terça-feira, 22 de maio de 2007

«Aux Champs Élysées…» (1.ª parte)

«Deixei o hotel, meti-me no metropolitano, saí em Franklin D. Roosevelt, na Rotunda dos Campos Elísios, comprei o Le Monde e o Le Parisien e procurei uma esplanada. Em menos de cinco minutos estava sentado a uma mesinha de mármore com um requintado pé único em ferro finamente trabalhado, a tomar um café e uma água, com uma esplêndida vista sobre a Via Triunfal. A vida é bela. Às vezes.

É isto Paris. Ao fundo, à direita, destaca-se o augusto volume do Arco do Triunfo, e à esquerda esgueira-se o topo do obelisco da Praça da Concórdia. Dali desce em direcção ao Sena a avenue Montaigne, onde Marlene Dietrich viveu enclausurada os últimos dezanove anos de vida. Os mitos brotam férteis, até nos terrenos mais áridos. Que desgosto arrasador o dela quando, no rescaldo da II Guerra Mundial, vem a saber que uma irmã fora comandante do campo de extermínio de Bergen‑Belsen, onde apenas alguns meses antes da libertação morrera Anne Frank. E não muito longe dali, lembrei‑me então também, outra mulher de génio, senhora dos palcos e de públicos universais, terminara amargurada os seus dias, também retirada do mundo num apartamento da avenue Georges Mandel. Maria Callas, a divina. Ela sim, a Voz!

Estava uma manhã não muito fria, um céu de um azul intenso, magnífico, e uma luz perfeita. Há uns decénios, se afirmasse que aquele era o centro do mundo, ninguém ousaria desmentir-me. Um ou outro poderia manifestar opinião diferente, mas seria difícil encontrar alguém que abertamente me contrariasse. Hoje, mesmo que eu o afirmasse com alguma reserva, olhar-me-iam de esguelha, esboçariam um sorriso condescendente, como a dizer-me que estaria a delirar ou há muito afastado do mundo real e, caso eu quisesse fazer vingar a minha opinião, acabariam por pronunciar com todos os sons o nome da Grande Maçã, a Big Apple, essa sim, o verdadeiro centro do mundo. Muito bem, diria eu, Nova Iorque é fabulosa, sem dúvida, mas Paris continua a ser outro mundo...


Rond-point des Champs Élysées – Rotunda dos Campos Elísios

Um cartaz publicitário espalhado pela cidade em paragens de autocarro e estações do metropolitano era disso a prova. Um jovem e perfeito busto feminino, de rosto inclinado de um modo que lembrava os retratos de Amedeo Modigliani, de belos seios véneros desnudos, era o suporte de uma mensagem que ainda há pouco seria, sem mais, proibida por lei da República. «No Frenchwoman would ever feel silicone silly cones as a Triumph. Silly if she did…» Na margem inferior do cartaz, em letra miúda, a versão em Francês era apenas um arremedo. Tradução é traição. A jovem geração já não pensa em lutas contra o corsage, o soutien-gorge ou a brassière, que gerou o wonder bra, e rendeu-se em bloco ao Inglês americano. Mais ainda, ao propalado American way of life! A moda tudo pode, e um subtil ideário de tempos idos volta a insinuar-se, pronto a regressar. Já só falta o espartilho e o corpete. E a haver alguma batalha, nem sequer será contra o franglais, cuja proliferação levara Étiemble a chamar aos franceses uns cocardiers e coquardiers. Patrioteiros zarolhos. Mas isso já foi há mais de quarenta anos. Era outro, o mundo, nem mais novo, nem mais velho. Apenas outro. E era outra, a França. Intrigou-me aquele laxismo linguístico invasivo, coisa rara ou mesmo impensável ainda há pouco tempo. Pois é, mas todo o estatismo é mera abstracção. Tudo é perpétuo movimento, contínua mudança ininterrupta. É, e será sempre, muito forte a tentação de querer ver o perene no efémero.

Ao arrumar o saco para arranjar espaço para os jornais, dei com os postais que trouxera do Beaubourg. Estavam selados e endereçados e alguns já escritos desde o dia em que os comprara, mas esquecera-os numa das bolsas interiores do saco. Que cabeça a minha… Pus os jornais de lado e resolvi ali mesmo acabar o que deixara a meio. E entre umas frases rápidas e uns goles alternados de café e água, ia observando quem passava. Uns seguiam com a calma de quem tem todo o tempo do mundo, outros riscavam o espaço com a pressa de quem, já sem tempo, deveria estar alhures há muito tempo. Sempre o tempo. Sempre a corrida contra o tempo. Gentes dos quatro cantos do mundo que o acaso ali juntava, naquele preciso instante, vestindo roupas exóticas, exibindo gestos que mal entendo, talvez exercendo profissões que desconheço e revelando hábitos e costumes das mais diversas formas e feitios, espelhos de outras tantas tradições de que nunca ouvi nem ouvirei falar.

Mais do que todas as palavras bem-intencionadas a favor disto e daquilo, mas cada vez menos eficazes por serem cada vez menos as gentes que lhes dão ouvidos, urge promover a xenofilia, não com mais palavras e palavras, mas com acções que incluam todos e lhes façam sentir a necessidade de se aproximarem dos outros, interrogá-los, partilhar com eles fragmentos do dia-a-dia, indagá-los sobre sonhos e ansiedades, enfim, conhecê-los. É simplista, e muito fácil até, dizer, por exemplo, que os italianos têm olhos grandes, os franceses boquinhas pequeninas, os alemães enormes manápulas ou os ingleses esquisitos cortes de cabelo. Ao invés, é fomentando atitudes e comportamentos xenófilos que se contraria o levantamento de barreiras entre comunidades que, embora com hábitos diferentes, são vizinhas e vivem quotidianos semelhantes. É o resultado de viver em espaços alucinados de anonimato e indiferença. O conhecimento de línguas é essencial, e os melhores laboratórios são as grandes metrópoles, onde o cosmopolitismo é hoje, porém, enganosa aparência. A xenofilia seria uma salvação possível. De resto, de que serviria viajar se fosse apenas para ver pedras amontoadas ou ficar estendido numa praia ao sol dos trópicos? Nisto fiquei a pensar, olhando para toda aquela gente e sentindo-me mais prosélito que nunca. Se não me precaver com os cuidados necessários, ainda dou comigo a proferir discursos muito cheios de boas intenções ou a aplaudir perorações absurdas de abstrusos discursos alheios...
E Paris, conquanto já não seja o centro do mundo, para bem ou para mal é ainda uma metrópole onde se olha em volta e se vê mundo. Muito mundo.»

(Seguir-se-á a 2.ª parte em breve…)

RIC

segunda-feira, 21 de maio de 2007

The 12 Basic Hellenic Characteristics


1. Hellenic Paideia – Παιδεία –, and the ability to understand the abstract Hellenic meanings and ideas in their full depth.

2. Polytheistic perspective of Cosmos – self creation, non-linear time, multiplicity of the Divine…

3. Eleutheroprepeia – Ελευθεροπρεπεία –, and Parrhesia – Παρρεσία: to stand and act as a free person.
The status of the free has to be proven in an everyday basis.

4. Tolerance – Επιεικεία – and Understanding – Καταληψις – for all the other ethnic cultures.
Dialectical and reasonable word → Λόγος.

5. Eugeneia – Ευγενεία –, Eunomia – Ευνομία –, and Euseveia – Ευσεβεία: harmonious personal and socio-political ways. Respect for the Divine.

6. Constant awareness and desire for the Excellent – Aristevein – Αριστεβείν.

7. Bravery – Ανδρεία –, and Fearlessness – Αφοβία.

8. «Kata physin zein» – κατα φύσιν ζειν: living according to the Natural Laws, familiarity with the human body, high ecological conscience.

9. Prudence – Φρόνησις –, disinterestedness – εαυτοΰ καταφρόνησις –, and frugality – Λιτότης.

10. Direct democracy, Panarchy – Παναρχή – full socio-political participation –, emphasis on the socio-political rather than on the private element of everyday life.

11. Personal and ethnical self-knowledge, the «know yourself» saying – γνώθι σεαυτόν –, for both the individual and the ethnos.

12. Polymereia – Πολυμερεία – multifacetedness – and industriousness – Φιλοτεχνία.

… How much farther away from our «founding fathers» can we stand yet?…

RIC

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Pelo Município de Lisboa!

Basta de caixeiros-viajantes!
Basta de pára-quedistas!
Basta de espantalhos!
Basta de fantoches!
Basta de oportunistas mancomunados com tudo o que é pato-bravo!
Basta de hordas de assessores da treta para tudo quanto é tanga, a 5.000 € por cabeça!
Basta de um Município com pretensões a empresa privada de má qualidade!

