sábado, 6 de outubro de 2007

«Je est un autre.» Arthur Rimbaud

[De la lettre dite "du Voyant" à Georges Izambard]

«Charleville, 13 mai 1871.

Cher Monsieur!

Maintenant, je m'encrapule le plus possible. Pourquoi? Je veux être poète, et je travaille à me rendre Voyant: vous ne comprendrez pas du tout, et je ne saurais presque vous expliquer. Il s'agit d'arriver à l'inconnu par le dérèglement de tous les sens. Les souffrances sont énormes, mais il faut être fort, être né poète, et je me suis reconnu poète. Ce n'est pas du tout ma faute.
C'est faux de dire: Je pense: on devrait dire: On me pense. – Pardon du jeu de mots. –
Je est un autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et nargue aux inconscients, qui ergotent sur ce qu'ils ignorent tout à fait!»


[Excerto da carta dita "do Vidente" a Georges Izambard]

Charleville, 13 de Maio de 1871

Caro Senhor!

Agora, torno-me um crápula tanto quanto possível. Porquê? Quero ser poeta, e trabalho para tornar-me Vidente: não compreenderá de forma nenhuma, e eu quase não saberia explicar-lhe. Trata-se de chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é necessário ser forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. Não é de forma alguma culpa minha. É falso dizer: Eu penso: deveria dizer-se: Pensam-me. – Perdão pelo jogo de palavras. –
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e desprezo aos inconscientes, que discutem sobre o que ignoram completamente!


O motivo mais interessante para trazer aqui Rimbaud seria decerto a sua poesia. Porém, este preâmbulo tem a sua razão de ser, antes de aqui trazer, por exemplo, «Le bateau ivre».

Por um lado, o cerne deste excerto é título de uma fotografia «distante» que figura aqui, na barra lateral deste blogue. Houve quem já tivesse manifestado alguma perplexidade, pelo que espero este édito possa esclarecer dúvidas remanescentes.

Por outro, há muito que a célebre frase fez História. No mundo das «artes poéticas» nascidas com os Gregos, e até aos dias de hoje, muitos têm sido os poetas que têm apresentado os seus «programas» ou as suas «receitas» para a poesia: de um simples poema programático a verdadeiros tratados que são hoje clássicos indispensáveis aos estudos literários.

«Je est un autre» é, para a época, a declaração radical do «eu» cindido, isto é – e sem entrar em considerações mais complexas –, o poeta descobre e aceita que há nele várias vozes que falam através dele. Assim, «eu sou» pode também ser «eu» é outro que me pensa. Daí, o referido trabalho para tornar-se vidente após ter-se reconhecido poeta.

«Eu é outro» – um paradoxo – o pronome que designa aquele que fala, aquele que julgamos conhecer melhor, seria – a crer em Rimbaud – outro. O sujeito nunca é, segundo Rimbaud, idêntico a si mesmo. Existe apenas no movimento que o faz diferir de si: transforma-se constantemente.

A metáfora que se segue a esta fórmula permite precisar-lhe o sentido: da madeira ao violino há toda a diferença que separa o material bruto, a matéria-prima, do instrumento de música. A transformação da madeira remete para a do sujeito, chamado a tornar-se outro e a enriquecer-se com esta aventura.

Eis o que ignoram os inconscientes, que as promessas desta metamorfose deixam indiferentes e que preferem continuar reféns da lógica da identidade.

RIC

8 comentários:

Special K disse...

Conheço-lhe alguns poemas mas pouco sei do homem que os escreveu. Excelente este teu texto Fiquei com vontade de conhecer melhor este vidente que quis ser poeta ou este poeta que foi vidente.
Um abraço.

RIC disse...

Olá caro Paulo!
A promessa está feita! Depois desta apresentação vou trazer aqui alguma da sua poesia - que ele escreveu sobretudo entre os 15 e os 21 anos! Um caso absolutamente fascinante e espantoso! Sem dúvida um dos vultos máximos do simbolismo francês - que tantos frutos daria entre nós.
Muito obrigado, meu caro!
Uma excelente semana para ti!
Um abraço! :-)

Shadow disse...

Agora já compreendo muito melhor a frase que dá o título à fotografia na barra lateral. Distante? Ora essa...
Não conheço muito da poesia de Rimbaud, por isso ficarei ansiosamente à espera que cumpras a promessa!

Uma excelente semana para ti!
Beijinhos :-)

( ó p'ra mim toda orgulhosa a estrear a «sombra» ali ao lado. Mais uma «prova» superada! )

RIC disse...

Olá querida Susana!
Já tinha reparado no B/W que já tinhas superado a tarefa de definir um avatar! Muitos parabéns, minha cara! Creio bem que a escolha não poderia ser mais acertada! Gosto mesmo muito!
Pois é, tu fazias parte do grupo dos perplexos... Até porque tratando-se de Francês... Curiosamente - e apenas a título de anedota - houve até quem me chamasse a atenção para o facto de a frase estar gramaticalmente errada! Fartei-me de rir!
A foto é «distante» apenas porque é «de longe»... Rsrsrs!
Quanto à poesia de Rimbaud, veremos o que conseguirei encontrar em termos de traduções aceitáveis... Não creio que seja tarefa fácil!...
Excelente semana - sobretudo esta! - para ti!
Beijinhos para ti também! :-)

Catatau disse...

A primeira vez que "contactei" com Rimbaud, foi através da Patti Smith, vê lá tu (andava eu na minha fase pós-punk, rsrsrsrs).

Gostei muito da metáfora. É sempre actual. :)

RIC disse...

Olá João!
Impressionante, sem dúvida (ainda que não me surpreenda totalmente): Rimbaud «via» Patti Smith!... As voltas que este mundo dá!...
Não há dúvida que os simbolistas chegaram para dar a volta à cabeça a muita gente! Não é em vão que são, no seu conjunto, os «poètes maudits»...
Ah a metáfora! Eu não a conhecia! Descobri-a ao ler toda a carta. Faz todo o sentido e esclarece as questões da vidência e da alteridade.
Um abraço para ti, meu caro! :-)

Bernardo Moura disse...

Sempre a aprender!
Obrigado!
Ab
:)

RIC disse...

Olá caro Bernardo!
Não tens de quê! Os prazeres da descoberta são todos meus! Rsrsrs!
Quanto a querer aprender, é uma atitude muito louvável! Só ganha quem se aventura, e a aventura do saber pode ser uma mina de ouro a explorar! Nem só de pão vive o homem!...
Um abraço para ti também! :-)