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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

À guisa de mero balanço…

Estes anos da minha ausência da blogosfera tiveram várias/muitas consequências, umas naturalmente mais evidentes que outras.

Retomar este blogue implicava, para mim, percorrer em primeiro lugar o arquivo, pelo menos para recuperar uma ideia do que eu já aqui tratara. E garanto que muito já quase se perdera nos esconsos recantos da memória…
Nos dias de hoje que correm velozes, marcados pela absorvente vertigem dos opressivos ritmos quotidianos, fico atónito e perplexo com questões que, em anos ainda próximos, não se me poriam de todo. Aliás, jamais teria pensado nelas sequer.
A decadência portuguesa parece-me ser uma delas. Talvez a mais grave. Ia acrescentar «generalizada», mas isso mesmo seria em si já uma abusiva e grosseira generalização. O que é certo, a meu ver, é que Portugal é hoje um país decadente a muitos níveis, em muitos sectores e a respeito do muito que teremos todos deixado por fazer: «Falta cumprir-se Portugal», disse um Poeta Maior. Ainda e sempre. E não o esqueçamos.
Nós, portugueses, continuamos mergulhados na centenária miséria mental que o outro Poeta Maior lapidarmente definiu: «O favor com que mais se acende o engenho não o dá a pátria, não, porque está metida no gosto da cobiça e na rudeza de uma austera, apagada e vil tristeza.» Soam como ditas hoje, estas sábias palavras. Duras.
Portugal chorado

Quando se tenta, de moto próprio, como eu, debater em fóruns abertos estas e outras questões similares, «aqui d’el rei que ele quer é exibir-se como intelectual e destruir a genuína cultura popular». Nada a fazer quanto a  isto. Neste momento, querer ser cidadão interveniente é (quase) impossível. Eu já não tenho paciência, confesso, para debater seja o que for nas presentes condições. E, lamentavelmente, são poucos, muito poucos, os que têm uma imagem global fidedigna do que é realmente o nosso povo hoje. Ou então preferem a graçola aparvalhada do «engana-me que eu gosto», por onde voltamos à estaca zero.

As nossas elites - as verdadeiras que deveriam estar activas - teimam em permanecer quedas, imóveis, silentes - e eu acrescentaria - apostadas em manter-se tão afastadas quanto possível de tudo o que as solicite para o bem comum. São egoístas, mesquinhas e olimpicamente desprezam o seu país. Não conheço outro país dito desenvolvido onde tal se verifique. Mas é também muito discutível se acaso Portugal é (ou alguma vez foi) um país desenvolvido.

Eu, pela minha parte, começo a desmobilizar. Vejo que nada ganho, bem pelo contrário, ao querer ajudar seja quem for a tornar-se mais ciente da realidade que o/a rodeia. Tentarei seguir, ainda assim, o meu caminho ou, pelo menos, aquele que continua a parecer-me ser o meu caminho.

Se acaso a blogosfera deixar de ser o lugar ideal para prosseguir, então outros espaços decerto se abrirão para que o silêncio dos desistentes não seja a regra, mas sim e apenas a excepção.

RIC

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Neerlandistiek in | Neerlandística em Portugal


«Een onzekere toekomst voor de neerlandistiek in Portugal
Nabije toekomst


De dynamische werkelijkheid van de neerlandistiek in Portugal verkeert in groot gevaar!
In Lissabon heeft de docent Nederlands te horen gekregen dat haar detachering aan het eind van dit academiejaar afloopt en zij wordt daarom geacht naar haar middelbare school terug te keren.
Haar vertrek betekent het einde van het docentschap Nederlands!
In het beste geval zal een docent aangetrokken worden die per uur betaald krijgt voor een eventuele vrije cursus.
Het gaat heel slecht met de Portugese universiteiten, met de Portugese ambtenarij en met de Portugese economie.
Er moet flink bezuinigd worden en de kans dat de contracten van de docenten Nederlands zonder slag of stoot beëindigd worden is heel groot.
Het einde van die contracten betekent het einde van de docentschappen. Het einde van de docentschappen betekent het einde van alle extra culturele en literaire activiteiten die zij organiseren.
Het universitaire onderwijs Nederlands in Portugal zal gereduceerd worden tot wat reeksjes taallessen binnen de talencentra die de verschillende faculteiten aan het opstarten zijn.
In korte tijd breekt men af wat we in veertig jaar hebben opgebouwd.
Als Nederlands uit het curriculum verdwijnt, zal dat voorgoed zijn.
En dat terwijl binnen de EU meertaligheid en kennis van de talen van de andere EU-partners als speerpunten worden gepresenteerd!»

Nieuwsbrief Internationale Vereniging voor Neerlandistiek, april 2007

Um futuro incerto para a Neerlandística em Portugal
Futuro próximo

A realidade dinâmica da Neerlandística em Portugal corre grande perigo!
Em Lisboa, a docente de Neerlandês foi informada de que o seu destacamento termina no final deste ano lectivo, pelo que deverá regressar à sua escola secundária.
A sua partida significa o fim da docência de Neerlandês!
Na melhor das hipóteses, um docente será contratado como tarefeiro, sendo pago à hora por um possível curso livre.
Muito mal vão as universidades portuguesas, muito mal vai o funcionalismo público português, muito mal vai a economia portuguesa.
Impõem-se poupanças, e é grande o risco de os contratos dos docentes de Neerlandês serem terminados sem apelo nem agravo.
O fim desses contratos significa o fim das docências.
O fim das docências significa o fim de todas as actividades culturais e literárias extraordinárias por elas organizadas.
O ensino universitário de Neerlandês em Portugal será reduzido a uns ciclos de lições de língua dentro dos centros de línguas que as várias faculdades estão agora a criar.
A curto prazo, destruir-se-á o que construímos em quarenta anos.
Se o Neerlandês desaparecer do currículo, será para sempre.
E isto enquanto na UE, o plurilinguismo e o conhecimento das línguas dos outros parceiros da UE são apresentados como pontas de lança!

