quarta-feira, 9 de maio de 2007

I. Knowledge is a spaceless asset indeed!

Opportunities and chances do not advertise themselves, but if you do it for them they're indeed much more likely to happen and to come your way. I believe this is what advertising is mainly all about…

There's a first time for everything. And in this Lisbon of many olden adventures there's nothing like publicizing what each one has really to offer, because when you least expect it you come across someone who's definitely interested in what you've got to offer…

If you happen to be in these circumstances – or to know of any friend or acquaintance of yours who may be – and if you happen to be at home in west Lisbon, please don't hesitate: make use of the comments page to establish a first contact between us; I myself guarantee that I shall be back to you as atentively and as soon as possible!


O saber não ocupa lugar!

Oportunidades e ocasiões não se publicitam a si próprias, mas se nós as publicitarmos é bem mais provável que ocorram. Será este, estou em crer, um dos lemas da publicidade…

Há uma primeira vez para tudo. E nesta Lisboa de aventuras multisseculares não há como dar a saber aquilo que cada um está pronto a oferecer, porque quando menos se espera há alguém interessado no que temos para oferecer…

Se se encontra nestas circunstâncias – ou alguém no seu círculo de amizades e conhecimentos – e se se movimenta sobretudo na zona de Lisboa ocidental, então não hesite: sirva‑se da página de comentários para estabelecer um primeiro contacto entre nós, que eu garanto responder‑lhe tão atentamente e tão depressa quanto possível!

(Não se trata aqui de publicitar as tradicionais explicações, mas sim de lançar as bases de um exequível plano individual de estudo acompanhado, responsavelmente contratualizado entre adultos. Para quem precise ou se queira deixar tentar pela sugestão…)

… E, já agora, se tem mais de 23 anos deveria ponderar seriamente a possibilidade de ingressar no ensino superior. Uma hipótese – entre muitas outras – a considerar está disponível até ao próximo dia 15 em www.univ-ab.pt, através do e‑learning… Quem sabe se…? Boa sorte!

RIC

quinta-feira, 3 de maio de 2007

«Les derniers instants d'une année…» (1.ª parte)

«Ao café‑bar Le Pavillon de la Reine iam chegando foliões, uns atrás dos outros, aos magotes, e a meia‑noite ia-se aproximando. O Jean‑François, o Patrick e o Pascal haviam‑me convidado para o réveillon. Temo‑nos encontrado quase todos os dias, entre o final da tarde e a hora de jantar, para bavarder no embalo calmante de umas cervejas, e já aproveitei alguns conselhos que insistentemente me têm dado. "Antes de ter um povo, a Europa tem a sua cidade, e essa cidade é Paris", declarou o Pascal todo ufano e muito orgulhoso, citando com ênfase Victor Hugo. Os três são parisienses convictos e ferrenhos, nados e criados na cidade e, por um chauvinismo exacerbado, são incapazes de admitir a hipótese, por mais remota, de à face da Terra existir outra metrópole tão bela ou, para eles muito menos aceitável, de poder sequer haver alguma ainda mais bela. Fora de cogitação. Por um instante, a conversa incendiou‑se quando fiz chispar a faísca da rara beleza de Lisboa, la ville blanche. Convindo enfim que cada um sente a sua cidade de eleição de acordo com o amor que lhe dedica, conseguimos chegar a uma entente cordiale. Como os três mosqueteiros, eles lutariam ao lado do seu chevalier du Paris, enquanto eu permaneceria o indefectível defensor da minha dama, Lisboa, a Princesa do Tejo. E assim todos nos acalmámos e tudo acabou em bem. Estava frescote, mas ainda assim o ambiente era aprazível pela grande euforia do momento, quase um convívio de amigos que já se conhecessem há muito, para o que contribuíam a solicitude, a excelente disposição e a simpática intenção dos três barmen de integrarem todos, apesar de muitos, numa roda genuinamente festiva.


Embora o café‑bar estivesse cheio até mais não, reparei que a uma mesa mais retirada estava sentado um indivíduo de vinte e tal anos, talvez trinta, de ar elegante e distinto, com o que me pareceu ser um caderno à frente, no qual ia escrevendo sem parar, a um ritmo alucinante. Durante o dia deve ser daqueles que andam de portátil sempre atrás e o utilizam onde quer que calhe, ocorreu‑me. Olhava de vez em quando em volta sem fixar o olhar em nada, como se fisicamente não estivesse ali e apenas vogasse, absorto, à tona do que poderia muito bem ser uma viagem interior ou um simples devaneio. Nem pelo aspecto nem pelo vestuário parecia francês. Seria decerto um estrangeiro que, mesmo a dois passos do Ano Bom, não queria perder um só instante de um súbito e luminoso acesso de inspiração. Magro mas não emaciado em excesso, de pele quase transparente de tão branca, um rosto glabro quase imberbe, tinha o cabelo curto quase incolor de tão louro, os olhos grandes, cinzentos e frios como o metal de que pareciam feitos, e pestanas e sobrancelhas invisíveis, quase inexistentes. A iluminação apenas reforçava a aparência albina. Levantou‑se num repente e dirigiu‑se ao balcão, como se viesse ao meu encontro. Teria cerca de um metro e oitenta. Fez um pedido que não percebi e, enquanto aguardava que o servissem, virou‑se para mim e, num francês marcado por uma vincada entoação e um manifesto sotaque anglo‑saxónicos, desejou‑me com um sorriso franco Bonne Nouvelle Année. Retribuí com Happy New Year e a conversa disparou.

