quinta-feira, 11 de outubro de 2007

«A Ronda da Noite» - Rembrandt van Rijn

Rembrandt Harmenszoon van Rijn
Leiden, 1606 - Amesterdão, 1669

Em 1638, Maria de Médicis, ex-rainha de França exilada na República das Províncias Unidas, é recebida em Amesterdão. O capitão Frans Banning Cocq, Senhor de Purmerlandt e do Ilpendam, e o tenente Willem van Ruytenburgh, Senhor de Vlaerdingen, pretendem fazer-se retratar na companhia da sua milícia de artilheiros, os Kloveniers – os arcabuzeiros. Eis o pretexto para Rembrandt Harmenszoon van Rijn criar mais uma obra-prima entre as muitas que entretanto atestam já o seu prestígio de excelente retratista.

Nos Países Baixos do século XVII, o retrato cívico é uma tradição já com dois séculos, mas o génio do pintor, ao invés de a desvirtuar, vai conferir-lhe aquele sopro de vida que caracteriza e distingue a sua pintura. Em vez da representação tradicional do grupo em filas paralelas ou sentado à mesa do banquete anual, é em plena acção que o grupo parece ser surpreendido, como se de um instantâneo se tratasse. Daí o nome indevido de A Ronda da Noite pelo qual desde logo se torna célebre, ainda que o seu exacto título seja A Companhia do Capitão Frans Banning Cocq e do Tenente Willem van Ruytenburgh. O excesso de verniz, que manteve a tela escurecida até 1947, contribuiu para reforçar a ideia errada de uma cena nocturna.

De Nachtwacht, 1642, Rijksmuseum Amsterdam

Apesar dos cortes laterais, superior e inferior que sofreu no século XVIII, o quadro a óleo sobre tela é ainda uma obra de grandes dimensões – 363 × 437 cm. A simetria do plano de fundo, onde se situa a porta pela qual a companhia vem saindo para o exterior, é ainda sustentada pela disposição algo simétrica dos dezasseis milicianos, embora o claro-escuro impossibilite a simetria perfeita. Ela é, porém, desfeita pela presença do capitão e do tenente à direita do centro, o que confere tensão ao quadro. O olhar é levado a deslocar-se um pouco para a esquerda, na direcção em que ambos caminham. E esta sensação de movimento comunica-se às restantes figuras que são captadas em diferentes momentos de acção: preparando-se para disparar, disparando e depois de disparar. A alternância de luz e sombra intensifica ainda mais a impressão de movimento, de acção, de vida, e a atenção prende-se às figuras mais importantes – o capitão e o tenente –, graças à intensa luz descendente que os destaca.

O carácter simbólico de alguns elementos desempenha um papel decisivo na identificação da companhia dos Kloveniers. A rapariga é uma espécie de mascote. Presa à cintura traz uma galinha, cujas unhas (klauwen, em Neerlandês) aludem ao nome da companhia, e na mão segura o corno das libações rituais. A pistola por trás da galinha representa o arcabuz. E o arcabuzeiro em frente da rapariga tem um capacete enfeitado de folhas de carvalho, um motivo tradicional da companhia. Um último pormenor subtil permite identificar a companhia como sendo de Amesterdão: na lapela da jaqueta do tenente vêem-se as três cruzes pertencentes às armas da cidade.

Os arcabuzeiros estão em movimento, falam uns com os outros e empunham as armas, e o capitão dá ordens ao tenente para a companhia marchar. É este dinamismo que torna A Ronda da Noite um quadro inovador e radicalmente diferente de todos os outros quadros de milícias cívicas. A mão do capitão e a arma do tenente, em primeiro plano, parecem sair da superfície da tela, graças à perícia pictórica de Rembrandt. Ambas contribuem para a cabal identificação das figuras: o gesto com a mão que dá a ordem inicial distingue o capitão, e a partazana simboliza o posto do tenente, na sequência de uma tradição medieval. O bordão que o capitão segura é também um elemento de identificação da patente, bem como as alabardas que os sargentos empunham.

As cores e as tonalidades, vibrantes e luminosas, além de distinguirem o plano anterior dos restantes, contribuem para realçar as figuras do capitão e do tenente, retratados com minúcia e apresentados com os ricos trajos que individualizam as suas patentes: o capitão, de negro e ostentando uma faixa vermelha, e o tenente, de amarelo dourado. Os planos posteriores, mais sombrios e pouco coloridos, criam um magistral efeito de contraste que, por si só, torna o quadro uma obra-prima.
Rembrandt encaminha-se para a maturidade absoluta precoce, que atinge antes de qualquer outro pintor de génio.

RIC

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sly, bright shining eyes...

«Giving him all your love is never an assurance that he will love you back.
Do not expect love in return – just wait for it to grow in his heart.
But if it happened not to, be content that it did grow in yours.»


I believe I finally found out why I've always loved and cherished kittens and cats so much all my life…

Have a look and then tell me your opinion!





Lia, Montréal, Canada






I too need – and deserve, I guess – some time off every now and then.
I just cannot go on reading and writing the whole time through, can I?
I need to give my eyes some… quality rest, wouldn't you say?…
Enjoy it all lavishly!

RIC

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Da polémica filosófica…







Les grandes querelles entre philosophes
Des bienfaits de la controverse

Par Jean-Louis Hue

L'art de la polémique remonte à la plus haute Antiquité. «Polemos (le conflit) est le père de toutes choses et le roi de toutes choses», affirmait Héraclite. Toute l'histoire de la philosophie grecque peut se résumer à une succession de disputes. Oscillant entre débats théoriques et attaques personnelles, entre réfutation et invective, cette pratique de la controverse, longuement rodée dans les dialogues platoniciens, n'a cessé d'échauffer les philosophes.
Au milieu du XIXe siècle, Schopenhauer en reformulait les règles et les ruses dans un court traité, joliment intitulé «L'Art d'avoir toujours raison». Énumérant trente-huit stratagèmes, le philosophe enseignait comment avoir raison à tout prix en sapant les arguments de l'adversaire et en se montrant de plus mauvaise foi que lui. Après avoir suggéré maintes astuces, feintes et pro­vocations, Schopenhauer conseillait comme ultime recours l'attaque ad personam, en se montrant «désobligeant, hargneux, offensant, grossier».
Ce dossier du Magazine littéraire se fait l'écho des invectives, insultes, railleries et injures diverses que se sont lancées les philosophes durant deux millénaires.
On nous reprochera peut-être de rapporter des chamailleries parfois dignes d'une cour de récréation. «Les polé­mistes me dégoûtent», disait Bernanos, se repentant des éreintements dont il accabla tant de ses contemporains. La polémique, quand elle relève de la manie, est vaine, voire dégradante. Mais elle sait être salutaire quand elle surgit avec à-propos pour aviver le débat. Elle s'apparente alors à une joute où il s'agit moins de terrasser l'adversaire que d'enrichir une réflexion commune.
Ce dossier se veut une illustration du bon usage de la dialectique. Il retrace par le menu les duels les plus fameux, et les plus féconds, de l'histoire de la philosophie. «La controverse est souvent bénéfique à l'un comme à l'autre, du fait qu'ils frottent leurs têtes entre elles, et sert à chacun d'eux à rectifier ses propres pensées, et aussi à concevoir des vues nouvelles», conclut dans son traité Schopenhauer qui, décidément, avait l'art d'avoir toujours raison.



