quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

II. Conversa da treta e paleio moderno…

Felizmente só terei de suportar este descalabro da inteligência nacional apenas mais uns dias… Depois, não terei de a ver. Posso voltar à minha torre de marfim...
Se me obrigassem a aturar este desvairo por mais tempo, juro que tudo faria para contrariar este meu atavismo de ficar aqui – quedo e mudo – e tentaria, finalmente, a minha sorte na emigração.
Já não há c… que aguente tanto disparate junto nos debates, nas sessões de esclarecimento, nas conversas informais, nos apontamentos noticiosos, nos mil e um éditos que há não sei quanto tempo já estou fartíssimo de ler neste, naquele e naqueloutro blogue… Basta!
Por todos os deuses juntos! Para quê?! Para rigorosamente NADA!
Como a capacidade persuasiva ronda o zero (já que os argumentos são sempre menos racionais – leia‑se entendíveis – e cada vez mais desesperados), na sua vasta maioria quem acha que sim, fica‑se pelo sim, quem acha que não, fica‑se pelo não… Curioso, não é?


"Ah portugueses, só vos faltam as qualidades!"

Almada Negreiros

Um referendo, tendo que ver apenas com a consciência de cada um, deveria estar ao abrigo deste descalabro folclórico e cretino das "campanhas eleitorais".
Deveria ser proibido sermos obrigados a assistir a tal pornografia/escropragia televisiva.
Abomino a estupidez e, mais ainda, quem e tudo o que a promove!
A nossa Constituição, já que não nos salva de uma Assembleia que se demite – convenientemente – de nos representar, deveria, ao menos, salvaguardar‑nos destes momentos tétricos a que não temos como fugir.
Estou já farto de ouvir tanto disparate junto! De parte a parte. E, perdoem‑me os mais jovens, mas os argumentos aduzidos são a prova provada de que nós, portugueses, continuamos de todo a não saber pensar. Bem pelo contrário! Pensa‑se em Portugal como se joga futebol – remata‑se e… logo se vê.
Se a História não me provasse cabalmente o contrário, diria que somos um povo incomensuravelmente estúpido. E eu seria um dos estúpidos.
Mas, pelos vistos, fazemos finca‑pé em permanecer – orgulhosamente sós – na cauda da Europa.
Então está bem! Se é assim que queremos, então depois não nos queixemos. Tudo o que não presta tem custos avultados… Ou isto é ainda novidade para alguém?

RIC

I. Da Guerra Colonial (2.ª parte)

E, assim, fui‑me convencendo de que nós, portugueses, éramos aquilo e só aquilo. Saudades, penas e lamentos. Qualquer data comemorada era um sombrio tempo de finados, e estávamos sempre a exaltar lutos sempiternos. A História Pátria, tal como a começava a compreender, existia enquanto louvor da morte para enaltecer áureos tempos há muito enevoados e egrégias figuras cujas biografias convinha não aprofundar muito, não se fosse descobrir que quase sempre a Pátria lhes fora madrasta. No Dia da Raça celebravam também o Poeta, que de si disse ser «aquele cuja Lira sonorosa / Será mais afamada que ditosa», (1) antevendo o que a morte lhe teria ocultado, não fora a clarividência exercitada no saber de experiência feito. Ele, o Príncipe dos Poetas, que empunhara «numa mão sempre a espada e noutra a pena», (2) acabara os dias na miséria esmolada de uma tença e sem a caridade de lhe terem dado um funeral.


Mas enfim, cinco séculos volvidos, um povo manietado e ingrato dedica‑lhe um monumental cenotáfio, um grandioso túmulo vazio, no Mosteiro dito dos Jerónimos, o de Santa Maria de Belém. O mesmo povo que tem passado a vida a remoer que mais vale tarde que nunca e continua, ainda e sempre, «metido numa austera, apagada e vil tristeza.» (3) Proclamara o Poeta que «esta é a ditosa pátria minha amada», (4) a celebrada «Ocidental praia lusitana», (5) que a pouco e pouco se foi distanciando cada vez mais do mar e se tornou, à vista de todos, um oásis moribundo, asfixiado por um deserto impiedoso que o foi cingindo em movediços enleios fatais. Por raro talento, os primeiros desbravadores, magnos navegadores, haviam rasgado caminhos para que outros fossem trilhá‑los, recostando‑se depois a fitar o longe e a lamuriar fados e saudades, que o muito engenho parece não ter dado para mais.

No Terreiro do Paço, praça de outros comércios, mães de negro, irmãs e jovens viúvas, em silêncio marcial, pareciam escutar os louvores e aceitar as medalhas a título póstumo, engolindo as lágrimas e sufocando as raivas, em vez de poderem apertar nos braços filhos, irmãos e maridos.


Neste cais de prantos de onde eles em armas
Foram matar pretos pelos seus senhores
Com cantares chamemos as frotas iradas
Que à guerra levaram os nossos amores.
Vêm os soldados e foram‑se as Áfricas,
São outras as guerras. Não mudam as dores.
(6)

E as dores não mudariam tão cedo, porque «tudo está bem assim e de outro modo não podia ser», como iam ainda papagueando os fiéis indefectíveis do regime em manifestações de júbilo que já não convenciam ninguém. O que tocassem conspurcavam, adulteravam ou maculavam, como o primeiro andamento da Sinfonia à Pátria de José Vianna da Motta, refém do susto e do pavor que espalhavam as alocuções ao país, intermináveis, abstrusas e bacocas. Ainda agora, ao ouvi‑la, esforço‑me por ultrapassar aquele primeiro andamento, para que não me venham à memória as penosas prelecções, as «conversas em família» de um regime primaveril que já só procurava ver o fim de um último inverno. Em tempos que então eram já distantes, o jubilado presidente do conselho do seu país‑concelho dera uma resposta eloquente a um fiel colaborador do mundo da música. «Não tenho dinheiro para os que choram, quanto mais para os que cantam.» Pois, pobretes mas alegretes. Sempre. E entre o Natal e o Ano Novo, uma doméstica televisão amestrada enchia‑se de «Adeus, até ao meu regresso», que fazia emudecer o desejo mais silente de festejar a quadra da família.
______________________________

(1) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X-128.7,8.
(2) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X-145.8.
(3) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, VII-79.8.
(4) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, III-21.1.
(5) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, I-1.2.
(6) Natália Correia, Cantigas de Amigo, I-3.ª estrofe.

RIC

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

«Orpheus und Eurydike»…

Christoph Willibald (von) Gluck (July 2.nd 1714 - November 15.th 1787) was a German composer, one of the most important opera composers of the Classical music era, particularly remembered for "Orfeo ed Euridice".
He is also remembered as the music teacher of Marie-Antoinette, who as Queen of France promoted Gluck and was his patron.
Some regard him as the father of the Rococo and Classical age of music – at least in Opera.
Gluck's reforms, eliminating all that was undramatic, were a turning point in the history of Opera.


Portrait by Joseph Siffried Duplessis, 1775, oil on canvas.
Kunsthistorisches Museum, Vienna.

Deutsche Fassung:

ORPHEUS
Ach, ich habe sie verloren,
all mein Glück ist nun dahin!
Wär, o wär ich nie geboren,
weh, dass ich auf Erden bin!
Eurydike, gib Antwort,
o vernimm mich!
O höre meine Stimme,
die dich ruft zurück!
Ach, vergebens!
Ruh und Hoffnung,
Trost des Lebens
ist nun nirgends
mehr für mich!

Versione italiana:

ORFEO
Che farò senza Euridice?
Dove andrò senza il mio ben?
Euridice!... Oh Dio! Rispondi!
lo son pure il tuo fedel!
Euridice... Ah! non m'avanza
Più soccorso, più speranza,
Ne dal mondo, ne dal ciel!
Che farò senza Euridice?
Dove andrò senza il mio ben?

Version française:

ORPHÉE
J'ai perdu mon Eurydice,
Rien n'égale mon malheur;
Sort cruel! Quelle rigueur!
Rien n'égale mon malheur!
Je succombe à ma douleur!
Eurydice… Eurydice…
Réponds, quel supplice!
Réponds-moi!
C'est ton époux fidèle!
Entends ma voix qui t'appelle.
Eurydice, Eurydice!
Mortel silence! Vaine espérance!
Quelle souffrance!
Quel tourment déchire mon cœur!

English version:

ORPHEUS
I have lost my Eurydice,
Nothing can equal my sorrow;
Brutal fate! What cruelty!
Nothing can equal my sorrow!
I succumb to my pain!
Eurydice, Eurydice,
Answer, what torture!
Answer me!
It is your faithful husband;
Listen to my voice calling you.
Eurydice, Eurydice!
Mortal silence! Vain hope!
What suffering!
What torment tears my heart!

