quinta-feira, 3 de maio de 2007

«Les derniers instants d'une année…» (1.ª parte)

«Ao café‑bar Le Pavillon de la Reine iam chegando foliões, uns atrás dos outros, aos magotes, e a meia‑noite ia-se aproximando. O Jean‑François, o Patrick e o Pascal haviam‑me convidado para o réveillon. Temo‑nos encontrado quase todos os dias, entre o final da tarde e a hora de jantar, para bavarder no embalo calmante de umas cervejas, e já aproveitei alguns conselhos que insistentemente me têm dado. "Antes de ter um povo, a Europa tem a sua cidade, e essa cidade é Paris", declarou o Pascal todo ufano e muito orgulhoso, citando com ênfase Victor Hugo. Os três são parisienses convictos e ferrenhos, nados e criados na cidade e, por um chauvinismo exacerbado, são incapazes de admitir a hipótese, por mais remota, de à face da Terra existir outra metrópole tão bela ou, para eles muito menos aceitável, de poder sequer haver alguma ainda mais bela. Fora de cogitação. Por um instante, a conversa incendiou‑se quando fiz chispar a faísca da rara beleza de Lisboa, la ville blanche. Convindo enfim que cada um sente a sua cidade de eleição de acordo com o amor que lhe dedica, conseguimos chegar a uma entente cordiale. Como os três mosqueteiros, eles lutariam ao lado do seu chevalier du Paris, enquanto eu permaneceria o indefectível defensor da minha dama, Lisboa, a Princesa do Tejo. E assim todos nos acalmámos e tudo acabou em bem. Estava frescote, mas ainda assim o ambiente era aprazível pela grande euforia do momento, quase um convívio de amigos que já se conhecessem há muito, para o que contribuíam a solicitude, a excelente disposição e a simpática intenção dos três barmen de integrarem todos, apesar de muitos, numa roda genuinamente festiva.


Embora o café‑bar estivesse cheio até mais não, reparei que a uma mesa mais retirada estava sentado um indivíduo de vinte e tal anos, talvez trinta, de ar elegante e distinto, com o que me pareceu ser um caderno à frente, no qual ia escrevendo sem parar, a um ritmo alucinante. Durante o dia deve ser daqueles que andam de portátil sempre atrás e o utilizam onde quer que calhe, ocorreu‑me. Olhava de vez em quando em volta sem fixar o olhar em nada, como se fisicamente não estivesse ali e apenas vogasse, absorto, à tona do que poderia muito bem ser uma viagem interior ou um simples devaneio. Nem pelo aspecto nem pelo vestuário parecia francês. Seria decerto um estrangeiro que, mesmo a dois passos do Ano Bom, não queria perder um só instante de um súbito e luminoso acesso de inspiração. Magro mas não emaciado em excesso, de pele quase transparente de tão branca, um rosto glabro quase imberbe, tinha o cabelo curto quase incolor de tão louro, os olhos grandes, cinzentos e frios como o metal de que pareciam feitos, e pestanas e sobrancelhas invisíveis, quase inexistentes. A iluminação apenas reforçava a aparência albina. Levantou‑se num repente e dirigiu‑se ao balcão, como se viesse ao meu encontro. Teria cerca de um metro e oitenta. Fez um pedido que não percebi e, enquanto aguardava que o servissem, virou‑se para mim e, num francês marcado por uma vincada entoação e um manifesto sotaque anglo‑saxónicos, desejou‑me com um sorriso franco Bonne Nouvelle Année. Retribuí com Happy New Year e a conversa disparou.

Chamava‑se Mark McGill, nascera em Brisbane, era jornalista em Melbourne, numa revista que comparou ao Nouvel Observateur, estava em Paris para fazer uma reportagem sobre o réveillon e viera à Europa sobretudo para entrevistar um escritor britânico. E era por aí que parecia querer prosseguir, como se adivinhasse que aquela esquina da conversa seria talvez a minha preferida. Mas antes tratámos de quebrar o gelo das apresentações. Ao saber que eu era português, com um refinado sentido da piada fácil atirou‑se à hipótese, nada simpática ao academismo australiano, de terem sido os portugueses os primeiros a aportar ao continente‑ilha cerca de 1522, disse, noventa anos antes dos holandeses e, portanto, muitos mais ainda antes dos súbditos de Sua Majestade, e comandados por um tal Cristóvão de Mendonça, frisou. Isto de se afrontar as imperiais certezas anglo‑saxónicas de aquém e de além-mar, de ontem e de hoje, começou ele por ironizar, é muito delicado. Revela‑se até perigoso, e sorriu. Quem sabe se portugueses não terão então aportado onde se ergue hoje Melbourne, alvitrou já com um sorriso de gozo, dando depois uma sonora gargalhada, como quem se divertisse a antever apuros alheios. E foi conjecturando se, quem sabe, um antepassado meu não teria embarcado rumo aos antípodas, em busca da famigerada Ilha do Ouro, se teria visto por lá cangurus e aborígenes e deixado memória escrita da façanha. Há uma caravela de mogno perdida no litoral austral e as chamadas chaves de Geelong, envoltas em sucessivos mistérios desde o século XIX e que terão aberto as portas do ignoto sul. E que dizer do mapa Delfim, concluiu com um suspiro. Não, pude eu enfim responder entre risos, por acaso a minha avó materna era Mendonça por parte da mãe, mas na família não houvera, que eu soubesse, nenhum Mendes Pinto peregrino austral. Agradou‑me aquele inesperado e invulgar à‑vontade com a nossa gesta dos Descobrimentos, além da franqueza e da espontaneidade, e demos ambos umas gargalhadas fáceis e fartas. Estava quebrado o gelo.

