sábado, 22 de setembro de 2007

«Le Métèque»


Paroles et musique – Georges Moustaki, 1969

Avec ma gueule de métèque,
De Juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents.
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent l'air de rêver,
Moi qui ne rêve plus souvent.
Avec mes mains de maraudeur,
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins.
Avec ma bouche qui a bu,
Qui a embrassé et mordu,
Sans jamais assouvir sa faim.

Avec ma gueule de métèque,
De Juif errant, de pâtre grec,
De voleur et de vagabond.
Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon.
Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert,
Sans pour cela faire d'histoires.
Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire.

Avec ma gueule de métèque,
De Juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents.
Je viendrai, ma douce captive,
Mon âme sœur, ma source vive,
Je viendrai boire tes vingt ans.
Et je serai prince de sang,
Rêveur ou bien adolescent,
Comme il te plaira de choisir.

Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour,
Que nous vivrons à en mourir.


Para amenizar o princípio do fim-de-semana, um pouco de cultura musical gaulesa – com suaves laivos de um helénico Mediterrâneo… – também sabe muito bem!
Apreciem «O Meteco» e façam do vosso fim-de-semana «une fête à en mourir»!… Também faz falta!

To brighten up the beginning of the weekend, a little bit of Gaul musical culture – with soft tones of a Hellenic Mediterranean… – also feels quite well! Enjoy «The Métèque» and turn your weekend also into a party to die for!… Sometimes you just need that!

RIC

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Baffling Mae West!


«I speak two languages: Body and English.»

Mae West (August 17th, 1893 - November 22nd, 1980) was an American actress, playwright, screenwriter, and sex symbol.
Famous for her bawdy double entendres, Mae West made a name for herself in vaudeville and on the legitimate stage in New York before moving to Hollywood to become a comedian, actress and writer.
One of the most controversial stars of her day, Mae West encountered many problems including censorship.

In 1932, Mae West was offered a motion picture contract by Paramount. She signed and went to Hollywood to appear in «Night After Night».At first, she did not like her small role, but was appeased when she was allowed to rewrite her scenes. In West's first scene, a hat check girl exclaimed, «Goodness, what lovely diamonds!» West replied, «Goodness had nothing to do with it, dearie.»

She brought «Diamond Lil», her very successful Broadway play – now Lady Lou –, to the screen in «She Done Him Wrong» in 1933 («Uma Loura Para Três»), personally selecting Cary Grant for the male lead as Captain Cummings, a role that greatly influenced his career. The movie was a success and earned an Academy Award nomination for Best Picture.

«New York singer and nightclub owner Lady Lou has more men friends than you can imagine. Unfortunately one of them is a vicious criminal who's escaped and is on the way to see "his" girl, not realising she hasn't exactly been faithful in his absence. Help is at hand in the form of young Captain Cummings, a local temperance league leader though.»

The frank sexuality and seamy settings of her films aroused the wrath of moralists. On July 1st, 1934, the censorship of the Production Code began to be seriously and meticulously enforced and her scripts began to be heavily edited. Her answer was to increase the number of double entendres in her films, expecting the censors to delete the obvious lines and overlook the subtle ones. She made sex amusing – to those who could only see sex as either evil lust or sacred matrimonial act – this was indeed subversive!

West's next movie was «Belle of the Nineties» (1934). It was originally titled «It Ain't No Sin», but the title was changed due to the censor's objection. Other tentative working titles included «That St. Louis Woman», «Belle of St. Louis» and «Belle of New Orleans». The same could be said for her following film, «Goin' To Town» (1935), which was originally titled «How Am I Doin'?»

In 1936, she adapted for the screen Lawrence Riley's Broadway hit «Personal Appearance». The film, directed by Henry Hathaway, was one of the rare times when Mae West starred in a role not originally conceived for her.

«Why don't you come up some time and see me, when I got nothing on but the radio?», Lady Lou says to Captain Cummings…





I'd like to point out a few features of her acting expertise that have always impressed me tremendously: her facial expressions and hair, her mystifying voice and studied elocution, her great body, and her astonishing presence...
Long live great Mae!

RIC & Wikipedia

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Analisando o incidente a bordo…

(Conclusão do texto ficcional de quarta-feira, 12 de Setembro)

«Não me tenho em conta de misantropo, mas há ocasiões em que me saberia muito bem ser anacoreta. Quem me dera estar alhures. Discorrendo sobre o incidente, evito voltar a pensamentos ainda mais perturbadores do que a sombria perspectiva de estar a bordo de um avião que poderá despenhar-se a qualquer instante, apenas porque alguém se considera mais esperto, com mais direitos e acima da lei.

Admito sem rebuços que não tenho nem mais nem menos qualidades que quaisquer outros. Afinal, é até com alguma esperteza saloia que vou analisando a peripécia, em silêncio e ao pormenor, a partir do abrigo do meu lugar, iludindo-me que assim escapo mais facilmente às inquietações que a aproximação a Lisboa torna cada vez mais ingentes. Julgo que, agindo assim, não me misturo a uma discussão de matarroanos e pacóvios, que é o que penso deles. Mas, com esta atitude, apenas desvio o olhar de mim para os outros…

Depois, há alguma inveja mesquinha em não conseguir, como os outros, ocupar o espírito com elucubrações sobre se também a mim me assistiria o direito de utilizar o telemóvel. Enquanto eles se vão dividindo em grupos e encarniçando em acirrados falatórios, eu fico em silêncio no meu lugar, não deixando por isso de observar, esmiuçar e criticar tudo o que se vai passando, por alguma coscuvilhice calada mas não menos lampeira, feita de olhares furtivos. A diferença é apenas formal. Não poupando nas censuras, é com alguma maledicência que lhes vou traçando os retratos com contornos afiados. Mas não tenho a coragem, por alguma cobardia assarapantada, de me levantar do lugar onde ainda me sinto protegido e de lhes dizer cara a cara o que penso.

Há também alguma sujeição rasteira em aceitar sem reacção a ínvia vontade de uma maioria, que pode causar uma catástrofe, por receio de afrontá-la, quando a minha obrigação seria insurgir-me contra o calamitoso erro que pode tornar-se criminoso. E há ainda alguma acomodação e indolência a que me parecem condenar o fatalismo, o azar, a pouca sorte de estar a bordo deste avião, caso a normalidade não seja retomada. Embora seja vítima potencial, não intervenho por considerar que não é responsabilidade minha contribuir para a solução. Entrego o caso a outrem, a quem à partida reconheço autoridade para resolver o problema.

