quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Ao Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques


António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques (São Pedro do Estoril, 23.8.1933 - Lisboa, 23.1.2007) foi um emérito historiador português.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com a tese "A Sociedade em Portugal nos Séculos XII a XV" (1956), estagiou na Universidade de Würzburg, Alemanha, e doutorou‑se na Universidade de Lisboa com a tese "Hansa e Portugal na Idade Média" (1970), onde passou a leccionar.

Durante a ditadura do Estado Novo, Oliveira Marques foi afastado por motivos políticos. Viu-se na obrigação de se exilar nos Estados Unidos da América, onde leccionou em várias universidades, como a Universidade de Alabama, depois como catedrático, leccionou na Universidade da Florida, Columbia e Minnesota (1970), entre outras. Para muitos, é um dos melhores historiadores portugueses, em especial no que diz respeito à Idade Média.
Em 1970 regressou a Portugal, reingressando na universidade portuguesa depois do 25 de Abril de 1974. Foi director da Biblioteca Nacional de Lisboa (1974-1976), professor catedrático (1976) da Universidade Nova de Lisboa e presidiu à comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas dessa Universidade.

Foi então que tive o prazer e a honra de conhecer o Professor. Embora não fosse estudante de História, tive o privilégio de testemunhar alguns momentos que hoje fazem já parte da História da instituição. Recordo com saudade algumas conferências abertas a toda a Faculdade…

Dedicou o seu trabalho a estudos sobre duas épocas da historiografia portuguesa – a História Medieval e a História da República.
Em 1982, em comemoração dos 25 anos da publicação do seu primeiro estudo histórico, foram editados dois volumes com colaboração de historiadores portugueses e estrangeiros e intitulados "Estudos de História de Portugal: Homenagem a A. H. de Oliveira Marques".
Maçom desde 1973, foi eleito Grão-Mestre adjunto (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-1994)

Entre a sua vasta obra, conta-se:

– "História de Portugal" (já com 13 edições), publicada inicialmente em dois volumes refundidos e depois em três tomos (1981) e que foi traduzida em várias línguas (castelhano, francês, inglês, japonês e polaco).
– "A Sociedade Medieval Portuguesa: aspectos da vida quotidiana", em que faz uma análise sobre a vida em Portugal durante a Idade Média.
– "Nova História de Portugal" (coordenador, em parceria com Joel Serrão).
– "Nova História da Expansão Portuguesa" (coordenador, em parceria com Joel Serrão).
– "História dos Portugueses no Extremo Oriente"
(coordenador).
– "História da Maçonaria em Portugal".

O Professor Oliveira Marques faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vitimado por problemas cardíacos, no Hospital de Santa Maria.

R. I. P.

22 comentários:

pinguim disse...

Embora não conheça a sua obra, sei que a sua "História de Portugal" é muito boa.
Bons historiadores no nosso país há poucos, e vão-se perdendo.

RIC disse...

Nada podemos contra a lei da morte. Apenas os poucos que por «obra valerosa se vão dela libertando»...
Obrigado.

Bernardo Moura disse...

É bem verdade o que dizes "Nada podemos contra a lei da morte". Mas o desaparecimento de alguém que contribui para a cultura portuguesa, como é neste caso expecifico é sempre, vá lá "uma perca".
Não sei se me expressei bem, espero que se perceba.
Abraço

Catatau disse...

Já me tinham telefonado a dizer que ele se tinha apagado.
Conheci Oliveira Marques na década de oitenta, por alturas de um pomposo congresso realizado no Porto. Era uma figura que metia respeito, não só pelo brilho intelectual que emanava da sua produção escrita, mas também pela resposta fácil e rápida, pela argumentação acutilante da sua expressão oral. Era - foi-o sempre - um senhor.
Naquela altura, no Porto provinciano (e na Lisboa de falso pudor), fazia escândalo pela sua orientação sexual, mais do que assumida, com os célebres Joões. Na altura eu ainda não acordara para a minha realidade, encarava o facto com muita estranheza (algum desconforto, inclusivé)e achava-o destemido.
Ao longo dos tempos, tive oportunidade de lhe enviar alguns artigos que a sua simpatia impediu de zurzir criticamente. Guardo com muita estima algumas obras autografadas que me ofereceu. Morreu um dos grandes sacerdotes da investigação histórica em Portugal. Um dos mais honestos, sem dúvida!

