sábado, 9 de junho de 2007

Eterna Saudade

«Há um espaço que ou é visitado obsessivamente ou é ignorado até à evidência de que, mesmo assim, nada o pode evitar ou substituir. O cemitério é, desde que me conheço, parte integrante dos espaços frequentados pelos vivos. De início foi até um espaço lúdico, por muito estranho que isto hoje possa parecer. Pouco prático, por causa das campas, e pouco divertido, por causa da quase ausência de companheiros de brincadeiras. Mesmo assim, havia uma menina que também por ali aparecia regularmente. Um dia, vi-a correr atrás de um gato, porque queria pegar-lhe ao colo. Ficou muito triste, a chorar, porque o bichano se lhe escapuliu, saltando para outro talhão. À época, os adultos – pelo menos os que me rodeavam – tinham ideias claras sobre a morte e, em especial, sobre o modo de a mostrar aos mais pequenos. Aos três anos, visitava a campa de um padrinho que mal conhecera e apenas recordava já acamado, gravemente doente, de rosto oculto por uma máscara de oxigénio. Pouco tempo depois, veio juntar-se-lhe uma filha, uma mulher ainda jovem que abandonara a vida por um desgosto de que dificilmente se recupera. Ou não se recupera nunca.

Os anos foram passando e as visitas continuaram, sempre por causa de parentes mais ou menos afastados. A criança não podia perceber a atitude de recolhimento dos adultos, nem tão-pouco imaginar o que materialmente ocorria naquele espaço sob a laje. A morte, entendia-a como um vasto recipiente onde, por razões compreensíveis para a idade, eram depositados por muito tempo aqueles que deixavam de estar aptos para a vida. A crença num céu dos bem-aventurados ajudava a aceitar as ausências e a não suspeitar de um fim absoluto, se acaso uma educação católica permite que alguma vez se acredite no nada. Até então, todas as mortes tinham sido precedidas de doenças mais ou menos longas, quase sempre incuráveis, ou tinham resultado da cedência dos corpos à usura do tempo.

Um dia, tudo mudou. Em apenas alguns anos, aniversários tornaram-se dias de defuntos e festas de família ficaram reduzidas a memórias de ausentes. E com o tempo, a dor, em vez de esmaecer, refinou-se. A minha mãe chegava à última morada no fim de uma manhã de princípios de Junho, abafada e cinzenta. A véspera marcara o fim precoce de uma vida. Vinte e um anos antes fora o dia do seu casamento. Cruel ironia. E eu estava destroçado. Depois da protecção de mais de dezoito anos, confrontava-me com o que só mais tarde, muito mais tarde, viria a compreender. Naquele momento, era um destroço sem reacção, entregue à fatalidade que acabara de se abater. Sem forças a que pudesse recorrer, deixei-me arrastar por aquela vaga avassaladora que desabara sobre mim. Rendia-me ao desgosto. Compreendera que aquele desfecho seria inevitável por causa da doença, embora não admitisse ainda que o que estava a viver era irreversível. Como aceitar que quem mais se ama deixa para sempre de estar presente e disponível para ajudar a fazer face aos revezes da vida, para partilhar os pequenos nadas que fazem as grandes alegrias? Como aceitar que se está perante outra face da própria vida? Que a morte como separação inelutável é a inquestionável certeza, apesar de todas as máscaras?
E a realidade em volta tornava-se, pouco a pouco, incompreensível.

Solidão, abandono, infelicidade, desamparo, mágoa, desalento, perda, desencanto, destruição, derrocada de sonhos e de expectativas, enfim, o corte definitivo e absoluto com uma parte da vida que agora seguia à deriva, rumo a um passado irrecuperável. Não me apercebia de quanto egoísmo, ainda que ingénuo, havia nas palavras que não conseguia parar de murmurar. 'E agora? O que vai ser de mim?' Nada havia a fazer, parecia, que me pudesse restituir a crença na vida, e percebi-o com a angústia de ruínas abandonadas. A uma juventude livre de preocupações e de responsabilidades sucedia-se uma repentina idade adulta com obrigações, para as quais não estava preparado. Mas nem sequer disto tinha consciência, tal o torpor em que caíra, como anestesiado.

O momento foi breve. Cada segundo, porém, pareceu-me infinito, ainda que naquele instante não houvesse tempo. A memória ia retendo tudo, como se depois se tornasse desnecessária, inútil. A cada acto que se sucedia, o desespero aumentava em proporção irreal, e a presença daqueles que bem conhecia era mais uma certeza indesmentível somada à verdade inevitável. Quanto tempo decorreria ainda, até que pudesse aceitar com alguma paz aquela realidade? Anos. Muitos.

