
Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça
Me bota na boca um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas, assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel
Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo, reflicto, estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando, e eu vou perguntando: até quando?
São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo
Arrasando aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo de gritos e gestos
Num jogo de culpa que faz tanto mal.
Não quero a razão pois eu sei o quanto estou errada
O quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir
Veja bem, nosso caso é uma porta entreaberta
Eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem, é o amor agitando meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não.
Luís Gonzaga Júnior
(Gonzaguinha)
Já era mais que tempo de trazer aqui esta grande Rainha da MPB, admirada por mim desde os idos de setenta, quando o seu talento e magia vocal cruzaram «Tanto Mar/Mar de Sophia» e me deixaram maravilhado com canções e interpretações… «Grito de Alerta» foi uma delas, uma canção que ainda hoje significa muito para mim…
Já para não falar da especial atenção que Maria Bethânia veio depois a dedicar a Fernando Pessoa e a Sophia de Mello Breyner Andresen.
Muitas palmas para a grande cantora e intérprete!
RIC
sábado, 11 de agosto de 2007
«Grito de Alerta»
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Músicas
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
«La Madeleine»...
«De montra em montra, fui andando pelos boulevards des Capucines e de la Madeleine e, quando olhei em volta, estava junto à Igreja de Santa Maria Madalena, ou apenas La Madeleine, do lado do mercado de flores, onde o ar saturado de perfumes nunca se dissipa.
Nunca me dispusera a entrar naquele espaço, que ao primeiro olhar logo evoca a época em que o templo de Eboracum, dito de Diana, estava inteiro, o Pártenon ateniense era ainda habitado pelas virgens ou o domus quadratus Nemausi – a Maison Carrée de Nîmes – era lar do panteão romano. Nada no edifício evoca uma igreja consagrada ao culto católico. Como não sabia quase nada sobre aquele epígono clássico, era o momento. Entrei quando a missa da tarde estava prestes a terminar, e a primeira surpresa veio da magnífica iluminação e do tom da luz que se desprendia das paredes e inundava toda a nave única. Sobre uma pequena mesa pareceu-me ver alguns desdobráveis e não me enganei.
Iniciada no século XVIII, só foi consagrada quase cem anos depois, tendo o edifício em construção servido vários propósitos, alguns nada apropriados e muito menos católicos, à medida que se sucediam os regimes de cada-cor-seu-paladar. Pelas três cúpulas penetrava uma réstia de luz que se misturava com a das muitas velas e criava um raro efeito de escorrência, como se uma finíssima película de água, translúcida e silenciosa, se soltasse do tecto, escoasse paredes abaixo e derramasse pelo chão. Ao fundo, o altar-mor e a Ascensão de Santa Maria Madalena surpreendem pela decoração invulgarmente despojada e pelo efeito de perspectiva das muitas rectas que parecem todas confluir naquele ponto. A harmonia do conjunto sugere uma grande tranquilidade, e sentei-me a meio da nave, absorto por toda aquela beleza.
Os cinco minutos seguintes arrancaram-me ao mundo, levaram-me para bem longe, para o único paraíso que posso conceber e, por um átimo sem tempo, terei vislumbrado a eterna glória. Vindo não sei donde, ouvia-se o «Laudate Dominum» das Vesperæ Solennes de Confessore, sublime melodia que Wolfgang Amadeus Mozart só pode ter trazido de uma das muitas viagens oníricas em que contemplou directamente o Belo, face a face, a menos de um dedo de distância da divina perfeição, numa fracção de segundo do relógio do Universo, que deve ser toda a eternidade e separa Deus do Homem. Torna-se assim profético o seu nome de baptismo: Johannes Chrisostomos, o da «boca de ouro». Não será à face da Terra que toda esta beleza se poderá revelar a um humano, a menos que o seu reino não seja deste mundo. E o reino de Mozart não foi deste mundo. A peça impõe, da forma mais imediata e definitiva, a reconciliação com a vida e a ânsia de transcendência.
A melodia derramou-se cristalina como a luz perene de uma fonte imarcescível, percorreu-me num frémito de arrebatamento e, quando se extinguiu, deixou o vazio absoluto em seu lugar. Tanto poderiam ter decorrido cinco minutos como cinco milénios. A eternidade tocara-me.
Deve redobrar todas as forças ter uma fé inquebrantável e fervorosa – aquela que move montanhas, aparta mares e reverdece desertos. Pois é, «non abbiate paura»… Quando dali saí, era noite cerrada e senti-me levado a agradecer aquele final inesperado e tão reconfortante do primeiro dia do ano. A quem agradecia não sei nem procurei saber. Talvez a Deus. Há experiências que só são plenas se for evitada qualquer tentação de procurar explicá-las. É só nesse mistério que parecem alcançar toda a plenitude.
