domingo, 9 de setembro de 2007

Gabriel García Márquez

«Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. Macondo era entonces una aldea de 20 casas de barro y cañabrava construidas a la orilla de un río de aguas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.»

Cien Años de Soledad

Assim começa a narrativa que projectou «Gabo» (de seu nome completo, Gabriel José de la Concordia García Márquez) para o mundo.
A história decorre num povoado chamado Macondo, fundado por José Arcádio Buendia que deixou Riohacha e a sua mulher, Úrsula Iguarán, por ter matado um homem num duelo. Tinham-se casado apesar de serem primos. Um precedente indicava que de um casamento em que houvesse laços familiares poderia nascer um filho com cauda de porco, mas por sorte tal não aconteceu. Tiveram três filhos, e assim se inicia a história da família Buendia, a primeira geração que García Márquez começa por descrever.
E logo surge uma personagem chamada Melaquíades, um cigano de múltiplos conhecimentos intelectuais, que afirmava possuir as chaves de Nostradamus, razão pela qual deixa escrito a José Arcádio um pergaminho que passa pelas seis gerações sem que tenha sido possível decifrá-lo.
Apenas o último Aureliano, com quem se cumpriria o mito de que o filho de familiares nasceria com cauda de porco e seria comido pelas formigas, pôde revelar as chaves com que estava escrito aquele pergaminho. Este continha nada menos que a história da família ordenada no tempo e no espaço, mas escrita cem anos antes.
Foi há cerca de trinta anos que fui fulminado e fiquei fascinado por esta fantástica história, narrada na saborosa prosa do brilhante colombiano que, apenas alguns anos depois, receberia o Prémio Nobel da Literatura.
Se acaso não leram ainda o empolgante romance que é Cem Anos de Solidão, estão muito a tempo! No passado dia 5 de Junho comemoraram-se os quarenta anos da sua publicação.
Eu reli passagens há uns anos, mas creio que lhe vou pegar de novo e levar a leitura do princípio ao fim. Para mim, será decerto outra história, bem diferente daquela que conheci no início da idade adulta…

«Als Gregor Samsa eines morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt.»

Franz Kafka, Die Verwandlung

«Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se na sua cama metamorfoseado num insecto monstruoso.»

Franz Kafka, A Metamorfose

Mal haveria Franz Kafka de imaginar que, alguns decénios depois de o seu amigo Max Brod lhe ter salvado a obra (que Kafka queria destruída após a sua morte), um jovem colombiano se encantaria com aquelas palavras, faria delas um projecto e criaria uma brilhante escola literária que, por sua vez, viria a encantar milhões de leitores por todo o mundo! E a ter representantes tão ilustres como o argentino Jorge Luis Borges ou o cubano Alejo Carpentier!

O realismo mágico desenvolveu-se fortemente nas décadas de 60 e 70 como produto de duas visões que então conviviam na América Latina: a cultura da tecnologia e a cultura da superstição; tendo também surgido como reacção, pela palavra escrita, contra as ditaduras. Pode definir-se como a preocupação estilística e a necessidade intelectual de mostrar o irreal ou estranho como algo quotidiano e comum. Não se trata de uma expressão literária mágica: a sua finalidade não é a de suscitar emoções, mas sim de melhor as expressar e é, sobretudo, uma tomada de atitude para com a realidade.

(Para todos os detalhes sobre a vida e a obra do escritor, queiram socorrer-se, por exemplo, da Wikipédia. Nunca vi tantas páginas em tantas línguas apenas em nome desta popular enciclopédia e apenas relativas ao escritor! Impressionante!)

Dedicado aos amantes do realismo mágico latino-americano (e só deste!).

RIC

18 comentários:

Bernardo Moura disse...

Sem dúvida um dos melhores livros de Gabriel Garcia Marquez.
Gosto desta música cantada por Joan Baez!
:)
Abraço

Leo Carioca disse...

Eu já li ´´Cem Anos de Solidão`` 2 vezes. Acho mesmo que é um dos melhores livros que já li!
Abração!

RIC disse...

