terça-feira, 22 de maio de 2007

«Aux Champs Élysées…» (1.ª parte)

«Deixei o hotel, meti-me no metropolitano, saí em Franklin D. Roosevelt, na Rotunda dos Campos Elísios, comprei o Le Monde e o Le Parisien e procurei uma esplanada. Em menos de cinco minutos estava sentado a uma mesinha de mármore com um requintado pé único em ferro finamente trabalhado, a tomar um café e uma água, com uma esplêndida vista sobre a Via Triunfal. A vida é bela. Às vezes.

É isto Paris. Ao fundo, à direita, destaca-se o augusto volume do Arco do Triunfo, e à esquerda esgueira-se o topo do obelisco da Praça da Concórdia. Dali desce em direcção ao Sena a avenue Montaigne, onde Marlene Dietrich viveu enclausurada os últimos dezanove anos de vida. Os mitos brotam férteis, até nos terrenos mais áridos. Que desgosto arrasador o dela quando, no rescaldo da II Guerra Mundial, vem a saber que uma irmã fora comandante do campo de extermínio de Bergen‑Belsen, onde apenas alguns meses antes da libertação morrera Anne Frank. E não muito longe dali, lembrei‑me então também, outra mulher de génio, senhora dos palcos e de públicos universais, terminara amargurada os seus dias, também retirada do mundo num apartamento da avenue Georges Mandel. Maria Callas, a divina. Ela sim, a Voz!

Estava uma manhã não muito fria, um céu de um azul intenso, magnífico, e uma luz perfeita. Há uns decénios, se afirmasse que aquele era o centro do mundo, ninguém ousaria desmentir-me. Um ou outro poderia manifestar opinião diferente, mas seria difícil encontrar alguém que abertamente me contrariasse. Hoje, mesmo que eu o afirmasse com alguma reserva, olhar-me-iam de esguelha, esboçariam um sorriso condescendente, como a dizer-me que estaria a delirar ou há muito afastado do mundo real e, caso eu quisesse fazer vingar a minha opinião, acabariam por pronunciar com todos os sons o nome da Grande Maçã, a Big Apple, essa sim, o verdadeiro centro do mundo. Muito bem, diria eu, Nova Iorque é fabulosa, sem dúvida, mas Paris continua a ser outro mundo...


Rond-point des Champs Élysées – Rotunda dos Campos Elísios

Um cartaz publicitário espalhado pela cidade em paragens de autocarro e estações do metropolitano era disso a prova. Um jovem e perfeito busto feminino, de rosto inclinado de um modo que lembrava os retratos de Amedeo Modigliani, de belos seios véneros desnudos, era o suporte de uma mensagem que ainda há pouco seria, sem mais, proibida por lei da República. «No Frenchwoman would ever feel silicone silly cones as a Triumph. Silly if she did…» Na margem inferior do cartaz, em letra miúda, a versão em Francês era apenas um arremedo. Tradução é traição. A jovem geração já não pensa em lutas contra o corsage, o soutien-gorge ou a brassière, que gerou o wonder bra, e rendeu-se em bloco ao Inglês americano. Mais ainda, ao propalado American way of life! A moda tudo pode, e um subtil ideário de tempos idos volta a insinuar-se, pronto a regressar. Já só falta o espartilho e o corpete. E a haver alguma batalha, nem sequer será contra o franglais, cuja proliferação levara Étiemble a chamar aos franceses uns cocardiers e coquardiers. Patrioteiros zarolhos. Mas isso já foi há mais de quarenta anos. Era outro, o mundo, nem mais novo, nem mais velho. Apenas outro. E era outra, a França. Intrigou-me aquele laxismo linguístico invasivo, coisa rara ou mesmo impensável ainda há pouco tempo. Pois é, mas todo o estatismo é mera abstracção. Tudo é perpétuo movimento, contínua mudança ininterrupta. É, e será sempre, muito forte a tentação de querer ver o perene no efémero.