Publicado na newsletter da IVN – Associação Internacional de Neerlandística, Abril de 2007

Tradução de RIC

Conheci o Instituto de Língua e Cultura Neerlandesas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa por volta do final de 1976.
E, com ele, um dos docentes que mais me marcaram pelo seu estilo sedutor e envolvente de ensinar uma matéria – no caso, uma língua viva – e de tudo pôr em relação.
Falo do saudoso Professor Luís Crespo Fabião. Soube recentemente que já não está entre nós.
Aqui lhe presto a minha singela homenagem e dou testemunho do muito de muita coisa que com ele pude aprender ao longo dos quase quatro anos em que fiz questão de frequentar os sucessivos níveis do curso livre que ele sempre leccionou. Graciosamente.
É a sua obra de quarenta anos que os abutres de hoje – incultos avaros – pretendem destruir. O que será o ano lectivo que agora se inicia?
Independentemente de se ser estudante do curso oficial ou do livre, houve sempre lugar como bolseiros para todos os melhores nos cursos de Verão, quer na Bélgica (Gent, Flandres Oriental) quer nos Países Baixos (Breukelen, Utreque).
Se com o Professor Fabião aprendi essencialmente Neerlandês, aprendi também muito Inglês e Alemão e Latim e Grego e... Português, bem entendido, e, provavelmente, o melhor que de tudo isto me ficou: o intenso treino de tudo pôr em relação.
E nunca esqueci que informação não será nunca saber enquanto não for devidamente interiorizada, assimilada e posta em relação.
Bem-haja, meu bom Professor e amigo, onde quer que esteja!

Eterna saudade do

Ricardo


Divulgação

O romance De tweeling, de Tessa de Loo, exibido na barra lateral em representação da literatura neerlandesa, foi já publicado em tradução portuguesa de Ana Leonor Duarte com o título As Gémeas, pela editora Quetzal.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Da vil mesquinhez nacional

«Os bens supérfluos tornam a vida supérflua.»

Pier Paolo Pasolini (1922-75)

«Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não o dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.»

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X-145

Eu estou – e estaremos muitos, decerto, e felizmente! – cansadíssimos e fartíssimos da mediocridade mesquinha, pacóvia, provinciana, pirosa e bacoca que, dia a dia, vai proliferando neste cantinho peninsular. Mas é sabido que ela é endémica entre nós, como Camões bem no-lo fez notar.

Ainda que de uma forma intensa e ácida, chamando as coisas pelos nomes e pegando o touro pelos cornos, adjectivando e adverbializando, polemizar não cai nunca no insulto gratuito, na boca rasca ou no paleio acintoso.

Polemizar implica argumentar. E argumentar implica a organização lógica do discurso. E porque é por escrito, não pode haver lugar para subentendidos, alusões bacocas ou insinuações grotescas que a comunicação presencial «aguenta» por força da gestualidade. E ainda porque é por escrito, não se compadece com conversas de café sobre futebol e gajas boas, ou trapos e gajos bons – entre outros «temas»…

Há que manter o nível, mesmo no calor mais intenso da refrega mais desapiedada. E para saber fazê-lo é necessário não perder nunca de vista um valor primordial que, nos dias de hoje e de igual modo por todo o mundo, está cada vez mais arredado das relações humanas – com seriíssimos prejuízos para as nossas vidas – o respeito.

Portugal envolto em fumos mentais

Recuso-me a aceitar quaisquer «campanhas» destinadas à promoção da toleranciazinha, com a mensagem subliminar de «olhar para o lado para não insultar ou mesmo para não chegar a vias de facto». Desconfio da tolerância.

Exijo para mim, outrossim, o respeito; aquele mesmo que devo – e dou – aos outros. Nada mais. Promove-se a toleranciazinha tal como nos idos de sessenta se apregoava a caridadezinha: atitude abjecta e abominável!

Com o que é que somos confrontados a todos os níveis, sempre que se trata de qualquer polémica? Com meras picardias de baixo nível, com insultos e bengaladas à mistura, porrada verbal, banditismo e terrorismo argumentativo, discursos ornados dos useiros e vezeiros palavrões e obscenidades e sujeitos a lógicas fortuitas e aleatórias, sem qualquer intenção de convencer o adversário ou sequer de derrotá-lo inteligentemente. O que triunfa é a repugnante esperteza saloia, maledicente, que prevalece sobre tudo e sobre todos, alastrando até a níveis e a áreas onde ainda há pouco era impensável – quanto mais admissível… – que tais práticas se verificassem.

Aborreço as questiúnculas ocas e os despiques infantis que conduzem a nada vezes nada. Tenho para mim que todo o tempo é pouco para viver cada vez melhor: conviver, aprender, trocar ideias e opiniões, construir, sempre numa base insofismável de verdade e boa-fé. Tudo o que se afasta deste cânone remete-me invariavelmente para a indiferença e o silêncio.

Seremos cada vez mais terceiro-mundistas em termos de princípios e valores, e o nosso «primeiro mundo» será cada vez mais tão-só uma mera miragem, um arrebique de fachada, fruto sobretudo de mirabolantes manipulações estatísticas.

É uma casa portuguesa, com certeza!

RIC

sexta-feira, 20 de julho de 2007

«La bêtise, un monstre moderne»






Bernard Fauconnier

«Un spectre hante la conscience moderne, la bêtise.
Le mot, attesté au Moyen Âge, disparaît en tant que tel à l’âge classique pour resurgir au XVIIIe siècle, sous la plume de Diderot.
Bêtise, sottise, crétinerie, connerie.
La bêtise remonte à la plus haute antiquité, sans doute, comme eût dit Alexandre Vialatte, mais quiconque tente aujourd’hui encore d’enfermer la bête immonde en un concept opératoire, sinon définitif, se casse les dents. En témoigne, récemment, Stupidity, un essai de la philosophe américaine post-derridienne Avital Ronell, qui de déconstructions en références tournoyantes, semble mordiller les mollets de son sujet sans jamais lui régler son compte.
Mais peut-il en être autrement? Oui, la bêtise est un monstre moderne, rusé, qui résiste à toute forme de théorisation, même si les meilleurs qui s’y sont essayés, à l’instar de Robert Musil, doivent rendre les armes: "C’est que j’ignore ce qu’elle est, note-t-il non sans ironie. Je n’ai pas découvert de théorie de la bêtise à l’aide de laquelle je pourrais entreprendre de sauver le monde."
Un monstre multiforme, réversible, insaisissable, d’une infinie plasticité, tout étant relatif et réciproquement. Un monstre aussi résistant qu’un virus, et dont le vaccin reste à ce jour inconnu. Pas un écrivain, pas un penseur digne de ce nom qui, depuis l’aube des Temps modernes, n’ait éprouvé la nécessité de se confronter à cette Chose, aussi terrifiante, obsédante et grand-guignolesque que la pieuvre du capitaine Nemo.»