Os deméritos, que prontamente aponto aos outros, são também afinal os meus defeitos. Não sou melhor nem pior, nem fico por isso mais descansado. «Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades!» Almada Negreiros, «poeta de Orpheu, futurista e tudo», conhecer-se-ia muito bem a si próprio, mas sem dúvida conhecia-nos a todos nós muitíssimo melhor. «Mestre quem?! Não faço ideia, mas acho que é capaz de ser uma dessas celebridades que andam por aí nas revistas, não? Ou um desses que fazem telenovelas…»

Desprezamos olimpicamente os bens do espírito, temos almas cada vez mais pequenas e, por teimarmos na pequenez, invejamos qualquer sinal de grandeza maior. Assim, o nivelamento por baixo é a solução ideal, perfeita, e é o que sistematicamente acontece. Propensos ao imediato e ao pronto, livramo-nos depressa demais de tudo o que requeira esforço de concentração e de reflexão, o que, do alto da nossa suprema sabedoria, achamos desnecessário. Porém, o caso muda de figura se acaso, pública e oficialmente, somos chamados a pronunciar-nos. Então, é o que há de pior no estilo pseudo-académico que revelamos, inviabilizamos qualquer simpatia ou empatia com o assunto que, obviamente, dominamos na perfeição como ninguém e tornamos insuportável a simples audição ou leitura. E nisto, não temos mudado nem damos sinais de querer mudar. Definitivamente, pensar, discernir, discorrer não serão as nossas mais inatas vocações, as nossas melhores qualidades. Sob vários aspectos, revelam-se até defeitos inextirpáveis. Por alguma razão, filosofar em Português é mentira.

Há tempos dizia um entendido em representações geométricas, que um segmento de recta se ajusta lindamente a dar forma às particularidades do carácter nacional. «Parte delas num extremo, outra parte no outro, nada entre eles e tudo em desequilíbrio.» É decerto o que peritos em análise lógica já haviam transposto, com a célebre disjunção exclusiva, para «ou oito ou oitenta». E o povo, na sua infinita sabedoria superior a abstracções e feita da empírica experiência, formulou o mesmo na eloquente imagem disfemística «ou cu à mostra ou calções de veludo», não descurando a imprescindível alternativa absoluta. O expressivo plebeísmo apenas enfatiza o pitoresco concreto e realista.»

(Sem pretender dar quaisquer pistas de leitura/interpretação, importa-me registar que esta segunda parte foi construída em «contraponto» à primeira, um pouco como um possível exercício de auto-ironia. Não sei se o narrador o terá plenamente conseguido. As vossas reacções o dirão…)

RIC

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Aquilino in the National Pantheon


Aquilino Ribeiro (Sernancelhe, September 13th, 1885 - Lisbon, May 7th, 1963) was a Portuguese writer.

Destined to priesthood, Aquilino Ribeiro soon got involved in republican politics, opposing the Portuguese monarchy, and had to leave the country for exile in Paris, where he studied Philosophy at the Sorbonne. He returned to Portugal in 1914.

He was involved in the opposition to Salazar and the «Estado Novo», whose government tried to censor or ban some of his works.

His name was proposed for the Literature Nobel Prize in 1960 by significant public figures in Portuguese culture such as Francisco Vieira de Almeida, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira, Joel Serrão, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Alves Redol and João Abel Manta.

Here are a few of his most famous titles:

Terras do Demo (1919)
O Malhadinhas (1920)
Andam Faunos pelos Bosques (1926)
O Romance da Raposa (1929)
Volfrâmio (1944)
Cinco Réis de Gente (1948)
A Casa Grande de Romarigães (1957)
Quando Os Lobos Uivam (1958)

Considered one of the greatest Portuguese novelists of the 20th century – he wrote more than 70 novels –, Aquilino Ribeiro managed to cross rusticity with erudition, showing in his work a gallery of peculiar, telluric characters that classified him forever as a faithful observer of "grandeur and misery" of humankind.

«Mais não pude» (in the sense of «I wasn't able of any better») is the sentence he would have wanted for his epitaph.

His remains will be transferred today to the National Pantheon, where another great writer is certainly most welcome among all other noble Portuguese.

RIC

terça-feira, 18 de setembro de 2007

«Quiseram chamar-me Fernando»

A janela do meu quarto dá para uma rua
Onde carros continuam a passar
Todos os dias
Todo o dia.
Gente que fala são vozes que ouço.
Gente que caminha são passos que ressoam.
Chaves que tilintam são portas que se abrem.
Tal como na tua rua
Como no teu tempo.
Igual monótono.

Olho em frente e há uma tabacaria
Onde todos os dias entram e saem
Outros Esteves muitos.
Os filhos, os netos, os bisnetos.
Igual monótono.

Eu que não sou Fernando mas estive para ser
Também digo pensar com o coração
Sentir com a razão
E escrever prosas que não são versos.

Deve ser isto assim
O ser parte da humanidade.
Mais um grão de areia soprado para a engrenagem
Que um dia há-de expeli-lo.
Tu saíste em trinta e cinco
Eu entrei em cinquenta e nove
Nesta nossa Lisboa ainda a mesma
Na mesma língua que ainda hoje doce dura.

Em caixas sobrepostas há gente a escrever versos alinhados
Na correnteza de vagões do teu comboio de corda.
Versos à beleza deste espaço onde vivos fazem vidas
Em jazigos para vivos
Geometricamente empilhados em talhões bairros
Horrores de arquitectura.

Quem dera um suave desígnio
Nesta desvairada trucidação de susto e ânsia
Que nos disseram à chegada
Que era a vida.

RIC

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Maria Callas – Thirty Years of Immortality

Άννα Μαρία Καικιλία Σοφία Καλογεροπούλου
(Ana Maria Cecília Sofia Kalogueropúlu)

«Andrea Chénier»

Music by Umberto Giordano
Libretto by Luigi Illica

Terzo quadro

Maddalena:

La mamma morta
m'hanno alla porta
della stanza mia;
moriva e mi salvava!…
poi – a notte alta – io con Bersi errava, –
quando, ad un tratto, un livido bagliore
guizza e rischiara innanzi a' passi miei
la cupa via! –
Guardo!… Bruciava il loco di mia culla!
Così fui sola!… E intorno il nulla!
Fame e miseria!…
Il bisogno e il periglio!…
Caddi malata!…
E Bersi, buona e pura,
di sua bellezza ha fatto un mercato,
un contratto per me! –
Porto sventura
a chi bene mi vuole!
Fu in quel dolore
che a me venne l'amore!…
Voce gentile piena d'armonia
e dice: "Vivi ancora! Io son la vita!
Ne' miei occhi è il tuo cielo!
Tu non sei sola! Le lacrime tue
io le raccolgo!… Io sto sul tuo cammino
e ti sorreggo!
Sorridi e spera!… Io son l'amore!
Tutto intorno è sangue e fango?…
Io son divino!… Io son l'oblio!
Io sono il dio
che sovra il mondo scende da l'empireo,
fa della terra un ciel!… Ah!
Io son l'amore! Io son l'amor, l'amor."

As a humble tribute to the memory of this astonishing woman, whose voice will always be the Wondrous Voice, I just couldn't help being reminded of another high moment – in my opinion, one of the highest indeed! – in the History of cinema: Tom Hanks in Philadelphia – «Do you like Opera?»
Watch that unique scene again
here.