«On their way out of Hades, Eurydice is delighted to be returning to earth, but Orpheus, remembering the condition related by "Amore", lets go of her hand and refuses to look at her. She reproaches him, but he must suffer in silence. Eurydice takes this to be a sign that he no longer loves her, and refuses to continue, concluding that death would be preferable. Unable to take any more, Orpheus turns and looks at Euridice; again, she dies.
He sings of his grief in the famous aria "I have lost my Eurydice"…»

RIC

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Da Guerra Colonial (1.ª parte)

Naqueles anos, em que tudo o que me rodeava ia ganhando todos os sentidos, fora já várias vezes com a minha mãe ao cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, donde partiam aqueles paquetes que me atraíam tanto e cujos nomes decorava para depois baptizar versões desenhadas: o Vera Cruz, o Infante D. Henrique, o Santa Maria, o Príncipe Perfeito, o Amélia de Mello largavam atulhados de homens fardados, soldados em devir, que deixavam no cais muitas mulheres aflitas, umas mais velhas, outras ainda muito jovens, que choravam, gemiam, desmaiavam, recuperavam os sentidos para de novo os perder, e iam acenando sempre com lenços muito brancos até o navio soltar amarras, zarpar Tejo fora e desaparecer pelo fim da tarde no horizonte, já bem ao largo, ofuscado pelo sol que se punha entre dois gigantescos pilares que, dia a dia, iam emergindo do fundo do Tejo e se alçavam ao céu como a implorar piedade.

Por entre aquelas mulheres, iam cirandando umas senhoras muito aperaltadas e muito atarefadas, que pareciam não querer tocar sequer com um dedo nos fios das vidas que ali se desenrolavam. Eram madrinhas de guerra, disse a minha mãe. Pertenciam ao famigerado movimento nacional feminino, vim a perceber mais tarde. Procurando amansar as emoções à flor da pele, iam prometendo à soldadesca atarantada visitas de apoio e encomendas das famílias e ofereciam‑lhes cigarros. Entre dentes, rosnavam censuras ao mulherio por ameaçarem quebrar o ânimo dos homens com tanta choradeira. «Vão servir a Pátria! Deviam estar orgulhosas!», ouvi duas ou três mais entradotas vociferar, de bocas escancaradas onde faiscavam repelentes antemolares e caninos de ouro. Mas o mulherio, entregue àquela hora de aflição máxima, não queria nada com as crenças, sabenças e sentenças daquelas sáfaras bem‑postas. As senhoras estariam imbuídas do espírito de uma missão qualquer que eu não podia conceber e, de cara lavada, andavam inquietas de um lado para o outro. Contudo, as mais jovens, não muitas e que eram as mais calmas, pareciam saídas de uma revista de modas. Quase todas de fato de saia e casaco, a que decerto chamavam «tailleur», exibiam com decoro uma abastança regrada em discretas blusas de seda, colares de pequenas pérolas subidos ao pescoço e diminutos brincos colados aos lóbulos das orelhas. As malinhas de mão condiziam com os sapatos, estes com saltos em bico de lápis e aquelas espalmadíssimas, como se um tractor as tivesse cilindrado. O que era mais ostensivo, contudo, eram os penteados e as maquilhagens. «Mises en plis» ou permanentes a quente enformavam cabelos armados com rolos, ripados, tufados e sustidos com muita laca. Nas caras havia pó‑de‑arroz de tonalidades ligeiramente bronzeadas e nos lábios, batom de tons acastanhados. Algumas, poucas, exibiam nas pálpebras uma sombra verde ou azul, muito esbatida. Seria tudo isto muito bonito de se ver e apreciar, não fora o confrangedor cenário em que decorriam aqueles desfiles. Rever de memória todas estas imagens revela‑se um reencontro mais fácil e imediato com as melhores cenas do melhor cinema de Fellini do que com aqueles embarques de infortúnio à beira‑rio. Tudo aquilo era assustadoramente espalhafatoso e acabrunhante.

Chorariam também os soldados, agora que já estavam longe da vista das mulheres? Diria que não se mo perguntassem, porque um homem nunca chora, repetiam‑me a torto e a direito. Mas achava que sim. E as mulheres, seria aquela a última vez que os viam? A muitos, decerto, pelo menos assim, tal qual partiam. Os que regressaram, ao longo de quase um infindo decénio e meio, nunca mais foram os mesmos que se haviam despedido com olhos brilhantes e joviais. Um primo, que suou a juventude num infecto mato, dois anos depois de ter partido com um sorriso inocente e ingénuo no olhar, voltou irreconhecível. Ora passava dias e dias trancado no quarto a chorar baixinho, como se uma dor funda e sem nome o afligisse sem alívio possível, ora atravessava delirante e descontrolado semanas a fio, sonhando acordado com impossíveis negócios irreais que nada tinham a ver com a engenharia civil que ia estudando. Poucos anos mais tarde, ainda com o curso por acabar, bebia a toda a hora, e os dias de choro baixinho foram cedendo a vez a acessos coléricos que se abatiam súbitos sobre o incauto mais próximo. Hoje arrasta a velhice precoce pelos corredores de um asilo de alienados, sem nunca ter vislumbrado um porto seguro nos muitos anos em que navegou errático por uma vida truncada de sentido.

Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres com um choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperação e frio medo
De já não nos tornar a ver tão cedo.

Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
(1)

Num império a manter a todo o custo, os sobreviventes estiveram muito para lá do humanamente suportável. Por cá, foi o silêncio, a dor, a resignação e a morte chorada entre dentes com a raiva da incompreensão. Cheguei a pensar, quando as leituras liceais me fizeram conhecer o Épico, que a História afinal podia repetir‑se, uma ilusão conveniente ao ser humano, a qual lhe conferiria poder sobre a sua condição: quanto mais os acontecimentos se assemelhassem, maior seria a impressão de domínio sobre o destino ou o fado. Mas era apenas uma ilusória coincidência.
____________________________

(1) Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, IV-89 e 93.

[Na Quarta‑feira, a 2.ª parte.]

RIC

domingo, 28 de janeiro de 2007

II. «What language I should learn». Yeah, sure!

You Should Learn French!

C'est super! You appreciate the finer things in life... wine, art, cheese, love affairs.

You are definitely a Parisian at heart. You just need your tongue to catch up...


I'm such a crazy fool!
I do know by now these tests are as unbelievable, ridiculous, and completely reality unrelated as can be, but even so I cannot help taking one or two every now and then…
Here's the result of today's foolishness of mine…!
Just to get things straight, French IS my first foreign language. I started learning it when I was about eight years old!
Judging by its result, isn't this test amazingly accurate…?
Maybe it will work for you… One never knows how different things can get, I believe.

Perhaps I should have taken another test if only I had found it:

«What Language Should You Learn NEXT?»... (Lol!)

RIC

I. Pérolas de humor com sabor alentejano…


Subi acima duma árvori
Pra ver se te via.
Como nã te vi,
Desci‑a.

Atirê um limão rolando,
À tua porta parou.
Depois fiquê pensando…
Será que o cabrão se cansou?

Ê vi‑te no tê jardim,
Andavas panhando hortelã.
Ê cá gosto de ti,
E tu, hã?!

Subi a um ecaliptre
Co tê retrato na mão.
Desencaliptrê‑me lá de cima,
Malhê cos cornos no chão.

Perdi a nha caneta,
Lá pròs lados da várzea.
Se lá fores e a vires…
Traze‑a!

Estas quadras foram coligidas pela ex‑colega e boa amiga Helena, alentejana de Serpa, que mas ofereceu por ocasião de um aniversário meu. Estava bem precisado de dar umas gargalhadas, e o efeito provocado não se fez esperar. Tal como agora!
Divirtam‑se!

RIC

sábado, 27 de janeiro de 2007

«Sol de Inverno»…


Sabe Deus que eu quis
Contigo ser feliz,
Viver ao sol do teu olhar,
Mais terno.
Morto o teu desejo,
Vivo o meu desejo,
Primavera em flor
Ao sol de Inverno.

Sonhos que sonhei
Onde estão?
Horas que vivi
Quem as tem?
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém?

Beijos que te dei
Onde estão?
A quem foste dar
O que é meu?
Vale mais não ter coração
Do que ter e não ter, como eu.

Eu em troca de nada
Dei tudo na vida,
Bandeira vencida
Rasgada no chão,
Sou a data esquecida,
A coisa perdida
Que vai a leilão.

Sonhos que sonhei
Onde estão?
Horas que vivi
Quem as tem?
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém?

Vivo de saudades, amor,
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor.


Simone de Oliveira vence o Festival RTP da Canção de 1965 com este belíssimo tema – "Sol de Inverno" –, de Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança.
Representa Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em Nápoles, a 20 de Março de 1965, vencido por France Gall representando o Luxemburgo com a canção "Poupée de cire, poupée de son".

Como este sol de Inverno, não tenho calor…

Simone de Oliveira wins the RTP Song Contest of 1965 with this most beautiful melody – "Winter Sunshine" –, of Nóbrega e Sousa and Jerónimo Bragança.
She represents Portugal in the Eurovision Song Contest, in Naples, on March 20.th 1965, won by France Gall representing Luxemburg with the song "Poupée de cire, poupée de son".

Like this winter sunshine, I feel no warmth…

RIC

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Dianne Reeves, «Strings Attached»


25 de Janeiro de 2007
21:00
Grande Auditório
Duração: 1:30 (sem intervalo)

«Dianne Reeves é hoje considerada uma das mais directas sucessoras das grandes vozes femininas do jazz: Sarah Vaughan, Billie Holliday ou Dinah Washington.
A cantora norte-americana iniciou a sua carreira no final dos anos setenta, mas foi na década de oitenta que viu reconhecido o seu virtuosismo, tornando-se a primeira vocalista a assinar contrato com a editora Blue Note/EMI.
"Good Night, and Good Luck", a banda sonora original do filme homónimo (2005) realizado por George Clooney, relançou a carreira da diva do jazz, logo após ter recebido o Grammy para Melhor Interpretação de Jazz.
O sucesso de vendas e o novo disco que a cantora gravou com o duo que a acompanha esta noite em palco justificam o seu regresso a Portugal.»