Deitei-me com a serenidade de continuar a escutar o «Laudate Dominum» cantado por um anjo que se tivesse dignado vir embalar e velar pelo meu sono e inspirar-me sonhos sem tempo nem lugar. Só posso ter adormecido com um angelical sorriso nos lábios e a inocência de um recém-nascido aninhada na alma.»
RIC
Editado por RIC às 21:50 8 comentário(s)
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Ficções
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Atomic bombing of Nagasaki...
According to some estimates, about 70,000 of Nagasaki's 240,000 residents were killed instantly, and up to 60,000 were injured.
The radius of total destruction was about 1.6 km, followed by fires across the northern portion of the city to 3.2 km south of the bomb.
The total number of residents killed may have been as many as 80,000, including the few who died from radiation poisoning in the following months.
An unknown number of survivors from the Hiroshima bombing made their way to Nagasaki and were bombed again.
Nagasaki Peace Park, Peace Statue
On August 8th 1945, Albert Camus addressed the bombing of Hiroshima in an editorial in the French newspaper «Combat»:
"Mechanized civilization has just reached the ultimate stage of barbarism.
In a near future, we will have to choose between mass suicide and intelligent use of scientific conquests.
This can no longer be simply a prayer; it must become an order which goes upward from the peoples to the governments, an order to make a definitive choice between hell and reason."
The victims in memoriam.
RIC
Editado por RIC às 13:13 10 comentário(s)
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In Memoriam
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
«An Affair to Remember»
Handsome playboy Nickie Ferrante (Cary Grant) and beautiful nightclub singer Terry McKay (Deborah Kerr) have a romance while on a cruise from Europe to New York. Despite being engaged to other people, they both agree to reunite on the 102nd floor of the Empire State Building in six months. However, an unfortunate accident keeps Terry from the reunion, and Nickie fears that she has married or does not love him anymore.
Contributing to the success of the 1957 film is its theme song "Our Love Affair" composed by Harry Warren with lyrics by Leo McCarey and Harold Adamson. The song is sung by Vic Damone during the opening credits and then sung later by Deborah Kerr's character.
Our love affair is a wondrous thing
That we'll rejoice in remembering
Our love was born with our first embrace,
And a page was torn out of time and space.
Our love affair
May it always be
A flame to burn through eternity.
So take my hand
With a fervent prayer
That we may live
And we may share
A love affair to remember.

"Don't worry, darling! If you can paint I can walk! Anything can happen, don't you think?"
In the Riviera, where Nickie takes Terry to visit his grandma Janou (Cathleen Nesbitt), it's time to listen to the French version of the theme song, played on the piano by grandma Janou and sung by Terry.
Ce bel amour, qui ne peut mourir,
Sera pour nous un doux souvenir.
Promesse ardente du premier baiser,
Qui nous lie, tous deux, pour l'éternité.
D'un bel amour
Toujours grandissant,
Qui défiera les épreuves du temps;
Trouvons la joie,
Reste dans mes bras,
Que nous vivions
Un bel amour,
Affaire de cœur, qu'on n'oublie pas.
The film was directed by Leo McCarey and was a remake of McCarey's 1939 film "Love Affair", starring Irene Dunne and Charles Boyer.
A 1994 remake reverting to the original title of "Love Affair" was written and interpreted by Warren Beatty, featuring Annette Bening as the female protagonist, and also Katharine Hepburn in a small but pivotal role, which would prove to be her last screen appearance.
Yes, the inveterate romantic is back again…
RIC
Editado por RIC às 15:15 13 comentário(s)
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Cinema
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Da pausa necessária...
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.»
Álvaro de Campos

ENCERRADO TEMPORARIAMENTE
TEMPORARILY CLOSED
FERMÉ PROVISOIREMENT
VORÜBERGEHEND GESCHLOSSEN
PROVVISORIO CHIUSO
VOORLOPIG GESLOTEN
ΚΛΕΙΣΤΌΣ ΠΡΟΣΩΡΙΝΆ
TILLFÄLLIGT STÄNGT
OHIMENEVÄ SULJETTU
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Quotidianos
terça-feira, 31 de julho de 2007
Reflectindo…
Em certos momentos, creio e sinto que me faz falta olhar-me mais detidamente ao espelho. Não chegarei a ver a alma, como alguns crêem, mas poderei sempre tentar melhorar aquilo que a janela dela me permitir observar.
Muitas vezes, não compreendo as minhas reacções, as minhas atitudes, os meus comportamentos. Isto, para alguém que se considera um racionalista "romântico" – com a carrada de contradições e paradoxos inerentes a esta designação, criada por quem se tem vivido a si próprio no fio da navalha – é desconcertante e, as mais das vezes, causa de grandes frustrações.
