terça-feira, 7 de novembro de 2006

II. Curiosíssima destrinça conceptual!...

Esta "novidade" chegou‑me do Brasil. É provável que esteja a fazer carreira também noutras paragens. Trata‑se de uma genial divisão entre homossexuais… superiores e inferiores.


"Um pastor evangélico falava em aceitar os homossexuais que não gostam de ser homossexuais, mas ele também dava a entender um certo preconceito contra os homossexuais que aceitam ser homossexuais. Ou seja, a igreja desse pastor acolhe um tipo específico de homossexual, mas persegue o outro tipo." [Carioca]


Os superiores não se aceitam e vivem infelizes. Debatem‑se com a sua natureza, carregam uma cruz, tendem para a autoflagelação e o martírio. O seu fado é a homossexualidade.

Os inferiores, pelo contrário, aceitam‑se e tendem a ser felizes. Entendem e aprofundam a sua natureza, batem‑se pelos seus direitos, não têm qualquer propensão para o sofrimento gratuito ou o martírio. O seu "pecado" é o homossexualismo.

Eis mais um exemplo da provecta estratégia de dividir para reinar e explorar até ao limite do possível e do impossível o também provecto sentimento de culpa judaico‑cristão.

Tempos houve em que, em matéria de sexo, a Igreja era bem mais assertiva. Hoje, tem muito mais cuidado com os maniqueísmos, mas guarda uma considerável reserva desta forma fanática de pensar precisamente contra aqueles e aquelas ainda expostos/as aos desmandos, arbítrios e hipocrisias sociais. Que ela, aliás, sempre soube fomentar tão bem...

Assim, e de acordo com geniais mentes, que em nome de Deus "desencantam" estas inteligentíssimas dicotomias, enquanto a homossexualidade é um estado (quase) beatífico (como o da meretriz arrependida), o homossexualismo é um movimento subversivo, uma ideologia revolucionária (logo, liminarmente condenável) que ousa reclamar algo que os iluminados pela divina luz "sabem" não poder ser de todo permitido: ser‑se feliz.

E uns quantos homens pretendem que determinam o que pode – e o que não pode – ser a felicidade dos seus semelhantes.

Se isto não fosse estultícia máxima – e imensa ignorância – seria apenas ridículo…

RIC

"El homosexual y la lesbiana nacen en el siglo XIX, entre la medicina y la criminología, como categorías a corregir, a curar y a perseguir y eventualmente eliminar."
(O homossexual e a lésbica nascem no século XIX entre a medicina e a criminologia, como categorias a corrigir, a curar e a perseguir; eventualmente, a eliminar.)

in Gabriel GIORGI - Sueños de exterminio. Homosexualidad y representación en la literatura argentina contemporánea. Rosario, Beatriz Viterbo, 2004.

16 comentários:

kevin disse...

Your Portuguese sounds so sexy! I only wish i could understand it.

I hope that your day in Europe is going good.

Kev in NZ

Gray disse...

My trusty translator pretty much failed me this time. However, I think I got the basics of the article.

The church accepting one type of homosexual and hating another type? How unusual. Perhaps the modern equivalent is when churches say "love the sinner but hate the sin"?

Do you think that the church has different "categories to correct, to cure and to pursue" and eventually, to eliminate?

Lastly, am I correct that this work was published in Argentina?

I love increasing my knowledge of foreign literature and movies. How else can one truly gain knowledge of others?

RIC disse...

Hello Kevin! Curiously enough, others have said written Portuguese sounds/looks sexy... I don't know why and cannot have an opinion about that: I'm inside, so to speak...
My day in Europe is going alright as yours in New Zealand is already the next one... How confusing!...
Just btw - and excuse my curiosity - are you in Christchurch or in Nelson? (I've been updating my Geography, step by step...)
Best wishes! :-)

RIC disse...

Hello Gray! I think I know why your translator failed you this time... I was quite ironical with my words.
In Brazil some evangelical church decided to distinguish between homosexuality and homossexualism, which per se is absurd. In the first category would go those who don't accept themselves (wishing for a reparative therapy, I'd add...), and in the second would go the outcloseted, so to speak.
Bearing in mind the ending -ism implies some kind of movement or ideology, the scope of this distinction is quite apparent!...

