quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

I. Da Língua Portuguesa (3)

"Ein jeder, weil er spricht, glaubt, auch über die Sprache sprechen zu können."

Qualquer um, porque fala, julga que também sabe falar sobre a língua.

Johann Wolfgang von Goethe

– «Cuidado com a Língua»!
– Oh sim, imenso!…

Será possível que tenha de ser um programazinho de televisão a ensinar aos portugueses a Gramática que eles deveriam aprender/ter aprendido na escola?!
Fará isto algum sentido? O regresso de uma serôdia Telescola?

Trouxe‑a versus "trouxe‑la"?!

Pelos olímpicos deuses que alto moram! Anda com certeza muita gente a beber demais…

Trouxe a gramática? → Trouxe‑a.
Trouxeste → Trouxeste‑a.
Trouxe → Trouxe‑a.
Trouxemos → Trouxemo‑la.
Trouxestes → Trouxeste‑la.
Trouxeram → Trouxeram‑na.

Quem fala em público, sobretudo através dos media, não sentirá a responsabilidade e não terá a consciência de que deve estudar Português, em vez de passar o tempo a dizer piadinhas enfadonhas e – parafraseando Eça – a ganir risinhos idiotas?

Que tal este Natal pedir ao Pai Natal um dicionariozinho de verbos conjugados, hein? Não seria má ideia, pois não? Eles estão nas livrarias para isso mesmo: para serem comprados e depois consultados com alguma frequência; não para pôr na prateleira a exibir a lombada, a enfeitar a estante… Não é?

Mas quem é que se vai preocupar com a conjugação pronominal?!
Só maníacos, é claro!
Como eu…

RIC

16 comentários:

Carioca disse...

Oi, Ric.

Olha, essa é uma questão que tem sido bem discutida aqui no Brasil também: quem se apresenta em público tem a obrigação de saber falar Português corretamente.
Não precisa falar Português Clássico. Não é isso. Mas a gente vê certas pessoas que são chamadas de ídolos populares chegando em público e dizendo frases do tipo:

“Nós gosta”, Nós agüenta”, “Vocês disse” e outras coisas até piores.

Ainda se a pessoa tá falando assim de brincadeira, aí tudo bem, né? Mas tem gente falando assim em momentos sérios!
Por outro lado, o nível de educação nas escolas também tá caindo cada vez mais.
Aqui existem 9 séries no Ensino Fundamental. E tem gente chegando à 6ª ou 7ª série sem saber ler direito!
A Educação Brasileira tá numa crise séria mesmo!
Daqui a pouco vai ter gente terminando o Ensino Básico e chegando ao Ensino Médio analfabeta.
Nem sei como isso vai terminar!
Bom, até mais. Um abraço.

RIC disse...

Meu querido Carioca!
Para mim (que sou «coroa») é por demais evidente que quem tem espaço/tempo regular nos media tem de saber falar Português correctamente, isto é, Português padrão (norma europeia ou americana) gramaticalmente correcto. Ponto final. Com os meios actualmente ao dispor de todos, não há desculpa para que tal não se verifique.
Quanto à crise escolar, ela está generalizada a praticamente toda a sociedade ocidental, salvo raras excepções. EUA, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, nós aqui, vocês aí, enfim, todos nos queixamos de que a escola não está a fazer o que deveria. Ora se a escola é um espelho da sociedade, creio que está tudo dito...
Já agora, uma dúvida minha: a norma brasileira já permite escrever «tá» ou é uma liberdade tua? É que aqui todos nós dizemos «'tá», mas ninguém o pode escrever; é obrigatória a forma «está». Aliás, eu não consigo escrever de outro modo...
Muito obrigado! Os teus comentários são sempre importantes para mim. Acredita!
Um abraço amigo!

Anónimo disse...

E depois eu pergunto-te: "Ele trouxe-O?"

RIC disse...