Arthur Schopenhauer

As grandes querelas entre filósofos
Benefícios da controvérsia

A arte da polémica remonta à mais Alta Antiguidade. «Πόλεμος – pólemos – (choque, conflito, tumulto, combate, batalha, guerra) é o pai de todas as coisas e o rei de todas as coisas», afirmava Heraclito. Toda a história da filosofia grega pode resumir-se a uma sucessão de disputas. Oscilando entre debates teóricos e ataques pessoais, entre refutação e invectiva, esta prática da controvérsia, longamente rodada nos diálogos platónicos, não cessou de aquecer os filósofos.
Em meados do século XIX, Schopenhauer (Danzig/Gdansk, 1788 - Frankfurt am Main, 1860) reformulava as regras e os artifícios num curto tratado, belamente intitulado «A Arte de Ter Sempre Razão» (Die Kunst, Recht zu behalten). Enumerando trinta e oito estratagemas, o filósofo ensinava como ter razão a todo o custo, minando os argumentos do adversário e mostrando-se de ainda mais má-fé do que ele. Após sugerir muitas astúcias, fingimentos e provocações, Schopenhauer aconselhava como recurso final o ataque ad personam, mostrando-se «desagradável, intratável, ofensivo, grosseiro».
Este dossier do «Magazine Littéraire» faz eco das invectivas, insultos, zombarias e ofensas diversas que os filósofos se fizeram durante dois milénios.
Censurar-nos-ão talvez por apresentar discórdias dignas por vezes de um pátio de recreio. «Os polemistas desagradam-me», dizia Bernanos, arrependendo-se dos assédios a tantos dos seus contemporâneos. A controvérsia, quando releva da mania, é vã, até mesmo degradante. Mas pode ser salutar quando surge com o propósito de avivar o debate. Assemelha-se então à uma justa em que se trata menos de arrasar o adversário do que de enriquecer uma reflexão comum.
Este dossier pretende ser uma ilustração do bom uso da dialéctica. Reconstitui ao pormenor os duelos mais famosos e mais férteis da história da filosofia. «A controvérsia é frequentemente benéfica tanto para um como para outro, pelo facto de esfregarem as cabeças entre si, e serve para que cada um rectifique os seus próprios pensamentos, e também conceba novas visões», conclui no seu tratado Schopenhauer que, decididamente, tinha a arte de ter sempre razão.

Tradução de RIC

Pelos vistos, quando se trata de uma gorda e sumarenta polémica, nem mesmo os sábios e sensatos (!) filósofos se inibem de arriar a giga e armar um espaventoso Cais do Sodré!
Mas ainda vai havendo quem confunda saber com civilidade e boas maneiras…
E os políticos de hoje estão, de certezinha, bem mais interessados em ter sempre razão do que em conhecer a filosofia ou a ciência política. Chamam a essa sua atitude «serem pragmáticos»… São, não são?
O referido Schopenhauer, por exemplo, perorava amiudadamente sobre o pessimismo e o suicídio… após um lauto repasto – à conta do anfitrião, bem entendido!

Schopenhauer, Arthur - Die Welt als Wille und Vorstellung, 1859, 3.ª edição

(O Mundo como Vontade e Representação).
Esta é a sua obra de referência.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

De Camões dois sonetos...

Memória de meu bem, cortado em flores
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos, que espero infortunados;
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora junto quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não uma só, dura memória!


Um belíssimo fado, todo ele enlevo, na voz de Amália.


O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música, com voz alta e mui sentida
Levanta por a praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada,
E dela está chorando a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim eu, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando postos já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei, por os vossos desfavores,
La vuestra falsa fe, y el amor mío.


… Poesia das subidas esferas
Para deleite das almas inquietas…

RIC

domingo, 7 de outubro de 2007

Astrological charts...


«Your battle cry is Peace and harmony at all costs. You generally have good taste in music, art and literature. At times you can be vain and lazy…

You require strenuous situations in order to grow and mature properly, even though you try to avoid them. Affectionate, even-tempered and slow to anger, when you do become emotionally upset, you are also slow to forgive, and time must pass before your calm returns.

Very loving and affectionate, you prefer a steady, patterned way of life. Patient, calm and steadfast, you are not easily upset. You tend to be a slow starter and a slow mover – others may try to rush you, but they will never succeed. Emotionally, you are quite stubborn – your attitudes about people and things were firmly set in your youth and will change very little as an adult.

Very quick-witted, you are known for being an independent thinker. At times, however, you act too fast on hastily formed opinions and thus waste a lot of energy defending your rash and sometimes incorrect conclusions. It is perfectly acceptable for you to defend your beliefs with your usual vigour.

You are friendly, warm and open-minded toward others. You love variety in relationships, indeed you may even prefer to maintain more than one relationship at a time…

Your moods are very important to your overall well-being. You are confident and self-assertive when you are feeling cheerful, and you are retiring, irritable and grumpy when you get depressed about anything. Very sensitive, you wear your heart on your sleeve. You are easily angered whenever you think someone has affronted you. You're extremely loyal and defensive of your family, neighbourhood, community and culture.

You love to dig deep beneath surface appearances in order to find out what is really happening. A persistent researcher, you are very interested in the psychology of any situation. You must learn to try to communicate as best you can because what you know is really very valuable to others.

Very serious-minded and mature, you have the ability to take on responsibilities and to carry out important duties. A good organizer, you are the ideal one to be counted on to take a clearly defined project through to its logical conclusion. An achiever, you pride yourself on your ability to focus your attention totally on some worthy goal and then attain it.

You demand complete and total freedom of self-expression. You want to make your mark in the world according to your own lights and will accept no interference from traditional authority figures. You are honest and forthright, but a bit offbeat and eccentric. The lack of self-discipline may hinder you from reaching your goals as quickly as you would like.

You find it very difficult to be comfortable being alone – you would much prefer to be in an environment where many people are working together toward common goals. You have the gift of being able to ease tensions just by your mere presence. You're the perfect team player willing to sacrifice your own importance so that the group goal can be accomplished. But you have personal private needs too that should not be neglected…»


Here are the results of an astrological séance…
Even if I don't care much for astral charts and horoscopes and stuff of the kind, I do admit, however, the conclusions in this report do strike me as quite accurate… So I guess this is another open window onto me. Enjoy the glimpse!

RIC

sábado, 6 de outubro de 2007

«Je est un autre.» Arthur Rimbaud

[De la lettre dite "du Voyant" à Georges Izambard]

«Charleville, 13 mai 1871.

Cher Monsieur!

Maintenant, je m'encrapule le plus possible. Pourquoi? Je veux être poète, et je travaille à me rendre Voyant: vous ne comprendrez pas du tout, et je ne saurais presque vous expliquer. Il s'agit d'arriver à l'inconnu par le dérèglement de tous les sens. Les souffrances sont énormes, mais il faut être fort, être né poète, et je me suis reconnu poète. Ce n'est pas du tout ma faute.
C'est faux de dire: Je pense: on devrait dire: On me pense. – Pardon du jeu de mots. –
Je est un autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et nargue aux inconscients, qui ergotent sur ce qu'ils ignorent tout à fait!»


[Excerto da carta dita "do Vidente" a Georges Izambard]

Charleville, 13 de Maio de 1871

Caro Senhor!

Agora, torno-me um crápula tanto quanto possível. Porquê? Quero ser poeta, e trabalho para tornar-me Vidente: não compreenderá de forma nenhuma, e eu quase não saberia explicar-lhe. Trata-se de chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é necessário ser forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. Não é de forma alguma culpa minha. É falso dizer: Eu penso: deveria dizer-se: Pensam-me. – Perdão pelo jogo de palavras. –
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e desprezo aos inconscientes, que discutem sobre o que ignoram completamente!


O motivo mais interessante para trazer aqui Rimbaud seria decerto a sua poesia. Porém, este preâmbulo tem a sua razão de ser, antes de aqui trazer, por exemplo, «Le bateau ivre».