Chamava‑se Mark McGill, nascera em Brisbane, era jornalista em Melbourne, numa revista que comparou ao Nouvel Observateur, estava em Paris para fazer uma reportagem sobre o réveillon e viera à Europa sobretudo para entrevistar um escritor britânico. E era por aí que parecia querer prosseguir, como se adivinhasse que aquela esquina da conversa seria talvez a minha preferida. Mas antes tratámos de quebrar o gelo das apresentações. Ao saber que eu era português, com um refinado sentido da piada fácil atirou‑se à hipótese, nada simpática ao academismo australiano, de terem sido os portugueses os primeiros a aportar ao continente‑ilha cerca de 1522, disse, noventa anos antes dos holandeses e, portanto, muitos mais ainda antes dos súbditos de Sua Majestade, e comandados por um tal Cristóvão de Mendonça, frisou. Isto de se afrontar as imperiais certezas anglo‑saxónicas de aquém e de além-mar, de ontem e de hoje, começou ele por ironizar, é muito delicado. Revela‑se até perigoso, e sorriu. Quem sabe se portugueses não terão então aportado onde se ergue hoje Melbourne, alvitrou já com um sorriso de gozo, dando depois uma sonora gargalhada, como quem se divertisse a antever apuros alheios. E foi conjecturando se, quem sabe, um antepassado meu não teria embarcado rumo aos antípodas, em busca da famigerada Ilha do Ouro, se teria visto por lá cangurus e aborígenes e deixado memória escrita da façanha. Há uma caravela de mogno perdida no litoral austral e as chamadas chaves de Geelong, envoltas em sucessivos mistérios desde o século XIX e que terão aberto as portas do ignoto sul. E que dizer do mapa Delfim, concluiu com um suspiro. Não, pude eu enfim responder entre risos, por acaso a minha avó materna era Mendonça por parte da mãe, mas na família não houvera, que eu soubesse, nenhum Mendes Pinto peregrino austral. Agradou‑me aquele inesperado e invulgar à‑vontade com a nossa gesta dos Descobrimentos, além da franqueza e da espontaneidade, e demos ambos umas gargalhadas fáceis e fartas. Estava quebrado o gelo.

Retomámos o rumo da conversa, ainda embalados pelo fluxo do riso. Por desatenção não fixei o nome do tal escritor britânico, mas há uns anos um filme baseado num romance seu não me passou despercebido. Qualquer coisa a ver com a remodelação do corpo humano através da mais recente tecnologia, com alguma descrença pelo meio. A traços largos foi então revelando o homem e o artista, como se em voz alta recapitulasse incrédulo apontamentos que lhe pareciam agora pouco ou nada úteis para a entrevista, cujo título seria "Carta de Um Esteta ao Horrendo Triunfante". Fiquei expectante. Já em idade avançada, para não dizer provecta, mantinha um olhar penetrantemente lúcido e crítico sobre o mundo, o que o Mark achava inverosímil, disse, por ser um homem quase recluso de uma vida pacata e doméstica em Shefford, uma tranquila povoação quase bucólica a norte de Londres. Que pudesse revelar uma consciência tão aguda de fenómenos que exigiriam uma movimentação muito mais activa em ambientes que em nada se coadunavam com hábitos tão caseiros, era um verdadeiro mistério, acrescentou. De pais britânicos, nascera e passara a infância no Extremo Oriente, tivera uma sólida formação clássica e fizera estudos para seguir medicina, que depois veio a abandonar. E foi chegando a conclusões perturbadoras sobre o que hoje chama o redimensionamento ou o recondicionamento psicológico do homem. É‑lhe indiferente a designação, a etiqueta a apor, e deixa isso a outros. O que lhe interessa é o processo em si em acção.

A Έρως e Θάνατος, os princípios do prazer e da realidade de um Freud que o escritor prefere continuar a considerar um excelente ficcionista – embora haja quem afirme serem tais princípios admiráveis transposições simbólicas de interpretações muitíssimo argutas –, deve hoje juntar‑se kakoΰrγoν. Tudo o que é malvadez. E não se servia dos caracteres romanos, lamenta‑se o Mark, como se todos nós estivéssemos familiarizados na perfeição com o Grego Clássico de Eros e Thánatos e kakúrgon. É esta tríade, é este triângulo de forças que define o homem de hoje, assevera o escritor. Amor, morte e malvadez. Nada que tenha a ver com o que os libertinos de outrora deixaram associado a práticas sadomasoquistas, que é antes uma violência desejada e consentida potenciadora dos prazeres, tanto do infligidor como do sofrente. É, outrossim, uma malvadez pela malvadez pura, que desvela e expõe o mal inflicto com uma violência arrepiante, de acordo com uma informe antiestética da repugnância voyeurista, uma abjecta antiética da disseminação criminosa do mal gratuito e um repulsivo erotismo da mutilação exibicionista. Hollywood, o Bosque de Azevinho, sublinha o escritor com sarcasmo, aprimora a antifilosofia e dá o tom com milhares de fitas que não são cinema. As únicas, porém, que fazem encher as salas, a todas as horas e por todo o lado, de ociosos tendencialmente delinquentes empunhando baldes de pipocas e copázios da mistela globalizada. É um novo processo de socialização, afirma o escritor, sem que o Mark tivesse detectado aqui a mínima ponta de ironia, a qual impõe a infantilização desculpabilizadora enquanto estratégia suprema de vida e a barbárie instituída enquanto objectivo social último, como se o caminho a percorrer tenha forçosamente de ser o que conduz, tarde ou cedo, ao aniquilamento da civilização e da cultura e a um retrocesso à sobrevivência troglodítica e tribal. O mundo dito civilizado vai‑se dissolvendo, rumo a outra pré‑história – uma inequívoca pós‑história –, já sem o homem. Da civilização restam ruínas. É olho por olho, dente por dente. E vai surgindo um novo canibalismo, desta vez à escala planetária.»

[Continua... Um dia destes...]

RIC

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Did the Portuguese really «discover» Australia?...