Ao interrogar-me sobre porquês, aos poucos vou-me dando conta de padrões recorrentes presentes em mim desde que pela primeira vez me terei auto-analisado. Um deles identifiquei-o cedo como uma tendência quixotesca de lutar contra moinhos de vento ou de remar contra a maré. Numa época em que o visual exterior dá cartas de todas as formas, feitios e maneiras, surpreendo-me a tentar negar esta evidência irrefutável e a procurar, irracionalmente, que de mim seja "visto", também e sobretudo, esse mundo interior, de facto, a única riqueza que creio possuir. Ociosa e vã tarefa…
Conquanto a blogosfera seja um espaço privilegiado para dar largas a esta tendência, a verdade é que continuo a viver no mundo, com o mundo, pelo mundo e para o mundo. Logo, não me posso alhear de que o que os outros vêem de mim em primeiro lugar é o que os olhos lhes oferecem e não o que há de mais ou menos rico dentro de mim.
E quando a consciência me alerta para os perigos deste abismo, uma dor nasce-me no peito, cresce desmesuradamente e obriga-me a reconhecer que, afinal, poderá ser bem menor a tal riqueza interior.
Aparências e essências – o eterno problema, o constante dilema. Não creio que o Sr. Segismundo Alegria – saborosa ironia das ironias! – me pudesse valer nestas minhas andanças entre o aquém e o além do espelho…
Stultitia ad sapientiam erepit, sapientia in stultitiam non revolvitur.
Séneca, Epistulæ Morales
A ignorância pode erguer-se à sabedoria, mas a sabedoria não retorna à ignorância.
Stultum nimis est, cum tu pravissima tentes, alterius censor ut vitiosa notes.
Aviano, Fabulæ
É nímia tolice, quando se vive vida depravadíssima, fazer-se censor dos vícios alheios.
Stultus, nisi quod ipse facit, nil rectum putat.
Epígrafe de Fábula de Fedro
O néscio, salvo o que ele próprio faz, nada reputa certo.
RIC
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Sagezas
segunda-feira, 30 de julho de 2007
«Sabor a mi»…
"Music was my first love, and it will be my last.
Music of the future, and music of the past."
de Álvaro Carrillo
Tanto tiempo disfrutamos de este amor
nuestras almas se acercaron tanto así
que yo guardo tu sabor
pero tu llevas también sabor a mi.
Si negaras mi presencia en tu vivir
bastaría con abrazarte y conversar,
tanta vida yo te di
que por fuerza tienes ya sabor a mi.
No pretendo ser tu dueño
no soy nada, yo no tengo vanidad,
de mi vida doy lo bueno
soy tan pobre, que otra cosa puedo dar.
Pasarán mas de mil años, muchos mas,
yo no sé si tenga amor la eternidad
pero allá tal como aquí
en la boca llevarás sabor a mi.
My essence in you
So much time we have enjoyed this love
Our souls got so close
that I feel your essence
but you also carry my essence
If you were to deny my presence in your life
I would only need to hug you and talk
I gave you so much life
that you can't help to carry my essence
I do not pretend to be in control
I am nobody. I am not vane.
From my life, I only give out good things.
I am so poor, what else can I give?
More than a thousand years will pass by, many more
I don't know if eternity has love
but there, just like here
in your mouth you'll have my essence.
I did write in my profile over a year ago I am mad about music!
I just melt down completely listening to a cadenced bolero…
I believe this must be my camp side… Lol!
Enjoy it lavishly!
RIC
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Músicas
domingo, 29 de julho de 2007
«Pater Noster»
de Jacques Prévert
Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuileries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-mêmes d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Avec leurs tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.
Pai Nosso que estais no céu
Ficai aí.
Que nós ficaremos aqui na terra
Que é por vezes tão bela
Com os seus mistérios de Nova Iorque
E ainda os seus mistérios de Paris
Que valem bem o da Trindade
Com o seu canalzinho do Ourcq
A sua grande muralha da China
A sua ribeira de Morlaix
As suas parvoíces de Cambrai
Com o seu oceano Pacífico
E os seus dois tanques das Tulherias
Com os seus bons filhos e os seus maus tipos
Com todas as maravilhas do mundo
Que estão aqui
Simplesmente sobre a terra
Oferecidas a toda a gente
Espalhadas
Maravilhadas elas próprias por serem tais maravilhas
E que não ousam confessá-lo
Como uma jovem nua que não ousa mostrar-se
Com as terríveis infelicidades do mundo
Que fazem legião
Com os seus legionários
Com os seus torcionários
Com os mestres deste mundo
Os mestres com os seus padres os seus traidores e os seus caserneiros
Com as estações
Com os anos
Com as belas raparigas e com os velhos estupores
Com a palha da miséria a apodrecer no aço dos canhões.