Por um lado, o cerne deste excerto é título de uma fotografia «distante» que figura aqui, na barra lateral deste blogue. Houve quem já tivesse manifestado alguma perplexidade, pelo que espero este édito possa esclarecer dúvidas remanescentes.

Por outro, há muito que a célebre frase fez História. No mundo das «artes poéticas» nascidas com os Gregos, e até aos dias de hoje, muitos têm sido os poetas que têm apresentado os seus «programas» ou as suas «receitas» para a poesia: de um simples poema programático a verdadeiros tratados que são hoje clássicos indispensáveis aos estudos literários.

«Je est un autre» é, para a época, a declaração radical do «eu» cindido, isto é – e sem entrar em considerações mais complexas –, o poeta descobre e aceita que há nele várias vozes que falam através dele. Assim, «eu sou» pode também ser «eu» é outro que me pensa. Daí, o referido trabalho para tornar-se vidente após ter-se reconhecido poeta.

«Eu é outro» – um paradoxo – o pronome que designa aquele que fala, aquele que julgamos conhecer melhor, seria – a crer em Rimbaud – outro. O sujeito nunca é, segundo Rimbaud, idêntico a si mesmo. Existe apenas no movimento que o faz diferir de si: transforma-se constantemente.

A metáfora que se segue a esta fórmula permite precisar-lhe o sentido: da madeira ao violino há toda a diferença que separa o material bruto, a matéria-prima, do instrumento de música. A transformação da madeira remete para a do sujeito, chamado a tornar-se outro e a enriquecer-se com esta aventura.

Eis o que ignoram os inconscientes, que as promessas desta metamorfose deixam indiferentes e que preferem continuar reféns da lógica da identidade.

RIC

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Contra os novos Cabrais…

«Em 1842 é instaurado um regime político, por muitos considerado despótico, liderado por António Bernardo da Costa Cabral, um dos chefes do movimento constitucionalista, e apoiado, entre outros, pelo seu irmão José Bernardo da Silva Cabral, 1.º conde de Cabral (daí a alcunha popular de governo dos Cabrais ou cabralismo).

A revolta inicia-se na zona de Póvoa do Lanhoso, no Minho, com uma sublevação popular que se foi estendendo progressivamente a todo o Norte. A instigadora dos motins terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fonte Arcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte.



Maria da Fonte, Lisboa

Nessa época, o maestro Angelo Frondoni compõe um hino popular que fica conhecido pelo nome de «Hino da Maria da Fonte» – ou «Hino do Minho» –, obra patriótica que respira entusiasmo aguerrido, tem larga divulgação, será por muito tempo (segunda metade do século XIX) o canto de guerra do Partido Progressista e quase chega a ser aceite, pela generalidade da população, nos últimos tempos da monarquia, como hino nacional.»

Viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão
Para matar os Cabrais
Que são falsos à nação.

Eia avante! Portugueses!
Eia avante! Não temer!
Pela santa Liberdade,
Triunfar ou perecer!

Viva a Maria da Fonte
A cavalo e sem cair
Com as pistolas à cinta
A tocar a reunir.

Lá raiou a liberdade
Que a nação há-de aditar
Glória ao Minho que primeiro
O seu grito fez soar.

Em exortação às mentes progressistas inconformadas!

RIC

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Era uma vez...

PRIMEIRA VOZ
Allegro vivace con brio


A meio de uma tarde de um Julho já distante, um Boeing 737 aterrava em Frankfurt, proveniente de Lisboa. Um meio-dia quente e abafado deu lugar, três horas depois, a uma atmosfera luminosa, leve e suave, como se uma chuva fresca tivesse lavado o ar, deixando-o cristalino. A mudança foi excessiva e perturbou-me. Era o meu baptismo de voo, e a excitação do momento foi suficiente para provocar uma euforia mais ou menos controlada e um fascínio quase incondicional pelas maravilhas da ciência e da técnica.

O momento em que desembarquei e dei comigo no edifício do aeroporto é o instante mais vívido de todas as experiências daquele Verão. De repente, Flughafen, conquanto significasse aeroporto, passou a identificar Frankfurt am Main, o que não era o mesmo que aeroporto, desde então sinónimo de Portela de Sacavém. Era como se o próprio espaço estivesse distorcido e fossem outras as dimensões. As deslocações no interior do aeroporto sem as passadeiras rolantes são impensáveis, tais as distâncias entre os terminais. Se a Portela de Sacavém era um aeroporto, então Frankfurt am Main não o era. Definitivamente.

E eram também outras as gentes. O 25 de Abril abrira Portugal ao exterior e o «orgulhosamente sós» era já assunto pretérito, mas naquele ano começavam a visitar Portugal apenas os mais afoitos. O 28 de Setembro e a Maioria Silenciosa, o 11 de Março e o Verão Quente, o PREC e o 25 de Novembro não foram propriamente engodos para turistas. Portugal era ainda visto com olhos que deixavam transparecer alguma suspeita, sobretudo por causa da longa guerra colonial, que matara e estropiara muitos jovens e obrigara outros, os ditos refractários e desertores, a partirem e a refugiarem-se noutros países, sobretudo em França, na Suíça, Bélgica, Holanda, Suécia e no Reino Unido. Ainda não era fácil estabelecer contactos com estrangeiros. Alguns meses após ter regressado a Portugal, tive a primeira oportunidade de conhecer estrangeiros em Lisboa. Eram alguns dos novos correspondentes de jornais ingleses e holandeses.

Em Frankfurt, porém, era o mundo em doses bem sortidas e bem aviadas que era servido ao olhar arregalado, provinciano até, do adolescente que a cada passo ia percebendo cada vez menos a razão de ser do abismo entre ambas as realidades. O espanto era tal que, em certos momentos, pensei que não caminhava sobre a mesma Terra que deixara para trás três horas antes. Foi naquele momento que compreendi o verdadeiro significado de algumas passagens de Os Maias que tanto me tinham fascinado. Sem que o pensasse, sentia que acabara de chegar, não de uma capital europeia, mas de um qualquer lugar remoto dos confins do mundo. E o choque aumentava a cada instante. Desmesuradamente.

Os ruídos, esses eram também bem diferentes. Num espaço tão movimentado, onde sem interrupções se cruzavam milhares de pessoas em grupos compactos, o pasmo estampado na minha cara seria visível de longe. Tanta gente e tanto silêncio. À medida que ia atravessando aquela Babilónia, olhava estupefacto através das enormes vidraças. Aterravam e descolavam aviões, uns atrás dos outros, como se o aeroporto fosse uma paragem de autocarros no centro de uma cidade. Por muito que olhasse além dos limites do aeroporto – condicionado pelo hábito muito português de que «tudo está ao lado de, se não estiver dentro de» – nada cheguei, porém, a ver da cidade de Frankfurt. Só viria a visitá-la anos mais tarde. Ponho sérias reservas à actual evolução para o gigantesco e acredito que «Small is beautiful; less than small is more, but less is bore», ainda que certos minimalismos também deixem muitíssimo a desejar. O bom senso é, e continuará a ser, o melhor critério.

Outra era também a iluminação. Comparada com a de Frankfurt, dir-se-ia que a da Portela era à base de lâmpadas amarelas de vinte e cinco watts, daquelas que em tempos idos se encontravam nos candeeiros de mesa-de-cabeceira dos avós. Via-se muito mal dentro do aeroporto de Lisboa. A longa noite fascista estava ainda longe de ter terminado, pelo menos, segundo rigorosos critérios fotométricos…

Duas horas e pouco mais tarde, acabava a segunda etapa do baptismo de voo com a chegada a Berlim. Primeiro, avistei campos e algumas casas. Depois, mais casas e menos campos. Depois ainda, a superfície e os contornos irregulares de um ou vários lagos, não percebi bem, e, por fim, sem qualquer transição, o aglomerado denso do casario urbano e a rede viária complexa como uma teia. De repente, uma ilha de vazio no centro da cidade, onde o avião pousou quase na vertical – Berlin-Tempelhof.