La Bêtise, escultura em madeira de Jean Escaffre (1985)

Um espectro assombra a consciência moderna: a estupidez.
A palavra, atestada na Idade Média, desaparece como tal na época clássica para reaparecer no século XVIII, sob a pena de Diderot.
Estupidez, estultícia, idiotia, burrice.
A estupidez remonta à mais alta antiguidade, sem dúvida, como disse Alexandre Vialatte, mas quem quer que tente ainda hoje encerrar o animal imundo num conceito operacional, mas não definitivo, quebra os dentes. É testemunha disso, recentemente, Stupidity, um ensaio da filósofa americana pós-Derrida Avital Ronell, que de desconstruções em referências rodopiantes parece mordiscar os tornozelos ao assunto sem jamais acertar contas com ele.
Mas pode ser de outro modo? Sim, a estupidez é um monstro moderno, astuto, que se opõe a qualquer forma de teorização, mesmo que os melhores que o tentaram, a exemplo de Robert Musil, tenham de depor as armas: "É que ignoro o que ela é, nota não sem ironia. Não descobri teoria da estupidez com a ajuda da qual pudesse tentar salvar o mundo."
Um monstro multiforme, reversível, intangível, de uma infinita plasticidade, sendo todo ele relativo e vice-versa. Um monstro tão resistente como um vírus, cuja vacina continua a ser até hoje desconhecida. Não houve um escritor, um pensador digno deste nome que, desde a aurora dos tempos modernos, não tenha sentido a necessidade de se confrontar com esta Coisa tão assustadora, obsessiva e teatral como o polvo do capitão Nemo.




• Matthijs van Boxsel, The Encyclopedia of Stupidity, The University of Chicago Press, 2005

Matthijs van Boxsel (born in 1957) is a Dutch literary historian who believes that no one is intelligent enough to understand their own stupidity. In "De Encyclopedie van de Domheid" (The Encyclopaedia of Stupidity) – 1986-2006 – he shows how stupidity manifests itself in all areas, in everyone, at all times, proposing that stupidity is the foundation of our civilization.
In short sections with such titles as "The Blunderers' Club", "Fools in Hell", "Genealogy of Idiots", and "The Aesthetics of the Empty Gesture", stupidity is analysed on the basis of fairy tales, cartoons, triumphal arches, garden architecture, Baroque ceilings, jokes, flimsy excuses and science fiction. But Van Boxsel wants to do more than just assemble a "shadow cabinet" of wisdom; he tries to fathom the logic of this opposite world.
Where do understanding and intelligence begin and end? He examines mythic fools such as Cyclops and King Midas, cities such as Gotham, archetypes including the dumb blonde, and traditionally stupid animals such as the goose, the donkey and the headless chicken.
Van Boxsel posits that stupidity is a condition for intelligence, that blunders stimulate progress, that failure is the basis for success.
In this erudite and witty book he maintains that our culture is the product of a series of failed attempts to comprehend stupidity.

Veja aqui o "trailer" de um documentário norte-americano intitulado "Stupidity". Esperemos que possamos vê-lo em breve.

Em tempos de tão grandes avanços em termos de educação, instrução e formação – ao longo de toda a vida! – e para uma considerável maioria de cidadãos do mundo ocidental, é no mínimo com justificada apreensão que assistimos às mais descabeladas manifestações de estupidez, nos mais variados sectores da vida contemporânea: económico, social, político, cultural, etc.
E o pior é ainda o que sucede quando levamos todos – por razões que só Deus discernirá… – roda de estúpidos…
Indubitavelmente, a estupidez tornou-se um monstro moderno. Será talvez a nossa quota-parte na herança da mítica hidra grega…

RIC

quarta-feira, 11 de julho de 2007

As Sete Maravilhas de Portugal…

Para concluir de vez este assunto – que se mantinha em aberto desde que, pela primeira vez, me referi aqui às Sete Maravilhas do Mundo de Hoje, em 4 de Novembro passado –, deixo aqui algumas notas que me parecem merecer o registo.
Eis as minhas escolhas aqui apresentadas em 20 de Janeiro transacto:

Mosteiro dos Jerónimos, Torre de Belém, Palácio da Pena, Castelo de Almourol, Convento de Cristo, Mosteiro da Batalha e Ruínas de Conímbriga.



Afinal, parece que a maioria só se lembrou do Norte por causa de Guimarães. Na minha lista, facilmente substituiria um dos não eleitos pelo Solar de Mateus, de Vila Real, ou pela Igreja e Torre dos Clérigos, do Porto, precisamente para que a lista fosse mais diversificada e mais representativa de uma maior riqueza arquitectónica. Sem estar a fazer qualquer favor ao Norte, ao Centro ou ao Sul, entenda-se. Mas a maioria votou de forma… entediante! Para não dizer outra coisa…

Mosteiro de Alcobaça, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio da Pena, Mosteiro da Batalha, Castelo de Óbidos, Torre de Belém e Castelo de Guimarães foram os monumentos eleitos como as Sete Maravilhas de Portugal.


Monotonia? Muita.
Tradicionalismo? Muito.
Imobilismo? Muito.

Não faz sentido que o património construído nacional valorizável seja composto por apenas castelos e mosteiros. Certo é que a lista das 21 hipóteses iniciais é categorizável em três subgrupos arquitectónicos: militar e/ou defensivo, religioso e palaciano. Assim, a deficiência está na origem, não no fim.

Para mim, uma coisa são os símbolos identitários da nacionalidade, entre os quais há, naturalmente, monumentos; outra, bem diferente, são os marcos do nosso património construído, as verdadeiras jóias arquitectónicas.

Mas esta simples destrinça, pelos vistos, passou bem ao largo, qual caravela à deriva em mar borrascoso…

Às vezes, irrita-me profundamente que as nossas elites sejam tão estupidamente egoístas e tão desinteressadas do bem público!
Só parecem interessar-lhes as vulgaridades obscenas que alimentam as suas invejazinhas de trazer por casa.

… Mais uma foto para o volumoso álbum do "Portugal Mísero e Pindérico"…

RIC

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Homofobia... à portuguesa...

Como muitas outras "pérolas nacionais", eis o que acontece quando também a homofobia é praticada por excelsos compatriotas.