Vamos limpar a casa e pôr ordem nos assuntos municipais!
Vamos eleger a próxima autarca, de quem esta cidade está tão precisada!
Vamos apoiar Helena Roseta!


A Minha Candidata

RIC

quarta-feira, 16 de maio de 2007

II. Avez-vous jamais lu Camoens… en français?

Qu'Amour cherche autres tours et autres ruses
Pour me tuer, qu'il cherche d'autres feintes;
Il ne saurait m'ôter mes espérances
Puisqu'il ne peut m'ôter ce dont je suis privé.

Voyez de quels espoirs je me nourris!
De quelles périlleuses assurances!
À la dérive sur la mer houleuse
Je ne crains ni revers ni changements.

Mais s'il ne peut y avoir déplaisir
Où l'espoir fait défaut, Amour pour moi
Abrite un mal qui tue sans être vu;

Car depuis bien longtemps il a mis en mon âme
Je ne sais quoi, qui naît je ne sais où,
Vient je ne sais comment, et blesse, mais pourquoi?

Trad. de Maryvonne Boudoy et Anne-Marie Quint


Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

I. My Fondest Greetings to the World!

I've been trying to deal with this subject ever since I watched the number of those red dots growing on that enchanting map a few months ago now.
But then there wasn't that much yet to write about, and now I just couldn't find the time to go through my atlases and try to match each and every dot with a name on the map…
At first I thought it wouldn't be such a difficult task… Little did I know…
It took me really a long time checking all the possibilities for place names, especially as far as Europe, USA, and Brazil are concerned…
Gosh! It was really hard, but it was great fun as well, I do admit.
I believe I was careful enough (!) as not to let out any place where I know a dear blogger friend is at home. But the truth is the dots are there, as you can clearly see, so I just had to mention them all anyhow…
All I can wish for now is that each and every one of you will feel happy when you check out the following list and find your dwelling place or, at least, the place nearby that is a little bit larger so that I could spot it on the map…
It's quite possible I may have made some mistakes… I'm the only one to blame for them. All I can hope is that you'll be kind enough as to forgive me. Thanks a lot!
Watch and enjoy!


Africa:
Egypt: Alexandria, Asyut
Cape Verde
Ghana: Kumasi
Nigeria: Abuja
São Tomé and Príncipe
Kenya: Nairobi
Angola: Luanda
Mozambique: Maputo
South African Republic: Johannesburg, Pretoria
Mascarene Islands

Americas:
Canada: Calgary, Regina, Winnipeg, Sault Sainte Marie, Churchill, Montréal, Gaspé, Saint John, Port au Port/Stephenville…
USA: Fairbanks, Anchorage, Honolulu, Seattle, Pendleton, San Francisco, San Diego, Las Vegas, Kemmerer, Denver, Santa Fe, Phoenix, Missoula, Kansas City, Miles City, Wichita Falls, Dallas/Fort Worth, New Orleans, Chicago, Columbus, Minot, Atlanta, Boston, New York City, Philadelphia, Washington DC, Savannah, Tampa, Tallahassee…
Puerto Rico: San Juan
Bahamas: Nassau
Jamaica: Kingston
Dominican Republic: Santo Domingo
Guadeloupe & Martinique
Mexico: Monterrey, La Paz, Hermosillo, Mazatlán, Guadalajara, Mexico City, Mérida, Villahermosa,
Guatemala: Guatemala
Nicaragua: Manágua
Panama: Panama City
Colombia: Bogotá
Venezuela: Maracaíbo, Caracas, Cumaná
Ecuador: Quito
Peru: Chiclayo, Lima, Arequipa
Brazil: Rio Branco, Boa Vista, Manaus, Santarém, Belém, São Luís do Maranhão, Imperatriz, Gurupi, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Itabuna/Ilhéus, Rondônia, Cuiabá, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Campo Grande, Londrina, Curitiba, Porto Alegre…
Bolivia: La Paz
Paraguay: Asunción
Chile: Santiago, Antofagasta
Argentina: Buenos Aires, Mercedes, Mendoza, Mar del Plata, Bahía Blanca, Rawson

Asia:
Russia: Yekaterinburg, Irkutsk
Turkey: Istanbul, Trabzon, Tarsus
Israel: Tel Aviv
Iraq: Basra
Iran: Teheran
Saudi Arabia: Riyadh, Jeddah
Dubai
Muscat
Qatar/Bahrain
India: Amritsar, Bombay, Indore, Cuttack, Madras
Thailand: Krung Thep (Bangkok)
Vietnam: Hanoi, Ho Chi Minh City
Singapore
Malaysia: Sibu
Brunei: Bandar Seri Begawan
Indonesia: Jakarta, Ujung Pandang
The Philippines: Manila, Cebu, Davao
Taiwan: Taipei
China: Beijing, Shanghai, Zhenzhou, Chunking, Macao/Hong Kong
South Korea: Seoul
Japan: Sapporo, Tokyo, Osaka, Kyoto, Kobe, Naha

Europe:
Portugal, Azores & Madeira
Spain & Canary Islands
France
Italy: Venice, Naples, Bari, Cagliari, Palermo…
Macedonia: Skopje
Greece: Athens
United Kingdom: Edinburgh, Portsmouth
Ireland: Dublin…
The Netherlands: Amsterdam…
Germany: Berlin, Hamburg, Stuttgart
Austria: Vienna
Hungary: Budapest
Romania: Bucharest, Cluj
Iceland: Reykjavík
Norway: Tromsø, Stavanger, Oslo
Sweden: Stockholm
Finland: Oulu, Helsinki
Poland: Warsaw
Lithuania: Vilnius
Russia: Saint Petersburg, Moscow

Oceania:
Australia: Perth, Alice Springs, Adelaide, Melbourne, Sydney, Brisbane
New Zealand: Auckland, Wellington, Christchurch

So here is my humble homage to you all, dear blogger friends, wherever you may be on this «small» planet Earth that seems to be growing smaller and smaller everyday, as our countless seconds, minutes, hours just go by and fade away. And we with them…
But while we are here, let us all make the very best of it by sharing our personal worlds with one another on these some times quite remarkable, wondrous, and amazingly strengthening pages of the bloggosphere. For the «small» miracles they've been working on me, my many thanks and my best wishes to you all!

RIC

segunda-feira, 14 de maio de 2007

II. The 52.nd Eurovision Song Contest

«Hyvää iltaa, Helsinki!
Good evening!
This is Lisbon calling!
And these are the results of RIC jury (on a 0-20 points scale):

1. Bosnia and Herzegovina – 14
2. Spain – 10
3. Belarus – 10
4. Ireland – 14
5. Finland – 8
6. Macedonia – 10
7. Slovenia – 12
8. Hungary – 16
9. Lithuania – 16
10. Greece – 8
11. Georgia – 8
12. Sweden – 8
13. France – 12
14. Latvia – 18 − Bonaparti.lv: «Questa Notte»!
15. Russia – 8
16. Germany – 16
17. Serbia – 16
18. Ukraine – 10
19. United Kingdom – 14
20. Romania – 14
21. Bulgaria – 12
22. Turkey – 12
23. Armenia – 10
24. Moldova – 8

Thank you, Latvia, so very much for having brought back the Italian language to this contest! Great song! Marvellous voices!
Even absent, Italy is not forgotten! Ever!
… Incidentally, if I were to vote for the Portuguese song I would have to «bestow» it an 8… or perhaps less… What a piece of «pimba» crap we had to listen to last Thursday!
Let us all vote well, and may the very best win!

(Some time later)


Congratulations, Srbija, for your great victory!
Beginner's luck, I'd say (laughing out loud)!
But your «Molitva/Prayer», dear Marija Šerifović, did work a wondrous miracle! Superb on stage!
What a great voice!
What an enchanting melody!
What a fabulous performance!

Sadly enough I don't understand Serbian, but even so I do feel inclined to bet the lyrics are formidably inspired by one of the greatest poetesses ever – Sappho! Am I perhaps wrong? Guess not…
All the more a reason to warmly welcome Marija – and Serbia – in «our» European community! If you know what I mean…

Hyvästi, Helsinki ja Suomi!
Kiitoksia paljon
– for the great TV show you've offered us all!
Goodbye!

Hello Beograd!
Enjoy your merited victory! Lavishly!
I'm looking forward to meeting you on the green banks of the blue Dunav next year! Farewell!»

Friendly greetings to all Eurovision Song Contest fans all over the world, wherever you may be!

