quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

«Impression, soleil levant», Montmartre…

Pássaro breve

Subi o último lanço da longa escadaria, que felizmente não me atrevi a galgar, e cheguei ao terraço do Sacré Cœur. Mas logo escapei dali, esbaforido e apressado, para a place du Tertre, mais uma vez enxotado pelos enxames de turistas.

Fiz uma pausa num dos pequenos cafés que se me ofereciam com um bom ângulo de visão e sentei‑me maravilhado com o soberbo panorama que se me deparava. Já ali estivera de passagem, lembrei‑me, numa noite de há muitos anos, mas não pudera então aperceber‑me do vasto horizonte que dali se abarca. Era uma noite de Agosto, e as luzes às miríades sob um luar intenso foi tudo o que uma memória afogueada do final da adolescência pôde reter. As paisagens que então monopolizavam o meu interesse eram claramente de outros tipos. A praça, pelo ambiente invulgar, deixara‑me a impressão de não estar em Paris ou em qualquer outra cidade. De reduzidas dimensões e rodeada de pequenas casas, fizera‑me sentir numa aldeia ou numa pequena vila, onde toda a gente se conhece e a sofisticação urbana não é regra. Podia agora comprová‑lo ali sentado, com a cidade a meus pés. Embora ainda fosse cedo para o bulício dos artistas, alguns começavam já a expor trabalhos e a pintar retratos de turistas, que levariam consigo a promessa que um dia lhes permitiria declarar terem na sala um Fouraut ou um Letourneur, como quem hoje se gaba de possuir um Picasso ou um Degas. Que se pode ter na sala um qualquer está bem de ver, mas um Picasso ou um Degas, esses só se podem possuir.

Enquanto me ia entretendo com subtilezas ociosas do género, bebendo um café e trincando um croque‑monsieur, acercou‑se de mim uma jovem com cerca de vinte anos, perguntando‑me se estava interessado numa silhueta recortada. A pergunta, assim disparada quase à queima‑roupa, deixou‑me sem resposta e, antes de dizer sim ou não, vieram‑me à lembrança a Munique de há uns bons anos e os jovens artistas de tesoura em punho que, no afamado e boémio Schwabing, realizavam num ápice uma obra perfeita, um perfil exacto, fotográfico, saído de um único movimento hábil da tesoura através do papel negro. À época, também eu era estudante e não tinha posses para sequer pensar em obras de arte. Hoje, talvez até nem ache assim tão caro. E ajudar uma artista seria não só louvável como até me deixaria bastante satisfeito comigo próprio. Falámos do preço, concordei com a quantia, que afinal me pareceu quase irrisória, e minutos depois, como em Munique, fiquei abismado com a precisão e a mestria do recorte. Era, sem tirar nem pôr, o meu perfil, uma silhueta perfeita. Convidei‑a a tomar um café, e a conversa desprendeu‑se. Chamava‑se Yvette Servignat, era de Nantes e chegara há pouco a Paris com uma bolsa para estudar na École Supérieure des Beaux‑Arts. Pequenina e magra, aparentava ser mais frágil do que realmente seria. Lembrei‑me da Piaf. Num rosto oval de traços finos sobressaíam uma atraente covinha no queixo e uns olhos grandes e cinzentos que falavam seguros de uma forte determinação e dos muitos sonhos que animavam aquela franzina figura. De túnica azul‑turquesa, jeans e ténis, parecia que acabara de sair do estúdio para tomar um café e logo voltar ao trabalho. A expressão era calma, a voz, um fio de cristal, e as mãos, impressionantes. Esbeltas e elegantes, pareciam animadas de vontade própria e moviam‑se como por magia em gestos raros e graciosos. Outras assim, só conheço as tuas, que nos movimentos mais simples e involuntários logo exibem o dom que as anima. Uma especialíssima idiossincrasia manual, pensei. Fascinada com tudo o que o curso e a cidade lhe iam oferecendo, vinha ali de vez em quando, disse, para treinar e afinar o uso da mão. Felicitei‑a pela inspirada destreza daquela mão de artista, e ela, um pouco acanhada, agradeceu e acrescentou que era um bom exercício para melhor manusear os pincéis, que desde a infância a pintura era toda a sua paixão.