Começara então a iniciação ao grand monde, cheio de tudo o que era mais necessário a um neófito. Muitas aprendizagens e muito cosmopolitismo! E é esta a melhor forma de cultivar o espírito e acarinhar a alma, de criar e desenvolver o gosto de enfrentar, conhecer, compreender, aceitar e até admirar a diferença.

Berlim, a grande rival da Paris dos Anos Loucos! A República de Weimar e a democracia, o advento de uma riquíssima cultura cabaretística, o cosmopolitismo centro-europeu, a novíssima literatura e o novíssimo cinema, os estúdios da UFA e a juventude de Marlene Dietrich. Já depois da Segunda Guerra, o bloqueio soviético e a ponte aérea, naquele exacto lugar, Berlin-Tempelhof. Mais tarde, a construção do Muro, o da Grande Vergonha, como o meu pai dizia. Em breve, teria esse triste espectáculo diante dos olhos. Foram estas as primeiras ideias e as primeiras sensações, ao desembarcar e atravessar o edifício do aeroporto em direcção ao autocarro que nos levou, a mim e a outros bolseiros de outras nacionalidades, pelas ruas de Berlim Ocidental até uma, onde estacionou: Nikolsbürgerstraße. O objectivo principal do estágio, que nos ocuparia nas próximas quatro semanas, era o aperfeiçoamento dos conhecimentos de Alemão e uma melhor compreensão da realidade alemã naqueles conturbados anos setenta.

Conhecemo-nos todos nessa primeira noite, depois de serenadas a excitação e a confusão de distribuir e instalar toda aquela gente. Além do nosso grupo, do qual fazíamos parte três – um tripeiro, uma tricana e eu, um alfacinha – havia o de França, com cinco elementos, o de Itália, também com cinco, o da Holanda, com cinco, o da Suíça, com três, o da Dinamarca, com cinco, o da Finlândia, com quatro, e o da Hungria, com quatro também. Ao todo, trinta e quatro adolescentes, dos dezasseis aos dezanove anos. Um prédio de habitação transformado em albergue de juventude seria o nosso lar nas próximas semanas. E para gáudio de quem tinha de Berlim uma visão quase romântica, encontrávamo-nos a apenas três estações de metropolitano do centro nevrálgico da cidade: a célebre Kurfürstendamm, a Avenida berlinense por excelência, e as ruínas da torre da Igreja da Memória do Imperador Guilherme I, quase arrasada por intenso bombardeamento aliado que contribuiu para impor ao exército nazi a rendição incondicional.

Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche

RIC

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

D. Afonso VI, the Flabbergasted King

As Sancho II in the first dynasty, Afonso VI also revealed himself to be a rex inutilis, to use the happy phrase by the historian José Mattoso.

Afonso VI (Lisbon, August 21st, 1643 - Sintra, September 12th, 1683) was the twenty-second king of Portugal and the Algarves and the second of the House of Bragança, known as «o Vitorioso» (the Victorious) – all in all, History's pure irony…

At the age of three, Afonso suffered an illness that left him paralyzed on the left side of his body, as well as leaving him mentally unstable. His father created him 11th Duke of Bragança.

After the 1653 sudden death of his eldest brother Teodósio, Prince of Brazil and heir to the throne, Afonso became the heir-apparent.

He succeeded his father, João IV, in 1656 at the age of thirteen. His mother, D. Luísa de Gusmão (Medina-Sidonia), was named regent in his father's will.

His mental instability and paralysis, plus his disinterest in government, left his mother as regent for six years, until 1662. D. Luísa oversaw military victories over the Spanish armies at Ameixial (June 8th, 1663) and Montes Claros (June 17th, 1665), culminating in the final Spanish recognition of Portugal's independence on February 13th, 1668 in the Treaty of Lisbon, almost 28 years after Portugal had actually regained its independence as a sovereign State in 1640.

Colonial affairs saw the cession of Bombay and Tangier to England (June 23rd, 1661) as dowry for Afonso's sister, Catherine of Bragança, who made an unfortunate marriage to Charles II of England.

In 1662, Count of Castelo Melhor saw an opportunity to gain power at court by befriending the king. He managed to convince him that his mother was out to steal the throne and exile him from Portugal. As a result, Afonso took control of the throne, and his mother entered a convent.

He was married to Marie Françoise, Mademoiselle de Nemours et d'Aumale, daughter of the Duke of Nemours, in 1666, but this marriage would not last long. Marie Françoise – or D. Maria Francisca Isabel de Sabóia in Portuguese – filled for an annulment in 1667 based on the impotence of the king. The Church granted her the annulment, and she married Afonso's brother, Pedro, Duke of Beja, future Pedro II.

That same year, Pedro managed to gain enough support to force his brother to relinquish control of the government, and so he became Prince Regent. Afonso was exiled to the island of Terceira in the Azores, returning to Portugal in 1674. He died in the Sintra Royal Palace in 1683.

Legend or not, part of the floor in his quarters shows evidence of being worn out by someone who had walked to and fro indefinitely…

Gonzalo Torrente Ballester, the eminent Spanish writer, published in 1989 «Crónica del Rey Pasmado» (Chronicle of The Flabbergasted King).

Afonso's trial is the base for José Mário Grilo's 1990 film «O Processo do Rei» (The King's Trial).

RIC & Wikipedia

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Um édito leve | A light post

What would you say this beautiful «thing» is or represents?
Set your creative, poetical, visual imagination free!

O que é que pensam que esta «coisa» lindíssima é ou representa?
Libertem a vossa imaginação visual, poética, criativa!

Calabi-Yau manifold (3D projection)

Calabi-Yau manifolds are a special class of manifolds used in some branches of Mathematics (such as algebraic geometry) as well as in theoretical physics. For instance, in superstring theory the extra dimensions of space-time are sometimes conjectured to take the form of a 6-dimensional Calabi-Yau manifold.

Awesome, huh?…

Variedades de Calabi-Yau são uma classe especial de variedades usada em alguns ramos da Matemática (como a geometria algébrica), bem como em física teórica. Por exemplo, na teoria das supercordas, as dimensões extras do espaço-tempo são por vezes conjecturadas para tomar a forma de uma variedade de Calabi-Yau a 6 dimensões.

Esmagador, hem?…

Cf. Wikipédia, s.v. «Teoria das cordas»/«String theory»

RIC

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Au Quartier Latin…

«Continuei pelo Quartier Latin o meu périplo de viandante. Enquanto caminhava pela rue de la Harpe pareceu-me ouvir alguns acordes da ária «Quando men vo», vindos de uma pequena loja. Fui-me aproximando, e era mesmo La Bohème que naquele instante fazia as delícias de uns quatro clientes, talvez habitués, melómanos pela certa, também eles com um certo ar boémio, sentados a uma mesa num canto da sala, numa espécie de cenário de café antigo – o Momus, é claro! Para quem tivesse dúvidas, lá estava uma pequena placa com o nome a revelar a intenção de quem ali instalou aquele espaço como um cenário, decerto um entusiasta de Puccini. Um excelente achado, já que o enredo da ópera é um pedaço de História daquele bairro. E – a ideia começava a seduzir-me – aqueles melómanos bem poderiam ser Rodolfo, Marcello, Colline e Schaunard reencarnados. Onde estariam então Mimì e Musetta? Haveriam de estar por ali. Quem sabe se não seriam aquelas duas meninas atrás do balcão... Num italiano muito martelado por um forte sotaque francês, meio staccato e nada cantabile, e parecendo ter adivinhado a minha pergunta, uma delas disse com um franco sorriso, «sì, mi chiamano Mimì… mais moi je m'appelle Madeleine.» (1) Vendo o espanto chapado na minha cara, acrescentou «mais croyez-moi, monsieur! … C'est tout à fait vrai!» (2) Fiquei atónito e emudeci. Mal se dissipou a surpresa e recuperei a fala, saiu-me de improviso «o soave fanciulla, ma tu sei proprio una strega!» (3) Mas a Madeleine não percebeu. Tive então de traduzir e explicar o porquê da exclamação, e tudo redundou numas boas gargalhadas.