Eh pá! O espectáculo foi o máximo! E um dos vários bis foi… "Misty"!… É preciso dizer mais alguma coisa?

Dianne Reeves is today considered one of the immediate successors of great feminine voices of jazz as Sarah Vaughan, Billie Holliday or Dinah Washington. The North‑American singer initiated her career by the end of the 70s, but it was in the 80s that she saw her virtuosity recognized, becoming the first vocalist to sign a contract with Blue Note/EMI publishing company.
"Good Night, and Good Luck", the original soundtrack of the homonymous film (2005) directed by George Clooney, relaunched the jazz diva's career, soon after she received the Grammy for Best Jazz Interpretation.
The selling success and the new album the singer has recorded with the duo that accompanies her on stage tonight justify her coming back to Portugal.

Oh man! The show was great! And one of the several encores was… "Misty"…! Do I need say more?

RIC

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Ao Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques


António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques (São Pedro do Estoril, 23.8.1933 - Lisboa, 23.1.2007) foi um emérito historiador português.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com a tese "A Sociedade em Portugal nos Séculos XII a XV" (1956), estagiou na Universidade de Würzburg, Alemanha, e doutorou‑se na Universidade de Lisboa com a tese "Hansa e Portugal na Idade Média" (1970), onde passou a leccionar.

Durante a ditadura do Estado Novo, Oliveira Marques foi afastado por motivos políticos. Viu-se na obrigação de se exilar nos Estados Unidos da América, onde leccionou em várias universidades, como a Universidade de Alabama, depois como catedrático, leccionou na Universidade da Florida, Columbia e Minnesota (1970), entre outras. Para muitos, é um dos melhores historiadores portugueses, em especial no que diz respeito à Idade Média.
Em 1970 regressou a Portugal, reingressando na universidade portuguesa depois do 25 de Abril de 1974. Foi director da Biblioteca Nacional de Lisboa (1974-1976), professor catedrático (1976) da Universidade Nova de Lisboa e presidiu à comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas dessa Universidade.

Foi então que tive o prazer e a honra de conhecer o Professor. Embora não fosse estudante de História, tive o privilégio de testemunhar alguns momentos que hoje fazem já parte da História da instituição. Recordo com saudade algumas conferências abertas a toda a Faculdade…

Dedicou o seu trabalho a estudos sobre duas épocas da historiografia portuguesa – a História Medieval e a História da República.
Em 1982, em comemoração dos 25 anos da publicação do seu primeiro estudo histórico, foram editados dois volumes com colaboração de historiadores portugueses e estrangeiros e intitulados "Estudos de História de Portugal: Homenagem a A. H. de Oliveira Marques".
Maçom desde 1973, foi eleito Grão-Mestre adjunto (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-1994)

Entre a sua vasta obra, conta-se:

– "História de Portugal" (já com 13 edições), publicada inicialmente em dois volumes refundidos e depois em três tomos (1981) e que foi traduzida em várias línguas (castelhano, francês, inglês, japonês e polaco).
– "A Sociedade Medieval Portuguesa: aspectos da vida quotidiana", em que faz uma análise sobre a vida em Portugal durante a Idade Média.
– "Nova História de Portugal" (coordenador, em parceria com Joel Serrão).
– "Nova História da Expansão Portuguesa" (coordenador, em parceria com Joel Serrão).
– "História dos Portugueses no Extremo Oriente"
(coordenador).
– "História da Maçonaria em Portugal".

O Professor Oliveira Marques faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vitimado por problemas cardíacos, no Hospital de Santa Maria.

R. I. P.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Marguerite Yourcenar in Memoriam


Je doute que toute la philosophie du monde parvienne un jour à abolir l'esclavage; on en changera tout au plus le nom.

"Mémoires d'Hadrien"/"Memoirs of Hadrian"

I doubt that all the philosophy of the world manages one day to abolish slavery; at most its name will be changed.


Marguerite Yourcenar was the pseudonym of French novelist Marguerite Cleenewerck de Crayencour (June 8.th 1903 - December 17.th 1987).

Yourcenar was born in Brussels, Belgium, and educated privately to a prodigious standard at her father's estate in northern France. Her mother died ten days after Marguerite was born due to complications.

Yourcenar read Racine and Aristophanes by the age of eight and her father taught her Latin at ten, and Greek at twelve.


Her first novel "Alexis, ou le traité du vain combat" was published in 1929. Her intimate companion at the time, a translator named Grace Frick, invited her to America, where she lectured in comparative literature in New York City. She and Frick became intimate friends/lovers in 1937, and would remain so until Frick's death in 1979.

In 1951 she published, in France, the French-language novel "Mémoires d'Hadrien" (translated as "Memoirs of Hadrian"), which she had been writing with pauses for a decade. The novel was an immediate success and met with great critical acclaim.

In this novel Yourcenar recreated the life and death of one of the great rulers of the ancient world, the Roman Emperor Hadrian, who writes a long letter to Marcus Aurelius, his successor and adoptive son.
The Emperor meditates on his past, describing his triumphs, his love for Antinous, and his philosophy.

This novel has become a modern classic, a standard against which fictional recreations of Antiquity are measured.

Yourcenar was elected as the first female member of the Académie Française, in 1980. One of the respected writers in French language, she published many novels, essays, poetry, and three volumes of memoirs.
She lived much of her life at Petite Plaisance in Northeast Harbor on Mount Desert Island, Maine, USA.
Petite Plaisance is now a museum dedicated to Yourcenar's memory.

There's just no way for me to tell you how immensely beautiful the words she has put in Hadrian's mouth are… You'll have to judge for yourselves, believe me!

RIC

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

O Mito de Europa Revisitado

Corria o Ano da Graça de 1554. Havia dois anos que meneer Kremer, que a História viria a conhecer e consagrar como Gerardus Mercator, se encontrava em Duisburgo ao serviço de Guilherme, Duque de Jülich e Kleve. Aos quarenta e dois anos, a idade começava a pesar‑lhe como chumbo, e a facilidade com que atravessara Invernos rigorosos estava para sempre perdida. Ultrapassara há muito aquele limite, a partir do qual se tem a certeza de que já se viveu mais do que resta viver, e punha os olhos, não sem uma pontinha de inveja, no corpo jovem, robusto e musculoso do seu filho Rumoldo, sobre o qual o frio intenso parecia não ter qualquer efeito. A sua infância, ao contrário da do seu herdeiro, e felizmente para ele, fora particularmente penosa. Nascera filho de sapateiro, em Rupelmonde, próximo de Antuérpia. Mas cedo revelou especial inclinação para os estudos, o que o salvou da miséria certa, graças ao zelo do seu tio Gisbert. Aos vinte e cinco anos era leitor em geografia e astronomia na Universidade de Lovaina.

Estava uma noite invernosa das mais rigorosas, e meneer Kremer deu as boas noites ao filho, recomendando‑lhe toda a atenção à lareira do quarto, e recolheu‑se enregelado. Há uma semana que não parava de nevar, e as temperaturas diurnas caíam para valores cada vez mais temíveis. Toda a Duisburgo estava coberta de um espesso manto de neve que, nalgumas zonas mais afastadas da influência amena do Reno, que teimava em continuar a correr, se transformara em grandes placas de gelo resistentes a qualquer tentativa de as despedaçar. Os habitantes já não sabiam o que haviam de fazer para diminuir o sofrimento que, aos poucos, ia passando dos espíritos para os corpos. Nenhum ancião se lembrava de alguma vez ter passado por um Inverno tão implacável. Na noite anterior, porque não se haviam protegido eficazmente da temperatura impiedosa, alguns dos habitantes mais velhos e mais ilustres da cidade haviam morrido de frio. Foram encontrados congelados até aos ossos, nos seus leitos de morte.

Meneer Kremer recolhera‑se bastante apreensivo, não sem primeiro haver lançado um olhar cuidadoso ao fogo que ardia na lareira do quarto e certificar‑se de que, no canto costumado, se encontrava lenha bastante para a manter acesa até de manhã. Apercebeu‑se ainda de que, apesar do vento gélido que soprava lá fora, o quarto estava a uma temperatura que podia considerar agradável. Antes de se meter na cama, passou os olhos por um velho tratado de cartografia, que o ocupava há já algum tempo, desde que aceitara a encomenda do Cardeal Arcebispo de Mechelen e Bispo de Arras, Antoine Perrenot de Granvelle, conselheiro de Carlos V. Pouco inspirado para leituras, posou o pesado volume sobre a mesa de trabalho, enfiou‑se entre as mantas e soprou a chama da vela. Com a sua idade, em breve seria considerado um ancião. Dos que haviam morrido na noite anterior, poucos eram mais velhos do que ele. E entre os trinta e cinco e os quarenta anos, muitos dos que haviam levado uma vida afoita e desregrada eram já realmente velhos. Receoso, deu‑se conta do sono a chegar, mas sentindo‑se bem aquecido pelo fogo e pelas espessas mantas, rendeu‑se‑lhe.

