quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Em data de aniversário...

«Tive um dia a sensação – única em toda a minha vida – cortante como o gume afiado de uma faca a escorregar, ao de leve e como esquecida, por entre os dedos, que o mundo ia desabar sobre mim ou que o meu mundo estaria prestes a desmoronar-se. Uma notícia. Meia dúzia de palavras. O Diogo estava gravemente doente, e a sua vida estava seriamente ameaçada. Fiquei paralisado. Lembrei-me de imediato das suas palavras de muitos anos antes. Não terei uma vida longa.

Era Verão, mas um suor gelado aflorou-me a pele de todo o corpo, escorreu-me das têmporas e deixou-me as mãos enregeladas. Procurei a todo o custo minimizar a gravidade da situação. Escamoteei-a sem perceber o que fazia e quase cheguei a convencer-me de que tudo se recomporia apenas porque era esse o meu desejo. Mas a realidade não se compadece dos truques que arquitectamos para ver os nossos mais acérrimos desejos concretizados. A saúde do Diogo foi-se deteriorando, um processo lento, muito lento, que se arrastou por quase um ano e meio. Aos poucos, a debilidade foi-se acentuando e, por fim, o Diogo era já só uma sombra de si próprio.

Consciente da irreversibilidade da doença, de que o fim estava aprazado e revelando uma descomunal força anímica, foi conseguindo lidar com as recaídas que progressivamente o foram diminuindo até o deixarem quase inválido. Os tratamentos conjugados com as medicações variáveis atiravam-no com frequência para um terrível desespero e um sofrimento insuportável. O álcool, que até então fora apenas uma companhia nos momentos de convívio, passou a necessidade diária. Embora soubesse que não devia beber, pelo menos não daquele modo, o Diogo tinha sobre esse facto ideias tão claramente feitas que nenhum de nós, por muito que quisesse e tentasse, conseguia dissuadi-lo da sua certeza. E estranhamente, por mais que bebesse ao longo do dia, jamais o vi embriagado.

Continuámos a conversar ainda e sempre noite adentro sobre tudo o que nos interessava e distraía. Sabíamos ambos que o fim se aproximava a passos largos, mas nunca tocámos no assunto. Eu não conseguia e ele, creio que não queria. Quando o sofrimento inevitável passou a ser a constante dos dias e das noites, manteve ainda assim um comportamento heróico e uma atitude de tal modo digna que poucos foram os que se terão então realmente apercebido da gravidade terminal do seu estado.

Por essa época, um congresso profissional obrigou-me a uma deslocação a Veneza. Pressenti que aquele não era o momento certo para viajar, muito menos para Veneza. Num final de tarde cheguei à cidade por descobrir. Não era o progressivo esbatimento das cores, dos contornos, dos volumes dos edifícios que a mantinham arredia à natural curiosidade do recém-chegado. Aliás, tudo nela era identificável, ainda que sob um céu violáceo, com vastas e cada vez maiores nuvens cor de chumbo. Quem não reconheceria, nem que fosse apenas por um simples pormenor, tudo o que mostravam alguns filmes rodeados da aura de um inquietante mistério que naturalmente se soltava das pedras, das águas, pairava no ar e tudo envolvia?

Claude Monet - «Crépuscule à Venise»

Ao pôr o pé em terra firme, a luminosidade era ainda suficiente para reparar nas águas não muito limpas, por sobre as quais chegara. O trajecto seguinte foi obrigatório. Primeiro, entre um edifício e as águas do canal, por um estreito corredor, avançava uma massa compacta de gente, apenas se vislumbrando o que se encontrava mais distante. Ao perto, apenas se via a mole humana em movimento. Depois, aquela multidão desaguou numa praceta que seria insignificante, não fora o imponente palácio à direita, o dos Doges. Não tanto pela volumetria, mas porque sendo de uma pedra branca quase translúcida, parecia esvair-se nas tonalidades crepusculares que depressa se iam inclinando para o negro. O campanário, esse fundira-se já com a escuridão nocturna que, entretanto, se apoderara de tudo. A noite caíra pesada sobre aquelas pedras, e os candeeiros acenderam-se. De início, projectavam uma luz arroxeada que pouco ou nada iluminava. Apenas ensombrava o espaço em volta com um mistério ainda maior. Do nada foi-se desprendendo uma estranha inquietação que preencheu todos os recantos escusos de um silêncio embalado pelo tranquilo vaivém das águas, sempre próximas. Lentamente, a iluminação tornou-se azul, e os olhos foram-se habituando à soturnidade que aquela luz criava.

Em Agosto, a temperatura exterior era indiferente ao frio intenso que parecia vir do fundo da alma para se apoderar de todo o corpo. Aqui, a noite deve ter sido sempre assim, pensei. Após a travessia da praceta, onde alguns pararam para contemplar a espécie de colunata que circunda aquele estranho edifício, a multidão dissolveu-se como por magia na grandiosidade faustosa, quase oriental, daquela praça, a de S. Marcos, de piso inquietantemente irregular. Tive a sensação perturbadora – ou o pressentimento insustentável – de que o chão se abriria a qualquer instante, para tudo ser silenciosamente, secretamente tragado.