Hoje, pelas 23:30, a RTP2 transmitirá um documentário de cariz biográfico que, a julgar apenas pelas imagens de apresentação, se revestirá de grande interesse para o público em geral e, talvez ainda mais, para quem esteja menos familiarizado com a vida e a carreira da grande soprano.

RIC

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ponto de ordem

«Soyez donc résolus à ne plus servir et vous serez libres.»
«Decidi-vos a não servir mais e sereis livres.»
Étienne de La Boétie

«If you've had enough, don't put up with his stuff, don't you do it.
If you've had your fill, get the check, pay the bill, you can do it.
Tell him to just get out.
Nothing left to talk about.
Pack his raincoat, show him out.
Just look him in the eye and simply shout.
"Enough is enough!"
I want him out,
I want him out that door now.
"Enough is enough!
Goodbye mister!"»



Da verdade existem tantas facetas quantas as bocas que dizem proferi-la, uma óbvia evidência que, ainda assim, passa despercebida a muitos que se consideram e dizem atentos.

Desde que, em Julho do ano passado, criei este blogue, ele tem sido um espaço de liberdade para mim e para todos aqueles que por aqui têm passado. Uns estiveram apenas de passagem, outros chegaram e ficaram, outros ainda estiveram e partiram. E é assim que deve ser, na minha opinião.

Contar-se-ão pelos dedos de uma mão aqueles com quem estabeleci qualquer outro tipo de contacto que não o que ocorre nesta página e na de comentários, a que sempre fiz, faço e farei questão de responder.

Não busquei, não busco nem buscarei qualquer outro tipo de relacionamento com os bloguistas que têm vindo a integrar a lista de contactos (blogroll) da barra lateral, ela própria reflexo das mudanças inerentes a tudo o que depende da livre vontade de cada um.

A invocação da amizade por dá cá aquela palha não me diz rigorosamente nada. As amizades constroem-se a partir de duas bases; não surgem do nada por obra e graça do espírito santo, ou apenas porque a palavra é utilizada num sentido performativo que, obviamente, não tem.

Nunca fiz, não faço nem jamais farei parte da corte de ninguém. Nem na realidade real, nem aqui, na realidade dita virtual. Afirmo claramente no meu perfil que sou um outsider, um marginal assumido, no tocante a espíritos de capelinha, a joguinhos de poder, a clubes de fãs mais ou menos fidelizados, a estratégias infantis de reinação.

Nada disso me interessa. Nunca me interessou.

Prezo a minha liberdade acima de tudo e reservo-me todo o direito de comentar o que eu quero, onde eu quero, como eu quero e quando eu quero.

Não tomo lições de absolutamente ninguém no que a esta minha forma de estar na blogosfera diz respeito. De igual modo, prezo a liberdade dos outros e, por isso, entendo que cada um comenta – ou não – aquilo que muitíssimo bem entende e lhe apetece comentar. Não faço disso qualquer questão e não vou por isso nem elogiar nem perseguir seja quem for. Com quase meio século de vida, já tenho muito boa idade para ter algum juízo. E sensatez. E discernimento.

Exijo, isso sim, ser absolutamente respeitado por quem quer que aqui chegue e queira fazer parte deste pequeno grupo de convívio. Já o disse várias vezes e parece-me que nunca será demais repeti-lo, sobretudo – e lamentavelmente – no que concerne o sector luso da blogosfera: a pedra de toque de todo o relacionamento humano é o respeito. Quem o quer para si tem de o dar. Não há nenhum outro caminho. Não há quaisquer toleranciazinhas que mascarem esta evidência.

Durante alguns meses após a sua criação, este blogue permaneceu ausente do circuito nacional. Depois, por circunstâncias várias, acabou por nele entrar. No cômputo geral, tem sido uma agradável e recompensadora experiência. Porém, não me sinto – nem estou! – de todo amarrado a coisíssima nenhuma. Se considerar que deverei regressar ao modelo inicial, fá-lo-ei sem quaisquer hesitações.

Não serei aqui refém de nada nem de ninguém. E não voltarei a este assunto. Considero-o um desperdício de tempo e de energia.

Estejam todos, pois, muitíssimo à vontade para chegar, para ficar e também para partir.

A vontade de cada um de vós é soberana. A minha também.

A liberdade tanto é vossa quanto é minha.

Disponham sempre!

RIC

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Da esperteza saloia e outros vícios…

«Um incidente irrompe a bordo. Um compatriota tranca-se num lavabo. É um homem com os seus quarenta e cinco anos que, a julgar pelo aspecto, tanto pode ser um executivo bem instalado na vida como um novo-rico bem treinado. Outro compatriota aguarda no exterior, insurge-se contra o colóquio, denuncia ruidosamente a clandestinidade do acto e expõe o que o indigna. «Se este pode, também eu posso, também tenho telefonemas urgentes a fazer.» Parece que ou imita muito bem ou lhe vai dar ali mesmo um tranglomango qualquer, tal a fúria exibida. O primeiro sai então do lavabo, mira o segundo de alto a baixo exibindo um leve sorriso de desdém que lhe põe a boca à banda e profere o veredicto. «Que culpa tenho eu de você não saber fazer as coisas?» Vira-lhe as costas e regressa impante ao lugar. Tudo aquilo tresanda a sobranceria marialva.

É a esperteza saloia de um e a inveja mesquinha do outro.

Só agora me apercebo de que foram muito poucos os portables que vi em Paris, se comparar com a epidemia que grassa em Lisboa. É penoso ver tanta gente por todo o lado sempre agarrada às orelhas, como se sofresse de otalgia crónica colectiva. E mais doloroso ainda é ter de ouvir conversas alheias, umas íntimas e ridículas, outras comuns e absurdas, por ser isto inerente a um povo que sempre terá sido propenso à tagarelice prolixa. Há anos, alguém disse que o telefone era o símbolo moderno das comunicações que nunca ocorrem. O que não diria hoje...


Entretanto, a confusão depressa se espalha por toda a cabina, e dois terços dos passageiros – quase todos os portugueses a bordo – estão de repente de telemóveis em punho, confrontando comissários e hospedeiras com o direito «efectivo» e a necessidade «incontornável» que também eles têm de se servir dos aparelhos. O outro terço é estrangeiro, que só se apercebe do que está a passar-se quando o pessoal de cabina é forçado a intervir. Alguns quase entram em pânico, julgando tratar-se de um acto terrorista. Quando se acalmam, já os portugueses se juntaram em grupos e se lançam numa ruidosa discussão em que todos falam ao mesmo tempo, cada um para seu lado. A verdade é que ninguém quer ouvir ninguém. A intenção é apenas a de sobrepor a sua voz à do vizinho e ouvir-se lautamente. «Se aquele pôde também nós havemos de poder, lá por estar bem vestido julga-se o quê, também somos gente, estes gajos fazem o que querem e lhes apetece e espezinham os outros a toda a hora.» Quase todos os protestos soam no mesmo tom. Mero alarido.

É a coscuvilhice lampeira e a maledicência afiada.