Demorei-me por ali mais algum tempo, deliciando-me com o que ouvia e preparando-me para abrir os cordões à bolsa por uma mão-cheia de CD. A caminho da caixa, o meu olhar, nem de propósito, foi cair sobre a gravação de uma peça que há muito procurava. Saí radiante daquele pequeno reino da música, que me brindou com o arrebatador quinteto de cordas La Musica Notturna delle Strade di Madrid de Luigi Boccherini, o celebrado compositor do delicioso minuetto galante doutro quinteto de cordas, agrupamento de que foi ele o criador, com o opus 11 n.º 5. As más-línguas chamavam-lhe a mulher de Franz Joseph Haydn por causa das suas melodias doces e cantabile, opostas aos allegri vigorosos e sólidos do austríaco.

Toda a peça, que não chega aos dez minutos, é muito pitoresca e sugestiva. Há nela um imaginoso poema. A primeira parte, muito breve, é uma sequência sem melodia que evoca sinos a tanger. Soa em seguida um minueto cadenciado que sugere gente à entrada de uma igreja, talvez mendigos pedindo esmola aos crentes que vão entrando. Dentro da igreja é então o momento de rezar o terço, e a melodia tem a força de uma melopeia de litania recitada pela congregação a orar. À saída, é tempo de ouvir os cantores de rua, «los Manolos», numa melodia sincopada com ritmo de dança inspirada em sons típicos de Castela que, duzentos anos depois, ainda recria, desde o primeiro acorde, o ambiente descontraído e festivo dos tablados onde se exibe o garbo castelhano. Esta é a parte mais intensa da peça, e ao ouvi-la consigo ver distintamente um grupo de madrilenos a dançar ao sol poente. Terminada a dança, começa a ouvir-se uma marcha, cujo volume sonoro vai aumentando, até terminar o render nocturno da guarda da cidade. É noite fechada e a peça termina.

Luigi Boccherini (1743-1805)

É uma das pouquíssimas «opera con titoli» que Boccherini compôs, e é ele quem a apresenta num manuscrito autógrafo de 1780. «Este quintettino descreve a música que se ouve à noite nas ruas de Madrid. Começa com o toque às ave-marias e acaba com o render da guarda. Tudo isto não é tratado com o rigor exigido pelo contraponto, mas destina-se muito simplesmente a reproduzir com naturalidade as coisas que desejo representar. «Ave Maria delle Parrocchie» é o toque às ave-marias das igrejas paroquiais da cidade. A seguir vem o «Minuetto dei ciechi», o minueto dos mendigos cegos. Os violoncelistas devem pousar os instrumentos nos joelhos e imitar o som de uma guitarra, servindo-se de todas as unhas. Depois de uma breve pausa, o minueto inteiro é repetido e conduz ao «Rosario», o terço, que deve ser tocado sem medida fixa. Ao «Rosario» seguem-se uma passacaglia dos cantores de rua, «los Manolos», de novo com efeitos semelhantes aos de uma guitarra e, por fim, a «Ritirata». É preciso imaginar que este render da guarda nocturna é ouvido primeiro ao longe e deve portanto ser tocado piano para que mal se ouça; as indicações seguintes de crescendo e marcando devem ser estritamente observadas.» Mas em carta de 10 de Julho de 1797 enviada a Ignaz Pleyel, o seu editor em Paris, onde a sua música era muito apreciada pelo carácter galante, Boccherini afirma que «esta peça é totalmente inútil e mesmo ridícula fora de Espanha. O público jamais compreenderia o seu significado, e os executantes não seriam capazes de tocá-la como deve ser.»

Foi assim que, sem compreensão possível, este quinteto permaneceu inédito até aos anos vinte do século XX, ainda que se tenha tornado bastante popular em vida do compositor e este dele tenha feito vários arranjos. Ouvi-o pela primeira vez – lembro-me bem – num documentário sobre o excessivo Señor D. Francisco José de Goya y Lucientes, ignorando então que pintor e músico haviam sido grandes amigos. Foi no palácio da mecenática Condessa-Duquesa Maria Josefa de Benavente-Osuna, a última protectora de Boccherini antes de se mudar com a família para Paris em 1799, que ambos se conheceram e uniram numa amizade indefectível até à morte do compositor em 1805, na maior miséria. Ele que tivera por mecenas D. Luís de Borbón, Infante de Espanha, e Frederico Guilherme II, rei da Prússia. Desiludido, e talvez também porque simpatizasse com a causa republicana, Boccherini ainda tentou os favores de França e em 1799 enviou uma carta ao citoyen Marie-Joseph Chénier, irmão do malogrado poeta André Chénier entretanto guilhotinado, acompanhando os quintetos para piano dedicados à la Nation française. Em vão. Um ano mais tarde, ainda sem qualquer resposta, Boccherini queixa-se amargurado ao seu antigo editor parisiense, Jean-Georges Sieber: «Se não há em Paris ninguém que queira ocupar-se deste assunto, então fica esquecido e enterrado. Lamento que a Nação não tenha o prazer de conhecer esta homenagem que lhe dedico. Se esta obra não tivesse outros méritos que o de ser dedicada à Nação francesa, este parece-me suficiente para que o mundo inteiro a queira conhecer. Sei bem que a música é feita para falar ao coração do homem; e é o que me esforço por alcançar, se puder: a música, privada de sentimentos e paixões, é insignificante.»

Em 1927 os seus restos mortais foram trasladados para a basílica de S. Francisco da cidade toscana de Luca, onde nascera e que é também a cidade natal de Giacomo Puccini. À data da morte de Boccherini, Luca via brilhar a figura da Princesa de Luca e Piombino, Elisa Bonaparte, uma irmã de Napoleão com um notável talento para os negócios e para a administração da cidade e admirável mecenas das letras e das artes. Ficou conhecida como a Semíramis de Luca. Ao menos no eterno repouso, Boccherini teve mais sorte que Camões, que acabou na vala comum, destino fatal, aliás, de tantos outros génios. Em Viena, também Mozart teve enfim direito a um cenotáfio, no cemitério de Sankt Marx, onde o seu corpo – e apenas o seu corpo! – desapareceu para sempre numa gélida manhã de Dezembro.

Estas vidas acabam sempre assim, sepultadas em atroz miséria. Enquanto prosseguia a minha caminhada, ia cogitando inconformado que em duzentos anos – ou em dois mil –, o ser humano, no essencial, mudara muito pouco ou nada. Talvez, se acaso nascesse já com a serena sabedoria de um octogenário, descobrisse a salvação, o único passo possível para a perfeição. Mais sereno, entreguei-me a conjecturas sobre as estradas de Madrid à noite, no tempo em que Boccherini as calcorreava em busca de inspiração. Gratos devaneios. Os dele e os meus...»
___________________________________________
(1) Sim, chamam-me Mimi, mas o meu nome é Madalena.
(2) Acredite em mim, senhor. É mesmo verdade.
(3) Ó doce menina, mas tu és mesmo uma bruxa.