«Vamos falar claro sobre... homossexualidade

Com o subtítulo "17 de Maio, Dia Mundial da Luta contra a Homofobia", arrasta-se desde há algum tempo no "centro geodésico" de Lisboa, em pleno Marquês de Pombal, um cartaz aparentemente inócuo de duas mulheres a iniciarem um beijo. O cartaz é da responsabilidade da Juventude Socialista e está "plantado" entre outros referentes à campanha para a Câmara Municipal de Lisboa e sensivelmente localizado onde se encontrava anteriormente o célebre placard do PNR, de laivos xenófobos. (1) Muito embora se tenha registado até agora uma razoável indiferença ao cartaz por parte da população que atravessa a cidade ou se desloca à feira do livro no Parque Eduardo VII, o que é decepcionante para os seus promotores, (2) ainda assim vale a pena comentar mais este flop das forças anti-família (3) em permanente actuação na nossa sociedade.O cartaz pretende branquear a homossexualidade de diversas formas. (4) Ao contrário dos racistas inimigos dos imigrantes que lá se exibiam antes, eles, vanguardistas e humanistas, aceitam e acolhem todo o tipo de comportamentos sexuais sem discriminação. Ao contrário da intransigência e rigidez da moral de há 2 mil anos, eles, avançados, aceitam as pessoas como elas são, qualquer que seja a sua inclinação sexual, gays, lésbicas, transexuais… porque afinal todos somos seres humanos. E por fim, como se pode depreender da naturalidade com que o próprio cartaz é encarado pelos milhares de pessoas que por ali passam a toda a hora, estará provada a aceitação tácita por parte dos cidadãos anónimos de que a homossexualidade é natural e normal, tão normal como ser de nacionalidade chinesa ou de religião muçulmana. (5) Só que… não é bem verdade… estamos outra vez perante a velha história do lobo disfarçado de cordeiro. (6) Não vale a pena ir muito longe na análise (7), mas pensemos apenas por alguns segundos na tragédia que representa a SIDA, cujas origens – é bem sabido (8) – têm muito a ver com a prática cada vez mais generalizada da sodomia a partir da “revolução sexual” dos anos 60. (9) A responsabilidade pela expanção (sic) desta e doutras doenças, mesmo não do foro sexual como as próprias tuberculoses ultra-resistentes (10) tem muito a ver com a promiscuidade sexual de que é expoente máximo a expansão da homossexualidade, e em particular da sodomia, um comportamento e um vício claramente nefasto para a sociedade como foi sempre reconhecido ao longo dos séculos. Para já não falar na fronteira por vezes muito ténue entre homossexualidade, prostituição, pornografia, pedofilia. (11) A sodomia é uma forma de prazer? Talvez. A droga é uma fonte de prazer? Certamente. (12) Mas sabemos onde ambas conduzem, ao colapso da dignidade pessoal, da família e da própria sociedade. (13) É tempo de dizer basta. Basta de retrocessos civilizacionais!» (14)

João Paulo Geada, in "Plataforma Algarve pela Vida"



(1) Para começar, o seu Português deixa muito a desejar. Mas enfim…
O que é que faltava ao cartaz para ser efectivamente xenófobo – e não ter apenas "laivos" de xenofobia?

(2) Um clarão de divina omnisciência iluminou-o quanto a este facto.

(3) O próprio Salazar não teria conseguido melhor expressão.

(4) Porque a homossexualidade é crime que precisa de ser branqueado.

(5) Curioso pressuposto este da sua argumentação: subentende-se que NÃO é natural ter nacionalidade chinesa ou religião muçulmana. Obviamente. A humanidade quer-se branquinha e católica. A "restante" é mera aberração.

(6) Adequadíssima "revisão" da História! A "sodomia" veio conspurcar a vida dos homens na década de 60 do século XX. Brilhante, meu caro! Que escola historiográfica lhe confidenciou semelhante segredo tão bem guardado?

(7) Por falta de fôlego ou por manifesta insuficiência intelectual?

(8) Por si e por si apenas, está bem de ver.

(9) Restará apenas esclarecer quem é quem nesta história.

(10) Este tipo de tuberculose designa-se por "multi-resistente".

(11) A homossexualidade, ao contrário do banditismo, do terrorismo e – porque não dizê-lo? – do catolicismo, não se expande, porque nada tem de um movimento proselitista; não angariamos adeptos.
A "sodomia" ou coito anal é mais antigo que a própria humanidade – é comum entre os primatas – e é praticado tanto por heterossexuais como por homossexuais. Afinal, há apenas um ser macho na espécie humana.
Que argumentos aduz para provar que se trata de "um vício claramente nefasto para a sociedade"? Nenhuns.
"Ao longo dos séculos"? Quais? Os pouco mais de quinze em que tem imperado a moral judaico-cristã? Porque silencia as civilizações clássicas? Acaso a ocidental actual é-lhes "superior" em algum aspecto?
A última frase estaria correcta, isso sim, se fosse "heterossexuais, prostituição, pornografia, pedofilia". Se pretende misturar (para confundir os menos informados) pedofilia com pederastia, tire daí o sentido: são momentos e circunstâncias históricos completamente distintos.

(12) Como sabê-lo de forma tão certa e peremptória? É por acaso um viciado em drogas? Ter predisposição para ser bandido e aproveitá-la é uma forma de prazer? Certamente. Uns assaltam bancos, outros dedicam-se ao terrorismo, outros ainda tudo fazem para envenenar as mentes alheias.

(13) Se eu acreditasse nas suas faculdades intelectuais, talvez lhe perguntasse de que modo é que um acto da exclusiva intimidade individual – o coito anal – poderá contribuir para o "colapso da sociedade".

(14) Exactamente o que este texto é – uma tentativa de ressuscitar ódios nazi-fascistas. E isto, João Paulo Geada sabe-o muito bem...

Em jeito de conclusão minha, eis o comentário que deixei na dita "Plataforma":

As suas considerações são, elas sim, anormais, porque radicam não na ignorância ou na estupidez (o que poderia ser perdoável, já que cada um é como nasce, não é?), mas na vontade pérfida de transmitir ideias falsas e/ou deturpadas, de modo consciente, com o objectivo de lançar o pânico histérico entre aqueles e aquelas que possam eventualmente acreditar numa argumentação digna de uma retórica podre de séculos. O seu intuito é pois o de ludibriar, pelo que o condeno a si veementemente e à ideologia que perfilha – extrema-direita nazi-fascista, no "melhor" que o III Reich deu à luz. Deveria ser punido pela sua intencionalidade maléfica consciente.



Diria mais umas quantas verdades a este senhor, se acaso não estivesse já suficientemente enojado com tanta boçalidade, estultícia e maldade.
Mas um conselho é sempre possível: leia, estude, informe-se, documente-se e escreva melhor e com conhecimento de causa. Evitará assim ser tomado pelo cretino que aparenta ser.
Em última instância, quem não se sente bem com o seu mundo interior (e Freud tem quase sempre uma explicação…) tem sempre a oportunidade de fazer psicanálise ou de se consultar com um psiquiatra.

Através
deste elo, caros amigos, leiam os comentários que o "manifesto ignóbil" suscitou.