Só duas vozes portuguesas manifestam alguma apreensão quanto à segurança da aeronave. Tomados pelo frenesi que a discussão gera, dois passageiros recalcitrantes avançam decididos a usar os telemóveis, mas são prontamente demovidos do intento por dois comissários. O confronto físico é iminente, e o comandante faz entretanto um ultimato. Ou a normalidade é de imediato reposta para que o voo possa prosseguir, ou ele fará meia volta e regressará a Roissy, para requerer a intervenção das autoridades e apresentar queixa por infracção grosseira às regras de segurança aérea. No mesmo instante todos se sentam, e os telemóveis desaparecem. Mas a mesma lamúria vai manter-se em surdina até Lisboa. «Afinal não aconteceu nada ao avião, são só patranhas que nos impingem para fazer de nós camelos.»

É a cobardia assarapantada a vergar-se à ameaça intimidatória, e a sujeição rasteira a submeter-se à autoridade inquestionável.

Os protestos lamurientos prosseguem como um disco riscado, dando voz a uma muito lusa flebilidade confrangedora. Ninguém acrescenta à disputa nada que interesse. Pouco depois, com os ânimos já mais calmos, chega-me aos ouvidos uma observação sussurrada que me soa surreal, de tão absurda, rebuscada e inacreditável. Mas era o que alguém estava naquele momento a pensar. E disse-o. «Se o telemóvel provocasse mesmo a queda do avião e pelo menos um de nós, por milagre que não seria inédito, sobrevivesse, havia de dizer que só por um grande azar é que o avião tinha caído.»

É o fatalismo, a omnipotente pouca sorte que faz baixar braços, resigna à acomodação e à indolência e iliba de responsabilidades.»

RIC

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Llovía sobre Santiago de Chile…


Missing is a 1982 film directed by Costa Gavras, starring Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea and Charles Cioffi.
It is based on the true story of American journalist Charles Horman, who disappeared in the bloody aftermath of the Chilean coup of 1973 that deposed President Salvador Allende.
It depicts Horman's father and wife searching in vain to determine his fate. The film is based on a book first published under the title The Execution of Charles Horman: An American Sacrifice (1978) by Thomas Hauser, which was later republished under the title Missing in 1982. The score is by the Greek electronic composer Vangelis.
Missing won the Academy Award for Writing Adapted Screenplay, and was nominated for Best Actor in a Leading Role (Jack Lemmon), Best Actress in a Leading Role (Sissy Spacek) and Best Picture.
The film won the 1982 Palme d'Or (Golden Palm) at the Cannes Film Festival.
Missing was banned in Chile during Pinochet's regime.

(From Wikipedia)

Reading through some texts on the subject, I came across these paragraphs in Portuguese that speak so truly of the world we've been living in ever since the outbreak of Cold War.
As to nowadays, I believe we'd just have to make some little changes…

«Se, a 11 de Setembro de 2001, todos quisemos ser nova-iorquinos, é bom que, por isso, não deixemos de ser chilenos.
Chilenos teremos passado todos a ser, se não desde 1970 com a eleição de Salvador Allende, pelo menos desde que, numa terça-feira 11 de Setembro, no ano de 1973, no mesmo dia em que, em Nova Iorque, se inauguravam as gémeas torres do World Trade Center, aviões atacaram o Palácio de la Moneda e bombardearam o sonho da liberdade, da democracia e do socialismo, e suicidaram Allende.
»

Salvador Allende

If, on September 11th, 2001, we all wanted to be New-Yorkers, it is important that, for that reason, we won't stop being Chileans.
We all will have become Chileans, if not since 1970 after the election of Salvador Allende, at least since that Tuesday, September 11th, in the year of 1973: on that very same day when the twin towers of the World Trade Center were being inaugurated in New York, airplanes were attacking the Palace of la Moneda and bombing a dream of freedom, democracy and socialism. Allende «was being suicided»
.

Let's not forget, shall we?

RIC

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

The World and I...

There's no such thing as noncommunication.
It seems my «universal Babylon» here has been proving this motto of mine with more and better evidence each and every day.
It does feel great to know you're an inherent part of something that's happening simultaneously everywhere in the world.
Is this blog cosmopolitan or what?
Check out the following list and try to find the nearest name to your home place. Enjoy this quick journey around the world!


Africa

Morocco: Casablanca
Algeria: I-n-Salah
Tunisia: Tunis
Egypt: Alexandria, Asyut
Cape Verde: Praia
Senegal: Dakar
Ghana: Kumasi
Nigeria: Lagos
Kenya: Nairobi
Angola: Luanda
Mozambique: Maputo, Nampula
South Africa: Cape Town, Johannesburg, Pretoria
Mauritius: Port-Louis

Americas

Canada: Calgary, Gaspé, Halifax, Montréal, Ottawa, Port au Port/Stephenville, Québec, Regina, Saint John, Sault Sainte Marie, Toronto, Vancouver, Winnipeg…

USA: Alaska, Arizona, Arkansas, California, Colorado, Connecticut, District of Columbia, Florida, Georgia, Hawaii, Illinois, Indiana, Iowa, Kansas, Kentucky, Louisiana, Maryland, Massachusetts, Michigan, Minnesota, Missouri, Montana, Nebraska, Nevada, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, New York, North Carolina, Ohio, Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Tennessee, Texas, Virginia, Wisconsin, Washington, Wyoming…

Mexico: Guadalajara, Hermosillo, La Paz, Mazatlán, Mérida, Mexico City, Monterrey, Tijuana, Villahermosa

Bermudas: Hamilton
Puerto Rico: San Juan
Bahamas: Nassau
Jamaica: Kingston
Dominican Republic: Santo Domingo
Martinique: Fort-de-France
Aruba: Oranjestad
Guatemala: Guatemala
Costa Rica: S. Jose
El Salvador: San Salvador
Nicaragua: Managua
Panama: Colon, Panama City
Colombia: Antioquia, Bogotá
Venezuela: Caracas, Maracaíbo
Ecuador: Quito
Peru: Arequipa, Chiclayo, Lima
Bolivia: La Paz, Santa Cruz de la Sierra
Paraguay: Asunción
Uruguay: Montevideo
Chile: Antofagasta, Punta Arenas, Santiago, Valparaiso, Viña del Mar

Argentina: Bahía Blanca, Buenos Aires, Corrientes, Mar del Plata, Mendoza, Mercedes, Rawson, San Miguel de Tucuman…

Brazil: Acre, Amazónia, Bahia, Brasília, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins…

Asia

Russia: Yekaterinburg
Turkey: Ankara, Burdur, Istanbul
Cyprus: Nicosia
Israel: Haifa, Jerusalem, Tel Aviv
Iraq: Basra
Iran: Isphahan, Teheran
Saudi Arabia: Jeddah, Riyadh
Dubai
Muscat
Qatar/Bahrain
India: Ahmadabad, Amritsar, Cuttack, Indore, Madras, Mumbai
Thailand: Krung Thep
Vietnam: Hanoi, Ho Chi Minh City
Singapore
Malaysia: Kuala Lumpur, Sibu
Brunei: Bandar Seri Begawan
Indonesia: Bali, Jakarta, Ujung Pandang
Philippines: Cebu, Davao, Manila
Taiwan: Taipei
China: Beijing, Chunking, Hong Kong, Macao, Shanghai, Zhenzhou
South Korea: Seoul
Japan: Kobe, Kyoto, Naha, Osaka, Tokyo