Tongzhi disse...

Da obra conheço pouco.
Da vida apenas alguma coisa.
Fazia parte de um "lote" de Grandes Portugueses...

RIC disse...

Olá Bernardo! É com certeza uma perda, porque mentes treinadas no trabalho intelectual nunca param de produzir. E Oliveira Marques foi um exemplo para várias gerações.
Obrigado! :-)

RIC disse...

Olá Catatau! Obrigado pelas tuas memórias! Essa brilhante expressão oral que referes atraía-nos ao anfiteatro da FCSH da Nova sempre que ele proferia uma conferência ou havia um doutoramento de cujo júri ele fizesse parte...
E quanto ao «sobrinho» Joãozinho, tens razão: estavam ambos tão à vontade que até as más-línguas (não poucas!) ficavam sideradas, para gozo daqueles que, como eu, viam nele um exemplo a seguir.
Lembro-me de algumas conversas de circunstância com ele, no bar da Faculdade... Era uma pessoa acessível, de trato muito agradável e simpático...
Muito obrigado, meu caro!

RIC disse...

Olá Tongzhi! Ah sem dúvida que é um dos Grandes Portugueses! Um excelente medievalista que muito nos ensinou - e continuará a ensinar - sobre os nossos primeiros tempos.
Obrigado!

carioca disse...

Ric, posso ver que foi um privilégio pra você ter conhecido ele.
Ele teve uma vida muito interessante, sem dúvida!

RIC disse...

Olá Carioca! Foi sem dúvida um grande privilégio tê-lo conhecido!
Em vários aspectos foi/é um exemplo e um modelo! A historiografia portuguesa está agora mais pobre...
:-)

Salty Sailor disse...

hello!

Lampejo disse...

O título "História de Portugal" é me familiar, quanto aos outros, talvez tenha consultado um ou outro aquando dos meus trabalhos de história, no secundário. Mas como não sou lá muito bom a fixar nomes, a minhas desculpas...
Foi-se o Homem, ficou a sua grande obra. Ficará para sempre lembrado.

RIC disse...

Hello Alan! How are you? Thank you for your visit!
Wish you the best! :-)

RIC disse...

Olá Lampejo! É mesmo a obra feita que liberta o homem da lei da morte, no dizer de Camões (que também se libertou, sabendo-o muito bem, estou certo!).
Mas nem todos, mesmo com obra feita, o conseguem... Há mortes mais poderosas que outras, creio. Ou então, há uma justiça de além-túmulo...
O Professor Oliveira Marques ficará entre nós...
Um abraço! :-)

aracnauta disse...

"Aquilo que mais atordoa os historiadores são as fontes documentais que na sua maioria são umas melgas...." lollllll

O. Marques, dixit a tomar uma bica com um gayjo que do alto dos seus trinta e picos tinha a mania que sabia umas coisas de história!
E que agora sabe que quanto mais sabe...tra-lá-lá...

disse...

Pois é... Recebi a notícia ontem à noite através de um colega português da Universidade de Coimbra que fez intercâmbio aqui nos Trópicos.

Conheço a obra do prof. Oliveira Marques, mas, ao contrário do que era de se esperar, conheço sua obra no que se refere ao Antigo Regime português. Minha área de estudo é História das Instituições e estou pesquisando a expansão do Estado português no Brasil no período pós-pombalino, ou seja, Antigo Regime.

Não cheguei a dar nota no meu blog, mas mandei a notícia pelo grupo de discussão de História da minha universidade.

Mas, não vou chegar a lamentar a morte do professor. As novas gerações chegarão. Uma nova geração de Oliveiras Marques e, mais algum tempo pra frente, de Serrões e de A. M. Hespanhas (não que eu esteja já enterrando estes mestres. Ao contrário, vida longa a eles!). Como bem citou o amiguinho Bernardo Moura aqui "Nada podemos contra a lei da morte".