Cristóvão de Mendonça was a Portuguese sailor and statesman, who was active in South East Asia in the 16.th century. He is known from a small number of Portuguese sources, notably João de Barros. Barros was one of the first great Portuguese historians − a «chronicler» −, most famous for his work «Décadas da Ásia» («Decades of Asia»), a history of the Portuguese empire in India and Asia, published between 1552 and 1615. Barros mentions that Cristóvão de Mendonça was the son of a Pedro de Mendonça, of Mourão, but his date of birth is not given. Mendonça later governed Hormuz as Captain-Major from 1527. He died there in 1532.

Mendonça is named by Barros as the captain of a ship that left Lisbon in 1519. He appears again in Barros’s account with instructions to search for Marco Polo’s legendary Isles of Gold. However, Mendonça and other Portuguese sailors are then described as assisting with the construction of a fort at Pedir, Sumatra, Indonesia. Barros promises to return to the topic of the voyage to the Isles of Gold, but does not.

In the late 20.th century Mendonça’s name became well known in Australian History discussions when it was connected to the Theory of Portuguese discovery of Australia by Kenneth McIntyre. While there are few Portuguese documents or maps beyond Barros that mention Mendonça, and none to directly connect Mendonça with Australia, McIntyre hypothesized that in 1521-24 Mendonça captained a fleet of three caravels which charted the east coast of Australia. McIntyre suggested that the voyage was kept secret because it would likely violate the ambiguous Treaty of Tordesillas, under which Portugal agreed that Spain would have exclusive rights to exploration in most of the Americas and the regions between the Americas and Asia. In addition he argued that many Portuguese records were lost in the disastrous 1755 Lisbon earthquake.



Warrnambool, Victoria

McIntyre’s identification of Mendonça as the likely commander of a Portuguese fleet that charted Australia’s east coast c. 1521-24 has also been accepted by other writers of the Theory of Portuguese discovery of Australia, including Lawrence Fitzgerald (1984) and Peter Trickett (2007). McIntyre suggested that one of Mendonça’s caravels sailed along the southeast coast of Australia and was wrecked somewhere near Warrnambool, Victoria, becoming the Mahogany Ship of Australian folklore − a myth? Although this wreck has not been seen since the 1880s, it is now often described in the Australian media as a Portuguese caravel or one of Mendonça’s fleet, largely on the basis of McIntyre’s theory.
In his 2007 book «Beyond Capricorn», science journalist Peter Trickett revealed other information relating to Mendonça’s life, including a fragment of stone engraved with Mendonça’s name found in South Africa and clearly dated to 1524, and a drawing that may show the 1519 fleet on its way to Goa. Trickett also connected Mendonça with the discovery of New Zealand’s north island.

Commenting on McIntyre’s theory in 1984, Captain A. Ariel suggested it was extremely unlikely any 16.th century mariner would have taken a voyage southwards down Australia’s east coast, through uncharted dangerous waters and against prevailing winds.
Associate Professor W.A.R. (Bill) Richardson of Flinders University, South Australia, believes the claim that Cristóvão de Mendonça sailed down the east coast of Australia is sheer speculation, based on voyages about which no real details have survived.

From Wikipedia (abridged)

... What about the so-called Delfim Map, which shows a lot of Portuguese toponyms on the Australian shores dating back as late 16.th, early 17.th centuries?...
I wonder...

RIC

terça-feira, 1 de maio de 2007

Por um outro Primeiro de Maio...

«Esta é a madrugada que eu esperava,
O dia inicial inteiro e limpo,
Onde emergimos da noite e do silêncio,
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen


Há já trinta e três anos − 33! −, também eu vivi um «dia inicial inteiro e limpo»...
Para nunca mais esquecer!

Desejo-vos um Maio florido de muita beleza humana e de intenso bem-estar anímico!

RIC

sexta-feira, 27 de abril de 2007

II. A même «stolen» from Minge & Captain…

What do you think happens after you die?
– The Universe will go on the very same way it was before «I» entered this world/life. Corporeally, I'm just another set of molecules…

Do you believe in heaven?
– Perhaps, as an ethereal dimension.

Do you believe in hell?
– No, not at all! Religious mumbo jumbo! Unless one experiences it right here and right now…

Do you think you will be judged after you die?
– I've been being judged every single minute ever since I entered this life.

How many people will attend your funeral?
– A few.

Would you rather that people cry or laugh at your funeral?
– Neither. Just listen to soothing music.

What's better: shot in the head or downing pills?
– If I had to choose, a shot in the head would definitely be better.

What should be written on your tombstone?
– «Another grain of sand in the Universe.»

Would you rather die childless or divorced?
– If I could choose, divorced.

Do you want to die in the morning, afternoon, or night?
– At night, quietly sleeping in my bed.

If you had a million and a half euros to leave, whom would you leave it to?
– Some families that might make good use of it. Money doesn't buy happiness, but sends for it…

What kind of flowers do you want at your funeral?
– None. Flowers should be for the living only.

On your deathbed, which moment will you most remember?
– The unsurpassable beauty of each and every sunset I had the privilege of watching all through my life.

Have you ever watched someone die?
– Yes, I have.

What's the most gruesome death you can imagine?
– Being eaten alive, I guess.

How often do you think about death?
– As seldom as I can…

Is fear of dying your number one fear?
– No, not at all. Death doesn't bother me that much. Only the process of dying.

Do you believe in reincarnation?
– No, I don't.

Have you ever wished someone you loved were dead?
– No, I haven't.


Do you consider life short or long?
– Far too short…

Do you think you have a soul?
– A soul or a mind, I don't care much about concepts. But the idea of a nonmaterial existence in the ether appeals to me…

Assisted suicide for a terminally ill person is:
– Morally compassionate.

If you were cremated, where would you like your ashes?
– In the ocean. Water is the first and the ultimate place to be…

Would you choose to be immortal, if you could be?
– No, not at all.

What do you think of ouija boards?
– I've got no especial opinion about them.

Thank you, Minge and Captain, for this opportunity!


Dear blogger friends, I wish you all a marvellous weekend! Enjoy it lavishly!