Em homenagem ao Dia Internacional da Música, instituído pela UNESCO em 1975, tendo os seus objectivos sido então apresentados por Lord Yehudi Menuhin:

«The International Music Day aims to encourage:
– the promotion of our musical art among all sections of society;
– the application of the UNESCO ideals of peace and friendship between peoples, of the evolution of their cultures, of the exchange of experience and of the mutual appreciation of their aesthetic values;
– the promotion of the activities of the International Music Council, its international member organizations and national committees, as well as its programme policy in general.»

RIC

domingo, 30 de setembro de 2007

Michelangelo Buonarroti's David

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (Caprese, March 6th, 1475 - Rome, February 18th, 1564) was an Italian Renaissance painter, sculptor, architect, poet and engineer. His versatility in the disciplines he took up was of such a high order that he is often considered a contender for the title of the archetypal Renaissance man.

His David, sculpted from 1501 to 1504, is one of Michelangelo's two greatest works of sculpture, along with the Pietà.
It is the David alone that almost certainly holds the title of the most recognizable statue in the history of art. It has become regarded as a symbol both of strength and youthful human beauty.

The 5.17 m (17 ft) marble statue portrays the Biblical King David at the moment that he decides to do battle with Goliath. It came to symbolise the Florentine Republic. This interpretation was also encouraged by the original setting of the sculpture outside the Palazzo della Signoria, the seat of civic government in Florence.
The completed sculpture was unveiled on September 8th, 1504.
To protect it from damage, the sculpture was moved in 1873 to the Accademia Gallery, and a replica was placed on the Piazza della Signoria in 1910.


Fundamental to Michelangelo's art is his love of male beauty, which attracted him both aesthetically and emotionally. In part, this was an expression of the Renaissance idealization of masculinity, but in Michelangelo's art there is clearly a sensual response to this aesthetic. Such feelings caused him great anguish, and he expressed the struggle between Platonic ideals and carnal desire in his sculpture, drawing and his poetry too, for Michelangelo was also a great lyric poet.
The sculptor's expressions of love have been characterized as both Neoplatonic and openly homoerotic; recent scholarship seeks an interpretation which respects both readings.
One example of the conundrum is the story of the sixteen year old Cecchino dei Bracci, whose death, only a year after their meeting in 1543, inspired the writing of forty eight funeral epigrams, which allude to a relationship that was not only romantic but physical as well:

La carne terra, e qui l'ossa mia, prive
de' lor begli occhi, e del leggiadro aspetto
fan fede a quel ch'i' fu grazia nel letto,
che abbracciava, e' n che l'anima vive.

The flesh now earth, and here my bones,
Bereft of handsome eyes, and jaunty air,
Still loyal are to him I joyed in bed,
Whom I embraced, in whom my soul lives.

The greatest written expression of his love was given to Tommaso dei Cavalieri, who was 23 years old when Michelangelo met him in 1532. Cavalieri was open to the older man's affection: "I swear to return your love. Never have I loved a man more than I love you, never have I wished for a friendship more than I wish for yours." Cavalieri remained devoted to Michelangelo till his death.
Michelangelo dedicated to him over three hundred sonnets and madrigals, constituting the largest sequence of poems composed by him. Their homoerotic nature was recognized in his own time, so that a decorous veil was drawn across them by his grandnephew, who published an edition of the poetry in 1623 – with the gender of pronouns changed…
John Addington Symonds, the early British homosexual activist, undid this change by translating the original sonnets into English and writing a two-volume biography, published in 1893.
The sonnets are the first large sequence of poems in any modern language addressed by one man to another, predating Shakespeare's sonnets to his young friend by a good fifty years.

Prudishness in the era of advertising?!

I feel as lit by fire a cold countenance
That burns me from afar and keeps itself ice-chill;
A strength I feel two shapely arms to fill
Which without motion moves every balance.

Through his poetry and visual art we may glimpse the arc of his imagination…

RIC & Wikipedia

Muito obrigado, Paulo, pela tua estimulante sugestão!

Mais um Setembro que termina.
A uns, «olá, bem-vindos»
A outros, «adeus, até um dia»
Que o mundo não tem como parar…

sábado, 29 de setembro de 2007

Supper with the Dead…

«Young people used to neglect death, even to olympically ignore it; nowadays they fear it. What on earth happened?»

Here's an odd, somewhat spooky challenge, no doubt, but I kinda fancy it! Something to be taken à la Don Giovanni, I'd say...

«Which 11 dead souls from History would you invite for a dream – or a nightmare… – supper? State your reasons.»

As I am a little bit «more papist than the pope himself» (as we all Portuguese usually are), I've decided to have two suppers: one to settle some things right with Portuguese History, and another to satisfy my worldwide curiosity.
As to you, dear blogger friends, just follow what your hearts tell you to. You'll surely find your own method.

So here are the Portuguese celebrities I would invite:

1. D. Leonor Teles, para ficar a saber todas as p*tices que quase nos custaram a independência.
2. Gil Vicente, para me relembrar como se goza com classe com o poder estabelecido.
3. Fernão Mendes Pinto, para me contar as verdadeiras barbaridades dos portugueses no Oriente.
4. D. Sebastião, para me deliciar com bichices renascentistas.
5. Bocage, para ouvir umas quadras hardcore sobre todos os presentes.
6. D. Carlota Joaquina, para fazer pendant com as outras duas.
7. Camilo Castelo Branco, para ter um olhar sarcástico sobre os convivas.
8. Pessoa, para vê-lo verdadeiramente desassossegado.
9. Salazar, para vê-lo muitíssimo perturbado, quase apopléctico.
10. Beatriz Costa, para a desbunda ser total.
11. Cunhal, para o apreciar a demolir os inimigos históricos do povo.



«Don Giovanni, a cenar teco m'invitasti!»

And here are my cosmopolitan guests:

1. Nefertiti: what a beauty queen's life was like in Ancient Egypt.
2. Plato: looking me in the eye, why he bans poets from the city.
3. Alexander Magnus: what was harder – conquering the largest empire ever or keeping his lover's love?
4. Hadrian: how correct and adequate Yourcenar's novel is.

5. Torquemada: how hot it is living in a luxury condo in hell.
6. Michelangelo: how grand it was for an artist to be great and gay.
7. Mozart: a cheerful genius is a must at a supper table.
8. Marquis de Sade: what drove him so far.
9. Queen Victoria: all of her love affairs out in the open.
10. Einstein: what the Universe holds in store for us humans.
11. Marguerite Yourcenar: now she'll have to tell nothing but the truth.

Import this «challenge» to your blogs if you feel like it. It's great fun!
Please take this as only a weekend amusement. There's nothing else to it, really.
Thanks, dear Will, for the lush idea!

RIC

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

«Per Amore»...


Io conosco la tua strada
Ogni passo che farai
Le tue ansie chiuse e i vuoti
Sassi che allontanerai
Senza mai pensare che
Come roccia io ritorno in te…
Io conosco i tuoi respiri
Tutto quello che non vuoi
Lo sai bene che non vivi
Riconoscerlo non puoi
E sarebbe come se
Questo cielo in fiamme
Ricadesse in me
Come scena su un attore…

Per amore
Hai mai fatto niente
Solo per amore
Hai sfidato il vento e urlato mai
Diviso il cuore stesso
Pagato e riscommesso
Dietro a questa mania
Che resta solo mia

Per amore
Hai mai corso senza fiato
Per amore
Perso e ricominciato
E devi dirlo adesso
Quanto di te ci hai messo
Quanto hai creduto tu
In questa bugia
E sarebbe come se
Questo fiume in piena
Risalisse a me
Come china al suo pittore

Per amore
Hai mai speso tutto quanto la ragione
Il tuo orgoglio fino al pianto
Lo sai stasera resto
Non ho nessun pretesto
Soltanto una mania
Che resta forte e mia
Dentro quest'anima che strappi via
E te lo dico adesso
Sincero con me stesso
Quanto mi costa non saperti mia
E sarebbe come se
Tutto questo mare
Annegasse in me.