© Tradução de RIC
Our Father who art in heaven
Stay there
And we'll stay here on earth
Which is sometimes so pretty
With its mysteries of New York
And its mysteries of Paris
At least as good as that of the Trinity
With its little canal at Ourcq
Its great wall of China
Its river at Morlaix
Its candy canes
With its Pacific Ocean
And its two basins in the Tuileries
With its good children and bad people
With all the wonders of the world
Which are here
Simply on the earth
Offered to everyone
Strewn about
Wondering at the wonder of themselves
And daring not avow it
As a naked pretty girl dares not show herself
With the world's outrageous misfortunes
Which are legion
With legionaries
With torturers
With the masters of this world
The masters with their priests their traitors and their troops
With the seasons
With the years
With the pretty girls and with the old bastards
With the straw of misery rotting in the steel of cannons.
Un beau dimanche à tout le monde!
Um belo domingo para todos!
A nice Sunday for everybody!
RIC
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Poesia
sábado, 28 de julho de 2007
Augusto Gil e Belém

De seu nome completo Augusto César Ferreira Gil, o poeta nasceu em Lordelo do Ouro, Porto, a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Belém, Lisboa, a 26 de Novembro de 1929.
Não meço nem avalio os poetas pelos eruditismos (vulgo "palavras caras") que utilizam, mas antes pelo eco que as suas palavras encontram no meu íntimo. E esta é a minha razão maior para considerar Fernando Pessoa o maior poeta português.
Para ser sincero, nunca fui grande apreciador da poesia de Augusto Gil. Porém, reconheço-lhe as qualidades que fazem dela um modelo de discurso poético que, em termos pedagógicos, deveria ser bem mais explorado.
Recordo uma época da minha vida profissional em que leccionei Português ao 7.º ano. Duas turmas tinham aulas ao sábado, o que tornava qualquer actividade lectiva mais tradicional quase impossível. Assim, chegámos a um acordo: os que estivessem interessados em divulgar à turma os seus poetas de eleição deveriam entregar-me, durante a semana, um papelinho dando conta do poema, do poeta e do/a "declamador(a)". Se o número fosse suficiente, sábado seria dedicado à poesia; senão, a aula seria "normal".
Escusado será dizer que quase todos os sábados foram dias de poesia. E aprendi então o que nenhum manual me ensinara: a natural predisposição daquela faixa etária para a memorização (alguns poemas eram bem longos!) e a candura com que os dizem, sentindo cada palavra ao seu modo e de acordo com a respectiva maturidade.
E eu, que só os ouvia falar nos "Duran Duran" e os via andar com a "Bravo" entre os livros e cadernos, fui surpreendido com escolhas como Florbela Espanca, António Gedeão, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almeida Garrett, Bocage, Camões… Nunca poderia imaginar. E também Augusto Gil.
Em Belém, numa pequena faixa relvada entre o Centro Cultural de Belém e as instalações do Planetário Calouste Gulbenkian e de parte do Museu de Marinha, encontra-se esta lápide comemorativa do centenário do seu nascimento.
© RPorter
© RPorter
De «Luar de Janeiro»
Balada da Neve
Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…
Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!…
Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…
E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.
Ou ainda de «A Canção das Perdidas»
IX
Como querem ver contente
Este país desgraçado,
Se dão só livros à gente
Nas escolas do pecado…
… Até parece Eça, livra! Certeiro! Em cheio!
No Ministério da Educação e no da Cultura, talvez não fosse má ideia fazerem, de vez em quando, uma sabatinas culturais, em vez de passarem tanto tempo nos "Messengers" e quejandos. É que os "referrals" não inventam ligações… E o saber não ocupa lugar.
Alguns "sites" contêm informações erradas sobre o poeta, e o artigo da Wikipédia está ainda por escrever, tendo sido iniciado no Brasil. Para um poeta que o povo não esquece… Imaginem o que seria se o povo o tivesse esquecido…
Quanto a fotografias, não consegui encontrar praticamente nada, nem mesmo na página da Biblioteca Nacional. Mas pode muito bem ter sido falha minha.
RIC
Editado por RIC às 07:27 14 comentário(s)
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Poesia
sexta-feira, 27 de julho de 2007
«Ce soir, mon amour»
par Serge Reggiani
Ce soir, mon amour, je ne t'aime plus.
Tu es plus loin que la distance qui nous sépare,
Et d'autant plus absente que tu n'es nulle part,
Plus étrangère que la première venue.
Ce soir, mon amour, je ne te cherche plus
Parmi mes souvenirs au fond de ma mémoire,
Je ne t'attends plus sur le quai d'aucune gare,
Je me souviens à peine t'y avoir attendue.
Je sais que nous buvions du vin après l'amour,
Que la nuit commençait quand se levait le jour.
Comme un torrent d'ébène, tes cheveux sur ton cou,
Et ton regard meurtri quand tu fais les yeux doux.