Claude Monet, Impression, soleil levant
Museu Marmottan, Paris

Vinha de estudar a tela de Monet que dera o nome ao movimento impressionista e, de cor, pôs‑se a descrevê‑la, como se delicadamente recitasse um poema em prosa.

«De um ponto elevado, o olhar domina o vasto estuário e todo o extenso porto. Nuvens de espessura variada cobrem todo o plano do céu. Onde uma nuvem baixa e extensa, uma só mancha azul acinzentada, assenta sobre o horizonte, o disco solar vermelho alaranjado rompe a cerração e reflecte‑se na tranquilidade das águas, deixando um rasto vibrante e ígneo entre o laranja e o amarelo. É o único foco de luz suave em toda aquela paisagem, ainda refém das sombras da noite a desvanecerem-se. As nuvens menos densas e mais altas espelham a luz que emana da bola de fogo em suaves tons róseos e alaranjados, mais intensos por cima dela e tornando‑se mais esbatidos com a distância, para a esquerda. No caminho do olhar para a outra margem, dois pequenos barcos a remos e respectivos ocupantes são apenas duas manchas de um azul muito escuro a cruzarem a superfície tremeluzente das águas. Tudo permanece envolto naquela luz ainda ténue da entremanhã, difusa e azulada, fraca e fria. Guindastes e armazéns, barcos pequenos ancorados e um veleiro com as velas recolhidas, chaminés fumegantes, tudo dá a impressão de mal estar ali, de mal começar a existir

Fiquei fascinado e comovido, sem conseguir articular palavra. Ela esboçou um sorriso gaiato, agradeceu o café, despediu‑se e desapareceu ligeira, como um passarinho que pousara breve num beiral próximo e logo voara para longe. Guardei com mil cuidados a silhueta entre as páginas de um livro, paguei a despesa e fiz‑me ao caminho, retemperado pelo encanto do encontro.

RIC

24 comentários:

Tongzhi disse...

Que bela ficção :)
Há, contudo, dois aspectos interessantes pela proximidade da tua ficção com a minha realidade. Também eu, há "bué" de anos, subi aquela escadaria e, ao chegar ao cimo, pensei que estava num carnaval, o carnaval do turista. Fugi, talvez para a Place du Tertre, não sei bem.
Numa outra ocasião, sentado numa esplanada em Paris, fui abordado com o propósito de me fazerem uma caricatura. Com os escudos contados, não deu para chegar a acordo quanto ao preço... No entanto o artista fez a caricatura, disse-me que ficaria para ele. Onde andará a minha "carantonha"?

RIC disse...

Olá meu caro Tongzhi! «Que le monde est petit, n'est-ce pas?...»
É tão curioso como é possível tantos de nós terem tido, alguma vez na vida, experiências semelhantes...
A subida que inspirou este «escrito» foi há «bué da tempo», podes crer... Hoje, nem morto! 'Tá bem, 'tá!... Já o encontro com a estudante é meio verdadeiro, meio recriado.
Quanto à tua caricatura, meu caro, tudo dependerá da carreira ulterior do dito artista. Se hoje for conhecido, estabelecido no «grand monde des arts», quem sabe se não farás parte de algum álbum que documente a sua evolução, hein?... Que tal?
Como diria o Eça, «chique a valer!» ou «podre de chique!» :-)
Um abraço! E obrigado!

pinguim disse...

Pois é Ric
tu com estas descrições, meio ficcionadas, meio reais, tendo como base uma cidade, como já tinha acontecido com Amsterdão, crias em nó toda uma panóplia de lembranças vividas, para alguns, como eu, há muito.
Para já, a tua descrição da jovem artista, "malgré" a sua conparação com Piaff, fez-me "ver" a Jean Seberg de "A bout de souffle", talvez pelo vestuário...
Não sei, confesso, se a Place du Tertre é aquela pequenina praça, onde nos pequenos "bistrots" se podia comer uma deliciosa "soupe a l'oignon"; se é essa, achei uma delícia!
Mas, Paris inteira é uma festa.
O que é curioso, no meio de tudo isto, é que eu na minha primeira ida à cidade luz, quase não vi Paris, pois corri a meter-me nos velhos cinemas de ensaio do Quartier Latin, a ver todos os filmes possíveis que não chegavam a Portugal.
Foi aí que vi pela primeira vez "La dolce vitta", por exemplo.
Mas ainda tive tempo para ir uma noite a um desses fabulosos "caveaux" onde se ouviam as vozes de Grecco, simplesmente fabuloso...
E, para finalizar, também, na mais recente visita, já lá vão um par de anos, há uma "história", que apenas te posso dizer me causou a gripe mais longa que me lembre; mas valeu a pena, caramba!
Um abraço forte, e desculpa o testamento.