RIC

I. Vidas límbicas…


«Um Poeta que deixou tudo dito, ou quase tudo, vem em meu auxílio com "Quer pouco: terás tudo" e "Não só quem nos odeia ou nos inveja". Lembrei‑me de Ricardo Reis, aquele que por um mistério ciosamente guardado pelos deuses se libertou da lei da morte. Se os melhores de nós, em todos os sentidos, se tornassem imortais, como é que seria este mundo? Quem andaria já há séculos, há milénios, entre nós? Quem denunciaria tal falsificação da História, grosseira e manipuladora? Quem acreditaria que seríamos todos mais felizes com esses beatos espectros à nossa volta, a cruzarem as nossas vidas de comuns mortais? Eu prefiro a lei da morte. Mas um poeta quer‑se imortal, e assim também entenderão os deuses. Como o Poeta há setenta anos, também eu nunca tive a clássica serenidade que me permitisse querer pouco para ter tudo. Faltou‑me sempre a audácia para ambicionar mais do que o pouco que fui tendo e, porque nunca soube querer nada, nunca me soube verdadeiramente livre. Que me tenha oprimido o amor que me tiveram, nunca o saberei. Não penso que o tenha sentido, nem sinto que o tenha pensado.

Há quem se lance, debata e perca a amar o amor, um erro solitário que raramente é percebido a tempo e nunca é encarado de frente como um risco, um grave perigo. Quantos amantes, poetas e pensadores não têm lançado sérios avisos, alarmes, alertas e gritos, os mais aflitos e mestos. Em vão. O perigo está sempre mais próximo e é sempre mais real do que se está disposto a crer e a aceitar. É inevitável a vertigem do abismo. O sofrimento de tantos não é exemplo bastante para outros que, dominados por um baixo instinto ou estonteados por uma fugaz tentação, se deixam subjugar sem resistência. E quando a queda se consuma, a ilusão é perfeita. Em volta não há ninguém. Sobra apenas a intenção irreal, idealizada. Há quem tenha a inteligência ou a sorte – não sei qual delas é a certa – de aprender no momento exacto, nem mais cedo nem mais tarde, o que é mais importante para uma mais recta condução da vida. Sei apenas, dos caminhos que fui percorrendo, que a seu devido tempo não me terão ensinado – ou então eu não terei sabido aprender – o que tanta falta me tem feito. E agora, ainda mais. Sobre os pequenos buracos nos caminhos do passado terei facilmente saltado sem sequer os ver, para surgirem agora à minha frente como abismos intransponíveis. Quanto mais o tempo passa, mais assustadora é a impressão de que não terei como atravessar esses abismos, refém de um momento infinito. Quando menos esperar, a vida terá deslizado sorrateira ante o meu olhar distraído, e eu estarei ainda e sempre preso ao instante infindável.

Por muitas razões perscrutáveis, conformarmo‑nos com a solidão é destrutivo. A atracção insidiosa que ela exerce é ainda mais perigosa, por se confundir facilmente com uma enganosa auto‑suficiência. É assim que um hábito se vai insinuando, silencioso e sorrateiro, e se vai transformando aos poucos numa rotina cruel, quase um vício. De início, a sensação de liberdade é avassaladora. Parece ser o ansiado fim dos constrangimentos mais aviltantes, das submissões mais humilhantes, das dependências mais escravizadoras. Pura ilusão, que tudo permanece na imutabilidade dos seus equilíbrios, ainda que instáveis. Quando a solidão começa a apoderar‑se de tudo, é ainda uma sensação inebriante que prevalece, como se num átimo, por um passe de magia da vontade, tudo pudesse ser reposto e reconduzido à situação inicial. Pura ilusão, também.

Não procuramos os que não nos procuram. E os que não nos procuram não o fazem porque nós não os procuramos. O que havia em volta, gente e coisas, já lá não está, e o que parecia ter sido uma vitória começa a revelar‑se uma penosa derrota. Um tempo sem tempo, coagulado como sangue há muito vertido e já ressequido. De súbito, a solidão pesa como um fardo insuportável, e quanto maior é a consciência dela, maior é o peso do nada. Torna‑se avassaladora a sensação de que nunca se deixará de estar sozinho, e quanto mais se lhe quer fugir, mais se estende desmesurado o deserto que a solidão estendeu em volta. Segue‑se o efeito destruidor.

Todas as ilusões e todas as fantasias se esfumam no vazio, e o quotidiano revela‑se espectral. Restam memórias e sombras e o absurdo de olhar em volta e nada ver. As mãos alçam‑se para agarrar o que há pouco ainda parecia estar ali. Nada alcançam. A boca profere palavras que nenhuns ouvidos podem ouvir, clama em silêncio estonteante por presenças tornadas irrecuperáveis ausências. Vem o arrependimento, tardio, que faz querer percorrer todo o caminho em sentido inverso. Poucos são os que conseguem empreender a viagem. Não é permitido ficar onde se merece estar. Não se faz parte da capelinha. Não se soube obter o imprescindível quinhão da alforria. Logo, é óbvia a impossibilidade. Os que querem regressar caminham ao longo de um tempo infindo, mas nunca conseguem voltar ao ponto exacto onde começou a deriva. Isso seria retroceder por obra e graça de algum maquinismo inverosímil. Inevitável o destino que transforma todo o erro menor em crassa asneira. Mas é desse instante, quase imperceptível, que se fica refém para sempre.