Ce soir, mon amour, je ne te trompe plus
Avec cette fille qui dort à mes côtés.
J'étais seul, je lui ai demandé de rester,
Je suis seul très souvent et je m'y habitue.
Ce soir, mon amour, tu ne me manques plus,
Tu ne me manques pas, il me manque d'aimer,
De ne plus être inutile, inanimé,
De n'avoir rien à perdre et d'avoir tout perdu.
Je connais ta folie, je connais ta pudeur,
Je sais qu'on se ressemble comme frère et sœur
Je connais ton odeur, je connais ton parfum,
Je te connais par cœur et je ne sais plus rien
De toi, mon amour, que je n'aime plus,
Sans arriver à me sentir enfin libre,
Pareil à un danseur qui perdrait l'équilibre,
Comme un prince en disgrâce, comme un ange déchu.
… Aimez-vous jusqu'à la dernière goutte du vin après l'amour…
… Love one another until that last drop of wine after love…
RIC
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Músicas
quinta-feira, 26 de julho de 2007
«Очи чёрные» | «Olhos Negros»…
Как вы все делаете, мои дорогие друзья?
Сегодня я нахожусь в Москве.
До скорой встречи в Лиссабоне!
Hello!
How are you all, my dear friends?
Today I am in Moscow.
See you soon in Lisbon!
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
[…]
Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись,
Вы сгубили меня очи чёрные
Унесли на век моё счастье.
Очи чёрные, очи страстные,
Очи жгучие и прекрасные,
Как люблю я вас, как боюсь я вас,
Знать увидел вас я не в добрый час.
Dark eyes, frightful eyes
Burning and beautiful eyes
I love you so, I fear you so
For sure I've seen you at a sinister hour
[…]
Without meeting you, I wouldn't be suffering so
I would have lived my life smiling
You have ruined me, dark eyes
You have taken my happiness forever away
Dark eyes, frightful eyes
Burning and beautiful eyes
I love you so, I fear you so
For sure I've seen you at a sinister hour
… The lights that keep shining through the white nights in Saint Petersburg, the sounds that echo in your mind from Moscow tolling bells in the Red Square…
… A pair of dark eyes that tell you secrets from the depths of the Russian soul, and steal your tranquillity, your peace of mind away forever…
From Russia with love!
RIC
Editado por RIC às 15:51 26 comentário(s)
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Músicas
quarta-feira, 25 de julho de 2007
«Italienische Reise» | «Italian Journey»
«3 September 1786
I slipped out of Carlsbad at three in the morning; otherwise, I would not have been allowed to leave. Perhaps my friends, who had so kindly celebrated my birthday on 28 August, had thereby acquired the right to detain me, but I could wait no longer. I packed a single portmanteau and a valise, jumped into the mail-coach, and arrived in Zwota at 7.30. The morning was misty, calm and beautiful, and this seemed a good omen. The upper clouds were like streeked wool, the lower heavy. After such a wretched summer, I looked forward to enjoying a fine autumn. At noon I arrived in Eger. The sun was hot, and it occurred to me that this place lay on the same latitude as my native town, I felt very happy to be taking my midday meal under a cloudless sky on the fiftieth parallel.»
© Penguin Classics, 1982
From this journey, which Goethe undertakes incognito as "Filippo Miller, Tedesco (German), Pittore (Painter)", he returns in June 1788 as one, who found "Arcadia" and himself.
But only thirty years later he publishes in a worked form the travel diary originally dedicated to Charlotte von Stein. The "Italian Journey" finally got its title in the last hand edition from 1829, now completed with the report about his second staying in Rome.
… I'm off to Italy myself as well. I'll be back tomorrow.
RIC
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Literaturas
terça-feira, 24 de julho de 2007
Silly season at its best! Boring as hell…

The silly season is the period lasting for a few months (starting in mid- to late summer) in the United States, the United Kingdom and Australia, typified by the emergence of frivolous news stories in the media.
This term was known by the end of the 19.th century and listed in the 2.nd edition of "Brewer's Dictionary of Phrase and Fable" and remains in use at the start of the 21.st century. The 15.th edition of Brewer's expands on the 2.nd, defining the silly season as "the part of the year when Parliament and the Law Courts are not sitting (about August and September)".
Typically, the latter half of the summer is slow in terms of newsworthy events. Newspapers as their primary means of income rely on advertisements, which rely on readers seeing them, but historically newspaper readership drops off during this time when in the UK, Parliament takes its summer recess, so that parliamentary debates and Prime Minister's Questions, which generate much news footage, do not happen.
To retain – and attract – subscribers, newspapers would print attention-grabbing headlines and articles to boost sales, often to do with minor moral panics or child abductions. Other countries have comparable periods, for example the "Sommerloch" (summer hole) in Germany and "Mätäkuun juttu" (rotten-month feature) in Finland.