À sua volta começava a sentir um reconfortante calor que, estranhamente, nada parecia ter a ver com a temperatura ambiente. Era um calor que reavivava os sentidos. Sentia‑se rejuvenescer. Seria decerto um calor interior, que viria da alma ou do coração. Julgando‑se alvo de uma qualquer partida que os sentidos entretanto lhe pregassem, redobrou a atenção e olhou à sua volta. Como tivesse medo de alguma alucinação, esfregou os olhos com força e começou a ver miríades de luzes, mesmo de olhos fechados. Quando julgou que os abrira, deu consigo a percorrer uma qualquer galeria do que lhe parecia ser uma casa senhorial, talvez um palácio de um nobre onde jamais estivera. A galeria era longa e estava bem iluminada por grandes tochas que se dispunham em grupos de três, cada um sobre sua mesa. Haveria mais de dez mesas ao longo daquela galeria. Como era habitual, apresentava as paredes recobertas de belos retratos ao estilo da época e de algumas tapeçarias. Achou por bem observar atentamente os retratos expostos. Talvez pudesse concluir alguma coisa sobre o local para onde, sem saber como, havia sido trazido.



O Rapto da Europa, Rembrandt Harmenszoon van Rijn, 1632
(óleo sobre madeira)

E assim fez. O primeiro representava uma bela mulher ainda jovem, de corpo inteiro e ricamente vestida. Toda a luz que inundava a tela parecia desprender‑se da sua figura, pormenor que não lhe escapou, por tão invulgar. O segundo era o retrato de uma mulher também jovem, a três quartos, vendo‑se apenas o busto. Era um verdadeiro retrato. O pormenor que desde logo lhe chamou a atenção, pela estranha beleza, foi a brancura do rosto. Não se tratava da palidez de uma jovem adoentada, antes de um belo rosto alvo como o plenilúnio de Agosto. E continuou caminhando pela galeria. Mais adiante, outro retrato. Desta vez, o de um homem talvez com trinta anos, cuja principal característica era o tom da pele, de um moreno muito intenso. Dir‑se‑ia um levantino, talvez da Anatólia ou da Terra Santa. Ao fundo, viu uma ave exótica que lhe pareceu ser uma fénix. Começava a ficar intrigado com aquele inesperado desfile. Em seguida, dispostos lado a lado, surgiram três retratos masculinos. O primeiro era certamente o de um rei ou de um príncipe. O porte e o olhar altivos, as finas roupagens e as muitas jóias, tudo apontava nesse sentido. Ao fundo do quadro, apercebeu‑se do que lhe parecia ser um jardim. Mas era um estranho jardim quase sem flores, apenas com sebes que formavam entre si corredores, muitos e cruzados, como se de um labirinto se tratasse. O quadro ao lado retratava também uma figura principesca, porém, sem nada de invulgar que o distinguisse. O terceiro representava igualmente algum nobre, que decerto se haveria notabilizado no exercício das leis, a julgar pela indumentária e pelos muitos volumes que o rodeavam. Comparando as feições dos três homens, não lhe foi difícil alvitrar que deveriam ser parentes. Então tentou relacioná‑los com os outros retratos daquela galeria. À medida que caminhava, a certeza de que seriam membros da mesma família ia aumentando. Percebeu que estava a chegar ao final daquele corredor, mas não conseguia ainda vislumbrar o que se encontrava para lá da zona de penumbra, onde a galeria parecia terminar. E foi pensando que os retratos que geralmente estão expostos em casas senhoriais representam, quase sempre, membros da mesma família.

Chegara entretanto ao final da galeria, que desembocava num estranho salão de grandes dimensões, redondo, mal iluminado e coberto de uma enorme cúpula muito alta, que tornava de reduzidas dimensões tudo o que se encontrava ao nível do chão de pedra. Tentando habituar‑se à obscuridade, entrou e entreviu um objecto gigantesco no centro do salão. Avançou e apercebeu‑se de que era uma estátua toda em bronze, que representava um vigoroso guerreiro vestido e armado à moda antiga. Porém, ao querer prosseguir, estacou subitamente. Primeiro, porque a seus pés, como vindo do nada, estava um mastim que, apesar de parecer adormecido e de tamanho razoável, tinha um ar feroz. Ficou perturbado. Depois, porque lhe chegou o cheiro do mar, um cheiro salgado e intenso como há muito não sentia, desde que deixara a sua Antuérpia natal, na sua saudosa Flandres. Lembrou‑se então do forte vento do norte que todos os Invernos varria a sua muito amada Lovaina. E assim se deixou embalar pelas recordações até que, de repente, avistou uma mulher sentada num nobilíssimo cadeirão. Ao lado, encostada a uma coluna que parecia pertencer a um baldaquino que ele julgava apenas entrever, estava uma lança antiquíssima.

A mulher levantou‑se e fez‑lhe sinal para que se aproximasse. Não conseguia ainda distinguir o seu rosto, mas o corpo, envolto em finíssimos tecidos, era jovem, esbelto, vigoroso e parecia ágil. Quando se encontrava já próximo, pôde vislumbrar a face de uma mulher jovem de raríssima beleza. Fascinado com o que os olhos lhe ofereciam, não se conteve e perguntou‑lhe quem era. Impávida, a jovem mulher olhou‑o fixamente, distante. Então, a luminosidade no salão aumentou, e uma suave brisa tépida começou a soprar. Pela abertura da cúpula pôde ver um céu nocturno, límpido e estrelado, que lhe permitiu calcular a proveniência da brisa. Soprava de leste. Ao mesmo tempo mantinha‑se, e até se intensificava, o odor intenso a maresia, de uma incrível frescura. Observando mais atentamente, reparou que em torno do cadeirão, espalhadas pelo chão, havia lindíssimas flores, muitas e variadas. Mais à frente, cobrindo uma boa parte do chão de pedra, estendia‑se o que se assemelhava a uma grande pele de bovino, com um recorte que não lhe era estranho, conquanto a posição lhe parecesse invertida. Seria possível?! Se a pele tinha a forma recortada do continente, então aquela mulher só poderia ser… E nesse relance em que identificou os retratados, a bela mulher surgiu a seu lado e, com a cabeça, assentiu. Meneer Kremer ficou extasiado e incapaz de articular palavra. Sabia pouco de mitologia, é certo, mas com a rapidez de um relâmpago concluiu que aquela pele só poderia ser a de Zeus, que se transformara em touro para raptá‑la. A ela, Europa. O que, porém, não podia saber é que ele a deixara ali, com aquele recorte, quando decidiu partir de vez. Terá sido o sinal de que jamais voltaria para junto dela.

Lindíssima história, pensou. E apercebendo‑se de que ele compreendera já tudo, a bela mulher tomou‑lhe o braço e disse‑lhe num tom de voz de uma impressionante suavidade.
«É para mim claro que já haveis entendido por que estais aqui. Só vós reunis as qualidades necessárias à tarefa que vos aguarda e da qual ora vos incumbo. Gravai em vossa mente, como se no cobre o fizésseis, todos os contornos desta amantíssima pele que aqui vedes. Cada um deles é precioso, pois que está indissoluvelmente ligado a cada instante de minha vida e é nobre parte de meu corpo. Bastará que a contempleis uma só vez mais e tereis em vós o ponto de partida para obra da maior dignidade, cujo labor preencherá vossa vida até ao fim de vossos dias.»
Dito isto, a mulher afastou‑se, e meneer Kremer desviou o olhar da figura feminina para a pele, que se encontrava agora na posição correcta e que ele observou por um brevíssimo instante. Quando isto fez, a luminosidade diminuiu e deixou de ver a bela mulher. Olhou em volta, com a visão transtornada por uma claridade diferente. Já era madrugada, e os primeiros raios de sol em muitos dias irrompiam pelo quarto, que se mantivera a uma temperatura quase primaveril. Na lareira, o fogo crepitava ainda e, lá fora, deixara de nevar e o céu mostrava‑se límpido e azul. No ar do seu quarto, meneer Kremer não se enganou quando reconheceu, sem equívoco, o delicioso odor a uma saudosa maresia.

[Meneer/mijnheer (Neerlandês): senhor.]

Sobre o mito de Europa, clique nesta palavra –
On the myth of Europa, click on this word – Wikipedia

RIC

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

II. From «Antinous»…

The rain outside was cold in Hadrian's soul.

The boy lay dead
On the low couch, on whose denude whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.

The boy lay dead, and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight of what he was was dead and dim.

[…]

Antinous is dead, is dead for ever,
Is dead for ever and all loves lament.
Venus herself, that was Adonis' lover,
Seeing him, that newly lived, now dead again,
Lends her old grief's renewal to be blent
With Hadrian's pain.

[…]

«Love, love, my love! thou art already a god!
This thought of mine, which I a wish believe,
Is no wish, but a sight, to me allowed
By the great gods, that love love and can give
To mortal hearts, under the shape of wishes –
Of wishes having undiscovered reaches –,
A vision of the real things beyond
Our life-imprisoned life, our sense-bound sense.
Ay, what I wish thee to be thou art now
Already. Already on Olympic ground
Thou walkest and art perfect, yet art thou,
For thou needst no excess of thee to don
Perfect to be, being perfection.»