Às vezes, da forma mais imprevista e brutal, a meio de uma reflexão sobre os imponderáveis rumos da vida, ou ao esboçar um plano para enfrentar novos tempos que arrastam mudanças e contrariedades – umas imperceptíveis, outras, pelo contrário, que se abatem sem prenúncios e causam grande ansiedade –, de repente, um pavor incontrolável e um pânico descompassado apoderam‑se de mim, aturdem‑me até à alucinação e transmudam aquele momento numa diuturna sessão de torturas indizíveis. Este desvario só começa a dar sinais de poder acabar quando consigo introduzir no fluxo dos pensamentos, quase à socapa, um elemento insignificante de alheamento. A pouco e pouco, o pavor e o pânico vão diminuindo, e eu vou regressando a uma tranquilidade apenas aparente, que só muito lentamente cede a uma prostração exausta, como se me tenha esgotado num esforço breve mas tremendo. Quando a crise parece enfim debelada é que me apercebo do longo tempo que entretanto se escoou e se perdeu naquele transe de ausência e de vazio. Neste último decénio, não sei de vivência mais aflitiva. Se os ventos vão soprando de feição sobre umas quantas faces da vida, mantendo a ilusão de que o leme permanece seguro em mãos firmes, sobre outras, porém, são ventos de procela que se abatem e, num ápice, tudo devastam e arrasam. E de uma vida organizada sobra um espesso e viscoso sargaçal à tona de um mar ignoto que tolhe movimentos, quebra resistências e condena a uma modorra letal.

É tão descomunal, tão desmesurado o pavor de viver como é negro e sem fundo o absurdo desejo de morrer. Como se, para seguir em frente, se tenha de saber manter, exacta e constantemente, um tenebroso equilíbrio. Nem deixar‑se transir pelo pavor, nem ceder desnorteado ao desejo. Num átimo, fica‑se perdido sem saber o que é ter uma vida para viver. Mas até tudo isto, em vertigem desvairada de sorvedouro, o quotidiano tenta varrer da memória, como se o tempo das recordações, mesmo as más, seja um proibido luxo sumptuoso. E percorrer todo este caminho de memória é peregrinação negra de uma alma torturada.»

Um excelente fim-de-semana para todos!

RIC

quinta-feira, 26 de abril de 2007

A few American «features»?

Hoplomania?… (From ‛όπλον - weapon)

The USA are no longer a land of pioneers. The whole mythology of the Far West, of Indians and cowboys fighting one another, of outlaws everywhere simply should be banned.
Keeping guns at home cannot be compatible with a civilised society. A 200 year old constitutional right cannot be the poor excuse. If anyone can get a gun as a «prize» for opening a bank account (maybe – wishfully – not in every State!), why all the awe about deeds like the Virginia Tech massacre?
You tell me!

Pyromania?… (From πΰρ - fire)

Main characters in hundreds and hundreds of American movies are arsons, explosions, and huge fires. No «action» movie really does without them.
Is there somehow an American cultural pyromania or – which would be a lot worse! – pyrophilia? Or is it a trauma dating back to the days when whole wooden cities could be blown away by dreadful fires?
You tell me!

Tichomania?… (From τεϊχος - wall)

Please follow my reasoning: Berlin, Germany, Korea, Vietnam, Mexico, Gaza, and now Baghdad… Is there a pattern here?
For sure, we all know this: administrations and governments do make awful mistakes that in many cases aren't at all sanctioned by those of us, anonymous citizens, who in honest conviction elected them. But… Isn't it a little bit too much to try and solve serious problems between peoples by building up walls? Can any kind of segregation be understood as a democratic way of dealing with human rights issues?
You tell me!

RIC

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Da Língua Portuguesa (7)

"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.


Johann Wolfgang von Goethe

A. «Orelhas moucas a... palavras ocas»: por força da repetição exaustiva, mormente a despropósito, eis três palavras hoje praticamente vazias de conteúdo semântico:

a) espectacular;
b) mais-valia;
c) vertente.

... Muito contribuem para as minhas «alergias logogénicas»...

B. Uma simples regra que muito nos ajuda a evitar erros desnecessários e, quantas vezes, confrangedores:

a) TER / HAVER + aceitar = aceitado;
b) SER / ESTAR / FICAR + aceitar = aceite.

Exemplos:
a) «Obrigado por teres aceitado o meu convite.»
b) «O meu projecto não foi aceite

C. Ilustrem-se − de uma das melhores formas possíveis! − procurando distinguir pelo uso (construindo uma frase) os seguintes vocábulos:

1. epónimo / hipónimo;
2. deserto / diserto / decerto;
3. desídia / decídua;
4. proeminente / preeminente;
5. hipocausto / hipercáustico;
6. lactante / latente / lactente;
7. ocaso / acaso;
8. reconforto / conforto;
9. audição / audiência / auditoria;
10. descriminar / discriminar / descriminalizar;
11. cítula / cítola;
12. rectificar / ratificar.

Esta lista baseia-se em casos de paronímia (não todos), e exercícios deste género ajudam qualquer um − licenciado, mestre, doutorado ou sem qualquer título (académico ou outro)... − a suprir dificuldades vocabulares e a esclarecer dúvidas que assaltam qualquer lusófono.
Espero e desejo que se divirtam com o passatempo!
Um excelente fim-de-semana para todos!

RIC

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Sorrow + Saudade = ?...?...

According to a recent survey made in 15 European Union member States, the Portuguese and the Italians consider themselves to be the least happy and the least satisfied with their own lives... In whole Europe?... In the whole world?... I don’t know, but I think it doesn’t take much effort to guess it...

I wonder why indeed...

I wish I could rule myself out of this depressing landscape, but the more I fight against it the more I feel myself condemned to obey to a certain logical routine that has very little to do with me... To say the least...

Up till now, 2007 hasn’t proven to be a «reasonable» year, as far as I’m concerned... Much on the contrary. All I can do is keep fighting against adversity and hope that one of these days the sun will finally rise and shine for me...

But then... I come back to my blog whenever I can and I find out that the sun can shine indeed in many different ways... One of them is through the many wonderful comments I happen to read to my sporadic posts! I read them and I don’t feel so sad anymore!

I do thank you all − Portuguese and «foreigners» alike − so very much for helping me go through these last few weeks that have sometimes turned into an ordeal! Even if I’m not responding to your comments right now the same way I used to do, please be sure that I read them all very attentively!
Some do really move me...