RIC

I. «Les derniers instants d'une année…» (Final)

«Que a propriedade possa hoje ser um roubo é ideia que em tempos lhe pareceu mais subversiva, dispara o escritor sobre um Mark perplexo. E já que a política viera à colação, alvitra que ainda se pode crer na democracia, da qual, porém, os cidadãos estão a afastar‑se cada vez mais, resvalando da descrença para o desprezo. Já ninguém suporta tanto bolodório imbecil. Em tempos não muito distantes mas já perdidos, o democrático era um bom regime. Confundindo bom com óptimo, nada temos feito que impeça o trabalho de sapa a que os eméritos mestres do improviso e do atamanco se têm dedicado, sem pudor nem embaraço. É o menos mau, vão dizendo, mas a verdade é que ainda não está completamente ao gosto deles. Ainda não está a cair de podre. E os media vão dando uma preciosa ajuda. Estão para a política como o dinheiro sempre tem estado para a felicidade. Não a compra, mas manda‑a buscar.

Ao político dito mediático, que deve ser, sempre ou quase, um tecnocrata e nunca, por exemplo, um artista, basta‑lhe já só a ilusão, a miragem de algum carisma para ir vencendo, mesmo sendo generalizada a convicção de que dele ressumam apenas estultícia e incompetência. Assanha‑se contra os adversários e promete mundos e fundos a quem já não está à espera de nada e o apelida de troca‑tintas. Mas ele, dedicado a uma cabotinagem que já não engana ninguém, lá vai louvando os muitos méritos da sua democraciazinha, como é sua obrigação. A muitos títulos, a pornocracia é mais honesta, diz o escritor numa gargalhada breve a esconder desconforto. É que a democratura, como é apelidada, se vai instalando sobre este descalabro irracional, impondo a ganância, a corrupção e a impunidade e expendendo as opiniões e os alvitres mais ignaros arvorados em verdades sempiternas. O objectivo final é um só. Instituir o que é mais rasca, reles e ruim, e, desenfreada e soezmente, nivelar tudo por baixo, para que os seduzidos, os submissos e os subornados se sintam promovidos na mediocridade em que vivem atolados. É assim que uma qualquer jovem suburbana, semianalfabeta, sem sombra de uma única ideia na cabeça a que possa chamar sua, é transformada da noite para o dia em celebridade, ainda que por um lapso de tempo tão ínfimo que nada a pode compensar da frustração e da raiva de logo ser remetida ao anonimato originário, onde se lhe refina a malvadez com que vive desde que veio ao mundo. Só os míseros de espírito vivem bem, talvez mesmo felizes. Todos os outros sofrem com uma consciência que nada consegue aliviar.

Quanto à adaptação ao cinema do seu romance, argumenta o escritor que o filme, tal como o livro, pretende ser uma reflexão, um estudo de casos, uma exposição do fenómeno, e não apenas mais uma sequela epifenomenal, e que muito ficou a dever à leitura atenta, perspicaz, original e inteligente do realizador. Em resposta a um tímido reparo sobre esta concepção tão niilista e tão apocalíptica do homem e do mundo, o escritor confessa a um Mark abismado que, com cada vez mais homens e mais mulheres redimensionados, é extremamente difícil, é praticamente impossível criar a beleza de que muitos ainda se lembram, mas que já só poucos vão cultivando. Resta‑lhe saber por quanto tempo ainda será possível fazê‑lo. Mas, avisa, quanto mais obscuro e feio se for tornando o mundo, mais bela e luminosa se desvelará a poesia. Afinal, cada um de nós encontra‑se sempre mais facilmente consigo próprio na visão de uma copa frondosa da árvore mais próxima do que numa obra‑prima realizada por mãos de bípede, remata o escritor com um ar ausente, que desfaz depois com uma súbita gargalhada, fixando o olhar vivo e perscrutador na janela da sala, que enquadra uma das magníficas árvores do jardim. E interroga‑se como se poderá ainda sonhar, se não se redescobrir um qualquer outro pancalismo, na arte como na vida. É que o mal sempre soube proliferar sem precisar das ajudas que hoje tudo e todos lhe dispensam. Diz‑se com muita frequência que "o que é doce nunca amargou", quando se deveria repetir com muito mais insistência que "o que é belo nunca afeou". É aqui que se revela a obscena escropragia materialista dos nossos dias.



O – à época – belíssimo James Spader no papel do escritor inglês, no filme…

Nesta busca da beleza, o Mark julga entrever uma faceta das vivências orientais do escritor, a qual se revela também numa perturbadora perspectiva de futuro. Se a espécie humana estiver destinada a extinguir‑se às suas próprias mãos, como parece poder vir a acontecer, ao menos que este auto‑aniquilamento seja uma bênção para as formas de vida que, vitoriosas, lhe consigam sobreviver. Quem sabe se não será uma espécie com desígnios mais altruístas? A História segue o seu curso, com sobressaltos e solavancos, quer haja ou não homens que continuem a escrevê‑la. Mas, como se estivéssemos sempre a assobiar para o lado, mostramo‑nos a toda a hora muito admirados por ela seguir o rumo que lhe vamos imprimindo e não aquele que declaramos querer que ela siga. Em resumo, não há nenhum motivo para espantos. É normal que aconteça o que acontece, já que somos todos nós os autores e os actores desta farsa de muito maus costumes.

Terminada a entrevista, ambos bebiam um whisky ao lusco‑fusco do Inverno britânico antes de seguirem para Londres, onde o escritor faria uma palestra sobre o último romance e daria autógrafos, quando, entre o irónico e o profético, o escritor se terá virado para o Mark e lançado o desafio. "Se acaso considerar que o que acabo de lhe dizer é apenas fruto da caturrice de um velho desadaptado, ao menos durante o trajecto para a City tente observar o que o rodeia à luz desta nossa conversa e liberte a mente dos modelos rotineiros de análise. Logo me dirá se estou assim tão equivocado e também, como já houve quem com isso pretendesse apoucar‑me, se as minhas palavras lhe soam como as de mais um profeta da desgraça. Já pensou que nem toda a literatura de terror poderá dar uma imagem, por mais pálida que seja, dos horrores hodiernos deste mundo?"

Eu começava a lembrar‑me de cenas, por sinal bastante acabrunhantes, do filme que o Mark, visivelmente ainda mal refeito do choque sofrido, ia contando a traços largos. Ia‑me apercebendo da extensão do pesadelo posto a nu por aquela visão desapiedada de um mundo que era também o meu. Como fazer um balanço sereno do ano que está prestes a findar‑se, começava a interrogar‑me. De súbito, um ambiente estrepitoso anunciou a chegada da meia‑noite. E no ar saturado do café‑bar pairava já um odor mordente a outro tempo.
Bom Ano Novo.»

Então?…
Que tal este «breve instante» de uma pré‑passagem de ano?
Aproveito para vos deixar aqui um pequeno desafio. Cá vai:
Qual o escritor inglês que poderá ter sido a inspiração para este «escritor inglês»?
Ele é célebre, galardoado, e alguns dos seus romances foram adaptados ao cinema com algum sucesso e mestria…
Make your bets! (Laughing out loud!…)

RIC

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Learning English in the Seventies...


When I was remembering the story I now want to write about, I suddenly realised that any story you tell has to start with «once upon a time». So once upon a time in another world, in another country right here in Southwest Europe, obedience and silence were compulsory. No one can value what he ignores.

Freedom of thinking? Of expression? Hollow concepts for a teenager in those days... The rest of the world is something quite far away; so far away that he has no idea of what it is or who lives there. Wars are unfolding: a Portuguese one in African colonies since the beginning of the 60s, and an American one in Southeast Asia «against communism», as the teenager is told in TV news everyday. A young girl is running for her life along a never‑ending road: naked, burnt, and crying in pain and horror. Thick memories...

In Portugal Salazar is dead since 1969; in the United States Nixon has just made the mistake of his life. In London Marcelo Caetano, the Portuguese regime's epigone faces furious demonstrations against the colonial war and the Lisbon political regime. Times are changing. Meanwhile in the outskirts of Lisbon, on the mouth of the Tagus, the teenager goes to school (photo). Wonderful building, beautifully located. In the classroom he looks out of the window onto the river mouth. The scenery is overwhelming. He has been learning English for almost two years now. He likes it and enjoys every lesson. His teacher is a middle-aged «lady», Mrs. Carmona, member of a Portuguese well-known traditional family, who had finished her studies in Germanic philology in Oxford a long time ago. The Munich Olympic Games are approaching, and the teenager, always curious, wants to know what strange word is that he sees everywhere – München. So one day he asks Mrs. Carmona, knowing that she is a German teacher as well. She gives him a thorough answer, and teaches him how to pronounce that strange «ch», sounding so fascinating in his ears; so much so that it will change the course of his future studies...