Retomámos o rumo da conversa, ainda embalados pelo fluxo do riso. Por desatenção não fixei o nome do tal escritor britânico, mas há uns anos um filme baseado num romance seu não me passou despercebido. Qualquer coisa a ver com a remodelação do corpo humano através da mais recente tecnologia, com alguma descrença pelo meio. A traços largos foi então revelando o homem e o artista, como se em voz alta recapitulasse incrédulo apontamentos que lhe pareciam agora pouco ou nada úteis para a entrevista, cujo título seria "Carta de Um Esteta ao Horrendo Triunfante". Fiquei expectante. Já em idade avançada, para não dizer provecta, mantinha um olhar penetrantemente lúcido e crítico sobre o mundo, o que o Mark achava inverosímil, disse, por ser um homem quase recluso de uma vida pacata e doméstica em Shefford, uma tranquila povoação quase bucólica a norte de Londres. Que pudesse revelar uma consciência tão aguda de fenómenos que exigiriam uma movimentação muito mais activa em ambientes que em nada se coadunavam com hábitos tão caseiros, era um verdadeiro mistério, acrescentou. De pais britânicos, nascera e passara a infância no Extremo Oriente, tivera uma sólida formação clássica e fizera estudos para seguir medicina, que depois veio a abandonar. E foi chegando a conclusões perturbadoras sobre o que hoje chama o redimensionamento ou o recondicionamento psicológico do homem. É‑lhe indiferente a designação, a etiqueta a apor, e deixa isso a outros. O que lhe interessa é o processo em si em acção.

A Έρως e Θάνατος, os princípios do prazer e da realidade de um Freud que o escritor prefere continuar a considerar um excelente ficcionista – embora haja quem afirme serem tais princípios admiráveis transposições simbólicas de interpretações muitíssimo argutas –, deve hoje juntar‑se kakoΰrγoν. Tudo o que é malvadez. E não se servia dos caracteres romanos, lamenta‑se o Mark, como se todos nós estivéssemos familiarizados na perfeição com o Grego Clássico de Eros e Thánatos e kakúrgon. É esta tríade, é este triângulo de forças que define o homem de hoje, assevera o escritor. Amor, morte e malvadez. Nada que tenha a ver com o que os libertinos de outrora deixaram associado a práticas sadomasoquistas, que é antes uma violência desejada e consentida potenciadora dos prazeres, tanto do infligidor como do sofrente. É, outrossim, uma malvadez pela malvadez pura, que desvela e expõe o mal inflicto com uma violência arrepiante, de acordo com uma informe antiestética da repugnância voyeurista, uma abjecta antiética da disseminação criminosa do mal gratuito e um repulsivo erotismo da mutilação exibicionista. Hollywood, o Bosque de Azevinho, sublinha o escritor com sarcasmo, aprimora a antifilosofia e dá o tom com milhares de fitas que não são cinema. As únicas, porém, que fazem encher as salas, a todas as horas e por todo o lado, de ociosos tendencialmente delinquentes empunhando baldes de pipocas e copázios da mistela globalizada. É um novo processo de socialização, afirma o escritor, sem que o Mark tivesse detectado aqui a mínima ponta de ironia, a qual impõe a infantilização desculpabilizadora enquanto estratégia suprema de vida e a barbárie instituída enquanto objectivo social último, como se o caminho a percorrer tenha forçosamente de ser o que conduz, tarde ou cedo, ao aniquilamento da civilização e da cultura e a um retrocesso à sobrevivência troglodítica e tribal. O mundo dito civilizado vai‑se dissolvendo, rumo a outra pré‑história – uma inequívoca pós‑história –, já sem o homem. Da civilização restam ruínas. É olho por olho, dente por dente. E vai surgindo um novo canibalismo, desta vez à escala planetária.»

[Continua... Um dia destes...]

RIC

9 comentários:

JoeL disse...

Again, don't understand a thing.

Love the house. I want it

MrTBear disse...

LOL, eu também percebi pouco LOL.
O que mais invejo são as cervejinhas no final da tarde parisiense. PORRA!!!! falas disso como se fosse, ir ali ao bar da esquina beber um traçado ou um copo de três :-))))))))
Bom fim de semana

Tongzhi disse...

esperemos pelo resto!

Shadow disse...

Subscrevo as palavras do Tongzhi.
Espero também que a continuação venha em breve.

Um excelente fim-de-semana para ti.
Beijinhos! :-)

The Thunderbird disse...

I do not understand teh language but had fun with La Blancita (sp?). She ate two more cans. I wish she would jump of fteh screen into my arms.

lampejo disse...

Soberbo, ao mais ínfimo pormenor.
Gostei do final.

The Thunderbird disse...

off topic (for all that I know) but here are kitchen remodel pix.

http://saturdaynightsoulsoup.blogspot.com/2007/03/my-winter-of-discontent.html

thinking of your and white kitty

Lover disse...

Intenso mesmo... agora é esperar pra ler o resto, então... Abração pra ti e vou passando por cá... até breve!

RIC disse...

Abraços para todos vós, caros amigos!
Muito agradecido pelos vossos comentários! Como não consigo resistir, hoje vou editar «ao quadrado»: o édito que eu tinha previsto editar já está... Mas não resisto a deixar-vos sem a 2.ª parte... Mesmo que isso tenha muito pouca ou nenhuma importância.
Haverá uma última parte, talvez na sexta-feira. Espero que vos agrade alguma coisita...
Tudo de muito bom para todos vós!

Dear JOEL & WILL!
Thanks a lot! The house is «lovable» indeed!... A French national monument... Qui pourrais le croire?
«La Blancita» is also the light of my eyes. Thanks for the photos, Will!
Wish you both all the best!
Hugs!