Each and every one of you, dear blogger friends, have a place in my heart. Don’t you doubt a single instant about it! Don’t you forget about our «Happy Few Club»! I won’t!
Hugs and greetings!

RIC

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Das habilitações académicas...

Não me rouba o sono a vontade de saber se fulano, beltrano ou sicrano é licenciado, mestre ou doutorado.

Estou em crer que o nosso jornalismo menos sério, menos idóneo e menos responsável deu mostras cabais, mais uma vez, de não saber − e de não querer saber, o que é pior − qual o lugar, quais os princípios e quais os deveres que lhe incumbem. Limitou-se a aplicar as ínvias lógicas da imprensa cor-de-rosa.
Não quero acreditar que entre os jornalistas que se envolveram na «questão» das habilitações académicas do primeiro-ministro não haja um único sequer que não saiba, por experiência própria ou alheia, que é condição sine qua non para o ingresso, frequência e aprovação em qualquer pós-graduação, mestrado ou MBA a prévia conclusão de uma licenciatura. A suspeição lançada resulta, a meu ver, de má fé, ignorância e/ou incompetência. Este tipo de jornalismo, que se limita a levantar lebres (que depois não o são), presta um péssimo serviço à democracia e increve-se num vetusto quadro nacional de inveja mesquinha. E, quando se trata de invejas mesquinhas, nunca se fica a saber exactamente o que é que é de facto invejado: basta tão-só deixar a dúvida a pairar no ar...

Sabendo que não estou a cometer qualquer injustiça, estou certo de que esta «questão» é apenas mais uma faceta nociva do pretenso jornalismo moderno de secretária que se agarra a faits divers blogosféricos de origem mais que duvidosa, com o indisfarçado objectivo de apenas vender mais uns quantos exemplares de jornais que, em época baixa da política, vão atravessando um período de vacas magras.

(Esclareço que nenhuma simpatia de qualquer tipo me liga ao partido do governo em geral e/ou ao primeiro-ministro em particular.)

RIC

sexta-feira, 30 de março de 2007

«Lisboa»

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...

À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos


My dear blogger friends,

Instead of photos I give you today two reproduced paintings of an artist, whose work I cherish a lot − Carlos Botelho.

And whenever I read this poem by Fernando Pessoa I remember Botelho’s paintings… And vice-versa... And I feel very happy...

I hope you can find a fine translation to «Lisbon with its houses of various colours»... Enjoy it!



RIC

quinta-feira, 29 de março de 2007

«A Moleirinha»...

Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

[...]

Guerra Junqueiro


Este poema − e outros semelhantes − era o que o génio português do século XX nos permitia ler. Para melhor ilustração das almas devotas e submissas.
«O Menino da Sua Mãe», por exemplo, fora votado ao ostracismo (vulgo: censurado) desde que, ainda nos anos 30, Fernando Lopes-Graça o musicara e, mais tarde, no início da década de 60, rebentara a guerra colonial.

Se mais exemplos não houvesse para ilustrar o mal que 50 anos de ditadura miserabilista e de estupidez acarinhada pelos senhores do regime e instilada nas frágeis mentes nacionais, bastaria recordar estes casos para admitir e reconhecer sem ambiguidades que um genuíno grande português − como Camões, Pessoa ou Sousa Mendes − jamais estarão no mesmo plano de um miserabilista pacóvio que destruiu todas as justas ambições de um povo, manietando-o numa «mesquinha, apagada e vil tristeza».

Parabéns à RTP1 por, mais uma vez, nos ter cabalmente mostrado a menoridade mental que teima em nos escravizar, e da qual − pelos vistos... − não parecemos ter o ínfimo desejo de nos libertar.

RIC

terça-feira, 6 de março de 2007

I'm back again! Can you believe it?!


I cannot believe it quite yet...
Yes, my dear blogger friends, I'm at home and typing on my good old computer! Alive and kicking!
It must have been a miracle... Or something of the kind, which I'm most thankful for!
Why I'm writing in English and not in Portuguese? Because the keyboard is still all messed up, I guess... I just cannot type in Portuguese - I have no access to diacritics/accents presently...
I just got it back a few hours ago, but I just couldn't help posting again, after a whole month away from you all...

HERE I AM AGAIN!!!

I feel as happy as can be!
I hope and wish this is no Rapid Eye Movement...
I still have no access to a large number of files I need to go on blogging and posting properly. That's why I'll be taking it tomorrow to a friend, who will help me recover and reinstall a whole bunch of "things" that went lost...
As I've promissed you all, I'll respond to all your comments! One by one!
I wish you all, my dear friends, all the best!
... And I'm most grateful and thankful for all your most encouraging, kind comments!
Hope to be back again tomorrow! (How nice it feels to write this word!...)
Hugs and best regards from the deep of my heart!
Love you all!

RIC

sexta-feira, 2 de março de 2007

... Ainda e sempre... À espera... / Waiting...


... Chateado que nem um peru em véspera de Natal... Qualquer dia já nem sei «editar»... Ou então esqueço-me de todas as senhas - que nunca anotei, porque tenho a mania de que tenho memória de elefante...

Alguém estará neste momento ocupado com a minha máquina - um craque conhecido de um conhecido de uma amiga... -, tentando ver se acaso há alguma salvação para a doença mortal que a atacou... Tenho ainda uma réstia de esperança... Se não fossem os livros e a minha imorredoura loucura pela leitura, há já muito que estaria a atravessar os dias à custa de antidepressivos... A depressão já cá está, só que eu não a deixo apropriar-se do meu quotidiano: a fúria e a raiva que me animam não permitem desalentos de maior... Até ver...

Hei-de responder a cada um dos vossos comentários... Um dia...
Muito obrigado a todos pelas deliciosas palavras de incentivo que continuam a escrever! Foram elas que me «obrigaram» a editar este texto, escrito ao sabor da mágoa da ausência...