Wikipedia (abridged and adapted)
In Portugal, one would tend to see this period as an absolute void.
Nothing happens (or seems not to happen), everyone heads for the very same places, newspapers and "heart"/socialite magazines "offer" whatever they can come up with to ensure a minimal amount of "readers": slippers, handbags, beach towels, "shades", skin protectors, you name it…
Even the national part of the bloggosphere seems to have been deserted. Many diligent bloggers just vanish for a while, but some of them seem not to resist that drive that takes them to a near cybercafé to have a look at what others keep on posting. I believe they read as many posts as they can, but just don't have the time or the home comfort to comment.
Living in Lisbon turns into some kind of a short staying in paradise: much less cars, much less people, and great opportunities to enjoy evening/night cultural life.
Well, it's not so bad after all…
Enjoy it lavishly if you happen to be around!
RIC
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Quotidianos
segunda-feira, 23 de julho de 2007
«Aquarela» de Toquinho
In my opinion this is one of the most beautiful MPB (Música Popular Brasileira - Brazilian Pop Music) songs ever.
I still remember quite vividly the very first time I listened to it many years ago: a shiver went down my spine, and I felt a sudden, unexplainable urge to cry. And ever since that moment it has always been like that every single time I listen to it. I guess I'm turning into a cry-baby as age progresses…
Please listen carefully to those guitar accords in the end! Heavenly!
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América à outra eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá
This is also meant as a heartfelt homage to those unfortunate people who perished in the TAM aircraft crash in São Paulo, Brazil, and their mourning families.
RIC
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Músicas
domingo, 22 de julho de 2007
«Belle Toujours»!
«Ao descer a escada rolante do Metropolitano, pareceu-me avistar, de longe ainda, uma loja de fotografia entre as muitas da vasta galeria comercial subterrânea. Sabes bem da minha fraca apetência pela fotografia de lazer, mas aquela loja parecia diferente. Aproximei-me e, à medida que caminhava, fui reconhecendo um e outro rosto em reproduções saídas dos ecrãs da sétima arte. A maioria era a preto e branco, o que me atraiu ainda mais, e em vários formatos. Hoje, o preto-e-branco é apenas uma busca, quase sempre mimética, de um passado irrecuperável. Uma pseudo-afirmação de não se sabe muito bem o quê.

Fui entrando e, ao circunvagar o olhar maravilhado de um extremo ao outro da loja, julguei estar a abarcar naqueles expositores toda a História do cinema: actores e actrizes, divas e galãs, vampes e vedetas, realizadores e argumentistas, cartazes publicitários e fotos de imprensa que fizeram História – tudo o que marcava a sétima arte estava ali.
Devo ter deambulado pela loja algumas horas – talvez o tempo de uma sessão de cinema – e foi num brusco relance do olhar que a vi. Por uma razão ou por outra, lembrava-me dela sempre que vinha a Paris e acalentava o sonho de, a qualquer instante, ao dobrar uma esquina ou ao caminhar por um boulevard, poder cruzar-me com ela. Um desejo de adolescente que nunca senti na adolescência. Não me lembro de alguma vez ter idolatrado monstros sagrados do cinema, da música ou do desporto. Apreciava-os muitíssimo, sim, pelos raros talentos que exibiam e pouco mais. Com ela, porém, foi diferente desde a primeira vez, já eu não era adolescente. Vira-a, ainda menina, em excelentes desempenhos, mas o fascínio só surgiu quando eu era já adulto e ela, uma mulher madura. A constante beleza fina, o cabelo magnífico, as intraduzíveis expressões do rosto e do olhar, a voz inconfundível, a serenidade natural, o corpo coleante, o charme absoluto, enfim, tudo o que provoca atracção, sedução e paixão, quais mortificadoras delícias do inatingível e do intocável...
Onde estaria ela naquele instante, a deslumbrante Odette de Forcheville – inigualável alegoria proustiana da eterna juventude –, enquanto eu me ia aproximando de um cartaz de grandes dimensões que a mostrava de corpo inteiro, cabelos curtos soltos ao vento e envolta na luz dourada e quente de um poente da Indochina. Vira aquele cartaz – e o filme que ele anunciava – há uns anos e nunca o esqueci. Como não hei-de esquecer tantos outros.

Comprei-o e a mais umas quantas fotografias escolhidas pacientemente entre as muitas de uma pasta com o seu nome e um registo meticuloso dos formatos existentes, dos filmes que a celebrizaram e dos respectivos anos de estreia. Já nem me lembrava de umas já velhinhas «Vacances portugaises» de 1963, que em Portugal foram «Os Sorrisos do Destino».
E ao sair da loja desejei que, numa das minhas caminhadas – ô la bienheureuse rencontre! – aquela descoberta fosse o sinal de tomber nez à nez avec Catherine Dorléac, a Belle de jour, a genuína musa de Cannes.