RIC

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Something to be seriously pondered…

Study: 38 Percent of People Not Actually Entitled To Their Opinion

CHICAGO – In a surprising refutation of the conventional wisdom on opinion entitlement, a study conducted by the University of Chicago's School for Behavioral Science concluded that more than one-third of the U.S. population is neither entitled nor qualified to have opinions.

"On topics from evolution to the environment to gay marriage to immigration reform, we found that many of the opinions expressed were so off-base and ill-informed that they actually hurt society by being voiced," said chief researcher Professor Mark Fultz, who based the findings on hundreds of telephone, office, and dinner-party conversations compiled over a three-year period.

"While people have long asserted that it takes all kinds, our research shows that American society currently has a drastic oversupply of the kinds who don't have any good or worthwhile thoughts whatsoever. We could actually do just fine without them."

In 2002, Fultz's team shook the academic world by conclusively proving the existence of both bad ideas during brainstorming and dumb questions during question-and-answer sessions.

From The Onion - America's Finest News Source


Quite an apprehensive situation!

Depending democracy so much on the making – and, of course, on the makers – of public opinion these days, what will become of our societies if people keep on not wanting to know anything whatsoever about what is happening around them?

In Portugal, should we for instance close down schools once and for all? The question is rather provocative, I know, but so many huge mistakes have been being made – and still go on being – as far as education is concerned for the last say 25-30 years that I honestly see no defensible alternative…

Shut them down altogether for good, and tell parents overtly what they've always believed in: 'Schools are good for nothing!'
They may not say it, but they do think so. Otherwise they'd be so much more committed to making their progeny realise schools are no places 'to have fun'. If you have to have fun at all you go anywhere else, but not to school. At school you work, for crying out loud!

Meritocracy?! Information and knowledge society?! Are they joking?! How only, if no sense of responsibility is involved in the growing up process? It is not fomented, it is not developed, and no one cares anymore whether or not you have principles or act according to a set of values. 'Rubbish from the past', that's what they think, parents and children alike.




Let them sit all day long playing obnoxious videogames.
Maybe they'll eventually learn something after all.
By osmosis.
And – the main thing – they'll be having fun.

RIC

segunda-feira, 21 de maio de 2007

The 12 Basic Hellenic Characteristics


1. Hellenic Paideia – Παιδεία –, and the ability to understand the abstract Hellenic meanings and ideas in their full depth.

2. Polytheistic perspective of Cosmos – self creation, non-linear time, multiplicity of the Divine…

3. Eleutheroprepeia – Ελευθεροπρεπεία –, and Parrhesia – Παρρεσία: to stand and act as a free person.
The status of the free has to be proven in an everyday basis.

4. Tolerance – Επιεικεία – and Understanding – Καταληψις – for all the other ethnic cultures.
Dialectical and reasonable word → Λόγος.

5. Eugeneia – Ευγενεία –, Eunomia – Ευνομία –, and Euseveia – Ευσεβεία: harmonious personal and socio-political ways. Respect for the Divine.

6. Constant awareness and desire for the Excellent – Aristevein – Αριστεβείν.

7. Bravery – Ανδρεία –, and Fearlessness – Αφοβία.

8. «Kata physin zein» – κατα φύσιν ζειν: living according to the Natural Laws, familiarity with the human body, high ecological conscience.

9. Prudence – Φρόνησις –, disinterestedness – εαυτοΰ καταφρόνησις –, and frugality – Λιτότης.

10. Direct democracy, Panarchy – Παναρχή – full socio-political participation –, emphasis on the socio-political rather than on the private element of everyday life.

11. Personal and ethnical self-knowledge, the «know yourself» saying – γνώθι σεαυτόν –, for both the individual and the ethnos.

12. Polymereia – Πολυμερεία – multifacetedness – and industriousness – Φιλοτεχνία.

… How much farther away from our «founding fathers» can we stand yet?…

RIC

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Das habilitações académicas...

Não me rouba o sono a vontade de saber se fulano, beltrano ou sicrano é licenciado, mestre ou doutorado.

Estou em crer que o nosso jornalismo menos sério, menos idóneo e menos responsável deu mostras cabais, mais uma vez, de não saber − e de não querer saber, o que é pior − qual o lugar, quais os princípios e quais os deveres que lhe incumbem. Limitou-se a aplicar as ínvias lógicas da imprensa cor-de-rosa.
Não quero acreditar que entre os jornalistas que se envolveram na «questão» das habilitações académicas do primeiro-ministro não haja um único sequer que não saiba, por experiência própria ou alheia, que é condição sine qua non para o ingresso, frequência e aprovação em qualquer pós-graduação, mestrado ou MBA a prévia conclusão de uma licenciatura. A suspeição lançada resulta, a meu ver, de má fé, ignorância e/ou incompetência. Este tipo de jornalismo, que se limita a levantar lebres (que depois não o são), presta um péssimo serviço à democracia e increve-se num vetusto quadro nacional de inveja mesquinha. E, quando se trata de invejas mesquinhas, nunca se fica a saber exactamente o que é que é de facto invejado: basta tão-só deixar a dúvida a pairar no ar...

Sabendo que não estou a cometer qualquer injustiça, estou certo de que esta «questão» é apenas mais uma faceta nociva do pretenso jornalismo moderno de secretária que se agarra a faits divers blogosféricos de origem mais que duvidosa, com o indisfarçado objectivo de apenas vender mais uns quantos exemplares de jornais que, em época baixa da política, vão atravessando um período de vacas magras.

(Esclareço que nenhuma simpatia de qualquer tipo me liga ao partido do governo em geral e/ou ao primeiro-ministro em particular.)

RIC

quinta-feira, 29 de março de 2007

«A Moleirinha»...

Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

[...]

Guerra Junqueiro


Este poema − e outros semelhantes − era o que o génio português do século XX nos permitia ler. Para melhor ilustração das almas devotas e submissas.
«O Menino da Sua Mãe», por exemplo, fora votado ao ostracismo (vulgo: censurado) desde que, ainda nos anos 30, Fernando Lopes-Graça o musicara e, mais tarde, no início da década de 60, rebentara a guerra colonial.

Se mais exemplos não houvesse para ilustrar o mal que 50 anos de ditadura miserabilista e de estupidez acarinhada pelos senhores do regime e instilada nas frágeis mentes nacionais, bastaria recordar estes casos para admitir e reconhecer sem ambiguidades que um genuíno grande português − como Camões, Pessoa ou Sousa Mendes − jamais estarão no mesmo plano de um miserabilista pacóvio que destruiu todas as justas ambições de um povo, manietando-o numa «mesquinha, apagada e vil tristeza».

