segunda-feira, 8 de outubro de 2007

De Camões dois sonetos...

Memória de meu bem, cortado em flores
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos, que espero infortunados;
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora junto quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não uma só, dura memória!


Um belíssimo fado, todo ele enlevo, na voz de Amália.


O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música, com voz alta e mui sentida
Levanta por a praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada,
E dela está chorando a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim eu, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando postos já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei, por os vossos desfavores,
La vuestra falsa fe, y el amor mío.


… Poesia das subidas esferas
Para deleite das almas inquietas…

RIC

14 comentários:

Condessa disse...

A minha alma é inquieta, vim aquietar-me aqui, na vossa nobre biblioteca virtual, onde cada post é um livro que se abre para me ensinar aquilo que ainda não sei.
Beijo-vos com fulgor meu caro Escrivão

RIC disse...

Olá excelsa Condessa!
Muito me apraz saber por vós que vossa alma é inquieta, pois assim mais azinha e facilmente sabereis como aquietá-la.
Quanto à minha biblioteca virtual, é muita bondade vossa referir-vos a ela com tal entusiasmo. Vou apenas mostrando o que muito me agrada e que cuido agradará também a outros/as. E tenho muito por onde escolher! Felizmente!
Retribuo-vos o beijo com algum enlevo de violinista... Um escrivão não escreve apenas...
A vós, cara Condessa, os meus respeitos! :-)

Leo Carioca disse...

Oi, Ric.

Lindos esses sonetos!
Aliás, por falar em poemas, o poema do sabiá que você mencionou no meu blog é a ´Canção do Exílio`, do Gonçalves Dias?
Bom, em grande parte é por causa dele que o sabiá-laranjeira é considerado uma das aves que simbolizam o Brasil. Até mais do que a ararajuba, já que essa é uma ave de floresta, enquanto o sabiá é encontrado tanto na floresta quanto nas áreas mais urbanas.
De qualquer forma, ainda falta algum grande poeta brasileiro celebrar a ararajuba, né?rs Afinal, o sabiá já teve a parte dele:

´´Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá...``

Até mais! Abração!

Bernardo Moura disse...

Soube-me bem ler estes dois poemas antes de começar mais um dia de "luta"!
Abraço

RIC disse...

Olá meu caro Leo!
Talvez por causa da minha formação em letras, fico sempre um pouco surpreendido com a adesão que muitos manifestam à publicação de poesia nos blogues... Penso sempre que há temas e assuntos que interessam muito mais a muita gente, mas bem vistas as coisas parece que a poesia vai fazendo milagres...
É, de facto, ao poema de Gonçalves Dias que eu me referi. Poema que, tanto quanto julgo saber, ele escreveu em Coimbra, quando lá estudava... É uma maravilha! Gosto muitíssimo!
Há-de haver um poeta para a ararajuba! É só dar tempo ao tempo!
Um abração para ti também! :-)

RIC disse...

Olá Bernardo!
Com estas tuas palavras ganhou mais razão de ser ter trazido aqui Camões! Se acaso outras razões não houvesse...
Muito obrigado!
Um bom dia para ti! E uma justa luta!
Abraço! :-)

Tongzhi disse...

É engraçado como muitos dos teus posts são, para mim, um álbum de memórias...
Já não é a primeira vez que isto acontece.
Contudo, fico um bocado inquieto... é um indicador que estou um bocado afastado de certo tipo de "leitura", ou "literatura"...
Abraços

RIC disse...

Olá meu caro Tongzhi!
Para veres que tudo tem sempre várias perspectivas, dou-te aqui e agora conta do que acabei de sentir ao ler o teu comentário. Quando cheguei às reticências a seguir a «inquieto» pensei: «agora vai dizer-me ou que vivo num mundo desgarrado da realidade ou então que vivo de recordações...»
Por partes então: quanto ao facto de muitos éditos poderem ser ecos e recordações parece-me acertado, meu caro, já que de certo modo tenho vindo a fazer aqui um «registo» de quanto me tem «impressionado» ou agradado ao longo da vida; porque as nossas idades são próximas, é pois natural, a meu ver, que vejas este espaço como um álbum de memórias.
Já quanto à tua «inquietação», só tu poderás ajuizá-la em pleno, é claro, mas se a sentes é bom sinal: sinal de que não estarás assim tão desgarrado e sabes bem o que é o quê. Se lhe sentes a falta ou não, isso será já outro assunto...
Obrigado pela reflexão que me proporcionaste!
Abraços para ti também! :-)

Tongzhi disse...

Não tem nada a ver com o que referes.
Na vida temos de fazer opções. Em termos profissionais, no que está ligado ao centro de investigação, tenho de fazer muitas leituras, leituras a que eu chamo de "técnicas"... Como o tempo não estica, fica-me pouco tempo para revisitar leituras feitas há "bué" de tempo...
Felizmente algumas vou recordando aqui.
Abraço

RIC disse...

... É evidente que as obrigações profissionais nos afastam das devoções pessoais... Quantas vezes não me apetece estar a ler ou a reler X e tenho de ler Y... Nada a fazer! São as tais «opções» que se impõem por si.
Gentileza a tua dizer que as leituras é que têm «bué da tempo»... Rsrsrs!
Bem, mas se é «felizmente» fico muito contente! Significa que: 1) não estou sozinho; 2) são ecos que interessam a outrem; 3) não são assim tão disparatados como por vezes penso antes de editar... Rs!
Abraço! :-)

MrTBear disse...

O TZ tem razão.... o tempo afasta-nos de certas coisas.

Mas também é o tempo que já levamos que nos faz ter "alma" para apreciar as coisas boas da vida

Camões é, definitivamente, uma delas.
Obrigado por te lembrares

RIC disse...

Olá meu caro Teddy Bear!
O tempo... e a própria vida.
Quanto ao apreço pelas coisas boas da vida, concordo integralmente contigo: ainda hoje me surpreendo a apreciar «coisas» que há poucos anos me deixariam indiferente...
«Muda-se o ser, muda-se a confiança»...
Não tens de quê, meu caro! O prazer é definitivamente todo meu, garanto-te! E... lembro-me bem mais vezes do que é «visível»...
Um abraço para ti! :-)

Special K disse...

E há tantas almas inquietas por aí. Dois lindos sonetos, ambos falam do fim de algo. Incrível como há cerca de 500 anos já havia este sentimento fatalista e triste que havia de ser a génese do fado.

RIC disse...

Olá Paulo!
Bem observado, meu caro! Não fosse o discurso tão claramente camoniano e o primeiro soneto cantado por Amália «passaria» por uma letra contemporânea de fado! E a música (não sei de quem...) é simplesmente lindíssima!
Pelas reacções, Camões continua na maior! Rsrs!
Abraço! :-)