segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Da Língua Portuguesa (6)


"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.


Johann Wolfgang von Goethe

1. A propósito duns canhões...

[Língua Portuguesa Online - Priberam] «Canhão» –
Do Castelhano «cañón»: peça de artilharia; extremidade inferior da manga do vestuário, quando é sobreposta ou finge sê-lo; cano da bota;
Ornitologia: cana de penas grossas nas asas das aves de rapina;
Brasil, popular: mulher feia, sem atractivos; bruxa.

[Porto Editora da Língua Portuguesa] «Canhão» –
1. Boca-de-fogo, fixa ou móvel, de elevado calibre, destinada a projectar granadas, com base na força expansiva dos explosivos;
2. Designação genérica para obuses, peças de artilharia e as armas sem recuo, de calibre elevado;
3. Casaco: extremidade inferior da manga, quando é sobreposta ou parece sê-lo;
4. Cano de bota;
5. Peça do freio;
6. Peça da fechadura onde entra a espiguilha da chave;
7. Tubo do microscópio;
8. Regionalismo pejorativo: mulher ordinária.

Obrigado aos canhões, que tanto cirandaram para – propositadamente – deixarem tudo na mesma. Há agora, porém, que abrir novo verbete para dar entrada ao género masculino… Ou deverei entender o uso como uma ínvia referência travestida? Oh, o mau gosto! De longe, prefiro a forma "canastrão", por muito mais pitoresca… Lembro‑me de que, quando a beleza delas ofuscava, lhes chamavam «canhões de artilharia», tal qual, com todas as letras. Será o caso vertente?


2. A poeta ou a poetisa?

Juro que nunca entendi esta pretensão pseudofeminista (na minha opinião), mesmo quando veiculada por poetisas cuja obra venero: Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen.
O par «o poeta – a poetisa» refere pessoas de sexos diferentes a exercer uma mesma actividade, e o par «o poeta – a poeta» refere… exactamente a mesma coisa e faz guerra preventiva a quem achar o contrário.
A língua é aqui pretensamente forçada a evoluir para satisfazer uma ideologia. Como se uma andorinha fizesse a Primavera, ou seja, como se qualquer língua natural se compadecesse da vontade – por mais nobre e sublime – de um só e único falante…

RIC

39 comentários:

Catatau disse...

Em relação aos canhões, tu "estás lá", ou seja, o regionalismo beirão ronda a oitava opção, rsrsrsrs...

No que toca aos poetas, olha, eu ligo mais ao produto do que à origem. :)

RIC disse...

Olá João M.! Como é que é?! Eu estou lá?! Onde?! E por que carga de água?! Não fizesse eu o meu trabalho de casa e ainda agora andaria aí «ó tio, ó tio, dá cá o badalo»... (Salvo seja!) Rsrsrs!
De beirão tive avós paternos e pai que se mudaram para a capital nos anos 20 do século passado. Portanto... O Houaiss e o Wikcionário dizem o mesmo.
Muito bem, quanto aos poetas! Concordo contigo! Mas uma língua não se muda a bel-prazer de alguém. Já é tão difícil a comunicação, imagina o que seria se cada um de nós quisesse apor-lhe a sua marca... Nem quero pensar em tal caos... (Linguisticamente tais mudanças estão excluídas pelo próprio funcionamento do sistema, graças aos deuses!)
Abraço! :-)

Tongzhi disse...

Eu acho, que no que toca a canhão, a "coisa" anda lá perto.
Como sou muito liberal, tanto chamo "canhão" a mulher como a homem.
"A bem dizer", canhão é como o frango - não é carne nem peixe!

No domínio da poesia (e aí também há uns canhões jeitosos), uso o termo poetisa. Foi assim que aprendi e não estou, neste caso, para liberalidades!

E já agora, conhecem aquela história da poetisa que era um grande canhão?
Não?
De certeza?
...
Eu também não!!!!

RIC disse...

Olá Tongzhi! Entendi-te perfeitamente... Agora!
Só que «canhão» NÃO é um substantivo epiceno... Rsrsrs!
Gosto dessa Zoologia, olá se gosto!
«Hades» me dizer onde é que se aprende... Se calhar, lá mesmo, no Hades, não?... Se frango não é carne nem peixe, é comida para vegetariano! É isso! Percebi!
Ainda bem que, pelo menos nalgumas coisas, te manténs fiel ao que aprendeste...
Como não?! Poetisas que são grandes canhões é o que há mais! Só não são é grandes poetisas...
Abraço! Obrigado pelo riso! Estava a fazer-me muita falta...
:-)

Tongzhi disse...