Olá João! Desculpa-me, mas devo ter acordado a olhar ainda para dentro ou para ontem que não consigo entender a tua pergunta...
Tem dias...

disse...

Pois é... Como disse o companheiro carioca, e como já havia mencionado em outra ocasião, a educação no Brasil está cada vez pior. Pra completar ainda temos o lance de: "se a comunicação foi estabelecida, está tudo certo"...

Ouvimos cada barbaridade das pessoas na televisão! Uma coisa horrorosa mesmo!

Eu, particularmente, tenho uma visão muito negativa de jornalistas, por mais que reconheça que a profissão seja importante! Afinal, queremos nos manter informados. Jornalistas, contudo, pelo menos MUITOS deles, acham que sabem tudo, que podem falar de tudo. Vejo isso na imprensa brasileira. É comum, por exemplo -- e aqui estou dando um exemplo mais próximo de mim -- a não diferenciação entre família imperial e real na imprensa do Brasil. Em uma matéria sobre a vinda da Corte, por exemplo, são comuns coisas do tipo: "D. João VI chegou ao Brasil" (que D. João VI?! A mãe dele não havia morrido ainda para? Quem chegou foi D. João, Príncipe Regente!); ou, "D. João preferiu a Quinta da Boa Vista e ela foi a residência da família real durante o Império" (ué, calma aí! Depois da independência o Brasil virou reino?! Será que é por isso que tínhamos imperadores?!); e, por fim, uma que é a pior de todas: "Ao chegarem ao Brasil, D. João e a família imperial..." (este dispensa comentários).

São coisinhas que podem parecer pequenas, insignificantes, mas que, no fundo, mostram o rigor da imprensa para com o conhecimento, e claro, indistinção de momentos históricos diferentes e perpetuação destas indistinções.

Na língua não é diferente! Âncoras de telejornais, às vezes, falam coisas de deixar o cabelo arrepiado! Mas são coisas que a maior parte da população não identificaria como erro gramatical... Assim fica fácil não ser criticado.

Beijos!

RIC disse...

Olá Lê! Pelos vistos, o panorama negativo é geral: no ensino, no jornalismo, na sociedade...
Parece-me que tens estado bem ocupado com os séculos XVIII e XIX. A História é fascinante!
O exemplo do édito é «dado» por uma apresentadora de televisão! Imagina! A mulher não sabe que a forma «trouxe-la» é impossível!!! E o que mais irrita é a arrogância com que jornalistas assumem a sua ignorância, como se a nada fossem obrigados! É de bradar aos céus!
Pelo menos, acho que sei o que foi o grito do Ipiranga (um rio): «Independência ou morte!»
Beijos, meu caro, e muito obrigado!
Felicidades!

Anónimo disse...

Tens razão, eu sei o que queria dizer, mas não soube como expressá-lo.
Afinal, deve ter sido pelo tardio da hora em que o fiz...
Mas era como que uma "boutade".

RIC disse...

Meu caro João, as 7:40 da manhã é hora tardia para ti?! Afinal parece que há quem seja ainda mais noctívago do que eu... Muito bem!... (rsrsrs!)
Quanto à «boutade», noutra hora logo se vê, não é?
Um abraço!

Bruce disse...

Ric,

Unfortunately, the problems of contemporary carelessness with grammar and usage are hardly limited to Portuguese! The "New York Times," which used to set linguistic standards with its beautifully clear and correct American English is now capable of untold barbarisms. My partner constantlky points out similar problems in Italian publications.

The situation is more difficult to determine with German, since German orthographic and grammatical standards are still in flux. French is also difficulty to assess, since the French, after decades of linguistic conservatism, seem to be having an orgy of needless anglicisms, argot, and "hip" jargon. I have lost trtack of the situation with Spanish, but since it is spoken in so many countries, I suspect that standardization and the establishment of linguistic norms is very difficult.

RIC disse...