Bem hajam! Tudo de bom para todos! Voltarei!


Thank you all for your kind words! They are the reason why I'm writing right now. For the time being I cannot tell you exactly when I'll be back again: I only know I will!

I'll respond all your comments one by one! Some day...

I wish you all the best! You are always in my heart and in my mind...

RIC

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

I miss you all so much... / Tenho tantas saudades...


... Só para dizer que sinto muito a falta do vosso convívio...
Fez ontem seis meses que entrei na blogosfera, e já não me vejo fora dela...
Espero estar de volta - em definitivo! - durante a próxima semana!
Um excelente fim-de-semana para todos e, já agora, um Carnaval muito divertido!
Abraços!!!

... Just to tell you how much I miss you all, dear blogger friends!
Yesterday I would have reached the six month mark in the bloggosphere, hadn't I been stopped by my stupid computer... Grrr!
I hope to be back «in business» sometime next week. Be ready for my glorious return! (Lol!)
Wish you all a wonderful weekend and a most pleasant Carnival!
Hugs!!!

RIC

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Da Língua Portuguesa (6)


"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.


Johann Wolfgang von Goethe

1. A propósito duns canhões...

[Língua Portuguesa Online - Priberam] «Canhão» –
Do Castelhano «cañón»: peça de artilharia; extremidade inferior da manga do vestuário, quando é sobreposta ou finge sê-lo; cano da bota;
Ornitologia: cana de penas grossas nas asas das aves de rapina;
Brasil, popular: mulher feia, sem atractivos; bruxa.

[Porto Editora da Língua Portuguesa] «Canhão» –
1. Boca-de-fogo, fixa ou móvel, de elevado calibre, destinada a projectar granadas, com base na força expansiva dos explosivos;
2. Designação genérica para obuses, peças de artilharia e as armas sem recuo, de calibre elevado;
3. Casaco: extremidade inferior da manga, quando é sobreposta ou parece sê-lo;
4. Cano de bota;
5. Peça do freio;
6. Peça da fechadura onde entra a espiguilha da chave;
7. Tubo do microscópio;
8. Regionalismo pejorativo: mulher ordinária.

Obrigado aos canhões, que tanto cirandaram para – propositadamente – deixarem tudo na mesma. Há agora, porém, que abrir novo verbete para dar entrada ao género masculino… Ou deverei entender o uso como uma ínvia referência travestida? Oh, o mau gosto! De longe, prefiro a forma "canastrão", por muito mais pitoresca… Lembro‑me de que, quando a beleza delas ofuscava, lhes chamavam «canhões de artilharia», tal qual, com todas as letras. Será o caso vertente?


2. A poeta ou a poetisa?

Juro que nunca entendi esta pretensão pseudofeminista (na minha opinião), mesmo quando veiculada por poetisas cuja obra venero: Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen.
O par «o poeta – a poetisa» refere pessoas de sexos diferentes a exercer uma mesma actividade, e o par «o poeta – a poeta» refere… exactamente a mesma coisa e faz guerra preventiva a quem achar o contrário.
A língua é aqui pretensamente forçada a evoluir para satisfazer uma ideologia. Como se uma andorinha fizesse a Primavera, ou seja, como se qualquer língua natural se compadecesse da vontade – por mais nobre e sublime – de um só e único falante…

RIC

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Whenever time matters so little…

Sempre que se consegue que o tempo tenha pouca importância…
Encerrando um fim‑de‑semana em que o tempo escorreu mole e dolente.


Closing a weekend where time went by sluggishly and sorrowfully.

RIC

sábado, 3 de fevereiro de 2007

«Music is a never-ending novel»…


John Coolidge Adams (born February 15.th 1947) is an American composer, with strong roots in Minimalism. He was born in Worcester, Massachusetts, and graduated from Harvard University in 1971. He studied with Leon Kirchner, and moved to California where he taught and conducted at the San Francisco Conservatory of Music for ten years.

His innovative concerts led to his appointment firstly as contemporary music adviser to Edo de Waart and the San Francisco Symphony, and then as the orchestra's composer-in-residence between 1979 and 1985, the period in which his reputation became established with the success of such works as "Harmonium" and "Harmonielehre".

Of John Adams's compositions, the best known and most widely discussed is his opera "Nixon in China", winner of the 1989 Grammy for "Best Contemporary Composition". With this opera, the composer brought contemporary history vividly into the opera house, pioneering an entire genre of post-modern music theatre.

Adams's second opera, "The Death of Klinghoffer" had its premiere at the Brussels Opera in 1991. Described by "Newsweek" critic Katrine Ames as "a work that fires the heart," it has also been seen in Lyon, Vienna, New York and San Francisco and was given its United Kingdom premiere by the BBC SO during the 2002 January Composer Weekend dedicated to Adams's music. Depicting the 1985 murder of American Leon Klinghoffer by Islamic terrorists on the cruise ship "Achille Lauro", the opera has been criticized by some Jewish and Muslim groups as not being even-handed. John Adams has said that much of the controversy may stem from the fact that the terrorists are not portrayed as “poster board villains” in the opera.

His next stage work, entitled "I Was Looking at the Ceiling and Then I Saw the Sky", is described as a "song play", scored for seven singers and an onstage band of eight instrumentalists.

Adams's newest opera, "Doctor Atomic", premiered October 1.st 2005. The action is centred on the very first test of the atomic bomb, and is mainly about J. Robert Oppenheimer.

Adams has in his mature work harnessed the rhythmic energy of Minimalism to an extraordinary harmonic palette and fertile orchestral imagination, with the strong influence of late-Romanticism evident.

For his Violin Concerto, Adams was awarded the 1995 Grawemeyer Award for Music Composition. Other honours include the California Governor's Award for Lifetime Achievement in the Arts, the Cyril Magnin Award for Outstanding Achievement in the Arts, and the rank of "Chevalier dans l'Ordre des Arts et des Lettres", awarded by the French Ministry of Culture.