A Deneuve.»
RIC
Editado por RIC às 09:29 10 comentário(s)
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Ficções
sábado, 21 de julho de 2007
Saturday's serenity…

"Veni, vidi, vici."
Suetónio, Cæsar
I came, I saw, and I won.
Vim, vi e venci.
Je vins, je vis et je vainquis.
Ich kam, ich sah und ich gewann.
Ik kwam, ik zag en ik won.
(…)
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama.
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…
Alberto Caeiro
Do II poema de "O Guardador de Rebanhos"
8 de Março de 1914
[Obras de Fernando Pessoa (poética e em prosa)
Introduções, organização, biobibliografias e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa,
vol. I, p. 743, Lello & Irmãos – Editores, Porto, 1986]
Um delicioso fim-de-semana para todos!
Have you all a delicious weekend!
RIC
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Estesias
sexta-feira, 20 de julho de 2007
«La bêtise, un monstre moderne»

Bernard Fauconnier
«Un spectre hante la conscience moderne, la bêtise.
Le mot, attesté au Moyen Âge, disparaît en tant que tel à l’âge classique pour resurgir au XVIIIe siècle, sous la plume de Diderot.
Bêtise, sottise, crétinerie, connerie.
La bêtise remonte à la plus haute antiquité, sans doute, comme eût dit Alexandre Vialatte, mais quiconque tente aujourd’hui encore d’enfermer la bête immonde en un concept opératoire, sinon définitif, se casse les dents. En témoigne, récemment, Stupidity, un essai de la philosophe américaine post-derridienne Avital Ronell, qui de déconstructions en références tournoyantes, semble mordiller les mollets de son sujet sans jamais lui régler son compte.
Mais peut-il en être autrement? Oui, la bêtise est un monstre moderne, rusé, qui résiste à toute forme de théorisation, même si les meilleurs qui s’y sont essayés, à l’instar de Robert Musil, doivent rendre les armes: "C’est que j’ignore ce qu’elle est, note-t-il non sans ironie. Je n’ai pas découvert de théorie de la bêtise à l’aide de laquelle je pourrais entreprendre de sauver le monde."
Un monstre multiforme, réversible, insaisissable, d’une infinie plasticité, tout étant relatif et réciproquement. Un monstre aussi résistant qu’un virus, et dont le vaccin reste à ce jour inconnu. Pas un écrivain, pas un penseur digne de ce nom qui, depuis l’aube des Temps modernes, n’ait éprouvé la nécessité de se confronter à cette Chose, aussi terrifiante, obsédante et grand-guignolesque que la pieuvre du capitaine Nemo.»
La Bêtise, escultura em madeira de Jean Escaffre (1985)
Um espectro assombra a consciência moderna: a estupidez.
A palavra, atestada na Idade Média, desaparece como tal na época clássica para reaparecer no século XVIII, sob a pena de Diderot.
Estupidez, estultícia, idiotia, burrice.
A estupidez remonta à mais alta antiguidade, sem dúvida, como disse Alexandre Vialatte, mas quem quer que tente ainda hoje encerrar o animal imundo num conceito operacional, mas não definitivo, quebra os dentes. É testemunha disso, recentemente, Stupidity, um ensaio da filósofa americana pós-Derrida Avital Ronell, que de desconstruções em referências rodopiantes parece mordiscar os tornozelos ao assunto sem jamais acertar contas com ele.
Mas pode ser de outro modo? Sim, a estupidez é um monstro moderno, astuto, que se opõe a qualquer forma de teorização, mesmo que os melhores que o tentaram, a exemplo de Robert Musil, tenham de depor as armas: "É que ignoro o que ela é, nota não sem ironia. Não descobri teoria da estupidez com a ajuda da qual pudesse tentar salvar o mundo."
Um monstro multiforme, reversível, intangível, de uma infinita plasticidade, sendo todo ele relativo e vice-versa. Um monstro tão resistente como um vírus, cuja vacina continua a ser até hoje desconhecida. Não houve um escritor, um pensador digno deste nome que, desde a aurora dos tempos modernos, não tenha sentido a necessidade de se confrontar com esta Coisa tão assustadora, obsessiva e teatral como o polvo do capitão Nemo.
• Matthijs van Boxsel, The Encyclopedia of Stupidity, The University of Chicago Press, 2005
Matthijs van Boxsel (born in 1957) is a Dutch literary historian who believes that no one is intelligent enough to understand their own stupidity. In "De Encyclopedie van de Domheid" (The Encyclopaedia of Stupidity) – 1986-2006 – he shows how stupidity manifests itself in all areas, in everyone, at all times, proposing that stupidity is the foundation of our civilization.