Aproximou-se o instante derradeiro, depois do qual a separação e o fim passavam a fazer parte desta realidade de cá, a que ficava entregue até um dia chegar também o momento da minha passagem. A cal e a terra seca, quase pó, ribombando como trovoada de Verão, desfizeram o pouco que restava. Foi o momento em que o fraco autodomínio que me restava acabou, tal como a nossa ligação deste mundo se rompia para sempre. Havia lágrimas nas faces de todos os que testemunhavam a incredulidade e o desespero marcados no rosto de um filho que se recusava com a veemência dos inconsoláveis a aceitar o facto consumado. Havia quem chorasse por aquele filho. O Z. L., ao meu lado sem me poder valer, parecia arrasado com tudo o que estava a acontecer diante dos seus olhos, de expressão aturdida. E eu chorava descontrolado quando dali saí, sentindo o negrume de um futuro insondável a aproximar-se e com a certeza de que jamais voltaria a ser o mesmo. E não voltei.

Naquele dia, a morte foi mais absurda que nunca, e nunca mais se manteve afastada. Passaria a marcar presença com a pontualidade do relógio e a regularidade do calendário. Mas até que eu me apercebesse disso, muito tempo decorreria ainda.»

Foi há vinte e nove anos.
Eu completara dezanove um mês antes.
A minha vida seguiu outros rumos, mudou bastante e eu, de facto, nunca mais voltei a ser o mesmo.
Este texto foi escrito pela primeira vez há já muitos anos e tem sido revisitado também com a regularidade do calendário.

(Thank you so very much, Will, for these beautiful flowers from your garden. Once again...)

RIC

28 comentários:

kevin disse...

Very beautiful picture of flowers.

By the way i have posted another comment for yesterday under Em Greve.

Hugs
Kev in NZ

pinguim disse...

Meu caro Ric
a partida de um ente querido é sempre um momento particularmente difícil, e só cada um poderá aquilatar a dor sofrida e a perda que tal partida nos provoca. Já passei por momentos desses, quando da morte de meu Pai, e não é o evoluir dos tempos que apaga da minha memória, quase minuto a minuto, toda a sequência do acontecimento.
Mas é sobre os cemitérios que gostaria de opinar; na minha terra o cemitério é muito bonito, e tinha (antes de construirem um mostrengo ali em frente) uma belìssima vista sobre a Cova da Beira; portanto, local aprazível, foram muitos os momentos em que na silenciosa pacatez daquele jardim de entrada, estudei matérias diversas e parei para pensar, não na morte, mas sim na Vida.
Abração.

RIC disse...

Hello dear Kevin!
Yes, they are indeed. I've especially chosen them for this text on my mother's death 29 years ago.

I'm very happy that my idea made you happy! There will be more in following weeks. There are so many great ESC songs ever since the 60s...

Best wishes! :-)

RIC disse...

Olá João C.!
Obrigado.
Quando vivi na Alemanha, havia ao lado da casa onde morava um cemitério que só tempos mais tarde de ali viver é que descobri que o era. Um belíssimo jardim onde passeávamos como se de qualquer vulgar parque se tratasse.
Hoje abomino cemitérios católicos, sobretudo os do sul da Europa, e tenho sérias dificuldades em lá entrar... Como em hospitais.
E pensar sobre a morte é para mim tão normal e natural como reflectir sobre a vida. Não há nisso nada de mórbido (dentro dos limites da sensatez, bem entendido).
Bom fim-de-semana! :-)

carioca disse...

Meu amigo, a morte de alguém que amamos sempre nos muda de uma forma definitiva. Nunca mais voltamos a ser quem já fomos um dia. Mesmo que a pessoa saiba lidar com a morte, a transformação que acontece é inevitável pra quem ficou do lado de cá da vida.
Mas acho que, além disso, um dos outros problemas principais que você mesmo disse foi que você era muito novo. O que você sofreu foi quase uma mudança de criança pra adulto de um instante pro outro!
Com certeza você passou por momentos muito difíceis depois disso... Mas a vida nunca é fácil, né? O que nos resta fazer é seguir em frente. E isso eu sei que você tem força pra fazer.
Um grande abraço. Tudo de bom.

leone disse...

I am going to have to learn the romantic language of the portuguese aren't I? I've just seen your post on BentEye - you cheeky monkey!! Ha ha.

I've added some random shots just for you my dear Ric....

Have a great weekend......Leone

RIC disse...