Abraços!

RIC disse...

Olá Aracnauta! Obrigado pela homenagem sentida nas tuas palavras!
Como já disse atrás, entre os estudantes havia sempre alguém que apreciava o momento em que o «director» (assim era então chamado entre nós) descia ao bar da Faculdade para uma bica. E havia sempre uma pequena cavaqueira, despretensiosa mas cheia de ensinamentos. Saudade!...
Quanto à altura dos vinte e muitos/trinta e poucos, também eu pensava que falava e escrevia Alemão como um alemão... Não tivera eu um 20 num exame com a grande germanista - dramaturga e poetisa! - Yvette Centeno?... Pois é... Notas são notas e competências são competências...
Aprecio muito a sabedoria socrática e quem a partilha!
Um abraço! :-)

RIC disse...

Olá Lê! «News travel fast these days»... Obrigado pelas tuas palavras!
Se bem entendi, as balizas temporais do teu trabalho serão 1777 e 1824. Estarei certo?
Também não creio que seja necessário «lamentar» o desaparecimento de alguém que não desaparecerá do nosso convívio.
Quanto à citação, fui eu que a fiz e pertence a Camões: «e aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando». A César o que é de César...
Abraços, meu caro! :-)

MrTBear disse...

A História é um dos meus hobbies. Oliveira Marques é uma referência. Ao contrário de outros, não se deixou levar pelo populismo. Tinha aquilo que falta a muito boa gente.... RIGOR e ESPÍRITO CIENTÍFICO.

disse...

Olá, amigo! Na verdade, meu trabalho vai de 1777 a 1808. O corte cronológico termina com a chegada da Corte ao Brasil porque a partir daí dá-se um momento histórico muito particular, que merece destaques à parte.

A metodologia que escolhi foi a das redes relacionais. Daí, estou traçando a rede relacional do bispo Mascarenhas Castelo Branco (diocesano do Rio de Janeiro de 1773 a 1805). Como os bispos são indicados ao Papa pelo Rei, parto da suposição de que os mesmos Bispos sejam agentes da Coroa e executores das diretrizes do Estado ao longo dos reinados. Daí, através das relações de Mascarenhas Castelo Branco com a administração metropolitana, a administração central colonial, as relações com o clero secular e regular, com o Senado da Câmara no Rio de Janeiro, vou buscar ver se este bispo foi ou não um instrumento do regalismo pós-pombalino e se este foi realmente um instrumento eficiente no crescimento da ação do Estado português – também e especialmente no que tange o Brasil – através do delineamento de uma esfera pública, já no sentido weberiano.

Falei, falei e não falei o que queria! Hhehehe Bem, como ia dizendo, como o "meu bispo" começa sua atuação no Rio de Janeiro em 1773 e morre em 1805, apesar de minha pesquisa formalmente ir até 1808, eu acabo, na prática, terminando com 1805. Afinal, seu sucessor chega apenas em 1807 e aí, já é outra pessoa e tal. Preferimos parar em 1805. Quanto ao início, seu bispado ser iniciado em 1773, ainda no reinado de D. José, é bom, já que, a princípio, isso poder ser considerado como um indício de continuação de uma política pré-existente quando D. Maria sobe ao Trono e quando D. João torna-se regente.

Desculpe... Acho que me empolguei... É o problema de gostar-se do que faz! HEhehehehe Bem, mas assim você sabe exatamente o que estou estudando! HEhehehehehehehe

RIC disse...

Olá Teddy Bear! Muito obrigado pelas tuas palavras! O que tenho lido da obra do Professor leva-me a partilhar a tua opinião.
Um abraço! :-)

RIC disse...

Muito obrigado, Lê! Podes «empolgar-te» sempre que entenderes! Agradeço que tenhas partilhado connosco o objecto do teu gosto e do teu trabalho! É muito interessante e atraente a forma viva como apresentas a tua investigação.
Espero e desejo que D. Mascarenhas Castelo Branco seja simpático para contigo e te forneça todos os elementos necessários ao teu trabalho! Desejo-te as maiores felicidades!
Um abraço! :-)