segunda-feira, 13 de agosto de 2007

II. Apenas uma vez?...


… E passado mais um dia morno entre os já muitos mornos que tenho atravessado, pelo fim da tarde saio para comprar cigarros.
O sol põe-se já por trás da torre de Belém, e eu caminho ao longo da Marginal, rumo à estação da BP de Pedrouços.
Que tempo sereno! Quanta calma no ar, neste lânguido fim de tarde de uma raríssima suavidade. Ninguém à vista. Apenas alguns carros passam por mim, a caminho do Estoril e de Cascais.
Quanta nostalgia ao recordar as vezes que contemplei o pôr-do-sol neste recanto único da foz do Tejo, onde a beleza me fez e faz esquecer tanta coisa… Se toda esta beleza fosse o que me bastasse para ser inteiro, seria decerto muito feliz. Oh se seria!… Mas…
De súbito, como já é habitual em mim há décadas, uma pequena frase musical salta-me ao caminho, acompanhada por três palavras furtivas – solamente una vez
Olho para o sol que vai caindo na linha do horizonte e tolda-se-me a vista. Duas incompreensíveis lágrimas pesadas alagam-me os olhos, e quase perco o equilíbrio por não conseguir ver onde pôr os pés.
Terá sido uma só vez? Ou poucas? Ou nenhuma? Que sei eu que me deixe afirmá-lo como mais uma verdade que me acompanha nesta caminhada que é a vida? Que vez? Que verdade? Que vida?
Ponho-me então a contar os carros que vão passando, a ver se me convenço de que há um número para lá da minha dúvida. Um plural.
E se acaso não sei de todo o que é amar?… E mais duas pesadas lágrimas caem. Quanta ausência de mim próprio… Olho para o horizonte de mar e sinto-me à deriva. Que vazio tão cheio de nada!… Por onde tenho eu andado?
A estação da BP chega entretanto ao pé de mim. Mesmo agora, eu estava ainda ali… Agora, estou aqui sem saber como chegou ela a mim. Solamente una vez...
Não tenho de encarar quem me atende. Ainda bem. Peço o que quero, pago e saio. Ninguém sabe da tempestade que está a abater-se sobre mim. A luz escoa-se, e a melancolia de mais um dia fugaz que passou sem história faz-me companhia no regresso a casa. Mais uma vez...
Ao chegar, ligo o computador e vou à procura de «Solamente Una Vez». Leio o poema, ouço o bolero, olho nos olhos do intérprete e… Pois, mais duas lágrimas pesadas caem.
Dia sem história?…

Escrever este texto soube-me bem, mas custou-me muito mais do que estaria disposto a pagar por ele…
A prosa confessional é dura e cara; custa, literalmente, os olhos da cara…

RIC

18 comentários:

pinguim disse...

Belíssimo texto, que é muito sentido, muito pessoal, pois a vida, no seu quotidiano, permite-nos pouco,momentos destes, comoventes de revisitação, não a um facto em si da nossa vida, mas à nossa própria vida.
Abraço.

RIC disse...

Obrigado, meu caro João C.!
A verdade é que ela me obriga a muitos mais momentos destes, bem mais do que eu gostaria que assim fosse...
Este texto não é sentido. Ele É uma parte de mim.
Abraço! :-)

CTG disse...

HI RIC. Thanks for the comment on my blog. Sorry - I don't understand Portuguese, only English, Afrikaans and French, lol. I so however like your blog. Hope to see you soon at HommeDuCap. Ciao.

kevin disse...

Wishing you a great start to your week in Portugal.

Your bloguista amigo
Kev in NZ

Palavras e co-lirius disse...

Ufa, Ric! Ainda bem que voltaste a escrever! Senti falta de teus textos muitos dias..principalmente porque mantinha uma certa assiduidade aqui para publicar, e do nada fizeste silêncio. Por onde andaste, homem? Ah, tudo bem! Você não me deve satisfação, eu sei. Quanto este texto, é maravilhoso. Viajei em cada palavra...o tom é comovente. Oh, Portugal de meus sonhos!Ainda hei de conhecê-lo. Suas palavras, ao falar desta terra, persiste no convite.
Um abraço, amigo.
Nilson

papagueno disse...

Olá meu amigo que texto tão belo mas tão melancólico. Acho que estás a precisar de arrebitar um pouquinho não?
O pôr-do-sol no Tejo é mesmo lindo, não é?
Um abraço.

Ricardo disse...

Oi, meu querido!
Lê tinha me dito que vc tinha parado e que tinha voltado!

Cá estou para vê-lo!!!

Ou melhor, lê-lo!

E o senhor ainda não ativou seu MSN!!!