Mrs. Carmona isn't an easy person to deal with. She is severe, suspicious of us boys (in public schools reigns a gender apartheid in classrooms), always looking over her shoulder, not allowing the slightest indiscipline, insisting on her own set of rules, which as a matter of fact is regime akin, and being in control of whatever happens in classroom. But the teenager is willing to oversee this less bright side of her personality in order to enjoy what he's learning everyday. Fascinating texts about London, the City, all the monuments, about England, about the United Kingdom, the British Isles, the Monarchy, the traditional institutions, History and Literature, you name it… The teenager has always shown some conservative tendencies, but he is not yet aware of it…

English written test today! O man, Mrs. Carmona's tests are always so difficult! What will she come up with now to put us guys against the wall? And the marks, Gosh! Better not think about that. «The Prince and The Pauper» is the text he has to read through very carefully in order to give the right answers to a long set of questions. And then grammar. And still a composition subject… In the end he's happy about his performance. He believes in a good outcome. So he may still get a good mark.

A few days later Mrs. Carmona returns the tests. The teenager is nervous; he takes his work at school very seriously. «Mr. M.! Well now, you succeeded at surprising me. You’ve got an 18!», she says. Being 20 the best mark, the teenager has all reasons to be happy. He may get a rather good mark at the end of that term. Great! But Mrs. Carmona is about to surprise him too. Until the end of that term she will keep him under strict surveillance, and he just cannot understand why. When the term is about to end, Mrs. Carmona indulges in giving a short explanation, which coming from her is more than odd. «At first I thought you'd managed to crib from Mr. V.. I think otherwise now. I still want to ponder the mark I'll give you this term though.» Not a single word more. The teenager is appalled. How could she ever? After school, while telling the story to his best friend, furious tears come to his eyes. «If she said that it's surely because she wants to give you a good mark, I bet.» he says to reassure his mate.

The official marks became public less than a week later. In the school lounge the teenager headed straight on to the official marks register of his class, looked for his name's row and the English column, between French and History. At the intersection he found «18». Mission accomplished.

How easy the teenager’s life was in those days...

RIC

quarta-feira, 9 de maio de 2007

II. «Les derniers instants d'une année…» (2.ª parte)

«À saída das salas de cinema, mas não só aí, a vida põe‑se a imitar a antiarte amorfa, acentuando‑lhe os contornos que vai aguçando e sobrecarregando‑a de sombras que vai enegrecendo. Em tempos falou‑se de uma estética operária com a intenção certeira de denegri‑la, mas hoje, com o proletariado emboscado em esconsas ideologias ainda insepultas, quais variantes criogénicas da História, não há bem‑pensante que ouse classificá‑la. Não é já a malvadez em si que é gratuita, mas a própria morte enquanto corolário do sistema omnidestrutivo, como se o medo da morte seja o único valor vital a preservar. Milhares de milhões levam vidas estonteantes em correrias meteóricas que mal duram um milionésimo de nanossegundo, e tudo acaba por ter a mesma importância. Absolutamente nenhuma.

Um dia, garante o escritor, ainda havemos de nos admirar se acaso a fome, a doença, a morte, o cataclismo, o assassínio, a guerra ou o genocídio chegarem a ser sequer notícia. Os que nos devem informar não sabem informar‑se, são cada vez mais avessos à investigação e à leitura, mas pretendem dar um ar literato às míseras prosas que vão alinhavando, tornando‑as copiosamente palavrosas, impressionantes enxurradas de despropósitos. As novidades continuam a ser muito poucas, mas as notícias são cada vez em maior número. O descontrolado audiovisual vai promovendo os mais estranhos voyeurismos, e o sexo, por dá cá aquela palha, instituiu‑se como a obsessão magna do nosso tempo. Tanto dá para vender champôs como para torturar inocentes indefesos. O que marca os dias de hoje reside no poder discricionário de um temível artesão, o jornalista‑coveiro, que sem dó nem piedade arrasa vidas e causa a morte civil de incautos e ousados. Muito jornalismo deixou de ser a História do presente para passar a obedecer a uma patética teoria da coscuvilhice indecorosa e despudorada, tornando‑se uma prática promocional de futilidades e frivolidades, todas elas obnóxias e obscenas. Baboseiras, fantochadas e chalaças, tretas, lérias e pachochadas, petas, balelas e larachas, patranhas, conversas de chacha e paleio moderno, lança o escritor em cascata, em jeito de provocação, entre risos. Se calhar, é aqui mesmo que começa o terrorismo.

O Mark, sem saber muito bem o que fazer entretanto com as mãos que agitadas o traíam, interrompeu o relato para garantir que não se sentia atingido pela acérrima imprecação. Considerava‑se distante daquelas atitudes, que conhecia bem e às quais se sabia imune, desde que cedo optara pelo jornalismo cultural. Mas entrevi algum incómodo naquele brilho do olhar, e havia um certo sonsonete naquelas palavras. Também a publicidade, prossegue o escritor, estúpida e estupidificante, marginaliza quase todos por se dirigir a um só público – o que é jovem, belo e rico –, condenando os outros a esconderem a doença, a fragilidade, o envelhecimento e a pobreza e reduzindo‑os a uma insignificância que os emudece. Na moda, campeiam o narcisismo, o hedonismo e a infantilidade, propalados em desfiles por passarelas onde reina o baixo surreal. Quanto mais a beleza exterior é mitificada, mais a interior se vai extinguindo. É o marketing nosso de cada dia. E até o desporto, agora profissionalizadíssimo, paradoxo acabado e perfeito do nosso tempo, e única actividade que hoje diviniza o homem, nomeadamente o futebol, afirma o escritor carregando o advérbio de um tom sardónico, atraiu públicos que ainda não há muitos anos se dividiam por outras modalidades, por artes de palco populares e, já se vê, pelo muito trabalho, que o lazer é ainda hoje um fruto degustado por muito poucos. Enquanto indústria poderosa, tem demolido todas as que ousam fazer‑lhe frente e está cada vez mais ensarilhado em obscuros negócios da economia paralela, dos muitos submundos, da política escusa, de outras traficâncias e do mais que ainda se for revelando. Negócios são sempre especulações até o dinheiro entrar em caixa. Então, tornam‑se assuntos muito sérios, de muita dignidade. Esse mundo nunca o atraíra, declara. Sempre lhe parecera depender mais de uma esperteza meio atamancada que de uma inteligência seriamente comprometida. Um universo de probabilidades voláteis com um débil fundamento ético.



Shefford, England


Também a cultura descamba em mera actividade de lazer, logo, feudo de muito poucos, igual a mais um promissor segmento de mercado, um nicho muito apetecível, de que se vai apoderando uma minoria nova‑rica muito endinheirada, pouco instruída e muito inculta. Contradicção? Apenas mais uma… Pelo meio de tudo isto, continua o escritor, a corrente da riqueza passa por entre cada vez menos mãos, o que vem a ser uma vitória das democracias controladas por um escol de investidores, empresários e empregadores de vulto, glorificados representantes de um activíssimo empreendedorismo – afinal os patrões de todo o sempre –, que premeiam os fidelíssimos subalternos com estatutos de capatazes ou cães de fila, e fazem alarde do seu piedoso humanitarismo através de organizações ditas não governamentais, sombrias minas fornecedoras de súbitos e avultados proventos. Uns servem outros que são servidos e se servem. E estes, guardiães da ultraliberal avidez, acusam aqueles de preguiça pela velha via fácil de, a seus olhos, se justificarem, enobrecerem e amestrarem súbditos vergados. E livre‑se o servidor, o serviçal, o servo, de dar um passo que seja em defesa de ideais ou direitos, que logo o impessoal Estado de Direito lhe ferreteará no espírito, se não na própria carne, o labéu de criminoso. E poderá contar com a solidariedade de espíritos humanitários ou com a fraternidade de almas piedosas? Como, se ninguém manifesta a mais simples comiseração? Tudo acontece por muito amor e excelsa devoção à sacrossanta competitividade dos mercados, livres já se vê, que se transmuda em predação tubarónica. É que tudo fomenta a rivalidade assanhada logo a partir do berçário, da creche, do infantário, do jardim‑escola. São os chamados ciclos de crescimento da economia a mascararem outras tantas inconstantes revoadas de exaustão capitalista, as quais farejam sem cessar as presas que hoje espoliam e amanhã enxotam e abandonam exangues. As poucas ideias incham e minguam ao ritmo das convulsões das omnipotentes cotações bolsistas, quais arritmias crónicas de apostadores compulsivos, sempre cheios de muitos nervos. É este o rumo do vendilhismo impudico.»

[Termina lá para sexta-feira…]

RIC

I. Knowledge is a spaceless asset indeed!

Opportunities and chances do not advertise themselves, but if you do it for them they're indeed much more likely to happen and to come your way. I believe this is what advertising is mainly all about…

There's a first time for everything. And in this Lisbon of many olden adventures there's nothing like publicizing what each one has really to offer, because when you least expect it you come across someone who's definitely interested in what you've got to offer…

If you happen to be in these circumstances – or to know of any friend or acquaintance of yours who may be – and if you happen to be at home in west Lisbon, please don't hesitate: make use of the comments page to establish a first contact between us; I myself guarantee that I shall be back to you as atentively and as soon as possible!