Europe

Austria: Vienna
Belgium: Antwerp, Brussels, Gent, Laarne, Liege, Mechelen, Namur…
Bulgaria: Sophia, Burgas
Czech Republic: Prague
Denmark: Arhus
Finland: Helsinki, Oulu
France: Avignon, Dijon, Grenoble, Lyon, Marseille, Metz, Montpellier, Nancy, Paris/Île-de-France, Reims, Rennes, Toulon…
Germany: Berlin, Halle, Hamburg, Hannover, Munich, Münster, Stuttgart…
Greece: Athens
Hungary: Budapest
Iceland: Reykjavík
Ireland: Dublin, Limerick
Italy: Bari, Cagliari, Milan, Naples, Palermo, Rome, Turin, Venice…
Latvia: Riga
Lithuania: Vilnius
Luxembourg: Dudelange
Macedonia: Skopje
Malta: Valetta
Netherlands: Amsterdam, Lelystad, Utrecht, Zutphen…
Norway: Oslo, Stavanger, Tromsø
Poland: Gdansk, Katowice, Warsaw
Portugal, Azores & Madeira
Romania: Bucharest, Cluj, Pitesti, Timisoara
Russia: Moscow, Saint Petersburg
Slovenia: Ljubljana
Spain & Canary Islands
Sweden: Gothenburg, Stockholm, Uppsala
Switzerland: Aargau, Basel, Geneva, Lugano, Vaud, Zurich…
Ukraine: Dniepropetrovsk
United Kingdom: Cardiff, Coventry, Edinburgh, London, Manchester, Portsmouth, Southampton…

Oceania/Australasia

Australia: Adelaide, Alice Springs, Brisbane, Canberra, Melbourne, Perth, Sydney
New Zealand: Auckland, Christchurch
New Caledonia: Nouméa

… Have you found it? I do hope so! If not, I'm entirely to blame. I may have overlooked one of those red spots, you know… Lol!
I thank each and every one of you so very much for being an inherent part of this too!

RIC

domingo, 9 de setembro de 2007

Gabriel García Márquez

«Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces una aldea de 20 casas de barro y cañabrava construidas a la orilla de un río de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.»

Cien Años de Soledad

Assim começa a narrativa que projectou «Gabo» (de seu nome completo, Gabriel José de la Concordia García Márquez) para o mundo.
A história decorre num povoado chamado Macondo, fundado por José Arcádio Buendia que deixou Riohacha e a sua mulher, Úrsula Iguarán, por ter matado um homem num duelo. Tinham-se casado apesar de serem primos. Um precedente indicava que de um casamento em que houvesse laços familiares poderia nascer um filho com cauda de porco, mas por sorte tal não aconteceu. Tiveram três filhos, e assim se inicia a história da família Buendia, a primeira geração que García Márquez começa por descrever.
E logo surge uma personagem chamada Melaquíades, um cigano de múltiplos conhecimentos intelectuais, que afirmava possuir as chaves de Nostradamus, razão pela qual deixa escrito a José Arcádio um pergaminho que passa pelas seis gerações sem que tenha sido possível decifrá-lo.
Apenas o último Aureliano, com quem se cumpriria o mito de que o filho de familiares nasceria com cauda de porco e seria comido pelas formigas, pôde revelar as chaves com que estava escrito aquele pergaminho. Este continha nada menos que a história da família ordenada no tempo e no espaço, mas escrita cem anos antes.
Foi há cerca de trinta anos que fui fulminado e fiquei fascinado por esta fantástica história, narrada na saborosa prosa do brilhante colombiano que, apenas alguns anos depois, receberia o Prémio Nobel da Literatura.
Se acaso não leram ainda o empolgante romance que é Cem Anos de Solidão, estão muito a tempo! No passado dia 5 de Junho comemoraram-se os quarenta anos da sua publicação.
Eu reli passagens há uns anos, mas creio que lhe vou pegar de novo e levar a leitura do princípio ao fim. Para mim, será decerto outra história, bem diferente daquela que conheci no início da idade adulta…

«Als Gregor Samsa eines morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt.»

Franz Kafka, Die Verwandlung

«Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se na sua cama metamorfoseado num insecto monstruoso.»

Franz Kafka, A Metamorfose

Mal haveria Franz Kafka de imaginar que, alguns decénios depois de o seu amigo Max Brod lhe ter salvado a obra (que Kafka queria destruída após a sua morte), um jovem colombiano se encantaria com aquelas palavras, faria delas um projecto e criaria uma brilhante escola literária que, por sua vez, viria a encantar milhões de leitores por todo o mundo! E a ter representantes tão ilustres como o argentino Jorge Luis Borges ou o cubano Alejo Carpentier!

O realismo mágico desenvolveu-se fortemente nas décadas de 60 e 70 como produto de duas visões que então conviviam na América Latina: a cultura da tecnologia e a cultura da superstição; tendo também surgido como reacção, pela palavra escrita, contra as ditaduras. Pode definir-se como a preocupação estilística e a necessidade intelectual de mostrar o irreal ou estranho como algo quotidiano e comum. Não se trata de uma expressão literária mágica: a sua finalidade não é a de suscitar emoções, mas sim de melhor as expressar e é, sobretudo, uma tomada de atitude para com a realidade.

(Para todos os detalhes sobre a vida e a obra do escritor, queiram socorrer-se, por exemplo, da Wikipédia. Nunca vi tantas páginas em tantas línguas apenas em nome desta popular enciclopédia e apenas relativas ao escritor! Impressionante!)

Dedicado aos amantes do realismo mágico latino-americano (e só deste!).

RIC

sábado, 8 de setembro de 2007

Historical eye candy?...


Buste d'Antinoüs, dit Antinoüs d'Écouen
Hauteur: 74 cm
XVIIIe siècle
Musée du Louvre, Département des Antiquités grecques, étrusques et romaines

Pulchra sunt quæ visa placent.
São Tomás de Aquino, Summa Theologica
Belas são as coisas que, ao serem vistas, agradam.
Beautiful is what pleases the eye.


Antínuo hoje?… Antinous today?…

Pulchre, bene, recte!
Horácio, Ars Poetica
Belo, bem, perfeito!
Beautiful, well, perfect!


Antinous's torso, called Antinous of Ecouen
Height: 74 cm
18th century
Louvre Museum, Department of Greek, Etruscan and Roman Antiquities

Iuventa viribus pollet.
Erasmo de Roterdão, Adagia
A mocidade tem muita força.
Youth is very strong.

Enjoy your Sunday lavishly, if you please!