Parabéns à RTP1 por, mais uma vez, nos ter cabalmente mostrado a menoridade mental que teima em nos escravizar, e da qual − pelos vistos... − não parecemos ter o ínfimo desejo de nos libertar.

RIC

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

«Os Grandes Portugueses – Os Dez Mais»


Apresento‑vos, com muito orgulho e mais subida honra, a minha lista ordenada:

1. Fernando António Nogueira Pessoa
2. Luís Vaz de Camões
3. Aristides de Sousa Mendes
4. Álvaro Barreirinhas Cunhal
5. Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal
6. Infante D. Henrique
7. Vasco da Gama
8. D. Afonso Henriques, o Fundador/Conquistador
9. D. João II, o Príncipe Perfeito
10. António de Oliveira Salazar

Discordem, concordem, descubram‑me a careca ideológica, chamem-me literato, intelectual, dado a ordens estabelecidas, o que mais e melhor vos aprouver.
Mas, por favor, discutam este fait‑divers!

Afinal, entre os dez primeiros encontramos aquele que remeti, nesta minha «ordenação», para o décimo lugar (porque – garanto‑vos! – não posso apagá‑lo!); porém, em centésimo lugar – repito: centésimo! – surge Maria João Pires…
Qual de ambos fez mais e melhor pelo País?

Estaremos a um passo de sermos considerados, em definitivo, subsarianos, ou será a alcoolemia que mais ordena?...

[Éditos anteriores recomendados:
Julho 28 – "Maria João Pires, Belgais e Salvador da Baía";
Agosto 9 – "Portuguese Culture in 50 (+50) Topics";
Agosto 10 – "Portuguese Culture in 100 (-50) Topics".]

RIC

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

II. Christmas...? Really?!


«I'm always the first one to say things for the second time».
Jean Cocteau

So am I, I think, but I don't care much about it. As it stands in my so‑called profile, I'm "unique but not original".

Within one month, Christmas will be over. I'm anticipating that day already. And I'll be glad at last. Till then I shall have to put up with the season's nonsense show: crazy hysteria, obscene consumerism, cretin commercials all over and at all times, ugly, ridiculous lights everywhere (some of them on since October!), inappropriate music playing out loud everywhere, and so on, and so forth. Shamelessly.

Only two verbs matter these days: buy and sell, and all their possible, thinkable synonyms. Instead of "to be" you feel compelled to conjugate the verb "to have". "The more you have, the more you are" seems to be the rule. Perhaps. Not for me though, thank you so very much.

My little corner of the world will be my safe refuge, my desert island. Till then I'll seek shelter in my inner world. There's so much to go through, again and again. I don't need more stupid goods. I have plenty as long as I'm at peace with myself and my fellow creatures. I pity today's children. They'll never know what true Christmas is really like.

Where has my childhood's Christmas gone to?
Who stole it from me? From us all?
Who turned it into a carnival, into a cheap porn show?
Lost.
Forever.

"Eight hundred fifty million – 850,000,000 – people, fellow creatures of mine, of us all, hunger everyday." In our 21.st century's world of abundance. Most of them face a death sentence that sooner or later will be mercilessly executed.

Don't talk to me about Christmas. I don't want to hear.


RIC

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

I. Dúvidas acerca da construção europeia? – Pois…

Um argentino radicado em Berlim – Linkillo (cosas mías) – escrevia há tempos:

"Na Europa já não existem Estados nacionais, mas os europeus parecem não notar tal facto. Atónitos, resistem à inexistência das nações em que – vá‑se lá saber porquê… – tanto apostaram; e fazem‑no através de complicadas operações imaginárias que os revelam um pouco mais tontos do que simplesmente parecem. Por exemplo, a resistência ao euro."

Não poderia estar mais de acordo. Uma aposta que, desde o dealbar do século XIX, já custou uns largos milhões de vidas. E que ainda continua a fazer vítimas…

"Em Espanha realizam‑se operações imobiliárias em pesetas; em França, os bilhetes de comboio indicam, sob a importância em euros, o equivalente em francos; na Alemanha, professores universitários calculam em marcos o preço de um copo de cerveja…"

Em Portugal, continuam a afixar-se preços em euros (algarismos grandes) e em escudos (algarismos pequenos)…

"Só desse modo, dizem, podem saber se algo é caro ou barato, porque a moeda nacional continua a ser a referência. Mas que moeda nacional, se há cerca de cinco anos que já não há moedas nacionais?"

… Logo, uma referência que já não o é: cinco anos retiraram‑lhe qualquer valor referencial que pudesse ainda ter…

"É que, precisamente, com o euro houve inflação, e agora tudo está muito mais caro, dizem. E insistem em referir tudo a um passado já mítico, insistem nas suas contas sem sentido. Expressam, deste modo, uma resistência à União Europeia e uma saudade de um passado que já não voltará."


Em Portugal, o escudo ia a caminho do centenário. Muitos portugueses mais idosos ainda se referiam à moeda anterior, a que vigorara até ao final da monarquia. E hoje, para eles, um euro equivale a duzentos mil réis, uma autêntica fortuna! Os mais novos são, a seu ver, esbanjadores natos: como é que dão cem mil réis por um dedal de café?!

"Como as populações envelhecidas são dominantes na cena urbana europeia (pelo menos nas cidades do norte), é difícil que o hábito de conversão para moedas mortas desapareça, ainda que essas moedas mortas, por isso mesmo, sejam incapazes de dar conta da inflação."

Os verdadeiros problemas decorrentes do envelhecimento da população europeia vêm ainda a caminho e reflectir-se-ão em todos os sectores da vida: sociais, económicos, políticos, culturais, etc.
E a conversão em si poderá até constituir um entrave ao consumo…

"Obviamente teimosos, eurocêntricos (ou seja, provincianos) e de imaginação limitada como são os europeus, não entendem o raciocínio."

Apesar de todos os cosmopolitismos, a verdade é que, no seio das populações mais afastadas das brilhantes e radiosas metrópoles europeias – os habitantes da Europa profunda –, é uma mentalidade provinciana que impera. E qualquer tentativa de comparação com as mentalidades expeditas da América Latina – a necessidade aguça o engenho… – é exercício à partida condenado ao fracasso.
Que todos estes "pequenos" problemas constituem uma forma de atrito consentido a uma construção europeia mais célere parece ser evidente, conquanto as instâncias do poder bruxelense não pareçam muito preocupadas…

terça-feira, 7 de novembro de 2006

II. Curiosíssima destrinça conceptual!...

Esta "novidade" chegou‑me do Brasil. É provável que esteja a fazer carreira também noutras paragens. Trata‑se de uma genial divisão entre homossexuais… superiores e inferiores.