Coisa feia!!!

hauahauhauahau!

Beijão, lindo...e não sabia que fumavas... isso sím, é muito feio!!

:(

RIC disse...

Hello dear CTG!
You are most welcome here, dear friend!
Right! You excuse yourself for not speaking Portuguese and for «only» speaking English, French and Afrikaans... Lol!!! I do like your sense of humour already! Maybe I should excuse myself too for not speaking Afrikaans... But I believe I can still read it a little bit, «omdat ik Nederlands praat... Begrijp je Nederlands?» Lol! This is sooo amusing!
Yes, I most certainly shall visit you at «HommeDuCap», doubtlessly!
Wish you the best, dear friend!
Ciao!

RIC disse...

Hello dear Kevin!
Wow! Another good surprise in Portuguese! Thanks! Is everything fine with you in New Zealand? I do hope so!
I wish you a fine week too, dear Kevin! I'll drop by really soon, promise!
O teu bloguista amigo
Ric em Portugal
Hugs! :-)

RIC disse...

Olá Nilson!
Mil desculpas pela ausência, meu caro, mas eu estava mesmo a precisar de uma breve pausa para «recarregar baterias».
Fico contente por teres gostado do texto. É um pouco triste, mas era assim que eu estava a sentir-me...
Espero e desejo que possas visitar Portugal logo que te seja possível!
Muito obrigado!
Um abraço para ti também! :-)

RIC disse...

Olá Papagueno!
É... Acho que tens razão... De vez em quando, o meu lado tristonho apodera-se de mim e deixa-me a pão e laranjas... E depois arrebitar torna-se ainda mais difícil... Mas eu dou a volta!
Foram já tantas as vezes que vi o pôr-do-sol sobre o Tejo! Curiosamente, para mim é sempre um momento único e diferente. E de muita, muita beleza!...
Um abraço ao Vogelfänger! :-)

RIC disse...

Olá meu querido Ricardinho!
Pois é... Presisei de fazer uma breve pausa - uma semaninha.
Tenho muito prazer em que venhas «ver-me» e ler-me! Eu também gosto muito de «ir» à Cidade Maravilhosa para te visitar e ao Lê e ao Leo, os meus amigos cariocas!
Quanto a fumar, não se pode fazer tudo bem feito... Talvez esteja próximo de deixar o hábito. Vamos ver!...
Abração e beijão! :-)

Shadow disse...

Poderia ter custado muito...todavia, está soberbo! Parabéns :-)
...Quantos de nós já não tiveram um final de tarde assim?...Pode ser nostálgico, é verdade. Mas , por vezes, sabe bem. Tem assim como que efeito «abanão», sei lá... (Falo por mim, obviamente)

Beijinhos! :-)

RIC disse...

Olá querida Carla!
Por acaso até custou um bocadinho, já que mencionas esse aspecto... Nada que, porém, um bom whiskey não tenha ajudado a engolir... É o que há a fazer em momentos como este...
Compreendo o efeito de «abanão». Mas às vezes também pode ser um terramoto, e aí a casa vai abaixo... Reconstruí-la depois a partir do zero pode ser muito doloroso... Mas também não mata!
Muchas gracias! :-)
Beijinho!

André Benjamim disse...

Texto bonito, sim senhor... Quanto ao whisky, duplo sem gelo se faz favor! (Também tenho que deixar esse mau hábito do tabaco - por três vezes estive mais que um ano sem fumar, e não é que voltei sempre a fumar!?)

Abraço, perto de um pôr-do-sol qualquer!

RIC disse...

Olá André B.!
Muito obrigado! Parece que «a quente» as coisas às vezes resultam... Quanto ao whiskey, é para já! Rsrs! Eu prefiro-o com muito gelo, sem me importar se tem de ser duplo, triplo ou... quadrúplo, desde que não fique aguado.
Essa de teres estado - por três vezes! - mais de um ano sem fumar e depois teres regressado ao mau caminho é que me espanta! Não há dúvida de que cada organismo é diferente. Se/quando deixar de fumar, estou quase certo que não voltarei atrás. Sou de fidelidades caninas e teimoso como uma porta... Já estive uma semana sem fumar, mas foi contra a minha vontade, pelo que não podia resultar. Vamos ver que melhor estratégia conseguirei pôr em prática...
Um abraço também para ti, meu caro!
Espero que onde estás também haja poentes de fogo!
:-)

Bernardo Moura disse...

Caro Ric,
este texto é excelente!
De uma sinceridade,simplicidade e honestidade rara.
Posso transcrevê-lo?
Abraço

RIC disse...

Olá Bernardo!
Obrigado!
À vontade! Serve-te! Eu é que agradeço!
Um abraço! :-)