Ai Ric, tu tem dó de mim! Se preferires "ré", "mi", fá" e "sol" também!
Substantivo epiceno????
Isso come-se como?
Simples ou com salada?
Na volta de "kuentrada" he he he!

A história do frango era para ilustrar o género "neutro", nem cá, nem lá!

Se não são poetisas o que é que são?

MrTBear disse...

Valha-mi Deus!!!!!!!!!
Não me importo de ser chamado canhão (embora dependa da pessoa e da circunstância em que tal acontecer) Agora, canastrão nunca, que por estas bandas se utiliza no sentido prejurativo de canhão. Digo eu, porque também não me importo nada que me chamem parvo. Eu sei que não sou, nem nunca poderei vir a ser....

RIC disse...

Eu de ti, Tongzhi, tenho até a escala toda, se quiseres!
O dito epiceno (comum, em Grego) dá para os dois lados... Por isso é comum, mas em género! Assim, «canhão» só seria epiceno se pudesses dizer «a canhão», o que não podes, mesmo que o destinatário do galanteio seja do sexo/género feminino. Por todas as razões aduzidas e mais aquelas que me escapam, se calhar come-se mesmo é de «cuentrada»... Rsrsrs!
Com «c», porque com «k» dizem que não sabe tão bem...
Já agora, não há neutro em Português: ou é água (a) ou é vinho (o)... Isso do neutro eram mariquices de Gregos e Romanos e são ainda de polacos e russos e... por aí fora...
«Só não são é GRANDES poetisas», escrevi eu...
And I rest my case now...
:-)

RIC disse...

Olá Teddy Bear! Pois é, acredito que tudo dependa da circunstância... Aliás, não sou só eu a acreditar...
Quanto a sentidos pejorativos (de «pior» e não de «perjúrio»), todos estes idiomatismos os têm... Uns são mais eufemísticos, outros mais disfemísticos (como «canastrão»)...
Quanto a seres «parvo», já não tens idade para isso, concordo. Pequenino já não és. E provavelmente de forma nenhuma!
(Valha-mi Deus! Onde isto já vai!...) Queira ignorar a última frase, sim? Obrigado!
Um abraço! :-)

Mozzart disse...

"Assim, «canhão» só seria epiceno se pudesses dizer «a canhão», o que não podes, mesmo que o destinatário do galanteio seja do sexo/género feminino."
O que estás a dizer é bem verdade Ric mas o que eu digo, e pela prática que tenho no uso do dito termo, é se pode perfeitamente usar no feminino. Imagina a seguinte situação:
Estás num semáforo, o carro da frente é conduzido por uma mulher que nunca mais arranca.
O que é que tu lhe dizes: "A senhora, se não se importa, avança?" Obviamente que não falas assim.
Dizes(à boa maneira portuguesa): "ANDA LÁ CANHÃO"
Vês como é possível aplicar o canhão no feminino sem ser preciso chatear o epiceno lolol

RIC disse...

Errado, meu caro Mozzart! Quando TU dizes (não eu) «Anda lá, canhão!», estás a usar o substantivo masculino para qualificar um ser feminino. E a prova está na introdução do adjectivo possessivo com efeito enfático:
1) «Anda lá, MEU canhão!»;
2) «Anda lá, SEU canhão!».
Se usares «minha» ou «sua», o impropério não fará o mínimo sentido. Serão frases agramaticais.
Qualificas um ser feminino com um substantivo masculino que mantém o género. Há quem lhe chame (ao substantivo), neste contexto, adjectivo. Mas esta seria outra discussão, exclusivamente teórica.
Vês agora que eu não estou a falar de cor? Rsrsrs! Uma coisa é o contexto situacional em que uma palavra pode ser usada, outra bem diferente é a categoria gramatical a que ela pertence.
Valeu o desafio!
Abraço! :-)

Mozzart disse...

Pronto ganhaste na parte técnica. Mas eu fico com a minha parte, a prática. Pode ser? lolol

Lampejo disse...

Eu falo, mas não ouso julgar que saiba sobre a língua.
A mim pouco me importa se os poemas são escritos no e pelo feminino ou seu género masculino.
Quanto ao "lado" popular da expressão canhão, associo-o a seu significado de grandiosidade e pujança...

RIC disse...

Meu caro Mozzart, a língua é nossa, não minha! Nem de ninguém em particular, aliás, como «a poeta/a poetisa» bem prova.
Se pela prática entendes o uso na condução (e não só, presumo...) do idiomatismo, é toda tua a liberdade de o fazer! Obviamente!
:-)

RIC disse...