"Um pastor evangélico falava em aceitar os homossexuais que não gostam de ser homossexuais, mas ele também dava a entender um certo preconceito contra os homossexuais que aceitam ser homossexuais. Ou seja, a igreja desse pastor acolhe um tipo específico de homossexual, mas persegue o outro tipo." [Carioca]


Os superiores não se aceitam e vivem infelizes. Debatem‑se com a sua natureza, carregam uma cruz, tendem para a autoflagelação e o martírio. O seu fado é a homossexualidade.

Os inferiores, pelo contrário, aceitam‑se e tendem a ser felizes. Entendem e aprofundam a sua natureza, batem‑se pelos seus direitos, não têm qualquer propensão para o sofrimento gratuito ou o martírio. O seu "pecado" é o homossexualismo.

Eis mais um exemplo da provecta estratégia de dividir para reinar e explorar até ao limite do possível e do impossível o também provecto sentimento de culpa judaico‑cristão.

Tempos houve em que, em matéria de sexo, a Igreja era bem mais assertiva. Hoje, tem muito mais cuidado com os maniqueísmos, mas guarda uma considerável reserva desta forma fanática de pensar precisamente contra aqueles e aquelas ainda expostos/as aos desmandos, arbítrios e hipocrisias sociais. Que ela, aliás, sempre soube fomentar tão bem...

Assim, e de acordo com geniais mentes, que em nome de Deus "desencantam" estas inteligentíssimas dicotomias, enquanto a homossexualidade é um estado (quase) beatífico (como o da meretriz arrependida), o homossexualismo é um movimento subversivo, uma ideologia revolucionária (logo, liminarmente condenável) que ousa reclamar algo que os iluminados pela divina luz "sabem" não poder ser de todo permitido: ser‑se feliz.

E uns quantos homens pretendem que determinam o que pode – e o que não pode – ser a felicidade dos seus semelhantes.

Se isto não fosse estultícia máxima – e imensa ignorância – seria apenas ridículo…

RIC

"El homosexual y la lesbiana nacen en el siglo XIX, entre la medicina y la criminología, como categorías a corregir, a curar y a perseguir y eventualmente eliminar."
(O homossexual e a lésbica nascem no século XIX entre a medicina e a criminologia, como categorias a corrigir, a curar e a perseguir; eventualmente, a eliminar.)

in Gabriel GIORGI - Sueños de exterminio. Homosexualidad y representación en la literatura argentina contemporánea. Rosario, Beatriz Viterbo, 2004.

domingo, 17 de setembro de 2006

Pérolas negras...

Em muitos aspectos, continuamos a ser «mais papistas que o Papa». O Alemão é uma língua germânica, ao passo que o Português é um idioma românico ou novilatino, tal como o Francês. Até aqui, nada de novo. Constata‑se, porém, com não pouca estranheza, que dossier, em tempos um galicismo abominado pelos lusos puristas – propunham eles como substituto pasta ou arquivador –, permanece em Alemão com a mesmíssima roupagem gráfica, apesar da reforma recentemente aprovada e que tanta celeuma tem causado em terras trans‑renanas. Em Português, ao invés, embora bem mais próximo do Francês que o Alemão, os bem‑pensantes nacionais «acharam» tal grafia «opaca» demais e avançaram com o barbarismo ortográfico «dossiê», o qual, aliás, não é caso único nos «avanços» contra a herança cultural novilatina, vetusta de quase três mil anos.

Porquê o medo do verbo «declamar»?! A poesia não pode ser apenas dita. Ela deve ser declamada; tem de ser declamada. Doutro modo, não seria poesia, mas apenas prosa rimada. Todo o diseur – galicismo supérfluo – é um declamador, goste‑se da palavra ou não. (Mas depois temos o reverso da medalha: na telenovela mais inqualificável, actores e pseudo‑actores – julgando‑se quiçá no palco do D. Maria – declamam arrazoados de impossíveis diálogos como se de pérolas dramáticas se tratasse.)

São muito cultos, alguns jornalistas nossos! (Não é garantido que sejam de jure jornalistas, mas que de facto escrevem em jornais, escrevem.) E é com inegável mestria que dominam o Português: sabem que há snipers, mas parecem ignorar o que são franco‑atiradores; anunciam mudanças no west bank, sem que se chegue a saber se é à margem ocidental do Jordão que se referem.

O insucesso escolar é uma consequência directa da sociedade que temos vindo a construir – mal! – e que, em alguns aspectos, temos até vindo a destruir, por força de imitações descabeladas do que de pior nos chega um pouco de toda a banda. É o desnorte. As escolas pouco mais podem fazer que acompanhar os tempos e as tendências. Nunca foram revolucionárias, nem nunca o serão.

… Para encarar a semana bem de frente, olhos nos olhos, e reavivar o espírito crítico que um Verão bem vivido pode ter deixado meio letárgico…

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Sob o signo da esperteza saloia: outro fado?

Estou eu e estaremos muitos decerto cansadíssimos da mediocridade pacóvia, provinciana, pirosa e bacoca que, de dia para dia, vai exponencialmente proliferando neste cantinho peninsular. Em quantos aspectos, áreas, sectores, domínios, «vertentes» não estamos já a anos‑luz dos «nuestros hermanos»? É demais!

Se isto é uma provocação?! É claro que é! Não tenham dúvidas! Porque polemizar também é fazer cultura. Repito: polemizar.

Ainda que de uma forma intensa, ácida, chamando as coisas pelos nomes, pegando o touro pelos cornos, adjectivando e adverbializando, polemizar não ultrapassa nunca os óbvios limites cordatos que civilização e cultura definem; não cai nunca no insulto gratuito, na boca rasca ou no palavreado acintoso.

Polemizar implica forçosamente argumentar. E argumentar implica a organização lógica do discurso. E porque é por escrito, não há lugar para subentendidos, alusões ou insinuações que a comunicação presencial «aguenta» por força das expressões faciais, dos olhares, da mímica, da gestualidade em geral. E ainda porque é por escrito, não se compadece com conversa de café sobre futebol ou gajas boas. (Não estou a ver gays com um discurso desarticulado sobre gajos bons, mas pode ser desconhecimento meu, admito. Em todos os grupos sociais portugueses há grandes diferenças no tocante a educação e cultura, sejam eles maioritários ou minoritários.)