O saber não ocupa lugar!

Oportunidades e ocasiões não se publicitam a si próprias, mas se nós as publicitarmos é bem mais provável que ocorram. Será este, estou em crer, um dos lemas da publicidade…

Há uma primeira vez para tudo. E nesta Lisboa de aventuras multisseculares não há como dar a saber aquilo que cada um está pronto a oferecer, porque quando menos se espera há alguém interessado no que temos para oferecer…

Se se encontra nestas circunstâncias – ou alguém no seu círculo de amizades e conhecimentos – e se se movimenta sobretudo na zona de Lisboa ocidental, então não hesite: sirva‑se da página de comentários para estabelecer um primeiro contacto entre nós, que eu garanto responder‑lhe tão atentamente e tão depressa quanto possível!

(Não se trata aqui de publicitar as tradicionais explicações, mas sim de lançar as bases de um exequível plano individual de estudo acompanhado, responsavelmente contratualizado entre adultos. Para quem precise ou se queira deixar tentar pela sugestão…)

… E, já agora, se tem mais de 23 anos deveria ponderar seriamente a possibilidade de ingressar no ensino superior. Uma hipótese – entre muitas outras – a considerar está disponível até ao próximo dia 15 em www.univ-ab.pt, através do e‑learning… Quem sabe se…? Boa sorte!

RIC

quinta-feira, 3 de maio de 2007

«Les derniers instants d'une année…» (1.ª parte)

«Ao café‑bar Le Pavillon de la Reine iam chegando foliões, uns atrás dos outros, aos magotes, e a meia‑noite ia-se aproximando. O Jean‑François, o Patrick e o Pascal haviam‑me convidado para o réveillon. Temo‑nos encontrado quase todos os dias, entre o final da tarde e a hora de jantar, para bavarder no embalo calmante de umas cervejas, e já aproveitei alguns conselhos que insistentemente me têm dado. "Antes de ter um povo, a Europa tem a sua cidade, e essa cidade é Paris", declarou o Pascal todo ufano e muito orgulhoso, citando com ênfase Victor Hugo. Os três são parisienses convictos e ferrenhos, nados e criados na cidade e, por um chauvinismo exacerbado, são incapazes de admitir a hipótese, por mais remota, de à face da Terra existir outra metrópole tão bela ou, para eles muito menos aceitável, de poder sequer haver alguma ainda mais bela. Fora de cogitação. Por um instante, a conversa incendiou‑se quando fiz chispar a faísca da rara beleza de Lisboa, la ville blanche. Convindo enfim que cada um sente a sua cidade de eleição de acordo com o amor que lhe dedica, conseguimos chegar a uma entente cordiale. Como os três mosqueteiros, eles lutariam ao lado do seu chevalier du Paris, enquanto eu permaneceria o indefectível defensor da minha dama, Lisboa, a Princesa do Tejo. E assim todos nos acalmámos e tudo acabou em bem. Estava frescote, mas ainda assim o ambiente era aprazível pela grande euforia do momento, quase um convívio de amigos que já se conhecessem há muito, para o que contribuíam a solicitude, a excelente disposição e a simpática intenção dos três barmen de integrarem todos, apesar de muitos, numa roda genuinamente festiva.


Embora o café‑bar estivesse cheio até mais não, reparei que a uma mesa mais retirada estava sentado um indivíduo de vinte e tal anos, talvez trinta, de ar elegante e distinto, com o que me pareceu ser um caderno à frente, no qual ia escrevendo sem parar, a um ritmo alucinante. Durante o dia deve ser daqueles que andam de portátil sempre atrás e o utilizam onde quer que calhe, ocorreu‑me. Olhava de vez em quando em volta sem fixar o olhar em nada, como se fisicamente não estivesse ali e apenas vogasse, absorto, à tona do que poderia muito bem ser uma viagem interior ou um simples devaneio. Nem pelo aspecto nem pelo vestuário parecia francês. Seria decerto um estrangeiro que, mesmo a dois passos do Ano Bom, não queria perder um só instante de um súbito e luminoso acesso de inspiração. Magro mas não emaciado em excesso, de pele quase transparente de tão branca, um rosto glabro quase imberbe, tinha o cabelo curto quase incolor de tão louro, os olhos grandes, cinzentos e frios como o metal de que pareciam feitos, e pestanas e sobrancelhas invisíveis, quase inexistentes. A iluminação apenas reforçava a aparência albina. Levantou‑se num repente e dirigiu‑se ao balcão, como se viesse ao meu encontro. Teria cerca de um metro e oitenta. Fez um pedido que não percebi e, enquanto aguardava que o servissem, virou‑se para mim e, num francês marcado por uma vincada entoação e um manifesto sotaque anglo‑saxónicos, desejou‑me com um sorriso franco Bonne Nouvelle Année. Retribuí com Happy New Year e a conversa disparou.

Chamava‑se Mark McGill, nascera em Brisbane, era jornalista em Melbourne, numa revista que comparou ao Nouvel Observateur, estava em Paris para fazer uma reportagem sobre o réveillon e viera à Europa sobretudo para entrevistar um escritor britânico. E era por aí que parecia querer prosseguir, como se adivinhasse que aquela esquina da conversa seria talvez a minha preferida. Mas antes tratámos de quebrar o gelo das apresentações. Ao saber que eu era português, com um refinado sentido da piada fácil atirou‑se à hipótese, nada simpática ao academismo australiano, de terem sido os portugueses os primeiros a aportar ao continente‑ilha cerca de 1522, disse, noventa anos antes dos holandeses e, portanto, muitos mais ainda antes dos súbditos de Sua Majestade, e comandados por um tal Cristóvão de Mendonça, frisou. Isto de se afrontar as imperiais certezas anglo‑saxónicas de aquém e de além-mar, de ontem e de hoje, começou ele por ironizar, é muito delicado. Revela‑se até perigoso, e sorriu. Quem sabe se portugueses não terão então aportado onde se ergue hoje Melbourne, alvitrou já com um sorriso de gozo, dando depois uma sonora gargalhada, como quem se divertisse a antever apuros alheios. E foi conjecturando se, quem sabe, um antepassado meu não teria embarcado rumo aos antípodas, em busca da famigerada Ilha do Ouro, se teria visto por lá cangurus e aborígenes e deixado memória escrita da façanha. Há uma caravela de mogno perdida no litoral austral e as chamadas chaves de Geelong, envoltas em sucessivos mistérios desde o século XIX e que terão aberto as portas do ignoto sul. E que dizer do mapa Delfim, concluiu com um suspiro. Não, pude eu enfim responder entre risos, por acaso a minha avó materna era Mendonça por parte da mãe, mas na família não houvera, que eu soubesse, nenhum Mendes Pinto peregrino austral. Agradou‑me aquele inesperado e invulgar à‑vontade com a nossa gesta dos Descobrimentos, além da franqueza e da espontaneidade, e demos ambos umas gargalhadas fáceis e fartas. Estava quebrado o gelo.

Retomámos o rumo da conversa, ainda embalados pelo fluxo do riso. Por desatenção não fixei o nome do tal escritor britânico, mas há uns anos um filme baseado num romance seu não me passou despercebido. Qualquer coisa a ver com a remodelação do corpo humano através da mais recente tecnologia, com alguma descrença pelo meio. A traços largos foi então revelando o homem e o artista, como se em voz alta recapitulasse incrédulo apontamentos que lhe pareciam agora pouco ou nada úteis para a entrevista, cujo título seria "Carta de Um Esteta ao Horrendo Triunfante". Fiquei expectante. Já em idade avançada, para não dizer provecta, mantinha um olhar penetrantemente lúcido e crítico sobre o mundo, o que o Mark achava inverosímil, disse, por ser um homem quase recluso de uma vida pacata e doméstica em Shefford, uma tranquila povoação quase bucólica a norte de Londres. Que pudesse revelar uma consciência tão aguda de fenómenos que exigiriam uma movimentação muito mais activa em ambientes que em nada se coadunavam com hábitos tão caseiros, era um verdadeiro mistério, acrescentou. De pais britânicos, nascera e passara a infância no Extremo Oriente, tivera uma sólida formação clássica e fizera estudos para seguir medicina, que depois veio a abandonar. E foi chegando a conclusões perturbadoras sobre o que hoje chama o redimensionamento ou o recondicionamento psicológico do homem. É‑lhe indiferente a designação, a etiqueta a apor, e deixa isso a outros. O que lhe interessa é o processo em si em acção.

