segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Da existência…


Morte e Vida

De um para o outro extremo
Existo.
Duro.
Vivo sendo até à morte.
Existo durando até estar morto.
Um, o caminho.
O outro, a espera.

É a hora.
Aninho a cabeça entre a plumagem
Do dorso da grande ave cega.
Ela voará.
Não saberei nunca para onde
Por matérias, moléculas, átomos, partículas
Cargas, energias, plasmas, cordas e lacetes
E por tudo o mais que houver e não houver.

Por todo o lado há negros sorvedouros
Que transmudam ledas vidas
Em mestas passagens.


Das areias por um sopro de vida resgatado

Sempre que se é morto sem porquê

O fim do caminho vem entrando pela última noite dentro.
Aquieta-se o corpo, ainda intranquilo.
Eterno o indiferente vaivém do mundo tomado nas mãos
Quebrado, esfarelado, arremessado ao acaso de ritos.

Não rebentam bombas em mercados.
Caem olhares no chão cheios de pudor.

A cortina vítrea da boca de cena aprisionou há muito
Pulsos abertos e veias cortadas e sangue a jorros
Com lágrimas que caem.
A cortina é baça.
O pulsar é lento.

Na madrugada marcial
A luz cortante exibe a poça fria
Do sangue e das lágrimas
Da carne retalhada
Da dor desprendida
Da vida
Na casa jazigo.

RIC

16 comentários:

Ricardo disse...

Poesia é algo muito particular!

Gostei da primeira!

Beijão!

RIC disse...

Olá Ricardo!
É sem dúvida algo muito particular, concordo. Por isso mesmo será «poesia» e não outra coisa qualquer... Rsrs!
Mas onde é que está escrito que estes textos SÃO poesia?! Ou é a mancha gráfica que «dita a moda»? Não me parece...
O primeiro é «genérico»; o outro é mais específico. Não passam de apontamentos de ideias...
Obrigado, meu caro, pela tua opinião, naturalmente!
Abrações e beijões não poéticos!
:-)

Catatau disse...

Hum... estamos nimbados de estética romântica!... ;)

RIC disse...

Olá João!
«Nimbados de estética romântica«?... Que eu saiba, não bastam os temas da morte e da noite (ou referências a ambas...) para estarmos a braços com a estética romântica... E o «locus horrendus»? E o belo horrível?...
De qualquer modo, como «isto» não é poesia, tudo bem na mesma! Rsrs!
Obrigado pela tua opinião!
Um abraço! :-)

Bernardo Moura disse...

É um tema duro. De dificil abordagem. Mas abordaste-o bem! Contudo, é algo de que não me apetece nada falar é da morte, desculpa.
Abraço

RIC disse...

Olá meu caro Bernardo!
Como sabes, aqui ninguém TEM DE falar de coisa nenhuma. Se tivesses ficado pelo ponto de exclamação, na mesma estaria tudo perfeito. E não tens de pedir desculpa de nada.
Sei que o tema é pesado, mas tenho - para mim - que os blogues não são apenas meios de entretenimento. Como quem aqui vem tem a sua liberdade garantida, se não comentar ou se quiser «brincar» com os assuntos, é evidente que está à vontade para o fazer.
Obrigado pela tua opinião positiva e desculpa se, sem o querer, te causei algum incómodo. O objectivo não é de todo esse, bem entendido!
Um abraço para ti também! :-)

Special K disse...

Olá Ricardo. Tens razão ao dizer que os blogues não são só entretenimento mas esta postagem assustou-me um pouquinho. A morte faz parte da vida, mas continua a ser um mistério. A morte é o desconhecido, e nós tememos sempre o que não conhecemos.
Um abraço

Minge disse...

I wish I spoke Portuguese! Translation sites ruin such beautiful text.

RIC disse...

Olá caro Paulo!
As tuas palavras suscitam-me tão longo comentário que daria facilmente outro édito. Não vou por aí.
Quanto a mim, a questão prende-se menos com o facto de a morte ser um mistério (ou não, tudo dependendo das ideias e das convicções de cada um...) do que ser um tabu. E nas sociedades (ditas) católicas, a morte é um tabu. Compreendo o teu ponto de viata e respeito-o. Mas deixa-me dizer que tal atitude se assemelha, para mim, à estratégia da avestruz.
Qualquer texto «codificado» (poético ou não) permite várias leituras, ainda que o tema seja evidente. E o temor do desconhecido tem apenas uma consequência, esta sim, nada positiva: a paralisia.
Falando abertamente de mim, já «cá» não estaria há muitos anos se não tivesse conseguido enfrentá-la.
Obrigado, caro Paulo, pela tua opinião! É também para o confronto de opiniões que os blogues podem/devem servir, acho eu...
Um abraço para ti também! :-)

Shadow disse...

Embora pesado, prendeu-me da primeira a última palavra.
Não sabendo (nem interessam para aqui), as razões que te levaram a fazer este apontamento de ideias , elas acabam por fazer parte de todos os nossos quotidanos...E sendo, para mim, a morte um assunto tão delicado, não me inquietou nada ler este édito. Para reflectir, no mínimo!
Quanto à escolha da foto, nota máxima.
Encheu-me as medidas este «post»! Obrigada!

Beijinhos! :-)

RIC disse...

Hello dear Minge!
It seems to me you've been recently aiming at the wrong day!
Yesterday's post was especially written for foreign blogger friends who like to get to know Portugal a bit better...
As for today, I really can be of no help to you... Though I don't consider those two texts as poetry, I wouldn't be able to translate them even if I wanted to very, very much. So sorry!
Greetings! :-)

RIC disse...

Olá querida Susana!
A reflexão decorre independentemente das razões objectivas e subjectivas que lhe são subjacentes. Ou seja, à medida que vamos reflectindo, o pensamento vai-se «apurando». Daí, eu falar em textos «codificados» que não são poemas, porque não foram escritos com a intenção de o serem. Dito isto, creio - como tu - que todos nós, mais ou menos, já nos confrontámos alguma vez com o facto da vida que é a morte. Compreendo e aceito que o tema incomode e perturbe alguns. Mas eu quis trazer estes textos para aqui, também porque metaforicamente o Outono é a morte de um ciclo.
Quanto à foto - e respectiva legenda -, de algum modo até são uma promessa de vida... Acho eu...
E se consideras útil teres reflectido, tanto melhor! Fico contente por ti e por mim! E não tens de agradecer por nada!
Um beijinho! :-)

Leo Carioca disse...

Oi, Ric.
Pra mim, assim como pro Ricardo, esses textos pareceram poesia, sim. Apesar de não serem exatamente isso, né?rs
E também tenho que concordar com o Minge: translation sites ruin ANY beautiful text!rs Eu até evito usar, porque às vezes saem umas traduções tão loucas que a gente não entende nada, né?

RIC disse...

Olá Leo!
Pois é, meu caro, sabes bem que mancha gráfica não é critério para definir poesia...
Quanto a «altavistar» textos... Bem, se não se souber alguma coisinha da língua de chegada, o melhor é mesmo não arriscar... O perigo de muitos disparates e absurdos é MUITÍSSIMO grande! Rsrs!

lampejo disse...

Eis o perfume da vida...
Abraço!

RIC disse...

Olá meu caro Lampejo!
Tudo bem? Assim espero!
Parabéns atrasados!... Desculpa, mas não sabia...
Quer parecer-me que te referes à foto e à legenda, essas sim, mensagens «bem perfumadas»...
Um abraço para ti também! :-)