Olá Bernardo!
Para mim, faz parte do Top 100 do romance universal do século XX. E há muitos concorrentes a um lugar...
Desta canção conheço quatro interpretações: Violeta Parra, Joan Baez, Mercedes Sosa e Elis Regina.
Um abraço!
:-)

RIC disse...

Olá Leo!
Eu vou mesmo relê-lo! Já me decidi entretanto. Em termos de substância humana, é uma obra riquíssima!
Espero que esteja a correr tudo bem com a tua mudança! (Detesto mudanças!)
Abração! :-)

Oz disse...

Aqui estão duas obras - Cem Anos de Solidão e A Metamorfose - absolutamente indispensáveis na minha vida. Também voltarei, um dia destes, a esse livro maior do Gabo. Quanto a Kafka, ele já está, como de certo terás reparado, presente enquanto inspiração no meu blogue.
Abraço.

RIC disse...

Olá Oz!
Então fico contente por ter seguido este caminho ao compor este édito!
«A Metamorfose» já a li várias vezes, mas lembro-me sempre da extrema perturbação - e mesmo incómodo - que me assaltaram quando a li pela primeira vez. Como dizem os alemães, uma sensação de «unheimlich»...
Quanto ao Gabo, tenho-me dividido por outros títulos que li e já reli, mas nenhum me impressionou e fascinou como este.
Um abraço para ti também! :-)

disse...

Há cerca de um ano li pela primeira vez uma obra de Gabriel Garcia Márquez. Foi "Memórias de minhas putas tristes". ADOREI!!!!!!!!!!!

Li alguns relatos de pessoas dizendo não ser aquela a melhor obra do autor, mas que eu adorei! Hehehehe Não consegui parar de ler.

Sabe, você falou desse lance de ler livros em épocas diferentes da vida e acabei me lembrando de um professor de Literatura. Ele passou como leitura para um trabalho "Édipo Rei". E ele perguntou sobre o que achamos da obra. Eu respondi a ele que achei legal, mas que não tinha visto nada demais. Foi então que ele me sugeriu voltar a ler a obra quando eu tivesse 30 anos. À época eu tinha 17. Fiquei muito curioso com isso e acho que, no momento certo, seguirei o conselho dele.

Beijão!
=)

RIC disse...

Olá querido Lê!
Como sempre, vais ao fundo das questões! Obrigado! Aprecio muito essa tua qualidade! Não será por acaso que te dedicaste à História!
Não tive ainda disponibilidade (nem oportunidade...) de ler «Memórias das Minhas Putas Tristes», mas por várias opiniões que são importantes para mim deverá ser mais um título de leitura empolgante! Eu gosto particularmente do estilo dele, de como ele nos conta uma história. Nisto ele é de facto inconfundível!
Esse teu professor de Literatura acabou por dar uma óptima lição sobre a ligação íntima da Literatura à vida: independentemente da época e da escola ou movimento literário em que uma dada obra se integra, ela será para cada um de nós um manancial sempre mais vasto quanto mais rica ela for. E aí entra a experiência de vida de cada um. Adoro reler as boas obras não apenas porque são boas, mas também pelo que de novo sobre mim próprio elas me trazem.
Vais decerto notar uma grande diferença!
Abração e beijão! :-)

Joshua Carrey disse...

hey, you may be interested in my blog...

As a gay man in my 20s, my sex life tragically defies the stereotype of my generation. I am currently trying to break free from my frigid shackles to become a shameless man-wench!

Check out my dubious misadventures:

wannnabemaleslag.blogspot

RIC disse...

Hello Joshua!
Well, at least you fully meet your generation's stereotype as far as your provocative introduction is concerned! So I'd say you're not that far behind it anyway.
It's usually by the end of adolescence that one breaks free from frigid restraints, but then again it's never too late «to become a shameless man-wench»: all it takes is to sleep around a lot. No science needed.
Take care and enjoy your endeavours! :-)

GMaciel disse...