[…]

His head was bowed into his arms, and they
On the low couch, foreign to his sense, lay.
His closed eyes seemed open to him, and seeing
The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning.
His hurting breath was all his sense could know.
Out of the falling darkness the wind rose
And fell; a voice swooned in the courts below,
And the Emperor slept.

The gods, came now
And bore something away, no sense knows how,
On unseen arms of power and repose.

Lisbon, 1915
Fernando Pessoa

I. «Num meio-dia de fim de primavera»…


[…]

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega‑me tu ao colo
E leva‑me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta‑me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Duas últimas estrofes do poema VIII de
«O Guardador de Rebanhos»
Alberto Caeiro

Muito obrigado ao Mr. Teddy Bear por me ter relembrado do Mestre!...

RIC

domingo, 21 de janeiro de 2007

Exortação à assembleia…

Verifiquei recentemente um aumento significativo da presença de portugueses entre os amigos bloguistas que têm vindo a acompanhar‑me desde Julho passado. Ainda bem! Fico feliz, e é para mim uma honra. Alguns passaram a integrar a lista de eleitos (à direita), porque é para mim um prazer lê‑los com regularidade.

Entrei para a blogosfera como entrou qualquer um que está neste momento a ler‑me: de livre e espontânea vontade. Estou nela de livre e espontânea vontade e sairei dela, quando me aprouver, também de livre e espontânea vontade. Excepção feita às amizades já travadas, nada nem ninguém me obriga a estar aqui. Estou aqui enquanto quiser, porque quero e como quero.

Não posso, assim, aceitar paternalismos explícitos ou implícitos por parte de ninguém; primo, porque já não tenho idade para palmadinhas nas costas; secundo, porque em boa verdade nunca as admiti a ninguém. Nem sequer ao meu próprio pai.

Ao ter criado este blogue, fiz escolhas e defini princípios que só a mim dizem respeito. Não tenho de os enunciar – nem tão‑pouco justificar – perante ninguém. A orientação geral que lhe imprimo é aquela que pretendo que prevaleça. Quem não se sentir à vontade ou confortável com a mesma tem muito bom remédio…

Nunca surgiram "problemas" decorrentes de intervenções anónimas. Numa dinâmica de respeito mútuo, tento compreender caso a caso o que leva alguém a manifestar‑se dessa forma. Esse mesmo respeito, porém, esfuma‑se por completo no preciso instante em que tais intervenções se realizam sob o signo da cobardia, da mesquinhez e da estultícia gratuita.

Não tenho quaisquer pretensões a cosmopolita porque sei que não o sou, apesar de, como sói dizer‑se, "já ter visto mundo". Conhecedor que sou da cultura e da mentalidade portuguesas, dos seus péssimos defeitos e das suas excelentes virtudes, declino liminarmente quaisquer conselhos bem-intencionados sobre como deverei encarar e o que deverei ou não pensar de ambas as realidades. Apesar de míope, o meu poder de observação e de análise é tão bom e tão válido como qualquer outro.

Troquemos entre todos tudo o que pudermos trocar – é esta uma das maiores riquezas deste espaço de partilha, senão mesmo a maior. Creio que é por isso e para isso que aqui estamos. Mas, por favor, que ninguém me diga "vem por aqui".

Cântico Negro

"Vem por aqui" – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

[…]

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

[…]

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

[…]

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Tudo devidamente salvaguardado, não pretendo apropriar‑me deste excerto do poema de José Régio para dele fazer uma fala minha que vos seja dirigida. De todo!
É apenas o meu jeito de dizer que o meu caminho faço‑o eu caminhando.
É sempre bem‑vindo quem vier por bem, e será sempre muito bem acolhido!
Muito obrigado pela vossa compreensão!

RIC

sábado, 20 de janeiro de 2007

Portugal's 7 Wonders…

Beloved blogger friends,
Esteemed members of the "Happy Few Club",
Dear readers,

I hereby invite you all to a journey that will take us on a visit to 7 of the 21 national monuments considered eligible to a place among the 7 best in the country. I have made my choices, and here are my final results.
I could have made other choices indeed, truth be told. However, I've tried to take into account different architectural styles and different periods of Portuguese History.

The main conclusion? Choices are never easy…
So let's get started right now!

Jerónimos Monastery (detail), my closest neighbour. (Am I lucky or what?!)

Belém Tower (detail): unique in the whole world, it's an accomplished example of the 16.th century Manueline architectural style with military purposes

Pena National Palace, 19.th century, a romantic architectural jewel in romantic Sintra, nearby Lisbon

On an island in the mid-course of the Tagus we find Almourol castle, a medieval fortress. No words can describe the wondrous view from the top of its walls

Nearby, Christ Convent at Tomar, and its most precious Manueline window

After the victory at the battlefield of Aljubarrota over the Castilians, D. João I had this monastery built nearby – Saint Mary of Victory – in Portuguese late Gothic style

… And our journey is finally going to take us to Coimbra, where we'll visit the Roman ruins of Conímbriga, a very well preserved archaeological site, the very birthplace of the university city of Coimbra.


As to the 14 remnant monuments, all I can tell you is that they're all worth a place among the final 7, because they all do deserve it for one reason or another.
I give you the list, just in case you may want to search for yourselves and to establish your own «Portugal's 7 Wonders» list. I believe you should! And if you're a Portuguese yourself I'm sure you should vote as well! Just go to www.7maravilhas.pt

Castelo de Guimarães
Castelo de Marvão
Castelo de Óbidos
Convento e Basílica de Mafra
Fortaleza de Sagres
Fortificações de Monsaraz
Igreja de São Francisco do Porto
Igreja e Torre dos Clérigos
Mosteiro de Alcobaça
Paço Ducal de Vila Viçosa
Universidade de Coimbra
Palácio de Mateus
Palácio Nacional de Queluz
Templo Romano de Évora

Enjoy your weekend!

RIC

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Geografias da Vida…

Mesmo que decorram só em sonho, todas as viagens valem sempre tudo o que encerram e desvendam. Vezes há, menos frequentes que o desejável, em que é a senda dos sonhos a levar‑nos. Quanto mais o sonho se entrevê distante e intocável, e a senda mais se assemelha a uma miragem que surge repentina para logo se sumir, mais o perseguimos como se de todos fosse o mais fácil de alcançar. É tal o desejo de que as aspirações de juventude tenham sido genuínas que, com os anos, nem nos damos conta, apesar de tudo, de que mais não somos que os revisionistas da nossa própria história pessoal. Sempre. Malgré nous. O futuro é certo, o passado é que está sempre a mudar.

O viajante é aquele que conhece sempre outros mapas e outras cartas, outros roteiros e outros itinerários, cujas coordenadas só ele domina. Há uma Geografia Imaginosa que o orienta por espaços interiores de evasão, que se vão construindo e alargando à medida que as visitas de reconhecimento lhe vão cartografando o espírito e a mente. É um saber precioso que o viajante acumula ao longo de uma vida. Há depois uma Geografia Maravilhosa que o estimula a apreciar todas as belezas visíveis e invisíveis dos quatro cantos do mundo. É com ela que a alma do viajante vai aprendendo a dirigir o olhar para o que verdadeiramente mais importa e a valorizar o que as paisagens revelam do toque talvez divino que as moldou. É um saber quase místico do viajante solitário que se vai embrenhando nos pequenos segredos que estão por toda a parte e que ele vai aprendendo a interpelar e a desvendar. São etéreos caminhos de viagens filosóficas. Por fim, há a Geografia Rigorosa, a ciência dos espaços terrestres, que a escola e os livros ensinam antes de o viajante se aventurar de peito aberto pelos caminhos do mundo. É um saber teórico que se vai fazendo prático e ordena os passos de quem percorre o mundo em busca de si e do outro, do igual e do diferente para, crescendo sempre, assimilar todas as possíveis dimensões do planeta e das suas gentes. E no fim do caminho sem fim, as três Geografias são o único tesouro infinito que jamais riqueza alguma poderá igualar.


Paris é metrópole que ainda atrai, fascina e seduz quer turistas quer viajantes, mas há muito deixou de ser aquele lugar mítico a que se acorria ansiosamente em busca de tudo o que faltava, mesmo do pão para a boca. Ia‑se a salto adensar subúrbios franceses de bidonvilles. Abandonava‑se este espaço de sombras, onde a noite tremenda se mantinha dona e senhora de um estéril estado de irreal hibernação. Um imenso vácuo de tudo repelia os muitos que se aventuravam a orbitar os autênticos astros de luz e de vida. Cada um que se lançava à aventura reiterava a ascensão da sombra à luz.