Olá Lampejo! Quanto à poesia, ela vale por ser poesia, não por ser escrita por uma «poeta» ou uma poetisa.
Quanto a «canhão», valem os atributos que referes associados a «muita feieza»... Rsrsrs!
Abraço!
:-)

MrTBear disse...

TKS RIC:
Pejorativo (não me esqueço)
Sou mesmo CANHÃO heheheheheh
Provinciano, mesmo
Valha-mi Deus

Shadow disse...

Quanto aos canhões, não me atrevo a opinar s/ essa «guerra» :-)

Falando da «guerra» entre a poeta e a poetisa, fico-me pela segunda. Em tempos idos de escola, ensinaram-me que o feminino singular de poeta era poetisa.

Boa semana!
Beijinho :-)

peciscas disse...

Contra os canhões, canhonas, canastrões e canastronas, que marchem poetas e poetisas!

Tongzhi disse...

Ó menino Ric,
E na nova gramática isso fica assim?
O que eu gostei mesmo foi do epiceno...
Se tivesse agora um filho, era Epiceno que lhe chamava!!!!
:))))

pinguim disse...

Como diz a carla, e bem, deixo a guerra dos canhões, embora relembre com um sorriso que se chamava àquela linda moçoila, filha do Sr.Almirante (ou Contra...), o canhão de Navarone.
Quanto a poeta, para mim será sempre masculino e poetisa o seu feminino.
Uma nota para a escolha belíssima do Dicionário Houaiss, para ilustrar este texto; é talvez o melhor dicionário que conheço, e há agora num só volume o seu complememto: Dicionário de Sinónimos e Antónimos.
Um abraço.

Lemuel disse...

Well, I understood the German! LOL!

Lampejo disse...

Pena. Espero que o pc não tenha nada de grave.

Catatau disse...

We stay tune! ;)

JoaoGouveia disse...

ADOREI.Acrescentar mais alguma satisfação por o ler, seria ser impertinente.

Lover disse...

Original, no mínimo este teu trabalho... Gostei e analisei com cuidado, não fosse a língua portuguesa a minha língua oficial em todos os sentidos, lol! Abraço grande e até breve!

carioca disse...

Oi, Ric.
Aqui no Brasil também tem esse preconceito em relação à palavra POETISA. As poetisas querem ser chamadas de POETAS.

MrTBear disse...

FOGO RIC... Deu-te a valer!!!!!!!!!!!!!!
LOL
Bom fim de semana

/me disse...

Poetisa é tão mais bonito, e feminino. :)
Poeta até é feio... Mas já agora, porque é que os homens não querem ser chamados de poetOs? :)

Maurice disse...

Olá Ric,

Então? Para quando esse regresso?
Fazes cá falta, pá!

Abraço

The Thunderbird disse...

Your soup is ready

JoeL disse...

Hi Ric!?

How are you?!

Th.M. disse...

Ric, quando voltares, é bom que saibas que isto aqui sem a tua habitual presença é como relógio sem ponteiros.
Um abraço,
Thiago.

Lover disse...

Passei, deixo-te um abraço já que havia comentado este... Continua, pra quando novidades?

MrTBear disse...

Deu-te forte.....
Volta estás perdoado!!!
LOL

dondon009 disse...

I stop by each evening, hoping to read a new post and sadly you have not yet returned.

You are missed, dear sir!

HAPPY VALENTINE'S DAY.......

DON~

shadow disse...

Saudades de ler-te...

Até (já)! :-)

carioca disse...

Tô com saudade de você, amigo.

RIC disse...

Meus caros Amigos!
Não poderão estar mais tristes do que eu: meu portátil foi à vida - motherboard e placa gráfica deram o berro... Não sei quando poderei estar de volta ao vosso convívio... Escusado será dizer que a minha mágoa é enorme... Sinto a vossa falta no meu quotidiano como se de pessoas do meu convívio diário se tratem...
Estou de coração partido.
Tentarei encontrar uma solução... Não sei quando...
Um abraço apertado a todos!
Saudades infindas!
Sinto-me tão isolado...

My dear Friends,
I'm really so sorry, but my computer «died»... There's no way it can be saved... I'll have to get a new one, which means I'll be absent for a few more days/weeks, I don't know...
All I know is that I miss you all a lot... You are part of my daily life, and I feel very, very lonely without you...
I'm at a friend's house and I'm now using her computer to leave you this message. I can only hope you do understand my distress...
Hugs to you all!
Love you!

RIC(ARDO)

Até breve!...
Until as soon as possible!...

The Thunderbird disse...

Ric, a dozen sweet Red Ones, from me, to you!

Th.M. disse...

Cá te espero, RIC.
Um abraço,
Thiago