Ao arrumar o saco para arranjar espaço para os jornais, dei com os postais que trouxera do Beaubourg. Estavam selados e endereçados e alguns já escritos desde o dia em que os comprara, mas esquecera-os numa das bolsas interiores do saco. Que cabeça a minha… Pus os jornais de lado e resolvi ali mesmo acabar o que deixara a meio. E entre umas frases rápidas e uns goles alternados de café e água, ia observando quem passava. Uns seguiam com a calma de quem tem todo o tempo do mundo, outros riscavam o espaço com a pressa de quem, já sem tempo, deveria estar alhures há muito tempo. Sempre o tempo. Sempre a corrida contra o tempo. Gentes dos quatro cantos do mundo que o acaso ali juntava, naquele preciso instante, vestindo roupas exóticas, exibindo gestos que mal entendo, talvez exercendo profissões que desconheço e revelando hábitos e costumes das mais diversas formas e feitios, espelhos de outras tantas tradições de que nunca ouvi nem ouvirei falar.

Mais do que todas as palavras bem-intencionadas a favor disto e daquilo, mas cada vez menos eficazes por serem cada vez menos as gentes que lhes dão ouvidos, urge promover a xenofilia, não com mais palavras e palavras, mas com acções que incluam todos e lhes façam sentir a necessidade de se aproximarem dos outros, interrogá-los, partilhar com eles fragmentos do dia-a-dia, indagá-los sobre sonhos e ansiedades, enfim, conhecê-los. É simplista, e muito fácil até, dizer, por exemplo, que os italianos têm olhos grandes, os franceses boquinhas pequeninas, os alemães enormes manápulas ou os ingleses esquisitos cortes de cabelo. Ao invés, é fomentando atitudes e comportamentos xenófilos que se contraria o levantamento de barreiras entre comunidades que, embora com hábitos diferentes, são vizinhas e vivem quotidianos semelhantes. É o resultado de viver em espaços alucinados de anonimato e indiferença. O conhecimento de línguas é essencial, e os melhores laboratórios são as grandes metrópoles, onde o cosmopolitismo é hoje, porém, enganosa aparência. A xenofilia seria uma salvação possível. De resto, de que serviria viajar se fosse apenas para ver pedras amontoadas ou ficar estendido numa praia ao sol dos trópicos? Nisto fiquei a pensar, olhando para toda aquela gente e sentindo-me mais prosélito que nunca. Se não me precaver com os cuidados necessários, ainda dou comigo a proferir discursos muito cheios de boas intenções ou a aplaudir perorações absurdas de abstrusos discursos alheios...
E Paris, conquanto já não seja o centro do mundo, para bem ou para mal é ainda uma metrópole onde se olha em volta e se vê mundo. Muito mundo.»

(Seguir-se-á a 2.ª parte em breve…)

RIC

8 comentários:

Catatau disse...

So cosmopolitan of you! ;)

Belo texto de uma babel europeia!

RIC disse...

Olá João M.! Aguardava o teu regresso...
Thank you so very much! Most kind of you indeed...
Esperemos que venha a ser uma boa Babel...
Um abraço! :-)

Shadow disse...

Nunca vou conseguir fazer-te compreender o significado da raíz quadrada de -1(não esqueci...) tão bem, como tu descreves nesta texto, certos «mundos» no Mundo.

Beijinho! :-)

RIC disse...

Oh, como ela é tão querida!...
Olá Carla! Não vejo como não... Só se eu não conseguir perceber mesmo!
Obrigado!
Um beijinho! :-)

Maurice disse...

Como Dali, podemos declarar o centro do mundo onde nos apeteça... Mas Paris continua a ter, como poucos lugares, esse "muito mundo" de que falas. Tenho vontade de lá voltar...

Abraço

Bernardo Moura disse...

Que sorte! Adoro Paris!
Gostei muito do teu texto por momentos estive em Paris!
Grande Abraço

RIC disse...

Olá Maurice!
Concordo! O meu, então, é mais que óbvio...
Também eu, meu caro, quero muito lá voltar... Entretanto, memórias e ficções são o ersatz possível...
Um abraço! :-)

RIC disse...

Olá Bernardo!
A minha sorte deverá ser a minha memória que muito me ajuda... Este é um texto de ficção, não exactamente um relato/diário de viagem. Embora pareça, concordo.
Fico feliz por ter podido proporcionar-te uma viagem virtual. Talvez venha a dedicar-me ao turismo... (Rsrsrs!)
Um grande abraço para ti também!
:-)