E «o dia livre e claro» surgiu, e de fontes ressequidas jorraram utopias e sonhos que várias gerações juntas fizeram seus, perseguiram e concretizaram como sabiam e podiam. Ou não souberam e não puderam. Não sei rememorar este tempo de outro modo. Que se tenha chamado Revolução e assim o tenha vivido é agora mais motivo de dorido esgar de resignação que de lamento por uma oportunidade rechaçada. «A revolução já acabou. Naquele país só há ódio», desabafou Jorge de Sena regressado ao exílio da Califórnia. Hoje, que o sol já vai bem alto sobre esse horizonte, sobejam migalhas do pão farto avidamente devorado, restam escorropichos do vinho generoso sofregamente engolido e tudo está amorfamente reconduzido a uma nova ordem de mitos avulsos e baços, iguais a coelhos a saltarem das cartolas de uma ubíqua tecnologia, de que muitos têm pressa de usufruir sem pensar, mas de que só alguns gozam em pleno. Acaso só aqueles que nunca souberam o que significa ter de ansiar pelo «dia livre e claro». Para quem a noite era, é e será sempre luz bastante.

Em vez dos lugares míticos há hoje espaços de desejo, de ambição e de ganância, para onde não se viaja guiado por nenhuma das três Geografias, aos quais basta apenas aceder por um clicar de teclas e onde Paris tem a mesma cotação de Tombuctu, Cancún ou Banguecoque, onde o quotidiano de um turista é o clone perfeito de milhentos outros. Como tudo o que reflui a um estado imposto de repouso e esquecimento apenas aparentes, também os autênticos astros de luz e de vida permanecem expectantes, na certeza de que o sol destes dias é o sol virtual deste Inverno planetário e que hão‑de resistir e renascer nos vislumbres dos novos caminhos para outros lugares míticos, que haveremos de percorrer logo que a coragem seja bastante para desligar este sol enganoso e doentio. Como em muitos actos da vida, há que accionar o botão certo no momento certo, mas para várias gerações esta espera é já a eternidade. Entretanto, paira no ar um aliciante aroma a futuro novo.

Talvez Paris não volte a ser o nosso lugar mítico, mas outro «dia livre e claro» há‑de enfim nascer. Tudo o que chega parte. Voltará decerto a haver pão farto e vinho generoso.

RIC

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Curzio Malaparte – the man, and the writer

(June 9.th 1898 - July 19.th 1957)

Kurt Erich Suckert was an Italian journalist, dramatist, short-story writer, novelist and diplomat.
His chosen surname, which he used since 1925, means "he of the bad place" and is a pun on the word "Bonaparte".
Born in Prato, Tuscany, to a Lombard mother and a German father, he was educated at Collegio Cicognini and at the La Sapienza University of Rome.
In 1918 he started his career as a journalist.

Malaparte fought in WWI, earning a captaincy in the 5.th Alpine Regiment and several decorations for valour and in 1922 took part in Benito Mussolini's March on Rome. In 1924, he founded the Roman periodical "La conquista dello stato" (The Conquest of the State). As a member of the Partito Nazionale Fascista, he founded several periodicals and contributed essays and articles to others, as well as writing numerous books, starting from the early 1920s, and directing two metropolitan newspapers. In 1926 he founded with Massimo Bontempelli the literary quarterly "900". Later he became a co-editor of "Fiera Letteraria", and an editor of "La Stampa" in Turin.

His confessional war novel, "La rivolta dei santi" (1921), criticized corrupt Rome as the real enemy. In "Tecnica del colpo di stato" (1931) Malaparte attacked both Adolf Hitler and Mussolini. This led to Malaparte being stripped of his National Fascist Party membership and sent to internal exile from 1933 to 1938 on the island of Lipari. He was freed on the personal intervention of Mussolini's son-in-law and heir apparent Conte Galeazzo Ciano. Mussolini's regime arrested Malaparte again and imprisoned him in Rome's infamous jail Regina Cœli.

His remarkable knowledge of Europe and its leaders is based upon his experience as a correspondent and in the Italian diplomatic service. In 1941 he was sent to cover the Eastern Front as a correspondent for "Corriere della Sera". The articles he sent back from the Ukrainian fronts, many of which were suppressed, were collected in 1943 and brought out under the title "Il Volga nasce in Europa" (The Volga Rises in Europe). This experience provided the basis for his two most famous books, "Kaputt" (1944) and "The Skin" (1949).

"Kaputt", his novelistic account of the war, surreptitiously written, presents the conflict from the point of view of those doomed to lose it. Malaparte's account is marked by lyrical observations, as when he encounters a detachment of Wehrmacht soldiers fleeing a Ukrainian battlefield:
"When Germans become afraid, when that mysterious German fear begins to creep into their bones, they always arouse a special horror and pity. Their appearance is miserable, their cruelty sad, their courage silent and hopeless."

According to the editorial note of "The Skin": "Malaparte extends the great fresco of European society he began in "Kaputt". There the scene was Eastern Europe, here it is Italy during the years from 1943 to 1945; instead of Germans, the invaders are the American armed forces. In all the literature that derives from the WWII, there is no other book that so brilliantly or so woundingly presents triumphant American innocence against the background of the European experience of destruction and moral collapse."
The book was condemned by the Roman Catholic Church, and placed on the "Index Librorum Prohibitorum".

From November 1943 to March 1946 he was attached to the American High Command in Italy as an Italian Liaison Officer. Articles by Malaparte have appeared in many literary periodicals of note in France, the United Kingdom, Italy and the United States.
After the war, Malaparte's political sympathies veered to the left, and he became member of the Italian Communist Party. In 1947 he settled in Paris and wrote dramas without much success. His play "Du Côté de chez Proust" was based on the life of Marcel Proust, and "Das Kapital" was a portrait of Karl Marx.
"Cristo Proibito" (Forbidden Christ) was Malaparte's moderately successful film – which he wrote, directed, and scored in 1950. It won the City of Berlin special prize at the Berlin Film Festival in 1951. In the story a war veteran returns to his village to revenge the death of his brother, shot by the Germans. It was released in the United States in 1953 as "Strange Deception" and voted among the five best foreign films by National Board Of Review.
He also produced the variety show "Sexophone" and planned to cross the United States on bicycle. Just before his death, Malaparte completed the treatment of another film, "Il Compagno P".
After the establishment of the People's Republic of China in 1949, he became interested in the Maoist version of Communism, but his journey to China was cut short by illness, and he was flown back to Rome. "Io in Russia e in Cina", his journal of the events, was published posthumously in 1958.
Malaparte's final book, "Maledetti toscani" (Those Cursed Tuscans), his attack on bourgeois culture, appeared in 1956. He died of cancer.

Main writings:
– Tecnica del colpo di Stato (1931)
– Il Volga nasce in Europa (1943)
– Kaputt (1944)
– La Pelle (1949)
– Du Côté de chez Proust (1951)
– Maledetti toscani (1956)

(Wikipedia: abridged and adapted)

A Obra de Curzio Malaparte em Português

Editora Livros do Brasil, colecção "Dois Mundos"
Kaputt
A Pele
As Mulheres Também Perderam A Guerra

Colecção "Vida e Cultura"
Eu na Rússia e na China

Colecção "Edições Especiais Ilustradas"
O Sol É Cego

Publicações Europa-América, colecção "Livros de Bolso"
Técnica do Golpe de Estado

RIC

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

«Impression, soleil levant», Montmartre…

Pássaro breve

Subi o último lanço da longa escadaria, que felizmente não me atrevi a galgar, e cheguei ao terraço do Sacré Cœur. Mas logo escapei dali, esbaforido e apressado, para a place du Tertre, mais uma vez enxotado pelos enxames de turistas.

Fiz uma pausa num dos pequenos cafés que se me ofereciam com um bom ângulo de visão e sentei‑me maravilhado com o soberbo panorama que se me deparava. Já ali estivera de passagem, lembrei‑me, numa noite de há muitos anos, mas não pudera então aperceber‑me do vasto horizonte que dali se abarca. Era uma noite de Agosto, e as luzes às miríades sob um luar intenso foi tudo o que uma memória afogueada do final da adolescência pôde reter. As paisagens que então monopolizavam o meu interesse eram claramente de outros tipos. A praça, pelo ambiente invulgar, deixara‑me a impressão de não estar em Paris ou em qualquer outra cidade. De reduzidas dimensões e rodeada de pequenas casas, fizera‑me sentir numa aldeia ou numa pequena vila, onde toda a gente se conhece e a sofisticação urbana não é regra. Podia agora comprová‑lo ali sentado, com a cidade a meus pés. Embora ainda fosse cedo para o bulício dos artistas, alguns começavam já a expor trabalhos e a pintar retratos de turistas, que levariam consigo a promessa que um dia lhes permitiria declarar terem na sala um Fouraut ou um Letourneur, como quem hoje se gaba de possuir um Picasso ou um Degas. Que se pode ter na sala um qualquer está bem de ver, mas um Picasso ou um Degas, esses só se podem possuir.