E o que posso dizer, se no meu perfil elejo Gabril García Márquez como o meu escritor preferido???
Entre outros, li o grande livro que é "Cem anos de solidão" - não só o li como o tenho - mas o meu baptismo de Gabriel foi com "Crónica de uma morte anunciada", mais recentemente li - porque a tenho - a sua autobiografia, "Viver para contá-la" e o último, "Memórias das minhas putas tristes".
E que mais posso acrescentar???
Que estou nas minhas sete quintas já deu para notar, não deu?
Jocas grandes e repenicadas

:)

Special K disse...

Meu amigo em cada releitura descobrimos sempre um livro novo. este é daqueles de leitura obrigatória.
"Gracias a la vida!"
Um abraço.

RIC disse...

Olá querida Graça!
Esse pormenor do teu perfil ficou-me na memória, devo dizer-te. Há já algum tempo que queria trazer aqui o García Márquez, e esse pormenor veio apressar a concretização do desejo.
Os primeiros títulos que li foram os que mais me marcaram, talvez pela descoberta que com eles fiz. «Os Funerais da Mamã Grande», «Ninguém Escreve Ao Coronel», «Crónica de Uma Morte Anunciada»... Todos fabulosos!
Quanto aos mais recentes, tenho de me actualizar, o que estará para breve!
Creio que pude anticipar o teu entusiasmo, caso viesses a ler este édito... Pelos vistos, não me enganei!
Da minha parte, beijinhos grandes (é paradoxal, mas não faz mal!) e repenicados também! Rsrsrs!
:-)

RIC disse...

Olá Paulo!
O livro é o mesmo; nós é que somos outros. É por isso, creio eu, que a mudança nos causa, às vezes, tanta confusão e nos obriga a uma adaptação contínua. É aqui, também, que muitas vezes as coerências férreas caem pela base... «Gracias a la vida», sem dúvida! É ela a mestra!
Um abraço para ti também! :-)

Shadow disse...

Cheguei a Gabriel García Márquez , através de «Cem anos de solidão».
Algum tempo depois reli-o e valeu a pena. O livro é o mesmo...porém o «sumo» extraído é diferente.

Beijinhos e boa semana :-)

RIC disse...

Olá Susana!
Então chegaste muito bem, acho eu, ainda que outros pudessem surtir o mesmo efeito como, por exemplo, «Crónica de Uma Morte Anunciada», de que também gostei muitíssimo.
Cada leitura é única e irrepetível. Como disse Ortega y Gasset, «yo soy yo y mi circunstancia»...
Beijinhos e óptima semana para ti também!
:-)

André Benjamim disse...

estive para comentar este post, depois não comentei, e agora voltei a lê-lo, e decidi comentar... Não comentei, porque o que ia dizer era mais uma partilha da minha "intimidade literária"... Há poucos livros que reli (ou li mais que uma vez, porque cada leitura é uma nova leitura... mas isso é outra conversa). "Cem Anos de Solidão" é um desses poucos... Além de "Cem Anos de Solidão" foram apenas três os livros que reli (excluindo poesia - já perdi a conta às vezes que li Álvaro de Campos e Companhia): "A Confissão de Lúcio", de Mário de Sá-Carneiro, "manhã submersa" de Vergílio Ferreira, e... "O Coronel não tem quem lhe Escreva", para mim o melhor livro de Gabriel García Márquez (quando falo de melhor livro, tendo consciência da subjectividade e relativismo, pessoal e académico, que esse adjectivo encerra, utilizo o "melhor" num sentido afectivo-emocional, da minha relação com a obra).

Abraço.

Ah, mais uma coisa, desde que li os livros do Gabriel que meti na cabeça que havia de aprender castelhano, mas... ainda não aprendi.

RIC disse...

Olá André!
Por motivos alheios à minha vontade, só hoje me é possível responder ao teu comentário. Desculpa!
Há já um bom número de títulos que reli, na sua maioria por razões profissionais (mas nunca por frete!). Poucos foram aqueles que me voltaram a chamar, é também verdade para mim.
Quanto ao teu título preferido, é também um dos primeiros que li e de que também gostei bastante. Já lá vão uns bons anos, mas recordo-me bem! E creio compreender bem essa tua preferência de sentido «afectivo-emocional». Também me deixo muitas vezes ir por aí...
Um dia, não resistes mais e aprendes mesmo Castelhano... Vais ver!
Um abraço! :-)