Maurice disse...

Voltei a reparar na descrição das mãos... (e não, não tenho nenhum fetiche :) ).
Apenas estive duas vezes em Paris e em nenhuma delas cheguei a subir ao Sacré Coeur, muito menos à place du Tertre. Talvez na próxima...

RIC disse...

Olá João! Não, não é testamento nenhum, bem pelo contrário, é um delicioso comjunto de recordações que muito me honra que o partilhes connosco! Já para não falar dos elogios directos e indirectos... Obrigado!
A que mais me toca é sem dúvida a memória visual de «A bout de souffle»! Não me passaria nunca pela cabeça, garanto-te. O paralelo com a Piaf tem mais que ver com o perfil psicológico, a genica interior...
É sim, a place du Tertre é essa mesmo, lá em cima em Montmartre!
Ah a Juliette Grecco e, talvez mais tarde, a fabulosa Barbara...
Pois é, essa última história é que deve ter muito que contar sobre Paris ser uma festa... (Rsrsrs!) De certeza!
Obrigado, meu caro!
Um grande abraço!

RIC disse...

Olá Maurice! Calculei que alguém repararia nesse pormenor quando estava a editar o texto. Talvez tu!
A intenção é a de poder referir novamente as mãos do «tu»...
Também não tenho qualquer fixação especial em mãos, nem sequer me detenho a observá-las. Para mim, o pormenor fundamental por excelência são os olhos e os olhares! Não tenho como evitá-lo. Desde sempre que sou assim...
É uma excelente ideia subir à colina de Montmartre! Em Paris é ainda um mundo à parte que merece a pena descobrir!
Um abraço! :-)

Catatau disse...

Eu também já subi a colina.
Também eu já pastei a vista pelos horizontes a partir do Sacré Coeur (aquela Santa Luzia parisiense avant lui). Já admirei a plantação de cavaletes de eternos artistas, por entre as aguarelas impressas e industriais. E também procurei, curioso, as famosas pêgas de Montmartre. Procurei, em suma, a boémia que me venderam os relatos e os livros que li por cá. Não a encontrei como queria. Não a encontrei como ma davam. Gostei na mesma.

Belo exercíco, Ric! Temos artista!... :)

Jean Seberg, ahn, Pinguim?!... ;)

RIC disse...

Olá Catatau! Pelos vistos, uma peregrinação profana dos nossos dias... A um espaço que entretanto também se foi adulterando na sua verdade original...
Quanto às avezinhas que referes, fiquei sem perceber bem se seriam as de arribação, se as que saltitam também lá em baixo, na place Pigalle...
Ainda bem que te agradou!
Muito obrigado!
Um abraço! :-)

Catatau disse...

Eh eh eh... eram as aves de Pigalle, Ric. Mas a minha demanda foi puramente etnográfica, rsrsrs.

Um bom abraço.

RIC disse...

Bem, os objectivos da demanda não me dirão propriamente respeito, bem entendido... Espero que a etnografia tenha de algum modo ficado a ganhar...
Um abraço amigo! :-)

Lampejo disse...

Não importa qual seja a sua forma, deste que haja amor (paixão), nada nós escapa, nem mesmo o mais pequeno pormenor, tudo se enaltece.
Gostei...

Shadow disse...

Ao contrário dos demais, sei que não vou conseguir resumir tudo aquilo que me vai na ponta dos dedos. Portanto silencio-me. [ Cá para mim a filha da p...da gripe, anda a tirar-me capacidades (assobiando com o ar mais inocente possível)].
Particularmente gostei imenso desta ficção! Obrigada, por (mais) este momento!