That last sentence is something else: Gabriel Giorgi is a professor in Santa Barbara for Spanish and Portuguese literature, he's Argentinian, and has been doing a thorough research on how homosexuality is perceived in nowadays Argentinian literature. I just thought I should quote him. This part has nothing to do with the church, but with society as a whole since the 19.th century.
I could not agree more with you, Gray! Literature and cinema are wide open windows to get to know the world!
Thank you so very much! :-)

Shadow disse...

Só passei para deixar um «hello» e um abraço. Ultimamente não tem sido possível fazê-lo, pois a vida prega-nos partidas completamente inesperadas...
Espero, sinceramente, que esteja tudo bem contigo, Ric.

(Chega a ser curioso, sentirmos a falta de quem não conhecemos...que estranho! Que «brutal»! )

Até...(já).
Beijinho :-)

RIC disse...

É verdade, Carla, tens razão. Já tinha dado pela tua ausência e pensei que algo deveria ter acontecido. Partidas da vida... Pois, e o problema com elas é que são sempre (ou quase) inesperadas. Espero que recuperes o controlo tão depressa quanto possível.
Quanto a mim, vou-me desenvencilhando conforme me vai sendo possível. Novembro e Dezembro não são os meus meses preferidos nem os mais propícios... À parte isso, tudo bem!
Pois é, estranhamos mesmo as ausências. Umas quantas palavrinhas por dia. O mundo muda connosco e nós com ele.
Até logo (que te seja possível)!
Muito obrigado!
Um beijinho para ti também! Tudo de bom!

Carioca disse...

Hum! Eu tô vendo que você se indignou tanto quanto eu com essa... maluquice de divisão que essa igreja inventou, né?
E o curioso é que algumas pessoas que comentaram no blog onde eu vi esse post acharam que não tinha preconceito nenhum nisso!
Bom, cada cabeça é uma sentença, né?
Mas gostei muito do post. Não porque eu ´fiz parte` dele, mas sim pro pessoal acordar e prestar atenção nesses preconceitos escondidos nas entrelinhas de certos discursos religiosos!
É isso aí. Um abração, amigo!

RIC disse...

Olá Carioca! Como vês, fiquei de facto a pensar nas várias manipulações conceptuais a que as instâncias do poder geralmente se entregam. Neste caso, uma igreja, mas o poder político também fornece vários exemplos.
A intenção da separação é óbvia. E aqui, há uns anos, havia quem falasse em «homossexualismo» com a conotação evidente de «movimento clandestino, ilegal, de submundo».
Todos nós sabemos quão poderosas são as palavras...
Obrigado e um abração! :-)

disse...

Pois é, amiguinho... Na verdade, são essas as coisas que aguentamos com essas "religiões" que se proliferam neste ponto dos Trópicos. Nossos protestantes, a quem chamamos de evangélicos, ou de maneira mais simples -- e até com um tom pejorativo -- crentes, são assim. Para eles tudo é pecado e errado. O importante é pagar o dízimo.

O engraçado é que eles não se cansam de atribuir tudo ao diabo, com atenção especial às religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. Mas recentemente, encontramos uma série de apropriações de procedimentos dessas religiões afro-brasileiras pelos crentes. Eu conheço algumas da Igreja Universal do Reino de Deus, a pior delas. Muitos de seus pastores aparecem de branco nos programas de televisão. Há pouco tempo, fiquei sabendo através de uma amiga, de um "tratamento espiritual" feito na praia e com o uso de pipoca. Até aí tudo bem, se esses não fossem elementos típicos das religiões, segundo eles, demoníacas. O mar, por exemplo, tem a ver com Iemanjá, orixá -- deus africano -- famosíssimo aqui no Brasil; enquanto a pipoca, também pode ser associada a um outro orixá.

E assim eles vão agindo e seguindo. Eu sinceramente tenho um verdadeiro horror e antipatia a essas religiões, produtoras das maiores ignorâncias e intolerâncias em relação à diversidade.