Olá Carioca!
Muito, muito obrigado pelas tuas belas palavras e pela atenção que elas revelam, com que leste este texto!
Nunca deixarei de salientar aqui o grande apreço que tenho pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Hoje, que já não estamos tão distantes um do outro («Tanto Mar...», cantou Chico Buarque) e que há tantos brasileiros entre nós, aqui, e ainda por aqueles que tenho conhecido na blogosfera, compreendo melhor que vocês são um manancial de potencialidades!
Vem isto também a propósito de, há trinta anos, o Brasil nos ter arrebatado com «Gabriela», a telenovela que celebrizou Sónia Braga e, aqui, rasgou horizontes a um povo que saía de uma ditadura obscurantista de quase 50 anos. Presto assim também homenagem ao grande Jorge Amado, à Bahía, às ctrizes e aos actores brasileiros que revelam qualidades difíceis de igualar. Hoje, quando ouço Gal Costa começar com «Quando eu vim pra esse mundo...», enchem-se-me os olhos de água...
Porque foi, também, há trinta anos...
Abração, meu caro! :-)

RIC disse...

Hello dear Leone!
Well, I believe one shouldn't let things just fall into oblivion... Life is so full of hurries - and worries - already...
I'm glad you liked it! As to «the romantic language of the Portuguese» (Susan Vega, I presume), it wouldn't be difficult at all, my dear Leone: English has itself so many Latin words that it wouldn't be so difficult for you to come to terms with our language... At the Seoul University there's a department of Portuguese where an old acquaintance of mine did a great job some years ago...
Thank you so very much for the photos! It's very kind of you indeed!
An excelent weekend for you too!
:-)

MrTBear disse...

É um texto muito bonito, muito sentido, muito pessoal.
Um forte abraço.

RIC disse...

Olá Teddy Bear!
Muito obrigado!
Excelente fim-de-semana para ti!
Um abraço amigo!
:-)

Tongzhi disse...

A morte é uma coisa tão natural para mim que por vezes me apanha de surpresa... Tive contacto com ela muito cedo, com a morte da minha bisavó, a primeira pessoa que me lembro de "ver partir". Lembro-mo do funeral como se fosse hoje; lembro-me da revolta que tinha e, sobretudo, lembro-me do ódio que senti por aquele local. Lembro-me ainda de ter pensado que jamais ali voltaria. Claro que, enquanto pequeno,voltei muitas vezes mas sempre "jurando" que era a última. Hoje, adulto, esse essa "fobia" acentuou-se. Só vou a um cemitério se de todo não tiver "coragem" de deixar de ir.
Abraço

RIC disse...

Olá Tongzhi!
Foi um percurso algo semelhante aquele que também eu fiz. Em criança, acreditava que poderia ser um «até logo!». Mas quando percebi que assim não era, tudo mudou...
O único fortíssimo solavanco da minha vida foi este, há vinte e nove anos, sem dúvida alguma. Hoje posso serenamente avaliar quase cinco décadas e, apesar de todos os sucessos e trambolhões pessoais, este foi o acontecimento que mais me marcou. Seguido de perto por outra morte também, doze anos mais tarde...
É sobretudo a fealdade dos nossos cemitérios que me perturba, somada ao odor nauseante da mistura - improvável na Natureza! - de tantas flores diferentes.
Obrigado, meu caro!
Óptimo fim-de-semana para ti! :-)

lampejo disse...

A dor da separação definitiva, é realmente esmagadora.
Quem parte deixa saudade, quem fica guarda a dor da ausência e da eterna despedida...
Bom fim-de-semana.
Abração.

RIC disse...

Olá Lampejo!
Assim é, meu caro, assim é...
Desejo que tudo esteja melhor contigo.
Um excelente e repousante fim-de-semana para ti!
Abraço! :-)

dondon009 disse...

The strike is over!

The photography is beautiful and I also think it's time to learn Portuguese.....

After all, if I go to Spain next year, I might just go a quick jump into Portugal for a few days!

I also have eye candy for you today..... I will have you seeing double!

Hope the weekend is wonderful.

DON~

RIC disse...

Hello dear Don!
Yes, the strike's over, and I knew that far too well even before I started it. For 29 years now, this has been a heavy day for me: my mother passed away 29 years ago. But it always feels as if it had been last year...
Those beautiful flowers are now at full blossom somewhere nearby Seattle...
That's quite a marvellous idea, learning Portuguese! If I ever my be of help, please be free to ask whatever goes «through your mind».
Moreover, you do speak Spanish, don't you? So it's all the easier for you to «grab hold» of it.
Well, if my referrals are accurate, I do know already - without having checked it yet! - why I'm going to see double: the Brazilian twins? Right?
Have a great weekend, dear Don!
:-)

L. Antão disse...

Nunca sofri uma perda assim. Só recentemente vi partirem alguns entes queridos que estriveram presentes ao longo da minha vida. O mais importante de todos, o meu pai, deixou-me sem que eu conseguisse deitar uma lágrima que fosse, tal foi a distância afectiva que nos separou desde muito cedo. Nunca senti saudades dele vivo, se sinto saudades é dele presente...
O texto emocionou-me profundamente, não por rever nele um passado, mas por antecipar um futuro próximo.