Ah! Já agora, deixa-me dizer que também atentei na descrição das mãos. Mas eu sou suspeita, «né»?

:-)

Carioca disse...

Lindo! Lindo! Lindo!
E olha que eu nunca fui a Paris, hein!rs
Abraço!

RIC disse...

Olá Lampejo! Gostaria de ter essa tua convicção tão forte, mas creio que a perdi há já algum tempo...
Porém, continuo a admirar quem a tem e a deixar-me contagiar... Tenho ainda e sempre a esperança de que resulte!
Muito obrigado!
Um abraço!

RIC disse...

Olá Carla! Bem me parecia que a gripe era a razão! Também me sinto muito diminuído sempre que uma constipação ou uma gripe me cai em cima. Depois de uma asneira no Sábado passado, que provocou uma recaída, ainda ando à procura da rolha...
Ainda bem que te agradou! Faz-se o possível para agradar aos convivas...
Desejo-te boas e rápidas melhoras!
Tudo de bom!
Beijinhos! :-)

RIC disse...

Olá Carioca! Muito, muito obrigado!
Fico muito contente por teres gostado!
Quanto a ir a Paris, creio que será mais fácil e mais barato lá ir do que, por exemplo, ao Japão... E as recompensas são certamente outras...
Um abraço, caro amigo! :-)

MrTBear disse...

Olha, boa altura para eu fazer uma confissão. (nem sei porque vou fazê-la aqui, mas pronto).
Nunca fui a Paris. Nunca quiz conhecer Paris. Quer dizer, querer até queria, mas a minha avó disse-me um dia (em Maio de 1975, lembro-me bem) A Paris só se vai com o amor da nossa vida, senão não tem piada nenhuma.
Não fui à 5 anos atrás.
Qualquer dia vou........

RIC disse...

Olá Teddy Bear! Deixa lá, que a confissão não te incomode, porque de algum modo estamos em igualdade de circunstâncias: estive para ir a Londres, pela primeira vez (era ainda um mocinho...) em Maio de 1976; em Março, ganhei uma bolsa para ir à Alemanha e, como não havia dinheiro para tanto estrangeiro de seguida, Londres ficou para outra oportunidade... Até hoje! E posso dizer que enchi o papinho de viagens, pelo menos, na Europa e América do Norte...
A vida tem destas coisas...
Quanto a ir a Paris «só» com o amor da nossa vida é uma «boutade» muito romântica, sem dúvida, mas se assim fosse, Paris talvez não tivesse um décimo do turismo que tem... E nem só de pão vive o homem... Digo eu...
Não querer conhecê-la é que eu já acho mais grave... Conheci-a em todas as estações do ano, e é sempre magnífica!
Espero que tenhas gostado da historieta... Ou não? (Lol!)
Um abraço! :-)

MrTBear disse...

Não..... mete gjs hehehehhehehehhehehehehehe

A minha avó era uma romântica!!!! eu também ;-)

RIC disse...

Ah, «mete gjs»... 'Tá bem!... Cada um com seus prazeres... (Já os vi começarem por menos...)
Espero bem que sim, que sejas mesmo um romântico... :-)

Lampejo disse...

Ric, duvidas todos nós temos, eu também. Apesar de alguns pesares, quero ainda continuar a acreditar...

RIC disse...

Meu caro Lampejo! Creio ter sido isso mesmo que te respondi, salvaguardadas algumas dúvidas quanto ao Amor, sim, mas empenhando-me nos amores do quotidiano.
Não me leves a mal, mas estou de momento um pouco arredado das «Grandes Causas»... Acho que já dei muito para esse peditório...
Abraço!

Lampejo disse...

Meu caro Ric! Porque levaria eu a mal! Há que saber respeitar...
Cada um sabe de si, sem ofensa.

RIC disse...

Nenhuma, meu caro Lampejo! Talvez tenha sido um pouco brusco no que disse, mas tentar manter-me à tona de um mar revoltoso de sentimentos não tem sido fácil... E quando alguém toca na tecla...
Um abraço! :-)