RIC

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Do erótico…

«L'endroit le plus érotique d'un corps n'est-il pas là où le vêtement bâille? […] Celui de la peau qui scintille entre deux pièces (le pantalon et le tricot), entre deux bords (la chemise entrouverte, le gant et la manche); c'est ce scintillement même qui séduit, ou encore: la mise en scène d'une apparition-disparition.»

Roland Barthes, Le plaisir du texte

Não é o lugar mais erótico de um corpo o ponto em que o vestuário se entreabre? [Na perversão, não há «zonas erógenas». É a intermitência, como muito bem o disse a psicanálise, que é erótica:] a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a camisola), entre duas margens (a camisa entreaberta, a luva e a manga). É essa própria cintilação que seduz, ou ainda, a encenação de um aparecimento-desaparecimento.

Roland Barthes, O Prazer do Texto

… O que esconde é, pois, o que mostra…



«L'érotisme est l'accélérateur du désir et non sa décharge.
Il n'est pas non plus dans la suggestion de la transparence, ni dans la réduction du textile (du bikini à la minijupe).
Il est dans l'oscillation (le scintillement dit Barthes) entre le montrer et le cacher, l'apparaître et le disparaître.
Ici, il ne s'agit pas d'apprivoiser l'angoisse de la disparition, mais de stimuler l'excitation dans la concentration du désir au point où son objet se montre dans son éphémérité.»

Commentaire «nétique»

O erotismo é o acelerador do desejo e não a sua descarga.
Tão-pouco está na sugestão da transparência ou na redução do tecido (do biquíni à minissaia).
Está na oscilação (a cintilação, diz Barthes) entre o mostrar e o esconder, o aparecer e o desaparecer.
Aqui, não se trata de dominar a angústia do desaparecimento, mas de estimular a excitação na concentração do desejo no ponto onde o seu objecto se mostra na sua efemeridade.

Comentário «nético»

«Ce que cache mon langage, mon corps le dit.
Mon corps est un enfant entêté, mon langage est un adulte très civilisé…»

Roland Barthes, Fragments d’un discours amoureux

«O que a minha linguagem esconde, di-lo o meu corpo.
O meu corpo é uma criança teimosa, a minha linguagem é um adulto muito civilizado…»

Roland Barthes, Fragmentos de Um Discurso Amoroso

Traduções de RIC

À tous un excellent week-end!…
A todos um excelente fim-de-semana!…

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Al Grande Luciano Pavarotti!


Il principe ignoto:

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza,
guardi le stelle
che tremano d'amore
e di speranza…

Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!

Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Voci di donne:

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Il principe ignoto:

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vincerò!
Vincerò!
Vincerò!

Giacomo Puccini, Turandot, atto III.

The Prince:
Nobody shall sleep!… Nobody shall sleep! Even you, o Princess, in your cold room, watch the stars that tremble with love and with hope.
But my secret is hidden within me, my name no one shall know… No!… No!… On your mouth I will tell it when the light shines.
And my kiss will dissolve the silence that makes you mine!…

The Chorus of women:
No one will know his name and we must, alas, die.

The Prince:
Vanish, o night! Set, stars! Set, stars! At dawn, I will win! I will win! I will win!

I most surely had something else in mind for today…
At dawn it was.
He won.
Over death law.
As Camões so well put it some centuries ago, he «has freed himself from death law».
He is immortal now.

R. I. P.

RIC

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Em data de aniversário...

«Tive um dia a sensação – única em toda a minha vida – cortante como o gume afiado de uma faca a escorregar, ao de leve e como esquecida, por entre os dedos, que o mundo ia desabar sobre mim ou que o meu mundo estaria prestes a desmoronar-se. Uma notícia. Meia dúzia de palavras. O Diogo estava gravemente doente, e a sua vida estava seriamente ameaçada. Fiquei paralisado. Lembrei-me de imediato das suas palavras de muitos anos antes. Não terei uma vida longa.

Era Verão, mas um suor gelado aflorou-me a pele de todo o corpo, escorreu-me das têmporas e deixou-me as mãos enregeladas. Procurei a todo o custo minimizar a gravidade da situação. Escamoteei-a sem perceber o que fazia e quase cheguei a convencer-me de que tudo se recomporia apenas porque era esse o meu desejo. Mas a realidade não se compadece dos truques que arquitectamos para ver os nossos mais acérrimos desejos concretizados. A saúde do Diogo foi-se deteriorando, um processo lento, muito lento, que se arrastou por quase um ano e meio. Aos poucos, a debilidade foi-se acentuando e, por fim, o Diogo era já só uma sombra de si próprio.

Consciente da irreversibilidade da doença, de que o fim estava aprazado e revelando uma descomunal força anímica, foi conseguindo lidar com as recaídas que progressivamente o foram diminuindo até o deixarem quase inválido. Os tratamentos conjugados com as medicações variáveis atiravam-no com frequência para um terrível desespero e um sofrimento insuportável. O álcool, que até então fora apenas uma companhia nos momentos de convívio, passou a necessidade diária. Embora soubesse que não devia beber, pelo menos não daquele modo, o Diogo tinha sobre esse facto ideias tão claramente feitas que nenhum de nós, por muito que quisesse e tentasse, conseguia dissuadi-lo da sua certeza. E estranhamente, por mais que bebesse ao longo do dia, jamais o vi embriagado.

Continuámos a conversar ainda e sempre noite adentro sobre tudo o que nos interessava e distraía. Sabíamos ambos que o fim se aproximava a passos largos, mas nunca tocámos no assunto. Eu não conseguia e ele, creio que não queria. Quando o sofrimento inevitável passou a ser a constante dos dias e das noites, manteve ainda assim um comportamento heróico e uma atitude de tal modo digna que poucos foram os que se terão então realmente apercebido da gravidade terminal do seu estado.

Por essa época, um congresso profissional obrigou-me a uma deslocação a Veneza. Pressenti que aquele não era o momento certo para viajar, muito menos para Veneza. Num final de tarde cheguei à cidade por descobrir. Não era o progressivo esbatimento das cores, dos contornos, dos volumes dos edifícios que a mantinham arredia à natural curiosidade do recém-chegado. Aliás, tudo nela era identificável, ainda que sob um céu violáceo, com vastas e cada vez maiores nuvens cor de chumbo. Quem não reconheceria, nem que fosse apenas por um simples pormenor, tudo o que mostravam alguns filmes rodeados da aura de um inquietante mistério que naturalmente se soltava das pedras, das águas, pairava no ar e tudo envolvia?