Havia alguma animação nos cafés cheios de História que ocupam as arcadas da praça. Os solos virtuosísticos de violinos barrocos, alegres quase sempre, opunham-se com violência ao negrume intimidante daquela praça. O contraste era fortíssimo. Tão forte que foi, uma vez mais, a irrealidade de um mistério por descobrir que tudo dominou. Levara comigo, numa cassete, o Adagietto da quinta sinfonia de Mahler. Por curiosidade, mas também por teimosia, queria voltar in loco às sensações, às emoções, aos sentimentos, quase todos tempestuosos, indefinidos, envoltos em densa bruma, que me haviam sempre abalado, das várias vezes que vi «Morte em Veneza». Foi difícil permanecer concentrado durante aqueles dez minutos. No fim, senti-me dominado por uma tristeza tão intensa, tão poderosa que temi pelo que pudesse acontecer nos instantes seguintes, ainda que tivesse tido o cuidado de fazer aquela experiência musical numa tarde soalheira, que reservei para o passeio solitário. Ao acaso, meti-me num vaporetto que percorria o Grande Canal. De repente, lembrei-me do Diogo. Uma certeza perversa cravou-se-me no espírito e não mais me largou. Amaldiçoei aquela bela cidade, a que nunca mais quis voltar. A cidade do amor é também a cidade da morte. E contra a minha vontade, veio-me à memória a canção-lamento de Aznavour «Que c'est triste Venise».

Quando cheguei a Lisboa, o Diogo estava já bastante mal. Para consultas, tratamentos e exames de rotina, deslocava-se com frequência ao hospital. Com uma vontade férrea mantivera-se inabalável, sem que ninguém o conseguisse demover, em ser internado apenas em caso de absoluta necessidade. Após o meu regresso, passei dois dias em sua casa e, meio a contragosto, tive de fazer o relato exaustivo do que vira em Veneza. Mas consegui calar tudo o que sentira. Pelos seus olhos brilhantes pareciam passar as imagens que iam ilustrando as minhas palavras. Pelo final da tarde, os pais chegavam. Davam-lhe todo o apoio possível e praticamente viviam em função dos cuidados com que o acarinhavam.

Na sexta-feira seguinte, de madrugada, sentiu sérias dificuldades em respirar. Pediu que o levassem ao hospital. Foi de imediato internado. Uma vez mais, quis convencer-me de que se tratava de uma crise séria mas controlável, e alimentei o sonho de que ele a superaria. E uma vez mais, enganei-me.»

(Dedicado à memória do Z. L./Diogo e da minha Mãe, que festejava hoje o seu aniversário.)

RIC

13 comentários:

Bernardo Moura disse...

É estranho. Tenho a sensação de já ter lido isto algures.
Abraço

RIC disse...

Olá Bernardo!
O texto está entre aspas porque é um excerto citado de um texto bem mais longo... Meu!
Só poderias tê-lo lido, se acaso tivesses acesso aos meus ficheiros «Word».
Abraço.

Bernardo Moura disse...

ok!
Abraço

Shadow disse...

Li o texto de uma só penada. Perdi o folêgo, caramba! Não, não foi pela rapidez com que o «devorei»...mas sim por tudo aquilo que ele transmite...
...Bem, acho que perdi também as palavras e não vou recorrer a frases feitas como, «a vida é assim» e clichés do género.

Deixo-te isso sim, um beijinho terno :-)

RIC disse...

Olá querida Susana!
É curioso, porque comigo aconteceu o mesmo. Este texto já tem uns anos, e quando o fui buscar foi também para lhe fazer algumas modificações, mas não consegui. Sempre que voltava ao início com essa intenção, voltava a perder-me na leitura...
Muito obrigado!
Um beijinho terno para ti também!
:-)

kevin disse...

Ola Ric
Wishing you a great thursday in Portugal.

I hope you have a productive day,

Abraco meu amigo,
Kev em NZ

RIC disse...

Hello dear Kevin!
Thank you so very much, dear friend! Likewise to you, as far as Friday's concerned!
My best wishes to you!
Um abraço, meu amigo! :-)

GMaciel disse...

Faltam-me as palavras, mas não a emoção.
Deixo-te um beijo e um abraço forte por tão bela e sentida homenagem.

RIC disse...

Olá querida Graça!
Fico muito sensibilizado e agradecido pela tua empatia.
Quando se perde a mãe aos 19 e um quase-irmão aos 32, é quase como mitos que as suas memórias se vão ampliando dentro de nós... E depois... Depois, há a saudade.
Um beijo amigo! :-)

T-Bird disse...

LOVE that painting!

RIC disse...

Hello Will!
Great, isn't it? It seems as if the canvas were on fire!
:-)

Special K disse...

Meu amigo fiquei sem palavras com este texto. Foi uma bela e sentida homenagem.
Não consegui deixar de me emocionar, lembrei-me de dois amigos, dois "irmãos", que já partiram. Um deles foi a minha primeira paixão adolescente, uma paixão sofrida em silêncio, ele nunca o soube. Um abraço

RIC disse...

Olá Paulo!
Obrigado pelas tuas sentidas palavras! Fico contente por teres gostado.
Creio que todos nós, os sobreviventes (a minha geração foi devastada), vivemos esta realidade nalgum momento ou, pelo menos, sabemos de vários/muitos casos semelhantes. Esta foi a morte que marcou a minha vida para sempre, mas outras houve que me abalaram profundamente, independentemente de terem sido causados pela sida, outra doença ou estúpidos acidentes rodoviários...
«Paixões sofridas em silêncio»...
Um abraço para ti também! :-)