Andrea Bocelli

Eu conheço a tua estrada
Cada passo que darás
Teus desejos calados, teus vazios
Pedras que afastarás
Sem jamais pensar que
Como uma rocha
Volto sempre para ti…
Eu conheço a tua respiração
Tudo o que tu não queres
Sabes bem que não vives
Mas não queres reconhecê-lo
Só se este céu em chamas
Desabasse sobre mim
Como um cenário sobre um actor...
Por amor
Já fizeste alguma coisa
Apenas por amor
Já desafiaste o vento e gritaste
Já dividiste o próprio coração
Já pagaste e apostaste várias vezes
Nesta mania
Que continua a ser só minha
Por amor
Já correste até ficar sem fôlego
Por amor
Já te perdeste e recomeçaste
E tens de dizer agora
Quanto de ti puseste nesta história
Quanto acreditaste nesta mentira
Só se um rio se levantasse em mim
Como uma enchente
Como tinta-da-china de um pintor
Por amor
Já esgotaste tudo, a tua razão
O teu orgulho até ao pranto
Sabes, esta noite eu fico
Não tenho nenhum pretexto
Apenas uma mania
Que permanece forte e minha
Dentro desta alma que tu dilaceras
E digo-te agora
Sincero comigo mesmo
Quanto me custa não te saber minha
É como se todo este mar
Se afogasse em mim.

Tradução (literal) de RIC (sem pretensões poéticas)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Reflexões em jeito de máximas…

• O cabelo flutua como pena, quando preso à raiz; se arrancado e solto, afunda-se como metal.

• Na Arte, revela-se uma estética decorrente de um gosto; numa certa concepção de arte, assume-se um gasto sancionado por nenhuma ética.

• São normais as conveniências humanas, mas são naturais as conveniências de certas maiorias.

• É coerente porque é estúpido; ou é estúpido porque é coerente.

• Na vida, tudo são hábitos: uns virtuosos, outros viciosos; convirá porventura manter ambas as partes em equilíbrio.



O espaço e o tempo ideais para reflectir…

• Hair floats as a feather when attached to its root; if pulled out and loose, it sinks as metal.

• In Art, aesthetics is disclosed according to a taste; in a certain conception of art, an expense is carried out, sanctioned by no ethics.

• Human conveniences are normal, but the conveniences of certain majorities are natural.

• He's consistent because he's stupid; or he's stupid because he's consistent.

• In life, everything's habits: some virtuous, other vicious; it's somehow convenient to keep both parts in balance.

RIC

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

José Saramago, Literature Nobel Prize

I met him personally some years ago, maybe a few years before he was awarded the Nobel Prize.
He was still living in Lisbon, and the Portuguese Language Society invited him to take part at a meeting with foreign university students, who were attending a summer course of Portuguese language and culture organized by the Society.
He was well-known already; his presence at different events was highly required, but he gladly acquiesced in spending a whole August afternoon with the students and with us teachers. A wonderful afternoon indeed!
He addressed the students mainly about Memorial do Convento, but he also spoke about the book I still like best, exactly the one he told me back then he liked best too. In it Saramago reveals an astonishing, wondrous knowledge of Pessoa's poetic work.


O Ano da Morte de Ricardo Reis – Português
El Año de la Muerte de Ricardo Reis – Español
L'Anno della Morte di Ricardo Reis – Italiano
L'Année de la mort de Ricardo Reis – Français
Anul Mortii lui Ricardo Reis – Română


The Year of the Death of Ricardo Reis – English
Het jaar van de dood van Ricardo Reis – Nederlands
Das Todesjahr des Ricardo Reis – Deutsch
Det år Ricardo Reis døde – Dansk
Det året Ricardo Reis døde – Norsk
Året för Ricardo Reis död – Svenska
Árið sem Ricardo Reis lést – Íslenska


Rok śmierci Ricarda Reisa – Polski
Rok smrta Ricarda Reise – Česky
Год смерти Рикардо Рейса – Русский

Ricardo Reisin kuoleman vuosi – Suomi
Ricardo Reis halálának éve – Magyar

Ricardo Reis'in Öldüğü Yıl – Türkçe

Το έτος του θανάτου του Ρικάρδου Ρεις – Ελληνηκά

Was it emphatic enough or what?!

If you happen – by one of those unexplainable misfortunes in life… – not to have read this great literary masterpiece yet, I strongly advise you to do so as soon as possible… [Laughing out loud!]

Should your problem be the language, I believe you have no admissible excuse anymore, have you now?…

Saramago doesn't need any kind of advertising besides his own work, but this particular masterpiece is a landmark indeed in 20th century Portuguese literature and culture.

Enjoy it lavishly if you please!

RIC

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Neerlandistiek in | Neerlandística em Portugal


«Een onzekere toekomst voor de neerlandistiek in Portugal
Nabije toekomst


De dynamische werkelijkheid van de neerlandistiek in Portugal verkeert in groot gevaar!
In Lissabon heeft de docent Nederlands te horen gekregen dat haar detachering aan het eind van dit academiejaar afloopt en zij wordt daarom geacht naar haar middelbare school terug te keren.
Haar vertrek betekent het einde van het docentschap Nederlands!
In het beste geval zal een docent aangetrokken worden die per uur betaald krijgt voor een eventuele vrije cursus.
Het gaat heel slecht met de Portugese universiteiten, met de Portugese ambtenarij en met de Portugese economie.
Er moet flink bezuinigd worden en de kans dat de contracten van de docenten Nederlands zonder slag of stoot beëindigd worden is heel groot.
Het einde van die contracten betekent het einde van de docentschappen. Het einde van de docentschappen betekent het einde van alle extra culturele en literaire activiteiten die zij organiseren.
Het universitaire onderwijs Nederlands in Portugal zal gereduceerd worden tot wat reeksjes taallessen binnen de talencentra die de verschillende faculteiten aan het opstarten zijn.
In korte tijd breekt men af wat we in veertig jaar hebben opgebouwd.
Als Nederlands uit het curriculum verdwijnt, zal dat voorgoed zijn.
En dat terwijl binnen de EU meertaligheid en kennis van de talen van de andere EU-partners als speerpunten worden gepresenteerd!»

Nieuwsbrief Internationale Vereniging voor Neerlandistiek, april 2007

Um futuro incerto para a Neerlandística em Portugal
Futuro próximo

A realidade dinâmica da Neerlandística em Portugal corre grande perigo!
Em Lisboa, a docente de Neerlandês foi informada de que o seu destacamento termina no final deste ano lectivo, pelo que deverá regressar à sua escola secundária.
A sua partida significa o fim da docência de Neerlandês!
Na melhor das hipóteses, um docente será contratado como tarefeiro, sendo pago à hora por um possível curso livre.
Muito mal vão as universidades portuguesas, muito mal vai o funcionalismo público português, muito mal vai a economia portuguesa.
Impõem-se poupanças, e é grande o risco de os contratos dos docentes de Neerlandês serem terminados sem apelo nem agravo.
O fim desses contratos significa o fim das docências.
O fim das docências significa o fim de todas as actividades culturais e literárias extraordinárias por elas organizadas.
O ensino universitário de Neerlandês em Portugal será reduzido a uns ciclos de lições de língua dentro dos centros de línguas que as várias faculdades estão agora a criar.
A curto prazo, destruir-se-á o que construímos em quarenta anos.
Se o Neerlandês desaparecer do currículo, será para sempre.
E isto enquanto na UE, o plurilinguismo e o conhecimento das línguas dos outros parceiros da UE são apresentados como pontas de lança!