Claude Monet - «Crépuscule à Venise»

Ao pôr o pé em terra firme, a luminosidade era ainda suficiente para reparar nas águas não muito limpas, por sobre as quais chegara. O trajecto seguinte foi obrigatório. Primeiro, entre um edifício e as águas do canal, por um estreito corredor, avançava uma massa compacta de gente, apenas se vislumbrando o que se encontrava mais distante. Ao perto, apenas se via a mole humana em movimento. Depois, aquela multidão desaguou numa praceta que seria insignificante, não fora o imponente palácio à direita, o dos Doges. Não tanto pela volumetria, mas porque sendo de uma pedra branca quase translúcida, parecia esvair-se nas tonalidades crepusculares que depressa se iam inclinando para o negro. O campanário, esse fundira-se já com a escuridão nocturna que, entretanto, se apoderara de tudo. A noite caíra pesada sobre aquelas pedras, e os candeeiros acenderam-se. De início, projectavam uma luz arroxeada que pouco ou nada iluminava. Apenas ensombrava o espaço em volta com um mistério ainda maior. Do nada foi-se desprendendo uma estranha inquietação que preencheu todos os recantos escusos de um silêncio embalado pelo tranquilo vaivém das águas, sempre próximas. Lentamente, a iluminação tornou-se azul, e os olhos foram-se habituando à soturnidade que aquela luz criava.

Em Agosto, a temperatura exterior era indiferente ao frio intenso que parecia vir do fundo da alma para se apoderar de todo o corpo. Aqui, a noite deve ter sido sempre assim, pensei. Após a travessia da praceta, onde alguns pararam para contemplar a espécie de colunata que circunda aquele estranho edifício, a multidão dissolveu-se como por magia na grandiosidade faustosa, quase oriental, daquela praça, a de S. Marcos, de piso inquietantemente irregular. Tive a sensação perturbadora – ou o pressentimento insustentável – de que o chão se abriria a qualquer instante, para tudo ser silenciosamente, secretamente tragado.

Havia alguma animação nos cafés cheios de História que ocupam as arcadas da praça. Os solos virtuosísticos de violinos barrocos, alegres quase sempre, opunham-se com violência ao negrume intimidante daquela praça. O contraste era fortíssimo. Tão forte que foi, uma vez mais, a irrealidade de um mistério por descobrir que tudo dominou. Levara comigo, numa cassete, o Adagietto da quinta sinfonia de Mahler. Por curiosidade, mas também por teimosia, queria voltar in loco às sensações, às emoções, aos sentimentos, quase todos tempestuosos, indefinidos, envoltos em densa bruma, que me haviam sempre abalado, das várias vezes que vi «Morte em Veneza». Foi difícil permanecer concentrado durante aqueles dez minutos. No fim, senti-me dominado por uma tristeza tão intensa, tão poderosa que temi pelo que pudesse acontecer nos instantes seguintes, ainda que tivesse tido o cuidado de fazer aquela experiência musical numa tarde soalheira, que reservei para o passeio solitário. Ao acaso, meti-me num vaporetto que percorria o Grande Canal. De repente, lembrei-me do Diogo. Uma certeza perversa cravou-se-me no espírito e não mais me largou. Amaldiçoei aquela bela cidade, a que nunca mais quis voltar. A cidade do amor é também a cidade da morte. E contra a minha vontade, veio-me à memória a canção-lamento de Aznavour «Que c'est triste Venise».

Quando cheguei a Lisboa, o Diogo estava já bastante mal. Para consultas, tratamentos e exames de rotina, deslocava-se com frequência ao hospital. Com uma vontade férrea mantivera-se inabalável, sem que ninguém o conseguisse demover, em ser internado apenas em caso de absoluta necessidade. Após o meu regresso, passei dois dias em sua casa e, meio a contragosto, tive de fazer o relato exaustivo do que vira em Veneza. Mas consegui calar tudo o que sentira. Pelos seus olhos brilhantes pareciam passar as imagens que iam ilustrando as minhas palavras. Pelo final da tarde, os pais chegavam. Davam-lhe todo o apoio possível e praticamente viviam em função dos cuidados com que o acarinhavam.

Na sexta-feira seguinte, de madrugada, sentiu sérias dificuldades em respirar. Pediu que o levassem ao hospital. Foi de imediato internado. Uma vez mais, quis convencer-me de que se tratava de uma crise séria mas controlável, e alimentei o sonho de que ele a superaria. E uma vez mais, enganei-me.»

(Dedicado à memória do Z. L./Diogo e da minha Mãe, que festejava hoje o seu aniversário.)

RIC

terça-feira, 4 de setembro de 2007

«C'est en septembre» | «September Morn»


Paroles - Gilbert Bécaud & Maurice Vidalin
Musique - Gilbert Bécaud & Neil Diamond
(1977)




Les oliviers baissent les bras
Les raisins rougissent du nez
Et le sable est devenu froid
Au blanc soleil
Maîtres baigneurs et saisonniers
Retournent à leurs vrais métiers
Et les santons seront sculptés
Avant Noël

C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage tremble sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai

En été mon pays à moi
En été c'est n'importe quoi
Les caravanes le camping-gaz
Au grand soleil
La grande foire aux illusions
Les slips trop courts, les shorts trop longs
Les hollandaises et leurs melons
De Cavaillon

C'est en septembre
Quand l'été remet ses souliers
Et que la plage est comme un ventre
Que personne n'a touché
C'est en septembre
Que mon pays peut respirer

Pays de mes jeunes années
Là où mon père est enterré
Mon école était chauffée
Au grand soleil
Au mois de mai, moi je m'en vais
Et je te laisse aux étrangers
Pour aller faire l'étranger moi-même
Sous d'autres ciels

Mais en septembre
Quand je reviens où je suis né
Et que ma plage me reconnaît
Ouvre des bras de fiancée
C'est en septembre
Que je me fais la bonne année

C'est en septembre
Que je m'endors sous l'olivier.















Stay for just a while
Stay, and let me look at you
It's been so long, I hardly knew you
Standing in the door
Stay with me a while
I only want to talk to you
We've traveled halfway round the world
To find ourselves again

September morn
We danced until the night became a brand new day
Two lovers playing scenes from some romantic play
September morning still can make me feel that way

Look at what you've done
Why, you've become a grown-up girl
I still can hear you crying
In the corner of your room
And look how far we've come
So far from where we used to be
But not so far that we've forgotten
How it was before

September morn
Do you remember how we danced that night away
Two lovers playing scenes from some romantic play
September morning still can make me feel that way

September morn
We danced until the night became a brand new day
Two lovers playing scenes from some romantic play
September morning still can make me feel that way.

… Será possível que estas canções tenham já 30 – trinta! – anos?…
Hoje deixo-vos com a francesa cantada por Bécaud, uma letra claramente mediterrânica.
Noutro dia ouvirão a versão mais «romântica» de Neil Diamond, de que me lembro sempre que Setembro chega e o Verão se despede…

RIC

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Nature in the centre of our concerns

«The New 7 Wonders of Nature launches the nominations that will continue through August 8th, 2008.
Then a panel of experts will create a list of 21 candidates from which voters worldwide will elect the 7 wonders of Nature.

Criteria to be observed:

• Nominations must be for a clearly defined natural site or natural monument that was not created or significantly altered by humans.

The nominees must be one of the following:
• a natural site;
• a natural monument;
• a landscape.