In short sections with such titles as "The Blunderers' Club", "Fools in Hell", "Genealogy of Idiots", and "The Aesthetics of the Empty Gesture", stupidity is analysed on the basis of fairy tales, cartoons, triumphal arches, garden architecture, Baroque ceilings, jokes, flimsy excuses and science fiction. But Van Boxsel wants to do more than just assemble a "shadow cabinet" of wisdom; he tries to fathom the logic of this opposite world.
Where do understanding and intelligence begin and end? He examines mythic fools such as Cyclops and King Midas, cities such as Gotham, archetypes including the dumb blonde, and traditionally stupid animals such as the goose, the donkey and the headless chicken.
Van Boxsel posits that stupidity is a condition for intelligence, that blunders stimulate progress, that failure is the basis for success.
In this erudite and witty book he maintains that our culture is the product of a series of failed attempts to comprehend stupidity.
Veja aqui o "trailer" de um documentário norte-americano intitulado "Stupidity". Esperemos que possamos vê-lo em breve.
Em tempos de tão grandes avanços em termos de educação, instrução e formação – ao longo de toda a vida! – e para uma considerável maioria de cidadãos do mundo ocidental, é no mínimo com justificada apreensão que assistimos às mais descabeladas manifestações de estupidez, nos mais variados sectores da vida contemporânea: económico, social, político, cultural, etc.E o pior é ainda o que sucede quando levamos todos – por razões que só Deus discernirá… – roda de estúpidos…
Indubitavelmente, a estupidez tornou-se um monstro moderno. Será talvez a nossa quota-parte na herança da mítica hidra grega…
RIC
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Crítica Cultural
quinta-feira, 19 de julho de 2007
«De distinctionibus et catenis...»

A blogosfera também tem destas coisas – distinções e cadeias. E quando menos se espera, dá-se uma reviravolta de atenções, os olhares seguem noutras direcções e o que parecia distante torna-se próximo.
O André Benjamim escolheu-me (há que tempos… As minhas sinceras desculpas pela desatenção!) para citar os últimos cinco livros que li, e passar a palavra a outros bloguistas.
Respondo muito agradado.
As minhas leituras mais recentes têm sido sobretudo releituras:
- Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, Lello & Irmãos
- Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, Europa-América
- Lawrence Durrell, The Alexandria Quartet, Faber fiction classics
- Maria Belo, Filhos da Mãe, Edeline
- Pierre Janton, L'Espéranto, Presses Universitaires de France
Por uma questão de correcção não quero, neste caso, quebrar a cadeia, pelo que muito respeitosamente passo a palavra a:
• Luís
• Manuel B. S.
• Maurice
• Paulo
• Oz
Quando já tinha esta resposta quase pronta, outra novidade me chegou do André Benjamim. Desta feita, trata-se da nomeação "MomentUS de Excelência". Pela atenção a este blogue que a dita revela, os meus sinceros agradecimentos!
Considero que a importância principal destas distinções reside sobretudo no facto de com elas se estreitarem laços entre bloguistas que, em princípio, têm algo comum entre si. E isto é, a meu ver, muito positivo e, portanto, louvável.
Também neste caso devo proceder à passagem do testemunho. Como na blogosfera leituras e escritas andam geralmente de mãos dadas (sem que isto constitua regra, bem entendido), nomeio os bloguistas acima referidos. Não posso saber o que cada um pensa deste tipo de cadeias ou correntes e só posso desejar que não me levem a mal por os chamar assim à liça…
Os respectivos blogues são bem mais do que o resultado de leituras e de escritas, bem entendido, e também outros poderiam de igual modo ter sido nomeados. Não há, pois, nesta nomeação lugar para méritos e/ou deméritos. Não se trata – nem de perto nem de longe! – de uma avaliação. É tão-só e apenas a minha escolha, com toda a carga subjectiva inerente.
Abraços amigos para todos! Adoro a vossa companhia! :-)
RIC
Editado por RIC às 02:22 12 comentário(s)
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Quotidianos
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Liberté!
Para uma tradução portuguesa deste poema, queira seguir este elo.
Porventura não será a melhor, mas será decerto melhor do que nenhuma…
For an English version of this poem, please click on "Liberty". I'm sure you'll enjoy it!
Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom
Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom
Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom
Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom
Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom
Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom
Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom
Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom
Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom
Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom
Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom
Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom
Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom
Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom
Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom
Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.
"Poésie et Vérité", Éditions de Minuit, Paris, 1942.
RIC
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Poesia
terça-feira, 17 de julho de 2007
II. ... E Zé Mário Branco dá-nos Natália Correia
Queixa das Jovens Almas Censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte.
• "Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades", 1971
• "O Nosso Amargo Cancioneiro", 1972
… Para que as memórias não pereçam nunca!
RIC
Editado por RIC às 23:23 14 comentário(s)
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Músicas