John Adams became the BBC Symphony Orchestra's Artist in Association in June 2003. In his own words, "the position is sufficiently unstructured and flexible to allow any number of wild things to happen."

Adams's work "On the Transmigration of Souls", a choral work commemorating the September 11.th victims, won the 2003 Pulitzer Prize for Music. However, after winning the award Adams expressed "ambivalence bordering on contempt" since he felt that the prize had "lost much of the prestige it still carries in other fields" because "most of the country's greatest musical minds" have been ignored in favour of academic music.

In 2005, the premiere recording of "On the Transmigration of Souls", with Lorin Maazel conducting the New York Philharmonic, won three Grammy awards: Best Classical Album, Best Orchestral Performance, and Best Classical Contemporary Composition.

(Wikipedia: abridged and adapted)

… É por esta e outras que tais que continuo interessadíssimo na série "Grandes Músicas", que tem vindo a ser apresentada pela 2: e é da responsabilidade daquele cuja voz inconfundível conheço há anos da Antena 2 – António Cartaxo.
É dele a frase traduzida que intitula este édito e que ele, muito enfaticamente, muito poeticamente, repete no final de cada programa de "Grandes Músicas":
– "A música é um romance sem fim…"
E não é?…

RIC

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Luís de Camões & Amália Rodrigues


Com que voz chorarei meu triste fado,
Que em tão dura prisão me sepultou,
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
Onde suspirar nunca aproveitou;
Triste quero viver, pois se mudou
Em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
Ao som nesta prisão do grilhão duro
Que lastima o pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
Devido a quem de mim tenho ausente
Por quem a vida, e bens dela, aventuro.


Abusando de um modismo linguístico, eis uma "dupla vencedora" da cultura portuguesa.
Provavelmente, uma das muito poucas que podemos enumerar.
Sobre ambos já muito/tudo foi dito/escrito. E mais alguma coisa…
Sou um leitor compulsivo de Camões e um ouvinte devoto de Amália.
Este édito é um dever intelectual e moral.
Como homenagem, vale o que vale.
Mas eu fico bem melhor com a minha consciência.

RIC

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Wilhelm Reich

He was an Austrian psychiatrist and psychoanalyst (March, 24.th 1897 - November, 3.rd 1957).

Reich was a respected analyst for much of his life, focusing on character structure, rather than on individual neurotic symptoms.

He was in many ways ahead of his time in promoting healthy adolescent sexuality, the availability of contraceptives and abortion, and the importance to women of economic independence.

His biographer Myron Sharaf writes that Reich's work left a deep impression on influential thinkers such as Alexander Lowen, Fritz Perls, Paul Goodman, Saul Bellow, Norman Mailer, Robert Anton Wilson, and William Burroughs.

He is best known for his studies on the link between human sexuality and emotions, and the importance of what he called "orgastic potency"; and for what he said was the discovery of a form of energy that permeated the atmosphere and all living matter, which he called "orgone". He built boxes called "orgone accumulators", which patients could sit inside, and which were intended to harness the energy for what he believed were its health benefits. It was this work, in particular, that cemented the rift between Reich and the psychiatric establishment.


Reich was living in Germany when Adolf Hitler came to power. Labelled a communist Jew by the Nazis, he fled to Scandinavia, before taking refuge in the United States in 1939. But in 1947, following a series of critical articles about orgone in "The New Republic" and "Harper's Monthly Magazine", the U.S. Food and Drug Administration (FDA) began an investigation into his claims, and, in 1954, won an injunction prohibiting the interstate sale of orgone accumulators. Two years later, Reich was charged with contempt of court for violating the injunction. He insisted on conducting his own defence, which included sending copies of his books to the judge.
In June 1956, he was sentenced to two years in Federal prison. Later that year, several tons of his publications were burned by agents of the FDA.
Reich died in his sleep of heart failure in the federal penitentiary in Lewisburg, Pennsylvania, shortly before he was due to apply for parole. Not one psychiatric or established scientific journal carried an obituary.

Two of his major works:
Massenpsychologie des Faschismus, 1933 (original Marxist edition, banned by both the Nazis and the Communists); Mass Psychology of Fascism;
Listen, Little Man!, 1945.

For further details on his life and work (his bibliography is quite extensive), please confer this article in Wikipedia.

A título de repto, eis algumas citações de Escuta, Zé Ninguém!
(Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1974)

«Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder – quando não o conferes a importantes mal‑intencionados – mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.»

«Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?» E tens razão. Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida?»

«Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouves os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes. Mas não ouves a música da propaganda. Não distingues a abissal estupidez e o mau gosto de coisas que se destinam a ficar-te no ouvido.»

«Sei que és uma criatura capaz, sólida, com qualidades de trabalho, tal como uma abelha ou uma formiga. Tudo o que tentei foi pôr-te à mostra o que tens de medíocre e te destrói a vida há já milhares de anos. És grande, Zé Ninguém, quando não és medíocre e mesquinho. A tua grandeza é a única esperança que nos resta a todos. És grande quando desempenhas com gosto a tua tarefa, quando trabalhas na alegria a madeira, quando constróis, quando pintas e embelezas os teus espaços, quando trabalhas a terra, quando contemplas o céu na quietude e te comprazes na existência dos animais simples, no orvalho, quando danças e cantas, quando amas a beleza dos teus filhos, o corpo do homem ou da mulher que escolheste; quando vais até um planetário tentar entender o espaço ou a uma biblioteca ler o que pensaram da vida outros homens e mulheres. És grande na tua velhice, com o teu neto no colo, dizendo-lhe como foi outrora, respondendo à sua curiosidade confiante. És grande quando és mãe, embalando o teu filho nos braços, o coração cheio de esperança de que para ele venham melhores dias, a felicidade que, hora a hora, lhe vais construindo.»

RIC