Você deve pensar que eu estou sendo contraditório e não respeitando a diversidade, não? Mas você precisa conhecer as "idéias" desse pessoal de perto! Mais retrógrados que eles não há.

Nature Boy disse...

bem, é tão ridiculo que nem merece que se lhe dê atenção...

RIC disse...

Olá, Lê! Muitíssimo obrigado! E enganas-te se pensas que não levo a sério as tuas palavras! A IURD instalou-se aqui há já uns anos e faz as mesmas coisas. Como calculas, não sou versado em espiritualidades afro-brasileiras, mas tendo lido Jorge Amado e sendo curioso sei alguma coisa sobre o assunto. Curiosamente, os evangélicos - de facto, o protestantismo de origem alemã, luterano - mantém aqui um perfil bastante discreto - ao contrário da IURD que já se envolveu em escândalos.
Tenho grande respeito pelas espiritualidades afro-brasileiras, mas as seitas resultantes de «osmoses esquisitas» dão-me volta ao estômago... Vão começando a surgir também aqui na Europa, mas parece-me que são cuidadosos, discretos. Não têm grandes públicos.
O horror é esse mesmo: são manipuladores e fomentadores da ignorância, da intolerância e da estupidez.
Um grande abraço, Lê!

RIC disse...

Olá, NB!... Bem-vindo e obrigado!
A pseudo-distinção conceptual é inqualificável, obviamente! Estou de acordo contigo. O que me «desassossega» é imaginar que há muitas outras manipulações semelhantes que poderão causar a infelicidade de milhares de crédulos. Nós - tu e eu - temos os meios para os mandar dar uma volta. E quem não tem?
Eu creio que é preciso estar atento a estes pulhas, independentemente do credo. Interessa-me muito a ética (ou a falta dela...) desta gente.
Um grande abraço para ti! E um sorriso, já agora... :-)

André disse...

Eu tive uma formação mais ou menos católica, é evidente que pouco me identifico com a Bíblia, mesmo o Novo Testamento acaba por ser de uma exigência tal que sempre me dissuadiu de viver a fé católica. De qualquer modo sinto falta de uma dimensão espirutal na minha vida. Pois, ando à procura de uma nova espiritualidade, demasiado cliché? Talvez.

RIC disse...

Não, de todo, André! Nada cliché, como dizes. A busca da espiritualidade é intrínseca ao homem, como sabes. Por isso é que não deves deixar a música! (Digo eu...)
Sendo tu um homem de ciência, creio que tens um bom caminho a percorrer se te interessares, por exemplo, por filosofia da ciência. Sei que não és de biologia, mas há áreas da engenharia que envolvem questões éticas bem decisivas para o futuro da humanidade.
Eu também tive uma educação católica e considero-me hoje um cristão cultural (para não dizer que sou agnóstico). Mas compreendo que há quem precise de mais. Deves, por isso, procurar o que te faz falta, desde que não cedas às tentações das seitas e mantenhas o teu discernimento activo.
(E já respondi demais...)
Um forte abraço, querido amigo!

Mariano disse...

This is basically the position of the catholic church. I talked to a priest last december and he said the church has instructed priests "not to condemn" homosexuals. "What is condemnable" he told me "are homosexual acts, but homosexuals themselves can be very valuable members of the community." Then he went on to talk about how Jesus was on the side of the most downtrodden members of society, and that we should bear our stigma with pride. That, looking at homosexuals in history, it was obvious that we tend to have a more developed sensibility (?!?!?) than most heterosexuals, and that this was a gift given to us to compensate for our cross.

HE-LLO????

RIC disse...

Well, Mariano, really! At first it even crossed my mind you were okay with that other distinction between «bearing the stigma» (how so full of guilt...) and «practicing homosexual acts»... I'm sorry for having thought that...
So now we have a more developed sensibility, huh? How convenient foe the catholic church to justify so many things, I'd say...
I had heard about that here too. The catholic church has a program on TV that I now and then watch just to be posted about the news coming from Rome...
So if you lead your life like a castrato that fine with the catholics... And what do catholic priest do in the meantime? I wonder...
Thank you, Mariano!