Enquanto me ia entretendo com subtilezas ociosas do género, bebendo um café e trincando um croque‑monsieur, acercou‑se de mim uma jovem com cerca de vinte anos, perguntando‑me se estava interessado numa silhueta recortada. A pergunta, assim disparada quase à queima‑roupa, deixou‑me sem resposta e, antes de dizer sim ou não, vieram‑me à lembrança a Munique de há uns bons anos e os jovens artistas de tesoura em punho que, no afamado e boémio Schwabing, realizavam num ápice uma obra perfeita, um perfil exacto, fotográfico, saído de um único movimento hábil da tesoura através do papel negro. À época, também eu era estudante e não tinha posses para sequer pensar em obras de arte. Hoje, talvez até nem ache assim tão caro. E ajudar uma artista seria não só louvável como até me deixaria bastante satisfeito comigo próprio. Falámos do preço, concordei com a quantia, que afinal me pareceu quase irrisória, e minutos depois, como em Munique, fiquei abismado com a precisão e a mestria do recorte. Era, sem tirar nem pôr, o meu perfil, uma silhueta perfeita. Convidei‑a a tomar um café, e a conversa desprendeu‑se. Chamava‑se Yvette Servignat, era de Nantes e chegara há pouco a Paris com uma bolsa para estudar na École Supérieure des Beaux‑Arts. Pequenina e magra, aparentava ser mais frágil do que realmente seria. Lembrei‑me da Piaf. Num rosto oval de traços finos sobressaíam uma atraente covinha no queixo e uns olhos grandes e cinzentos que falavam seguros de uma forte determinação e dos muitos sonhos que animavam aquela franzina figura. De túnica azul‑turquesa, jeans e ténis, parecia que acabara de sair do estúdio para tomar um café e logo voltar ao trabalho. A expressão era calma, a voz, um fio de cristal, e as mãos, impressionantes. Esbeltas e elegantes, pareciam animadas de vontade própria e moviam‑se como por magia em gestos raros e graciosos. Outras assim, só conheço as tuas, que nos movimentos mais simples e involuntários logo exibem o dom que as anima. Uma especialíssima idiossincrasia manual, pensei. Fascinada com tudo o que o curso e a cidade lhe iam oferecendo, vinha ali de vez em quando, disse, para treinar e afinar o uso da mão. Felicitei‑a pela inspirada destreza daquela mão de artista, e ela, um pouco acanhada, agradeceu e acrescentou que era um bom exercício para melhor manusear os pincéis, que desde a infância a pintura era toda a sua paixão.



Claude Monet, Impression, soleil levant
Museu Marmottan, Paris

Vinha de estudar a tela de Monet que dera o nome ao movimento impressionista e, de cor, pôs‑se a descrevê‑la, como se delicadamente recitasse um poema em prosa.

«De um ponto elevado, o olhar domina o vasto estuário e todo o extenso porto. Nuvens de espessura variada cobrem todo o plano do céu. Onde uma nuvem baixa e extensa, uma só mancha azul acinzentada, assenta sobre o horizonte, o disco solar vermelho alaranjado rompe a cerração e reflecte‑se na tranquilidade das águas, deixando um rasto vibrante e ígneo entre o laranja e o amarelo. É o único foco de luz suave em toda aquela paisagem, ainda refém das sombras da noite a desvanecerem-se. As nuvens menos densas e mais altas espelham a luz que emana da bola de fogo em suaves tons róseos e alaranjados, mais intensos por cima dela e tornando‑se mais esbatidos com a distância, para a esquerda. No caminho do olhar para a outra margem, dois pequenos barcos a remos e respectivos ocupantes são apenas duas manchas de um azul muito escuro a cruzarem a superfície tremeluzente das águas. Tudo permanece envolto naquela luz ainda ténue da entremanhã, difusa e azulada, fraca e fria. Guindastes e armazéns, barcos pequenos ancorados e um veleiro com as velas recolhidas, chaminés fumegantes, tudo dá a impressão de mal estar ali, de mal começar a existir

Fiquei fascinado e comovido, sem conseguir articular palavra. Ela esboçou um sorriso gaiato, agradeceu o café, despediu‑se e desapareceu ligeira, como um passarinho que pousara breve num beiral próximo e logo voara para longe. Guardei com mil cuidados a silhueta entre as páginas de um livro, paguei a despesa e fiz‑me ao caminho, retemperado pelo encanto do encontro.

RIC

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

II. Grandes planos… / Big plans…

As I'm an inveterate romantic (you know this by now, yes, I know it too), always nostalgic, saudoso (full of saudade), some times melancholic, always ready to feel the spleen, to have the blues, and so on, and so forth, I've been doing some thinking and…



In the year 2007 I resolve to:
Procrastinate more.



Get your resolution here.


Pois é, foi isto mesmo que eu decidi – procrastinar! De momento, não me vale de muito grandes olhares em frente (a não ser que o que se me apresente pela frente valha mesmo a pena, mas isso são outros 500 paus…), pelo que darei largas ao spleen, aos blues, à saudade, à nostalgia, à melancolia e a outras proclividades anímicas terminadas em -ia. Só estas são realmente doentias… E eu sou muito pessoano: "pensar é estar doente dos olhos."

Thanks, Minge!

RIC

I. «Morocco» (1930)


Amy Jolly: "Every time a man has helped me, there has been a price. What's yours?"
La Bessière: "My price? A smile."
Amy Jolly: "I haven't got much more."


"Morocco" is a 1930 film in which a Foreign Legionnaire meets and falls in love with a sultry seductress.
The movie was adapted by Jules Furthman from the novel "Amy Jolly" by Benno Vigny.
It was nominated for Academy Awards for "Best Actress in a Leading Role" – Marlene Dietrich – who, amazingly, knew little English, and spoke her dialogue phonetically, "Best Art Direction", "Best Cinematography" and "Best Director" – Josef von Sternberg.
The movie was notorious in its day for a woman-to-woman kiss.
It has been deemed "culturally significant" by the Library of Congress and selected for preservation in the United States National Film Registry.

Directed by Josef von Sternberg
Produced by Hector Turnbull
Written by Jules Furthman

Gary Cooper – Légionnaire Tom Brown

Marlene Dietrich – Mademoiselle Amy Jolly

Adolphe Menjou – Monsieur La Bessière

Ullrich Haupt – Adjutant Caesar

Eve Southern – Madame Caesar

Francis McDonald – A Sergeant

Paul Porcasi – Lo Tinto, Nightclub Owner

Release date: November 14.th 1930
Running time: 91'
Language: English

I'm sure you've all watched this piece of jewellery of the Seventh Art.
In case you haven't – just in case – I urge you to run to the nearest rental place, to take it to the tranquillity of your home, and to watch it with the devotion this wondrous screen couple deserves.
And then, the appealing desert is the stage… Bare feet walking on sandy dunes… Eroticism at its best…

RIC

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

«Os Grandes Portugueses – Os Dez Mais»


Apresento‑vos, com muito orgulho e mais subida honra, a minha lista ordenada:

1. Fernando António Nogueira Pessoa
2. Luís Vaz de Camões
3. Aristides de Sousa Mendes
4. Álvaro Barreirinhas Cunhal
5. Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal
6. Infante D. Henrique
7. Vasco da Gama
8. D. Afonso Henriques, o Fundador/Conquistador
9. D. João II, o Príncipe Perfeito
10. António de Oliveira Salazar

Discordem, concordem, descubram‑me a careca ideológica, chamem-me literato, intelectual, dado a ordens estabelecidas, o que mais e melhor vos aprouver.
Mas, por favor, discutam este fait‑divers!

Afinal, entre os dez primeiros encontramos aquele que remeti, nesta minha «ordenação», para o décimo lugar (porque – garanto‑vos! – não posso apagá‑lo!); porém, em centésimo lugar – repito: centésimo! – surge Maria João Pires…
Qual de ambos fez mais e melhor pelo País?

Estaremos a um passo de sermos considerados, em definitivo, subsarianos, ou será a alcoolemia que mais ordena?...

[Éditos anteriores recomendados:
Julho 28 – "Maria João Pires, Belgais e Salvador da Baía";
Agosto 9 – "Portuguese Culture in 50 (+50) Topics";
Agosto 10 – "Portuguese Culture in 100 (-50) Topics".]

RIC

domingo, 14 de janeiro de 2007

Stephen King aconselha a quem quer escrever…


… Extensivamente, para publicação.

"Escrever com sucesso em dez minutos", do celebrado Stephen King, é um e-book que o Captain/Kapitano analisou (há já algum tempo…) e do qual apresentou um sumário "de um minuto" – que entretanto traduzi e aqui deixo:

«1) Se não sabe escrever bem, não tente fazer da escrita o seu modo de vida. Ou, como King diz, "seja talentoso". Ninguém sabe exactamente o que o talento é, mas se for rejeitado umas quinhentas vezes é porque não o tem.
2) Seja organizado – dactilografe a dois espaços, use bom papel, etc.
3) Seja autocrítico – se não tiver anotado profusamente o seu primeiro rascunho com emendas é porque está a ser preguiçoso.
4) Vá direito ao assunto – não abuse das palavras nem de circunlóquios, nem seja sentencioso ou doutrinário.
5) Não pesquise enquanto escreve – se não estiver seguro de um facto ou de uma grafia, verifique e corrija só depois de ter escrito.
6) Conheça o mercado – apresente os seus manuscritos apenas a editores que se ocupem dos géneros que escreve.
7) Seja cativante – poderá ser informativo, irritado, exacto, satírico, inventivo, o que quiser, mas seja‑o apenas enquanto for em primeiro lugar cativante.
8) Se não apreciar escrever, não escreva.
9) Aceite a crítica – se 7 em 10 leitores não gostarem de alguma coisa, mude-a.
10) Apresente o seu trabalho devidamente – devolva os portes postais, use RSF, etc.
11) Seja o seu próprio agente até ser bem-sucedido o bastante para contratar um.
12) Se sabe que a sua história é má, rejeite-a.
Estes pontos são bastante óbvios, embora eu pense que o terceiro é exagerado. Acrescentaria um décimo terceiro – escreva como fala quando fala bem.»