Hello Bruce! Welcome again! Thank you very much for your great summary! It's a piece of information that is very inportant to me.
As I wrote before, the negative situation is general and allover. I believe there's been a major shift in importance, as far as school is concerned, which accounts for many horriblr mistakes some professionals nowadays make. Those same mistakes were unthinkable just a few years ago. And those professionals - any kind of journalist, for instance - just don't care about it: yesterday's mistake is today's and tomorrow's, which is frightning indeed.
Wish you the best! :-)

Shadow disse...

"Hadem", "hades", "Eles interviram", "A gente fazemos", são simples exemplos daquilo que se ouve/escreve por aí.
Infelizmente não é só nos media (ou será mídia? lol).
Entra, por exemplo, numa sala de chat e verás...É de bradar ao céus! Dá logo vontade de clicar na X do lado superior direito do ecrã (ou será ecran?).
Perdoem, pois além de dar também calinadas na língua Portuguesa, não tenho jeito (ou será geito?) para escrever.

Beijinhos :-)

RIC disse...

Olá Carla! Tudo quanto disseste é bem verdade! Como em tudo na vida, cada coisa no seu lugar. Se nos chats e nas SMS se faz um uso abreviado da palavra escrita, ainda compreendo, já que o princípio básico é o da economia de tempo e de «conversar» o máximo possível. Quando passamos a outras áreas, aí o caldo entorna-se...
Considero - sem louvores idiotas - que escreves bastante bem; transmites muito claramente o que pretendes, e isso é uma virtude. Se me permites, o único aspecto menos bom que tenho constatado é a pontuação, sobretudo a chamada «virgulação» (palavra feia...).
Quanto às palavras com que brincaste, «écran» é o francês que em português deve dar «ecrã»; «jeito» é uma palavra jeitosa, já a outra, não. Não existe. Mas «gesto», sim...
Esta nossa língua é fascinante!...
Obrigado!
Beijinhos! :-)

Karla disse...

Ric,
pode parecer a serôdia Telescola mas, não te esqueças que hoje, tal como naquele tempo, a televisão chega mais depressa às pessoas que um livro. Usassem o tempo das novelas a ensinar português e eramos capazes de ouvir falar melhor a nossa língua.

Beijinhos

RIC disse...

Olá Karla! Não contesto a tua argumentação tal como a apresentas, mas a questão de fundo é que a Televisão, hoje, tem problemas de consciência quanto ao serviço que (não) presta ao Português e procura alijar responsabilidades transmitindo um programa que mais parece uma campanha de alfabetização. Este é, a meu ver, o cerne do problema, A César o que é de César!
Mil beijinhos e obrigado! :-)

André disse...

Sendo um facto que as pessoas sabem pouca gramática, se lessem mais teriam uma maior intuição para estas questões (e, obviamente, que me incluo nessas pessoas sem nome). De qualquer modo, eu acho evidente que o sistema de ensino devia fazer uma maior aposta na gramática em vez de se tentar colar a cuspo uma história resumida da literatura portuguesa no cérebro dos meninos (falo obviamente do programa do secundário que eu apanhei, acho que entretanto mudou).

RIC disse...

Pois é, meu caro André! Só posso dizer que tens razão... A leitura facilita muitíssimo em termos de um conhecimento intuitivo das estruturas da língua.
Quanto aos programas de Português do ES, é melhor eu não ir por aí hoje... Ficará para um próximo «Da Língua Portuguesa». Nunca entendi - mesmo enquanto professor - que se pretenda ensinar língua materna e a sua literatura apostando em força na memória... Não faz o mínimo sentido à luz de nenhuma escola de pedagogia! É, pois, uma aberração.
E quanto à Gramática, tal ensino seria precioso, como o preconizas. Mas há muito que se levanta um sério obstáculo: uma larga percentagem dos professores ignora-a... Assim, ninguém pode ensinar aquilo que não sabe. Como diria o outro, eu estive lá e vi...
É triste, é...
Um abraço!