Em resumo: há que saber manter o nível, mesmo no calor mais intenso da refrega mais impiedosa. E para saber fazê‑lo é necessário não perder nunca de vista um valor primordial que, nos dias de hoje e de igual modo por todo o mundo, anda cada vez mais arredado das relações humanas, com seriíssimos prejuízos para as vidas de todos nós – o respeito. Recuso‑me a aceitar quaisquer campanhas destinadas à promoção da tolerância com a mensagem subliminar de «olhar para o lado para não insultar ou mesmo para não chegar a vias de facto». Abomino a tolerância. Exijo para mim o respeito; aquele mesmo que devo e dou aos outros. Nada mais. Promove‑se hoje a «toleranciazinha» como nos idos de sessenta se apregoava a «caridadezinha». Atitude abjecta e abominável!

E com o que é que somos confrontados a todos os níveis, sempre que se trata de uma polémica, de uma celeuma? Meras picardias de baixo nível, com todo o tipo de insultos e bengaladas à mistura, porrada verbal (quando não chega ao contacto físico), banditismo/terrorismo argumentativo, discursos ornados dos useiros e vezeiros palavrões da nossa praça, sujeitos a lógicas fortuitas e aleatórias («da batata»), sem qualquer intenção de convencer o adversário ou sequer de derrotá‑lo inteligentemente. Não, o que «triunfa» é a esperteza saloia de má memória, que prevalece sobre tudo e todos, alastrando já a níveis e a áreas onde ainda há pouco era impensável – quanto mais admissível – que tais práticas se verificassem.

Por este andar, seremos cada vez mais terceiro mundo (em termos de princípios e valores), e o nosso «primeiro mundo» será cada vez mais de fachada, fruto das mirabolantes manipulações estatísticas. Ou seja, mera retórica para bruxelense ver.

E por cá continua tudo na mesma, com os chicos espertos a arrotarem de fartura. É uma casa portuguesa com certeza…

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Poor chavs, how I pity them...

I am in the company of someone I am lavishly fancying, and we are on the edge of… well, you know… Heads completely lost, anxious to move on to the next step, not knowing right from wrong anymore…

Red Light!!! Stop!!!
Okay, okay! I'll go get them, there are some in the top drawer, I guess (I just can't have used them all up already, I think.).

– Oh don't bother, dear! I happened to buy some this afternoon. Aren't they cute?

Oh my God! The very minute I see that my… interest is gone. How?! I was so interested just a second ago… Under the room's shadowy light I take a closer look at the small package. Horror! It's a «Burberry»!

I wake up in distress. My bed sheets are soaked in sweat. Another f…cking nightmare. When is this sh…t ever going to end?

«The horrid omnipresence of «Burberry» tacky pattern…»

Puhlease! … Why did I have to write down this sentence in my notebook?! It just went on hammering in the back of my head. The nightmare was the outcome.

Around here you can see it almost everywhere: women and men alike wear anything displaying this pseudo‑classical combination of beige, red, white and black in a pattern which looks – it does look – rather Scottish. Maybe that's why it's so attractive, I couldn't say. I've never liked it, don't know exactly why either…

When I was about to start searching for an eloquent visual example of my viewpoint (so that I could convince my blogger friends I'm so right about this!) – Oh vision from hell below! – I came across this infamy in the shape of a… condom!

But I swear, I promise you all it was a nightmare… You don't believe me, huh? Well, I guess if I were in your shoes I wouldn't believe it either…

Can it ever be possible this belongs to the real world?! Yuk!

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

O pequenininho mundo interior dos Portugueses


Se os Portugueses terão sido sempre brandos, hoje sê-lo-ão porventura mais do que nunca. Bastará lançar um furtivo olhar aos nossos vizinhos para perceber em que atoleiro nos temos vindo a afundar. Que fazer quando, enterrados os sonhos de um tempo que se afigurou promissor, se olha em volta e quase tudo parece decorrer de uma insaciável vontade de dinheiro fácil, de uma inaudita ganância?

Que caminhos trilhar na busca da construção de uma capacidade colectiva de reflexão que nos liberte, enfim, deste nosso estado de menoridade? (Ia acrescentar o adjectivo «intelectual», mas obviamente não é possível.) É certo que sempre nos levaram a não pensar. Se somos pouco ou nada reflexivos, muito pouco ou nada propensos ao pensamento sistemático, excepções há – e das melhores – que nos devem inspirar. Nomes? António Sérgio, Leonardo Coimbra, Agostinho da Silva, Fernando Gil, Eduardo Lourenço… Mas, lá está, para saber o que pensaram e como pensaram, é preciso ler.

Planos nacionais de incentivo à leitura? Ah, mas sem dúvida, com certeza! Desde que, nas escolas, os alunos acreditem que ler é também o que toda a gente faz. Adultos inclusive, naturalmente. Mas como tal não é, de todo, o caso, em quem poderão eles acreditar? E aqui entramos nos terrenos movediços dos facilitismos incentivados por muitos morangos com açúcar, muitos diários desta e daquela, muitas floribelas e quejandas calamidades verdadeiramente obscenas e pornográficas, decididamente apostadas em manter o statu quo. (Para esclarecimento do significado de pornografia, queira consultar um dicionário etimológico.) Ou haverá ainda alguma boa alma ingénua, crente de que sejam as ditas audiências a determinar as programações televisivas?

Haverá algum grupo de cidadãos apostados em lutar contra estes despautérios, que mais não seja para defesa da sanidade mental dos filhos? Não. Por aqui se vê que não somos dados a iniciativas que, noutras paragens, movimentam cidadãos activos que não se curvam aos desígnios, quase sempre camuflados, de um poder político transformado em testa de ferro de poderios económicos, graças aos desmandos de um ultraliberalismo que, sempre por dinheiro, trucida seres humanos sem dó nem piedade. E enquanto disto não tomarmos todos nós consciência plena e não nos opusermos decididos a este estado de coisas, misérias maiores cairão sobre nós, dia após dia, até tudo rebentar pelas insustentáveis costuras.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

A REQUEST, GUYS!

«I don't know why it always comes as a surprise
to find I'm here with you.
You smile
and I am rubbing my eyes
at a dream come true»...

BILINGUAL
PETSHOPBOYS

Well guys, I would truly and sincerely appreciate if each and every one of you would be so kind as to refer NAMES, FACTS and OBJECTS (any kind) you «automatically» link in your mind to being Portuguese, Portugal and Portuguese culture at its broadest. I've been doing that very same research for some time now and would like very much to come to some conclusions, which I'll be posting here in a week or two. Please, don't be shy. Anything may be of importance to me.
I'm counting on you, okay? Is it a deal?

Many, many thanks!