A Έρως e Θάνατος, os princípios do prazer e da realidade de um Freud que o escritor prefere continuar a considerar um excelente ficcionista – embora haja quem afirme serem tais princípios admiráveis transposições simbólicas de interpretações muitíssimo argutas –, deve hoje juntar‑se kakoΰrγoν. Tudo o que é malvadez. E não se servia dos caracteres romanos, lamenta‑se o Mark, como se todos nós estivéssemos familiarizados na perfeição com o Grego Clássico de Eros e Thánatos e kakúrgon. É esta tríade, é este triângulo de forças que define o homem de hoje, assevera o escritor. Amor, morte e malvadez. Nada que tenha a ver com o que os libertinos de outrora deixaram associado a práticas sadomasoquistas, que é antes uma violência desejada e consentida potenciadora dos prazeres, tanto do infligidor como do sofrente. É, outrossim, uma malvadez pela malvadez pura, que desvela e expõe o mal inflicto com uma violência arrepiante, de acordo com uma informe antiestética da repugnância voyeurista, uma abjecta antiética da disseminação criminosa do mal gratuito e um repulsivo erotismo da mutilação exibicionista. Hollywood, o Bosque de Azevinho, sublinha o escritor com sarcasmo, aprimora a antifilosofia e dá o tom com milhares de fitas que não são cinema. As únicas, porém, que fazem encher as salas, a todas as horas e por todo o lado, de ociosos tendencialmente delinquentes empunhando baldes de pipocas e copázios da mistela globalizada. É um novo processo de socialização, afirma o escritor, sem que o Mark tivesse detectado aqui a mínima ponta de ironia, a qual impõe a infantilização desculpabilizadora enquanto estratégia suprema de vida e a barbárie instituída enquanto objectivo social último, como se o caminho a percorrer tenha forçosamente de ser o que conduz, tarde ou cedo, ao aniquilamento da civilização e da cultura e a um retrocesso à sobrevivência troglodítica e tribal. O mundo dito civilizado vai‑se dissolvendo, rumo a outra pré‑história – uma inequívoca pós‑história –, já sem o homem. Da civilização restam ruínas. É olho por olho, dente por dente. E vai surgindo um novo canibalismo, desta vez à escala planetária.»

[Continua... Um dia destes...]

RIC

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Did the Portuguese really «discover» Australia?...

Cristóvão de Mendonça was a Portuguese sailor and statesman, who was active in South East Asia in the 16.th century. He is known from a small number of Portuguese sources, notably João de Barros. Barros was one of the first great Portuguese historians − a «chronicler» −, most famous for his work «Décadas da Ásia» («Decades of Asia»), a history of the Portuguese empire in India and Asia, published between 1552 and 1615. Barros mentions that Cristóvão de Mendonça was the son of a Pedro de Mendonça, of Mourão, but his date of birth is not given. Mendonça later governed Hormuz as Captain-Major from 1527. He died there in 1532.

Mendonça is named by Barros as the captain of a ship that left Lisbon in 1519. He appears again in Barros’s account with instructions to search for Marco Polo’s legendary Isles of Gold. However, Mendonça and other Portuguese sailors are then described as assisting with the construction of a fort at Pedir, Sumatra, Indonesia. Barros promises to return to the topic of the voyage to the Isles of Gold, but does not.

In the late 20.th century Mendonça’s name became well known in Australian History discussions when it was connected to the Theory of Portuguese discovery of Australia by Kenneth McIntyre. While there are few Portuguese documents or maps beyond Barros that mention Mendonça, and none to directly connect Mendonça with Australia, McIntyre hypothesized that in 1521-24 Mendonça captained a fleet of three caravels which charted the east coast of Australia. McIntyre suggested that the voyage was kept secret because it would likely violate the ambiguous Treaty of Tordesillas, under which Portugal agreed that Spain would have exclusive rights to exploration in most of the Americas and the regions between the Americas and Asia. In addition he argued that many Portuguese records were lost in the disastrous 1755 Lisbon earthquake.



Warrnambool, Victoria

McIntyre’s identification of Mendonça as the likely commander of a Portuguese fleet that charted Australia’s east coast c. 1521-24 has also been accepted by other writers of the Theory of Portuguese discovery of Australia, including Lawrence Fitzgerald (1984) and Peter Trickett (2007). McIntyre suggested that one of Mendonça’s caravels sailed along the southeast coast of Australia and was wrecked somewhere near Warrnambool, Victoria, becoming the Mahogany Ship of Australian folklore − a myth? Although this wreck has not been seen since the 1880s, it is now often described in the Australian media as a Portuguese caravel or one of Mendonça’s fleet, largely on the basis of McIntyre’s theory.
In his 2007 book «Beyond Capricorn», science journalist Peter Trickett revealed other information relating to Mendonça’s life, including a fragment of stone engraved with Mendonça’s name found in South Africa and clearly dated to 1524, and a drawing that may show the 1519 fleet on its way to Goa. Trickett also connected Mendonça with the discovery of New Zealand’s north island.

Commenting on McIntyre’s theory in 1984, Captain A. Ariel suggested it was extremely unlikely any 16.th century mariner would have taken a voyage southwards down Australia’s east coast, through uncharted dangerous waters and against prevailing winds.
Associate Professor W.A.R. (Bill) Richardson of Flinders University, South Australia, believes the claim that Cristóvão de Mendonça sailed down the east coast of Australia is sheer speculation, based on voyages about which no real details have survived.

From Wikipedia (abridged)

... What about the so-called Delfim Map, which shows a lot of Portuguese toponyms on the Australian shores dating back as late 16.th, early 17.th centuries?...
I wonder...

RIC

terça-feira, 1 de maio de 2007

Por um outro Primeiro de Maio...

«Esta é a madrugada que eu esperava,
O dia inicial inteiro e limpo,
Onde emergimos da noite e do silêncio,
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen


Há já trinta e três anos − 33! −, também eu vivi um «dia inicial inteiro e limpo»...
Para nunca mais esquecer!

Desejo-vos um Maio florido de muita beleza humana e de intenso bem-estar anímico!

RIC

sexta-feira, 27 de abril de 2007

II. A même «stolen» from Minge & Captain…

What do you think happens after you die?
– The Universe will go on the very same way it was before «I» entered this world/life. Corporeally, I'm just another set of molecules…

Do you believe in heaven?
– Perhaps, as an ethereal dimension.

Do you believe in hell?
– No, not at all! Religious mumbo jumbo! Unless one experiences it right here and right now…

Do you think you will be judged after you die?
– I've been being judged every single minute ever since I entered this life.

How many people will attend your funeral?
– A few.

Would you rather that people cry or laugh at your funeral?
– Neither. Just listen to soothing music.

What's better: shot in the head or downing pills?
– If I had to choose, a shot in the head would definitely be better.

What should be written on your tombstone?
– «Another grain of sand in the Universe.»

Would you rather die childless or divorced?
– If I could choose, divorced.

Do you want to die in the morning, afternoon, or night?
– At night, quietly sleeping in my bed.

If you had a million and a half euros to leave, whom would you leave it to?
– Some families that might make good use of it. Money doesn't buy happiness, but sends for it…

What kind of flowers do you want at your funeral?
– None. Flowers should be for the living only.

On your deathbed, which moment will you most remember?
– The unsurpassable beauty of each and every sunset I had the privilege of watching all through my life.

Have you ever watched someone die?
– Yes, I have.

What's the most gruesome death you can imagine?
– Being eaten alive, I guess.

How often do you think about death?
– As seldom as I can…

Is fear of dying your number one fear?
– No, not at all. Death doesn't bother me that much. Only the process of dying.

Do you believe in reincarnation?
– No, I don't.

Have you ever wished someone you loved were dead?
– No, I haven't.


Do you consider life short or long?
– Far too short…

Do you think you have a soul?
– A soul or a mind, I don't care much about concepts. But the idea of a nonmaterial existence in the ether appeals to me…

Assisted suicide for a terminally ill person is:
– Morally compassionate.

If you were cremated, where would you like your ashes?
– In the ocean. Water is the first and the ultimate place to be…

Would you choose to be immortal, if you could be?
– No, not at all.

What do you think of ouija boards?
– I've got no especial opinion about them.

Thank you, Minge and Captain, for this opportunity!


Dear blogger friends, I wish you all a marvellous weekend! Enjoy it lavishly!