RIC disse...

Olá L.!
Bem-vindo!
Peço desculpa pela perturbação.
Curiosa a tua referência ao pai: dez anos mais tarde, chegou a vez de me despedir do meu pai, e se me dispusesse a escrever sobre esse momento (e outros), creio que não me afastaria um milímetro do que tu escreveste...
Espero e desejo que esse futuro não esteja assim tão próximo como dizes. Não vale de nada sofrer-se por anticipação. É um desgaste absolutamente desnecessário (ainda que aconteça mesmo contra a nossa vontade...)
Fica bem, meu caro! E muito obrigado pela visita e pelas tuas palavras.
:-)

Gus disse...

Liebe Pulcher Vir,

Aprendi a desenvolver o desapego lendo Padre Antônio Vieira. Já perdi meus pais e um irmão aos 19 anos de idade, de acidente vascular. São profundas dores, mas pessoalmente, a dor maior de todas foi a perda de um grande amor.

Abraço

RIC disse...

Olá Gus!
Se as leituras pudessem ter algum efeito proporcional, meu caro, creio que estaria hoje reconfortadíssimo e resignado... Mas pelos vistos não têm... Porém, e por todas as razões que me possam ocorrer, o Pe. António Vieira, é mutiíssimo recomendável e eu próprio o revisitarei. Obrigado! Há muito tempo que não o leio. Agora «bateu» uma saudade...
A minha mãe foi a primeira grande perda da minha vida. Outras se lhe seguiram, igualmente devastadoras.
Obrigado, meine liebe «Waldwildkatze»! Für mich so schön und süss wie ein Wolf...
Abração! :-)

Shadow disse...

Normalmente não me estico muito nos comentários.Hoje muito menos.
Este texto mexeu demasiado comigo...Sei que uma situação igual, espera-me a qualquer momento.Tento não sofrer por antecipação, embora nem sempre consiga. Estou mentalizada mas não preparada...

Votos de um excelente Domingo!
Beijinhos.

RIC disse...

Olá Carla!
É que de mais certo há na vida, como é habitual dizer-se, mas nem por isso conseguimos encarar tal facto.
Sentimo-nos expostos pelo temor que temos de perdermos alguém significativo para nós... É humano, e por isso é tão difícil.
Nunca se está preparado, é importante saber isso, porque se lida então melhor com a realidade que vem a seguir...
Chega!
Um abraço amigo, beijinhos e um óptimo fim-de-semana para ti!
Diverte-te! :-)

T-Bird disse...

Of dear. I must make dinner and ponder what to say and then come back. I am touched beyond words that you chose these flowers for a memorial to your mother, for reasons you already know. See you after dinner. Steak ceasar salad, with a red hungarian wine. Wish you were here tonight to share, and to play with the cats while i prepare.

RIC disse...

Thank you so very much, Will! These are perhaps the most beautiful, thoughtful, kind words you've ever written here on mu blog. I'm touched by your thought that I might wish some company for dinner tonight...
Enjoy your dinner, dear friend!
All's well! :-)

T-Bird disse...

I am sure that you would be a most wonderful guest. And once the meowing fur covered units figured out that you loved cats, they would compete for your attention -- and steak (last night) or chicken (tonight).

Leaving now for roasted chicken ceasar salad. And red wine again, of course.

RIC disse...

Hello dear Will!
Thank you very much!
Oh yes, I'm sure they would! I believe that's one of the ways they use to tell us they bear our presence and have never been willing to submit to us, which I find quite okay.
All the best! :-)

Luis disse...

Ric: Eu sou um muito pouco assíduo frequentador dos blogues alheios. Não tenho as rotinas diárias, se bem que vá espreitar quando posso (o resto do tempo serve para trabalhar e para fazer alguma coisa nos meus "territórios"). Só hoje dei conta desta entrada e não pude deixar de registar o meu maior respeito pelas tuas memórias e sentimentos. Deixo-te apenas mais um abraço o que, acredita, vale muito mais do que as palavras que não chegam a ficar aqui.

RIC disse...

Olá Luís!
Muitíssimo obrigado pelo teu cuidado e atenção!
Fico sensibilizado com as tuas palavras e, mais ainda, pelo gesto em si.
Um abraço amigo, meu caro!
Felicidades! :-)