KAPITANO/CAPITÃO

… E eu diria que o terceiro nunca é demais…
Quanto ao décimo terceiro, levanta‑se, a meu ver, uma pertinente questão: quando é que um candidato a escritor sabe exactamente que está a falar bem? Admito que em Albion as coisas possam ser diferentes, mas aqui na Lusitânia este conselho faz‑me estremecer, confesso. Já para não dizer que muitas escritas que hiper‑realisticamente mimam a oralidade deixam muito a desejar. Mas isso são mesmo outras escritas…
Bons trabalhos!

RIC

sábado, 13 de janeiro de 2007

II. Languages and songs… (1)

HUNGARIAN

One of the most mysterious languages in Europe and possibly the most difficult one… With lots of vowels, among them the round ones, that sound so sweet… Its nearest relatives live up north, in Scandinavia and by the Baltic – Finnish and Estonian. All of the three came from the Ural region six thousand years ago.

When the presence of Eastern European countries at the Eurovision Song Contest was still recent news – and songs were still songs and nothing else – I remember the strong commotion that fell over me on that evening in 1994. I believe that was one of the last really good contests as far as the general quality of the songs is concerned.
A beautiful green-eyed young girl from Budapest entered the stage and started to sing a marvellous song called «Whom can I tell my sins?».
Her name was Friderika Bayer.
This song among others is the proof that one can fall for a song even if there's no way of understanding the lyrics. Music is a universal language indeed. If I weren't so busy with other things in those days, I believe I would have learned some Hungarian just to be able to enjoy at its fullest these three minutes in paradise…
I wish I could give you a reliable translation, but I haven't found any really trustworthy… All I can do is invite you to listen to it (click on the Hungarian name of the song bellow).


«Kinek mondjam el vétkeimet?»

Semmi sincs, csak fénytelen éj
Csak szótlan bánat, hiú remény
Nincsen hűség, nincs szerelem
Nincs simitó kéz nekem

Kinek mondjam el vétkeimet
És a megbocsátást kitől kérjem?
Kinek mondjam el vétkeimet, Istenem?

Hideg az éj, de fényre vágyom
Mint délre húzó fecskepár
Testem kihűlt álom csupán
De lelkem szunnyadó tűzmadár

Kinek mondjam el vétkeimet
És a megbocsátást kitől kérjem?
Kinek mondjam el vétkeimet, Istenem?

Ne kínozz
Hisz elótted állok pőrén
Bekötött szemekkel
Istenem mondd miért?

Könnyek nélkül sírok
A meg sem született gyermekemnek

Hogyan mondjam el vétkeimet
És a megbocsátást kitől kérjem
Kinek mondjam el vétkeimet
A bűneimmel kell, hogy éljek
A megbocsátást kitől kérjem?
Kinek mondjam el vétkeimet, Istenem?

…Yes, now I can sing along without looking at the lyrics…
I've done it so many times these past 12 years…

I do know it by heart now...

RIC

I. «Foi uma vez, em Amesterdão…» (2.ª parte)

Jordaan

Adoravas pintar, tinhas muito talento, todos o diziam, e isso era tudo o que te importava. Mas não bastava. O gosto pela pintura, esse não terá esmorecido nem um pouco, apesar de todas as contrariedades, mas o resto, que também te convinha e muito, continuaste a ignorá‑lo. Uma teimosia com a mesma força da obstinação ou da perseverança. A visão da mítica Paris dos artistas surgiu‑te então como a oportunidade que duas vezes seguidas te fora negada. E partiste, contra tudo e contra todos, em busca do teu sonho. A cidade há muito que deixara de ser a Meca dos artistas, da boémia e dos sonhos inspirados em vidas triunfantes arrancadas a limbos de miséria e de sobrevivência rasa, depois de longos anos de custosa labuta. Mas tudo isso eram já apenas histórias longínquas, mortas e enterradas, que só ressumbravam em biografias de artistas há muito consagrados. A menos que, no teu íntimo, ainda embalasses o sonho de um futuro de sucesso à Vieira da Silva, pelo qual muito terias que batalhar...

O fascínio pelos ídolos vitoriosos tem quase sempre um efeito que todos os que se deixam ludibriar ignoram ou negam. É que por cada um que trava a batalha e vence, há pelo menos umas largas centenas de anónimos que ficam pelo caminho e não constam de nenhum relato, por muito audazes e persistentes que tenham sido no seu labor. O anonimato é sem dúvida a melhor recompensa oferecida às multidões. Inquiri porquê Paris, e não Londres ou Nova Iorque, mas não soubeste ou não quiseste explicar. Porque sim. Ias pintando com o mesmo entusiasmo, mas dias inteiros de trabalho em bares e cafés dos subúrbios deixavam‑te sem energia para atravessares noites e madrugadas em frente de um cavalete mal iluminado, de paleta em punho, a fazer experiências, a tactear caminhos e a inventar soluções. Sem dares por isso, foste ficando refém de Nanterre e do café por onde os teus dias se iam arrastando e os teus sonhos escorrendo, cada vez mais adiados. Nem o pouco Francês que sabias conseguiste melhorar. Para a tua geração, aprender línguas na escola foi miragem que se esfumou com os sucessivos avatares do ensino. A minha parece ter sido a última a escapar mais ou menos incólume aos desmandos experimentalistas de fraca valia e nenhum proveito. Não saías daquele subúrbio para lado nenhum e, quando um dia acordaste e fizeste as contas, não ias a uma exposição, não entravas num museu, nem sabias nada de futuros caminhos possíveis há quase um ano. Deixaras cair os braços e acomodaras‑te. Num fim‑de‑semana em que finalmente resolveste regressar ao circuito das artes, por feliz acaso conheceste uma pintora holandesa que te falou empolgada do meio artístico de Amesterdão e te fez encarar de frente a possibilidade de te mudares para norte.

Recuperaste o ânimo e um mês depois instalaste‑te no estúdio dela, no bairro artístico de Jordaan, próximo do Brouwersgracht, e regressaste à pintura com uma vontade renovada e redobrada que julgavas perdida. Sentias‑te no sítio e no caminho certos, já longe de subúrbios tristonhos e esquecidos, semidestruídos ou semiconstruídos, atravancados de estaleiros de obras infindas, lamaçais e restos de paisagens de apocalipse. Vivias agora numa cidade das artes e num bairro de artistas. Começaste pouco depois a trabalhar no «De oude boom» e, poucos meses mais tarde, já tinhas o teu próprio espaço, uma exígua mas acolhedora mansarda a duas ruas do estúdio da mecenática amiga. O trabalho no café nem era pesado, pelo que pudeste dedicar‑te com afinco a pesquisas e experiências para melhor te conheceres e definires. Cor e forma, linha e traço, risco e mancha, volume e textura, luz e sombra, cromatismo e claro‑escuro e tudo o mais que aquele momento sorridente te ia propiciando. Mas ainda não te compenetraras de que uma formação mais vasta e envolvente continuava a ser necessária, e faltavam‑te os contactos tão úteis com outros pintores, galeristas, coleccionadores e marchands. A amiga mecenática ia‑te ajudando, mas a coisa não estava fácil. Quando o barco por fim acostou, remataste a história com o mesmo desembaraço com que a começaras. «Como vês, nada de especial. Um caminho mais ou menos difícil, igual ao de tanta gente

Duas semanas mais tarde chegou a minha hora de partir, e já decidiras que também regressarias de vez comigo a Lisboa. O nosso envolvimento parecia não consentir alternativa, e a possibilidade de continuarmos juntos alegrou‑me tanto que comecei também eu a acreditar que a vida podia mesmo recomeçar aos quarenta. Não há nada mais difícil do que nos ser dada uma oportunidade. Depois de dois casos firmes e estáveis, duas relações‑de‑facto‑quase‑casamentos, as sucessivas ligações desbaratadas haviam transformado o crente inicial num espectador sem expectativas, mas o alento da esperança fazia‑me agarrar com ambas as mãos a oportunidade que parecia vir já fora de tempo. Ainda antes de partirmos, num imbecil repente racionalista de que logo me arrependi, tentei convencer‑te de que talvez não fosse fácil instalares‑te de novo em Lisboa, quase cinco anos depois de uma partida decidida pela desilusão e pelo desencanto, e que seria importante repensares atitudes e comportamentos que aparentavas querer manter inalterados, caso quisesses recomeçar a uma luz mais propícia aos teus intentos. Era apenas uma opinião minha, mas apresentei‑ta como a verdade inabalável de uma prédica. Um erro de que já me arrependera no passado, mas que uma racionalidade pressurosa e precipitada me fez repetir, uma vez mais. Quando me calei e fixei o teu olhar dardejante, percebi que era tarde demais para retroceder. Estava dito. Passou‑te pelos olhos uma névoa gelada que não quiseste esconder. Tinhas razão. Mas tão‑pouco me apercebi então de que quisesses castigar‑me por aquele meu acto tão irreflectido.

RIC