RIC

I. Vidas límbicas…


«Um Poeta que deixou tudo dito, ou quase tudo, vem em meu auxílio com "Quer pouco: terás tudo" e "Não só quem nos odeia ou nos inveja". Lembrei‑me de Ricardo Reis, aquele que por um mistério ciosamente guardado pelos deuses se libertou da lei da morte. Se os melhores de nós, em todos os sentidos, se tornassem imortais, como é que seria este mundo? Quem andaria já há séculos, há milénios, entre nós? Quem denunciaria tal falsificação da História, grosseira e manipuladora? Quem acreditaria que seríamos todos mais felizes com esses beatos espectros à nossa volta, a cruzarem as nossas vidas de comuns mortais? Eu prefiro a lei da morte. Mas um poeta quer‑se imortal, e assim também entenderão os deuses. Como o Poeta há setenta anos, também eu nunca tive a clássica serenidade que me permitisse querer pouco para ter tudo. Faltou‑me sempre a audácia para ambicionar mais do que o pouco que fui tendo e, porque nunca soube querer nada, nunca me soube verdadeiramente livre. Que me tenha oprimido o amor que me tiveram, nunca o saberei. Não penso que o tenha sentido, nem sinto que o tenha pensado.

Há quem se lance, debata e perca a amar o amor, um erro solitário que raramente é percebido a tempo e nunca é encarado de frente como um risco, um grave perigo. Quantos amantes, poetas e pensadores não têm lançado sérios avisos, alarmes, alertas e gritos, os mais aflitos e mestos. Em vão. O perigo está sempre mais próximo e é sempre mais real do que se está disposto a crer e a aceitar. É inevitável a vertigem do abismo. O sofrimento de tantos não é exemplo bastante para outros que, dominados por um baixo instinto ou estonteados por uma fugaz tentação, se deixam subjugar sem resistência. E quando a queda se consuma, a ilusão é perfeita. Em volta não há ninguém. Sobra apenas a intenção irreal, idealizada. Há quem tenha a inteligência ou a sorte – não sei qual delas é a certa – de aprender no momento exacto, nem mais cedo nem mais tarde, o que é mais importante para uma mais recta condução da vida. Sei apenas, dos caminhos que fui percorrendo, que a seu devido tempo não me terão ensinado – ou então eu não terei sabido aprender – o que tanta falta me tem feito. E agora, ainda mais. Sobre os pequenos buracos nos caminhos do passado terei facilmente saltado sem sequer os ver, para surgirem agora à minha frente como abismos intransponíveis. Quanto mais o tempo passa, mais assustadora é a impressão de que não terei como atravessar esses abismos, refém de um momento infinito. Quando menos esperar, a vida terá deslizado sorrateira ante o meu olhar distraído, e eu estarei ainda e sempre preso ao instante infindável.

Por muitas razões perscrutáveis, conformarmo‑nos com a solidão é destrutivo. A atracção insidiosa que ela exerce é ainda mais perigosa, por se confundir facilmente com uma enganosa auto‑suficiência. É assim que um hábito se vai insinuando, silencioso e sorrateiro, e se vai transformando aos poucos numa rotina cruel, quase um vício. De início, a sensação de liberdade é avassaladora. Parece ser o ansiado fim dos constrangimentos mais aviltantes, das submissões mais humilhantes, das dependências mais escravizadoras. Pura ilusão, que tudo permanece na imutabilidade dos seus equilíbrios, ainda que instáveis. Quando a solidão começa a apoderar‑se de tudo, é ainda uma sensação inebriante que prevalece, como se num átimo, por um passe de magia da vontade, tudo pudesse ser reposto e reconduzido à situação inicial. Pura ilusão, também.

Não procuramos os que não nos procuram. E os que não nos procuram não o fazem porque nós não os procuramos. O que havia em volta, gente e coisas, já lá não está, e o que parecia ter sido uma vitória começa a revelar‑se uma penosa derrota. Um tempo sem tempo, coagulado como sangue há muito vertido e já ressequido. De súbito, a solidão pesa como um fardo insuportável, e quanto maior é a consciência dela, maior é o peso do nada. Torna‑se avassaladora a sensação de que nunca se deixará de estar sozinho, e quanto mais se lhe quer fugir, mais se estende desmesurado o deserto que a solidão estendeu em volta. Segue‑se o efeito destruidor.

Todas as ilusões e todas as fantasias se esfumam no vazio, e o quotidiano revela‑se espectral. Restam memórias e sombras e o absurdo de olhar em volta e nada ver. As mãos alçam‑se para agarrar o que há pouco ainda parecia estar ali. Nada alcançam. A boca profere palavras que nenhuns ouvidos podem ouvir, clama em silêncio estonteante por presenças tornadas irrecuperáveis ausências. Vem o arrependimento, tardio, que faz querer percorrer todo o caminho em sentido inverso. Poucos são os que conseguem empreender a viagem. Não é permitido ficar onde se merece estar. Não se faz parte da capelinha. Não se soube obter o imprescindível quinhão da alforria. Logo, é óbvia a impossibilidade. Os que querem regressar caminham ao longo de um tempo infindo, mas nunca conseguem voltar ao ponto exacto onde começou a deriva. Isso seria retroceder por obra e graça de algum maquinismo inverosímil. Inevitável o destino que transforma todo o erro menor em crassa asneira. Mas é desse instante, quase imperceptível, que se fica refém para sempre.

Às vezes, da forma mais imprevista e brutal, a meio de uma reflexão sobre os imponderáveis rumos da vida, ou ao esboçar um plano para enfrentar novos tempos que arrastam mudanças e contrariedades – umas imperceptíveis, outras, pelo contrário, que se abatem sem prenúncios e causam grande ansiedade –, de repente, um pavor incontrolável e um pânico descompassado apoderam‑se de mim, aturdem‑me até à alucinação e transmudam aquele momento numa diuturna sessão de torturas indizíveis. Este desvario só começa a dar sinais de poder acabar quando consigo introduzir no fluxo dos pensamentos, quase à socapa, um elemento insignificante de alheamento. A pouco e pouco, o pavor e o pânico vão diminuindo, e eu vou regressando a uma tranquilidade apenas aparente, que só muito lentamente cede a uma prostração exausta, como se me tenha esgotado num esforço breve mas tremendo. Quando a crise parece enfim debelada é que me apercebo do longo tempo que entretanto se escoou e se perdeu naquele transe de ausência e de vazio. Neste último decénio, não sei de vivência mais aflitiva. Se os ventos vão soprando de feição sobre umas quantas faces da vida, mantendo a ilusão de que o leme permanece seguro em mãos firmes, sobre outras, porém, são ventos de procela que se abatem e, num ápice, tudo devastam e arrasam. E de uma vida organizada sobra um espesso e viscoso sargaçal à tona de um mar ignoto que tolhe movimentos, quebra resistências e condena a uma modorra letal.

É tão descomunal, tão desmesurado o pavor de viver como é negro e sem fundo o absurdo desejo de morrer. Como se, para seguir em frente, se tenha de saber manter, exacta e constantemente, um tenebroso equilíbrio. Nem deixar‑se transir pelo pavor, nem ceder desnorteado ao desejo. Num átimo, fica‑se perdido sem saber o que é ter uma vida para viver. Mas até tudo isto, em vertigem desvairada de sorvedouro, o quotidiano tenta varrer da memória, como se o tempo das recordações, mesmo as más, seja um proibido luxo sumptuoso. E percorrer todo este caminho de memória é peregrinação negra de uma alma torturada.»

Um excelente fim-de-semana para todos!

RIC

quinta-feira, 26 de abril de 2007

A few American «features»?

Hoplomania?… (From ‛όπλον - weapon)

The USA are no longer a land of pioneers. The whole mythology of the Far West, of Indians and cowboys fighting one another, of outlaws everywhere simply should be banned.
Keeping guns at home cannot be compatible with a civilised society. A 200 year old constitutional right cannot be the poor excuse. If anyone can get a gun as a «prize» for opening a bank account (maybe – wishfully – not in every State!), why all the awe about deeds like the Virginia Tech massacre?
You tell me!

Pyromania?… (From πΰρ - fire)

Main characters in hundreds and hundreds of American movies are arsons, explosions, and huge fires. No «action» movie really does without them.
Is there somehow an American cultural pyromania or – which would be a lot worse! – pyrophilia? Or is it a trauma dating back to the days when whole wooden cities could be blown away by dreadful fires?
You tell me!

Tichomania?… (From τεϊχος - wall)

Please follow my reasoning: Berlin, Germany, Korea, Vietnam, Mexico, Gaza, and now Baghdad… Is there a pattern here?
For sure, we all know this: administrations and governments do make awful mistakes that in many cases aren't at all sanctioned by those of us, anonymous citizens, who in honest conviction elected them. But… Isn't it a little bit too much to try and solve serious problems between peoples by building up walls? Can any kind of segregation be understood as a democratic way of dealing with human rights issues?
You tell me!

RIC

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Da Língua Portuguesa (7)

"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.


