida põe‑se a imitar a antiarte amorfa, acentuando‑lhe os contornos que vai aguçando e sobrecarregando‑a de sombras que vai enegrecendo. Em tempos falou‑se de uma estética operária com a intenção certeira de denegri‑la, mas hoje, com o proletariado emboscado em esconsas ideologias ainda insepultas, quais variantes criogénicas da História, não há bem‑pensante que ouse classificá‑la. Não é já a malvadez em si que é gratuita, mas a própria morte enquanto corolário do sistema omnidestrutivo, como se o medo da morte seja o único valor vital a preservar. Milhares de milhões levam vidas estonteantes em correrias meteóricas que mal duram um milionésimo de nanossegundo, e tudo acaba por ter a mesma importância. Absolutamente nenhuma.

Um dia, garante o escritor, ainda havemos de nos admirar se acaso a fome, a doença, a morte, o cataclismo, o assassínio, a guerra ou o genocídio chegarem a ser sequer notícia. Os que nos devem informar não sabem informar‑se, são cada vez mais avessos à investigação e à leitura, mas pretendem dar um ar literato às míseras prosas que vão alinhavando, tornando‑as copiosamente palavrosas, impressionantes enxurradas de despropósitos. As novidades continuam a ser muito poucas, mas as notícias são cada vez em maior número. O descontrolado audiovisual vai promovendo os mais estranhos voyeurismos, e o sexo, por dá cá aquela palha, instituiu‑se como a obsessão magna do nosso tempo. Tanto dá para vender champôs como para torturar inocentes indefesos. O que marca os dias de hoje reside no poder discricionário de um temível artesão, o jornalista‑coveiro, que sem dó nem piedade arrasa vidas e causa a morte civil de incautos e ousados. Muito jornalismo deixou de ser a História do presente para passar a obedecer a uma patética teoria da coscuvilhice indecorosa e despudorada, tornando‑se uma prática promocional de futilidades e frivolidades, todas elas obnóxias e obscenas. Baboseiras, fantochadas e chalaças, tretas, lérias e pachochadas, petas, balelas e larachas, patranhas, conversas de chacha e paleio moderno, lança o escritor em cascata, em jeito de provocação, entre risos. Se calhar, é aqui mesmo que começa o terrorismo.

O Mark, sem saber muito bem o que fazer entretanto com as mãos que agitadas o traíam, interrompeu o relato para garantir que não se sentia atingido pela acérrima imprecação. Considerava‑se distante daquelas atitudes, que conhecia bem e às quais se sabia imune, desde que cedo optara pelo jornalismo cultural. Mas entrevi algum incómodo naquele brilho do olhar, e havia um certo sonsonete naquelas palavras. Também a publicidade, prossegue o escritor, estúpida e estupidificante, marginaliza quase todos por se dirigir a um só público – o que é jovem, belo e rico –, condenando os outros a esconderem a doença, a fragilidade, o envelhecimento e a pobreza e reduzindo‑os a uma insignificância que os emudece. Na moda, campeiam o narcisismo, o hedonismo e a infantilidade, propalados em desfiles por passarelas onde reina o baixo surreal. Quanto mais a beleza exterior é mitificada, mais a interior se vai extinguindo. É o marketing nosso de cada dia. E até o desporto, agora profissionalizadíssimo, paradoxo acabado e perfeito do nosso tempo, e única actividade que hoje diviniza o homem, nomeadamente o futebol, afirma o escritor carregando o advérbio de um tom sardónico, atraiu públicos que ainda não há muitos anos se dividiam por outras modalidades, por artes de palco populares e, já se vê, pelo muito trabalho, que o lazer é ainda hoje um fruto degustado por muito poucos. Enquanto indústria poderosa, tem demolido todas as que ousam fazer‑lhe frente e está cada vez mais ensarilhado em obscuros negócios da economia paralela, dos muitos submundos, da política escusa, de outras traficâncias e do mais que ainda se for revelando. Negócios são sempre especulações até o dinheiro entrar em caixa. Então, tornam‑se assuntos muito sérios, de muita dignidade. Esse mundo nunca o atraíra, declara. Sempre lhe parecera depender mais de uma esperteza meio atamancada que de uma inteligência seriamente comprometida. Um universo de probabilidades voláteis com um débil fundamento ético.



Shefford, England


Também a cultura descamba em mera actividade de lazer, logo, feudo de muito poucos, igual a mais um promissor segmento de mercado, um nicho muito apetecível, de que se vai apoderando uma minoria nova‑rica muito endinheirada, pouco instruída e muito inculta. Contradicção? Apenas mais uma… Pelo meio de tudo isto, continua o escritor, a corrente da riqueza passa por entre cada vez menos mãos, o que vem a ser uma vitória das democracias controladas por um escol de investidores, empresários e empregadores de vulto, glorificados representantes de um activíssimo empreendedorismo – afinal os patrões de todo o sempre –, que premeiam os fidelíssimos subalternos com estatutos de capatazes ou cães de fila, e fazem alarde do seu piedoso humanitarismo através de organizações ditas não governamentais, sombrias minas fornecedoras de súbitos e avultados proventos. Uns servem outros que são servidos e se servem. E estes, guardiães da ultraliberal avidez, acusam aqueles de preguiça pela velha via fácil de, a seus olhos, se justificarem, enobrecerem e amestrarem súbditos vergados. E livre‑se o servidor, o serviçal, o servo, de dar um passo que seja em defesa de ideais ou direitos, que logo o impessoal Estado de Direito lhe ferreteará no espírito, se não na própria carne, o labéu de criminoso. E poderá contar com a solidariedade de espíritos humanitários ou com a fraternidade de almas piedosas? Como, se ninguém manifesta a mais simples comiseração? Tudo acontece por muito amor e excelsa devoção à sacrossanta competitividade dos mercados, livres já se vê, que se transmuda em predação tubarónica. É que tudo fomenta a rivalidade assanhada logo a partir do berçário, da creche, do infantário, do jardim‑escola. São os chamados ciclos de crescimento da economia a mascararem outras tantas inconstantes revoadas de exaustão capitalista, as quais farejam sem cessar as presas que hoje espoliam e amanhã enxotam e abandonam exangues. As poucas ideias incham e minguam ao ritmo das convulsões das omnipotentes cotações bolsistas, quais arritmias crónicas de apostadores compulsivos, sempre cheios de muitos nervos. É este o rumo do vendilhismo impudico.»

[Termina lá para sexta-feira…]

RIC