quinta-feira, 23 de novembro de 2006

I. Dúvidas acerca da construção europeia? – Pois…

Um argentino radicado em Berlim – Linkillo (cosas mías) – escrevia há tempos:

"Na Europa já não existem Estados nacionais, mas os europeus parecem não notar tal facto. Atónitos, resistem à inexistência das nações em que – vá‑se lá saber porquê… – tanto apostaram; e fazem‑no através de complicadas operações imaginárias que os revelam um pouco mais tontos do que simplesmente parecem. Por exemplo, a resistência ao euro."

Não poderia estar mais de acordo. Uma aposta que, desde o dealbar do século XIX, já custou uns largos milhões de vidas. E que ainda continua a fazer vítimas…

"Em Espanha realizam‑se operações imobiliárias em pesetas; em França, os bilhetes de comboio indicam, sob a importância em euros, o equivalente em francos; na Alemanha, professores universitários calculam em marcos o preço de um copo de cerveja…"

Em Portugal, continuam a afixar-se preços em euros (algarismos grandes) e em escudos (algarismos pequenos)…

"Só desse modo, dizem, podem saber se algo é caro ou barato, porque a moeda nacional continua a ser a referência. Mas que moeda nacional, se há cerca de cinco anos que já não há moedas nacionais?"

… Logo, uma referência que já não o é: cinco anos retiraram‑lhe qualquer valor referencial que pudesse ainda ter…

"É que, precisamente, com o euro houve inflação, e agora tudo está muito mais caro, dizem. E insistem em referir tudo a um passado já mítico, insistem nas suas contas sem sentido. Expressam, deste modo, uma resistência à União Europeia e uma saudade de um passado que já não voltará."


Em Portugal, o escudo ia a caminho do centenário. Muitos portugueses mais idosos ainda se referiam à moeda anterior, a que vigorara até ao final da monarquia. E hoje, para eles, um euro equivale a duzentos mil réis, uma autêntica fortuna! Os mais novos são, a seu ver, esbanjadores natos: como é que dão cem mil réis por um dedal de café?!

"Como as populações envelhecidas são dominantes na cena urbana europeia (pelo menos nas cidades do norte), é difícil que o hábito de conversão para moedas mortas desapareça, ainda que essas moedas mortas, por isso mesmo, sejam incapazes de dar conta da inflação."

Os verdadeiros problemas decorrentes do envelhecimento da população europeia vêm ainda a caminho e reflectir-se-ão em todos os sectores da vida: sociais, económicos, políticos, culturais, etc.
E a conversão em si poderá até constituir um entrave ao consumo…

"Obviamente teimosos, eurocêntricos (ou seja, provincianos) e de imaginação limitada como são os europeus, não entendem o raciocínio."

Apesar de todos os cosmopolitismos, a verdade é que, no seio das populações mais afastadas das brilhantes e radiosas metrópoles europeias – os habitantes da Europa profunda –, é uma mentalidade provinciana que impera. E qualquer tentativa de comparação com as mentalidades expeditas da América Latina – a necessidade aguça o engenho… – é exercício à partida condenado ao fracasso.
Que todos estes "pequenos" problemas constituem uma forma de atrito consentido a uma construção europeia mais célere parece ser evidente, conquanto as instâncias do poder bruxelense não pareçam muito preocupadas…

2 comentários:

Ricardo disse...

Bem, se isso fosse aqui no Brasil não teríamos problemas! Já mudamos de moeda tantas vezes, em tão pouco tempo, que tiramos de letra!!!

MAs entendo a resistência que se cria em lugares com mais tradição e estabilidade que o nosso país!!!

MAs tudo se acerta com o temmmmmpo!!!

Beijão, meu lindo!
:D

RIC disse...

Olá Ricardinho! Pois é, atrás de tempos, tempos vêm... Só que muitas vezes o tempo urge, e não é possível esperar tanto tempo...
Não que eu seja frenético! Bem pelo contrário. Mas muitas vezes, é mesmo necessário estugar o passo.
Quanto a moedas brasileiras, eu ainda sou do tempo do cruzeiro!...
Obrigado!
Outro beijão para ti!