Johann Wolfgang von Goethe

A. «Orelhas moucas a... palavras ocas»: por força da repetição exaustiva, mormente a despropósito, eis três palavras hoje praticamente vazias de conteúdo semântico:

a) espectacular;
b) mais-valia;
c) vertente.

... Muito contribuem para as minhas «alergias logogénicas»...

B. Uma simples regra que muito nos ajuda a evitar erros desnecessários e, quantas vezes, confrangedores:

a) TER / HAVER + aceitar = aceitado;
b) SER / ESTAR / FICAR + aceitar = aceite.

Exemplos:
a) «Obrigado por teres aceitado o meu convite.»
b) «O meu projecto não foi aceite

C. Ilustrem-se − de uma das melhores formas possíveis! − procurando distinguir pelo uso (construindo uma frase) os seguintes vocábulos:

1. epónimo / hipónimo;
2. deserto / diserto / decerto;
3. desídia / decídua;
4. proeminente / preeminente;
5. hipocausto / hipercáustico;
6. lactante / latente / lactente;
7. ocaso / acaso;
8. reconforto / conforto;
9. audição / audiência / auditoria;
10. descriminar / discriminar / descriminalizar;
11. cítula / cítola;
12. rectificar / ratificar.

Esta lista baseia-se em casos de paronímia (não todos), e exercícios deste género ajudam qualquer um − licenciado, mestre, doutorado ou sem qualquer título (académico ou outro)... − a suprir dificuldades vocabulares e a esclarecer dúvidas que assaltam qualquer lusófono.
Espero e desejo que se divirtam com o passatempo!
Um excelente fim-de-semana para todos!

RIC

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Sorrow + Saudade = ?...?...

According to a recent survey made in 15 European Union member States, the Portuguese and the Italians consider themselves to be the least happy and the least satisfied with their own lives... In whole Europe?... In the whole world?... I don’t know, but I think it doesn’t take much effort to guess it...

I wonder why indeed...

I wish I could rule myself out of this depressing landscape, but the more I fight against it the more I feel myself condemned to obey to a certain logical routine that has very little to do with me... To say the least...

Up till now, 2007 hasn’t proven to be a «reasonable» year, as far as I’m concerned... Much on the contrary. All I can do is keep fighting against adversity and hope that one of these days the sun will finally rise and shine for me...

But then... I come back to my blog whenever I can and I find out that the sun can shine indeed in many different ways... One of them is through the many wonderful comments I happen to read to my sporadic posts! I read them and I don’t feel so sad anymore!

I do thank you all − Portuguese and «foreigners» alike − so very much for helping me go through these last few weeks that have sometimes turned into an ordeal! Even if I’m not responding to your comments right now the same way I used to do, please be sure that I read them all very attentively!
Some do really move me...

Each and every one of you, dear blogger friends, have a place in my heart. Don’t you doubt a single instant about it! Don’t you forget about our «Happy Few Club»! I won’t!
Hugs and greetings!

RIC

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Das habilitações académicas...

Não me rouba o sono a vontade de saber se fulano, beltrano ou sicrano é licenciado, mestre ou doutorado.

Estou em crer que o nosso jornalismo menos sério, menos idóneo e menos responsável deu mostras cabais, mais uma vez, de não saber − e de não querer saber, o que é pior − qual o lugar, quais os princípios e quais os deveres que lhe incumbem. Limitou-se a aplicar as ínvias lógicas da imprensa cor-de-rosa.
Não quero acreditar que entre os jornalistas que se envolveram na «questão» das habilitações académicas do primeiro-ministro não haja um único sequer que não saiba, por experiência própria ou alheia, que é condição sine qua non para o ingresso, frequência e aprovação em qualquer pós-graduação, mestrado ou MBA a prévia conclusão de uma licenciatura. A suspeição lançada resulta, a meu ver, de má fé, ignorância e/ou incompetência. Este tipo de jornalismo, que se limita a levantar lebres (que depois não o são), presta um péssimo serviço à democracia e increve-se num vetusto quadro nacional de inveja mesquinha. E, quando se trata de invejas mesquinhas, nunca se fica a saber exactamente o que é que é de facto invejado: basta tão-só deixar a dúvida a pairar no ar...

Sabendo que não estou a cometer qualquer injustiça, estou certo de que esta «questão» é apenas mais uma faceta nociva do pretenso jornalismo moderno de secretária que se agarra a faits divers blogosféricos de origem mais que duvidosa, com o indisfarçado objectivo de apenas vender mais uns quantos exemplares de jornais que, em época baixa da política, vão atravessando um período de vacas magras.

(Esclareço que nenhuma simpatia de qualquer tipo me liga ao partido do governo em geral e/ou ao primeiro-ministro em particular.)

RIC

sexta-feira, 30 de março de 2007

«Lisboa»

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...

À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos


My dear blogger friends,

Instead of photos I give you today two reproduced paintings of an artist, whose work I cherish a lot − Carlos Botelho.

And whenever I read this poem by Fernando Pessoa I remember Botelho’s paintings… And vice-versa... And I feel very happy...

I hope you can find a fine translation to «Lisbon with its houses of various colours»... Enjoy it!



RIC

quinta-feira, 29 de março de 2007

«A Moleirinha»...

Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

[...]

Guerra Junqueiro


Este poema − e outros semelhantes − era o que o génio português do século XX nos permitia ler. Para melhor ilustração das almas devotas e submissas.
«O Menino da Sua Mãe», por exemplo, fora votado ao ostracismo (vulgo: censurado) desde que, ainda nos anos 30, Fernando Lopes-Graça o musicara e, mais tarde, no início da década de 60, rebentara a guerra colonial.

Se mais exemplos não houvesse para ilustrar o mal que 50 anos de ditadura miserabilista e de estupidez acarinhada pelos senhores do regime e instilada nas frágeis mentes nacionais, bastaria recordar estes casos para admitir e reconhecer sem ambiguidades que um genuíno grande português − como Camões, Pessoa ou Sousa Mendes − jamais estarão no mesmo plano de um miserabilista pacóvio que destruiu todas as justas ambições de um povo, manietando-o numa «mesquinha, apagada e vil tristeza».

Parabéns à RTP1 por, mais uma vez, nos ter cabalmente mostrado a menoridade mental que teima em nos escravizar, e da qual − pelos vistos... − não parecemos ter o ínfimo desejo de nos libertar.

RIC

terça-feira, 6 de março de 2007

I'm back again! Can you believe it?!


I cannot believe it quite yet...
Yes, my dear blogger friends, I'm at home and typing on my good old computer! Alive and kicking!
It must have been a miracle... Or something of the kind, which I'm most thankful for!
Why I'm writing in English and not in Portuguese? Because the keyboard is still all messed up, I guess... I just cannot type in Portuguese - I have no access to diacritics/accents presently...
I just got it back a few hours ago, but I just couldn't help posting again, after a whole month away from you all...

HERE I AM AGAIN!!!

I feel as happy as can be!
I hope and wish this is no Rapid Eye Movement...
I still have no access to a large number of files I need to go on blogging and posting properly. That's why I'll be taking it tomorrow to a friend, who will help me recover and reinstall a whole bunch of "things" that went lost...
As I've promissed you all, I'll respond to all your comments! One by one!
I wish you all, my dear friends, all the best!
... And I'm most grateful and thankful for all your most encouraging, kind comments!
Hope to be back again tomorrow! (How nice it feels to write this word!...)
Hugs and best regards from the deep of my heart!
Love you all!

RIC

sexta-feira, 2 de março de 2007

... Ainda e sempre... À espera... / Waiting...


... Chateado que nem um peru em véspera de Natal... Qualquer dia já nem sei «editar»... Ou então esqueço-me de todas as senhas - que nunca anotei, porque tenho a mania de que tenho memória de elefante...

Alguém estará neste momento ocupado com a minha máquina - um craque conhecido de um conhecido de uma amiga... -, tentando ver se acaso há alguma salvação para a doença mortal que a atacou... Tenho ainda uma réstia de esperança... Se não fossem os livros e a minha imorredoura loucura pela leitura, há já muito que estaria a atravessar os dias à custa de antidepressivos... A depressão já cá está, só que eu não a deixo apropriar-se do meu quotidiano: a fúria e a raiva que me animam não permitem desalentos de maior... Até ver...

Hei-de responder a cada um dos vossos comentários... Um dia...
Muito obrigado a todos pelas deliciosas palavras de incentivo que continuam a escrever! Foram elas que me «obrigaram» a editar este texto, escrito ao sabor da mágoa da ausência...

Bem hajam! Tudo de bom para todos! Voltarei!


Thank you all for your kind words! They are the reason why I'm writing right now. For the time being I cannot tell you exactly when I'll be back again: I only know I will!

I'll respond all your comments one by one! Some day...

I wish you all the best! You are always in my heart and in my mind...

RIC