Publicado na newsletter da IVN – Associação Internacional de Neerlandística, Abril de 2007

Tradução de RIC

Conheci o Instituto de Língua e Cultura Neerlandesas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa por volta do final de 1976.
E, com ele, um dos docentes que mais me marcaram pelo seu estilo sedutor e envolvente de ensinar uma matéria – no caso, uma língua viva – e de tudo pôr em relação.
Falo do saudoso Professor Luís Crespo Fabião. Soube recentemente que já não está entre nós.
Aqui lhe presto a minha singela homenagem e dou testemunho do muito de muita coisa que com ele pude aprender ao longo dos quase quatro anos em que fiz questão de frequentar os sucessivos níveis do curso livre que ele sempre leccionou. Graciosamente.
É a sua obra de quarenta anos que os abutres de hoje – incultos avaros – pretendem destruir. O que será o ano lectivo que agora se inicia?
Independentemente de se ser estudante do curso oficial ou do livre, houve sempre lugar como bolseiros para todos os melhores nos cursos de Verão, quer na Bélgica (Gent, Flandres Oriental) quer nos Países Baixos (Breukelen, Utreque).
Se com o Professor Fabião aprendi essencialmente Neerlandês, aprendi também muito Inglês e Alemão e Latim e Grego e... Português, bem entendido, e, provavelmente, o melhor que de tudo isto me ficou: o intenso treino de tudo pôr em relação.
E nunca esqueci que informação não será nunca saber enquanto não for devidamente interiorizada, assimilada e posta em relação.
Bem-haja, meu bom Professor e amigo, onde quer que esteja!

Eterna saudade do

Ricardo


Divulgação

O romance De tweeling, de Tessa de Loo, exibido na barra lateral em representação da literatura neerlandesa, foi já publicado em tradução portuguesa de Ana Leonor Duarte com o título As Gémeas, pela editora Quetzal.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Da existência…


Morte e Vida

De um para o outro extremo
Existo.
Duro.
Vivo sendo até à morte.
Existo durando até estar morto.
Um, o caminho.
O outro, a espera.

É a hora.
Aninho a cabeça entre a plumagem
Do dorso da grande ave cega.
Ela voará.
Não saberei nunca para onde
Por matérias, moléculas, átomos, partículas
Cargas, energias, plasmas, cordas e lacetes
E por tudo o mais que houver e não houver.

Por todo o lado há negros sorvedouros
Que transmudam ledas vidas
Em mestas passagens.


Das areias por um sopro de vida resgatado

Sempre que se é morto sem porquê

O fim do caminho vem entrando pela última noite dentro.
Aquieta-se o corpo, ainda intranquilo.
Eterno o indiferente vaivém do mundo tomado nas mãos
Quebrado, esfarelado, arremessado ao acaso de ritos.

Não rebentam bombas em mercados.
Caem olhares no chão cheios de pudor.

A cortina vítrea da boca de cena aprisionou há muito
Pulsos abertos e veias cortadas e sangue a jorros
Com lágrimas que caem.
A cortina é baça.
O pulsar é lento.

Na madrugada marcial
A luz cortante exibe a poça fria
Do sangue e das lágrimas
Da carne retalhada
Da dor desprendida
Da vida
Na casa jazigo.

RIC

domingo, 23 de setembro de 2007

Cape of Good Hope and the Giant Adamastor

Os Lusíadas, usually known by the title «The Lusiads» in English, is a Portuguese epic poem by Luís Vaz de Camões – sometimes spelled Camoens in English – and is considered one of the most important works of World literature.
Written in Homeric fashion («Iliad» and «Odyssey»), the poem – in ten Chants/X Cantos – focuses mainly on a fantastical interpretation of the Portuguese voyages of discovery during the 15th and 16th centuries.
The poem is often regarded as Portugal's national epic, much in the way as Virgil's «Æneid» was for the Ancient Romans.
It was first printed in 1572, three years after the poet returned from the Orient.

In the fifth Chant – Canto V – the story moves on to the King of Melinde (eastern Africa), describing the journey of the Armada from Lisbon to Melinde.
During the voyage, the sailors see the Southern Cross, St. Elmo's Fire or the Maritime Whirlwind, and face a variety of dangers and obstacles such as the fury of a monster in the episode of the Giant Adamastor.
The Canto ends with the poet's censure of his contemporaries that despise poetry.



The Giant Adamastor is a Greek-type mythological character invented by Camões, as a symbol of the forces of nature Portuguese navigators had to overcome on their discovery travels:

"Chill the flesh and the hairs
To me and all
[the others] only by listening and seeing him".

"Arrepiam-se as carnes e os cabelos
A mim e a todos só de ouvi-lo e vê-lo".

This is intended to convey pure fear, the imminent threat of annihilation. The evil demigod is preceded by a black cloud, which appears above the heads of the sailors.
Expressing the surprise he experiences, Gama quotes himself:

"Oh divine power – [I] said – sublimated,
What divine threat or what secret
This clime and this sea presents to us
That seems a bigger thing than a storm?"

"Ó potestade – disse – sublimada,
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?"

As a "strange Colossus"/"estranhíssimo Colosso", "Rude son of the Earth"/"Filho aspérrimo da Terra", Adamastor became the Spirit of the Cape, a hideous phantom of unearthly pallor:

"Even as I spoke, an immense shape
Materialised in the night air,
Grotesque and enormous stature
With heavy jowls, and an unkempt beard
Scowling from shrunken, hollow eyes
Its complexion earthy and pale,
Its hair grizzled and matted with clay,
Its mouth coal black, teeth yellow with decay."

"Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos."

Such emphasis on the appearance of the Adamastor is intended to contrast with the preceding scenery, which was expressed as "seas of the South" ("mares do Sul"):

"The winds blowing favourably
When one night, being careless
In the cutting bow watching,"

"Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,"

Camões gave his creation a history as one of the Giants of Greek mythology who had been spurned by Thetis, now appearing in the form of a threatening storm cloud to Vasco da Gama and threatening ruin to anyone hardy enough to pass the Cape and penetrate the Indian Ocean, which was Adamastor's domain.

Cape Point: the tip of the Cape Peninsula where the Atlantic and Indian oceans come together

«Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Pólo Antárctico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.»

«I am that one occult and great Cape
That you others call Tormentor,
That never by Ptolemy, Pomponius, Strabo,
Pliny and many before was known.
Here the entire African coast I finish
In this mine never seen Promontory,
That to the Antarctic Pole extends,
To whom your boldness so much offends.»

Thus it represents the dangers Portuguese sailors faced when trying to round the Cape of Storms, henceforth called, in consequence of the resultant success in despite thereof, Cape of Good Hope.

Adamastor has figured in much poetry of the Cape.

It is also mentioned in the opera «L'africaine» (1865) about Vasco da Gama by the composer Giacomo Meyerbeer. The slave Nelusko sings a song about Adamastor while he deliberately steers the ship into a storm and it sinks.

In «The First Life of Adamastor», a novella by André Brink, the writer refashioned the Adamastor story from a 20th-century perspective.


A popular gathering place in Lisbon is also known by the name «Adamastor» because of the large stone statue of the mythical figure which presides over the space, officially called the «Miradouro de Santa Catarina». This vista point offers visitors some of the most breathtaking views of the Tagus, the 25th of April Bridge and the Cristo Rei monument.

RIC & Wikipedia


I dedicate this post to my blogger friend Cape Town Musician.
No especial honour to him, for sure, just a gentle thought of mine…