Categories that help us to sort and evaluate your proposals:

Animal reserve, Canyon, Cave, Cliff, Coastline, Desert, Fjord, Forest, Geological site, Glacier, Grotto, Lake, Mountain, Nature conservancy park, Oasis, Prehistoric natural site, Reef, River, Rock, Sea, Underwater world, Volcano, Water, Waterfall, Wood…

Eligible examples:

• Aletsch Glacier, Switzerland
• Baikal Lake, Russia
• Dinosaur Provincial Park, Canada
• Galapagos Islands, Ecuador
• Geirangerfjord, Norway
• Grand Canyon, USA
• Great Barrier Reef, Australia
• Iguaçu Waterfalls, Argentina/Brazil
• Ha Long Bay, Vietnam
• Kilimanjaro, Tanzania
• Redwood National Park, USA
• Sagramatha Park, Nepal
• Serengeti Park, Tanzania

The following examples are not valid:
Bird migrations, Gulf Stream, monsoon rain, shooting stars, North and South Poles, northern lights, Milky Way…

Note: As this is the nomination phase and not yet a vote we want a wide range of sites to help create the most diverse list possible for later voting.»

Salto Ángel, Venezuela

Here is the link to the site where you can make your 7 nominations.

And here are a few suggestions I submit to your judgement and opinion; maybe I'll nominate them later:

• Amazon rainforest, South America;
• Angel Falls (Salto Ángel), Venezuela;
• Mariana trench, Marianas Islands;
• Mount Everest, Nepal;
• Ngorongoro crater, Tanzania;
• Okavango delta, Botswana;
• Santorini Island's caldera, Greece.

Maybe this is not the best way to be concerned with Nature, but at least it may bring some visibility to a few world areas that indeed deserve common attention.

domingo, 2 de setembro de 2007

Aconchego de noctívagos…


UM EXCERTO DE ODE
(FIM DE UMA ODE, NATURALMENTE)

I
..................................................................

Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos…
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora da relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.


Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desesperados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu te tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, xintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde – quem sabe? – Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração…
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente como um gesto materno afagando,
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar,
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.

Álvaro de Campos
30 de Junho de 1914


RIC

sábado, 1 de setembro de 2007

C'est en septembre…

«Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, on oublie le visage et l'on oublie la voix, le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien.

Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie, l'autre qu'on devinait au détour d'un regard, entre les mots, entre les lignes et sous le fard d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit… Avec le temps tout s'évanouit.

Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, même les plus chouettes souvenirs, ça tu as une de ces gueules, à la Galerie je farfouille dans les rayons de la mort, le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule.


Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien, l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux, pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous, devant quoi l'on se traînait comme traînent les chiens… Avec le temps, va, tout va bien.

Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, on oublie les passions et l'on oublie les voix qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens, ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid.

Avec le temps… Avec le temps, va, tout s'en va, et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu, et l'on se sent glacé dans un lit de hasard, et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard, et l'on se sent floué par les années perdues…

Alors vraiment, avec le temps on n'aime plus…»

Léo FERRÉ

… Quando há pouco mais de um ano «baptizei» este espaço, não me passava pela cabeça um décimo, um centésimo sequer, do que, um ano mais tarde, viria aqui a encontrar…
Praticamente nada me surpreende realmente, talvez porque tudo tenha muito que ver comigo próprio, com o meu íntimo, mesmo que pareça a quem lê que estou distante por ser a 3.ª pessoa que prevalece sobre a 1.ª.
A verdade é que, se não me digo, faço com que as «coisas» me digam a mim. E assim o meu retrato vai ficando cada vez mais nítido, dia após dia…
Por todas as motivações que fui recebendo de todos os bloguistas amigos, o meu sincero muito obrigado.

When I «baptized» this space over a year ago, it didn't go through my mind one tenth, not even one hundredth, of what, one year later, I would come to find here…
Practically nothing really surprises me, maybe because everything has a lot to do with myself, with my inner being, even if it seems to the one who reads that I am distant, for being the 3rd person that prevails over the 1st.
The truth is, if I do not speak of me, I do «things» speak for myself. Thus my portrait becomes clearer each and every time, day after day…
For all the motivations that I've been receiving from all of the blogger friends, my sincere thank you very much.

RIC

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Cyril Collard in memoriam

«Je remonte la rua das Janelas Verdes. J'entre au musée des Arts anciens. C'est sombre et frais. Je reste longtemps devant un polyptyque du quinzième siècle attribué à Nuno Gonçalves où est représentée la vénération de saint Vincent de Fora par des personnages de l'Église, des militaires et des bourgeois.

Dehors, tout a changé. La pluie s'est arrêtée. Je m'assois sur un vieux banc en bois du jardin du 9-Avril. Le soleil frappe mon visage du côté droit. Le port est là, en contrebas, passé les rails du tramway et ceux du train qui longe la côte vers Estoril; ensuite c'est le Tage, vert clair, piqué de moutons; les grues qui cachent presque entièrement le Christ Roi érigé sur l'autre rive; des cheminées, des coques de navires.

Il fait beau comme jamais. Je suis vivant; le monde n'est pas seulement une chose là, extérieure à moi-même: j'y participe. Il m'est offert. Je vais probablement mourir du sida, mais ce n'est plus ma vie: je suis dans la vie.»

Cyril Collard, Les nuits fauves

A adaptação cinematográfica, realizada e protagonizada pelo autor, foi galardoada com o César para o melhor filme de 1993.


Cyril Collard nasceu em Paris, a 19 de Dezembro de 1957. Quando se realizou a cerimónia para a entrega dos Césares, Cyril já não esteve presente. Faleceu em Paris, a 5 de Março de 1993.

Romance e filme são retratos crus de um estilo de vida que condenaria tantos a uma morte prematura. Cyril sabia que estava a caminho do fim e como que ganhou asas para realizar o filme que foi o seu canto do cisne.

O final apresenta cenas de grande beleza rodadas em Lisboa, entre as quais recordo uma travessia da ponte 25 de Abril num descapotável: um lancinante grito de apelo – e um vibrante testemunho de apego – à vida.


«Subo a Rua das Janelas Verdes. Entro no Museu de Arte Antiga. Está sombrio e fresco. Fico bastante tempo em frente de um políptico do século XV atribuído a Nuno Gonçalves que representa a veneração de São Vicente de Fora por personalidades da Igreja, militares e burgueses.

Lá fora tudo mudou. A chuva parou. Sento-me num velho banco de madeira do Jardim 9 de Abril. O sol bate-me no rosto do lado direito. O porto fica ali em baixo, para lá dos carris do eléctrico e do comboio que segue ao longo da costa em direcção ao Estoril. A seguir fica o Tejo, verde-claro, encarneirado; os guindastes que quase por completo escondem o Cristo-Rei erigido na outra margem; chaminés, cascos de navios.

Está mais agradável que nunca. Estou vivo. O mundo não é apenas uma coisa existente, exterior a mim próprio: participo nele e ele é-me dado. Provavelmente vou morrer de sida, mas já não é a minha vida. Eu sou parte da vida.»

As Noites Fulvas

Tradução de RIC