domingo, 11 de dezembro de 2011

Sátira de costumes... Que falta faz!...



Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé no chão, a mãe ordena
Que o furtado colchão fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-se-lhe um colchão?! É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada.

"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Já cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.
Nicolau Tolentino de Almeida

Eis como a segunda metade do nosso século XVIII foi fértil em atenções, carinhos, ternuras e outras delícias que fizeram os encantos dos coevos... Nem as modas importadas de Paris passavam no crivo dos poetas satíricos que esquadrinhavam o quotidiano em busca de alvos a jeito... E, pelos vistos, não tinham grandes dificuldades em fazê-lo...

Quanto a nós, hoje - salvo, desde já, honrosas e pontuais excepções! - estamos longe dessa voragem que tudo varria e nada (ou quase...) poupava... Os actuais «engraçados» têm-se porventura na conta de serem «espectaculares»... Só que... A maioria tem muito pouca graça ou mesmo nenhuma. Mas os «marketings» lá vão dando uma mãozinha e... em terra de cegos, quem tem olho é rei. Por exemplo, os anúncios do «MEO» deixam-me varado de estupor: onde é que estará a graça?!

A todos, um bom resto de fim-de-semana e uma excelente semana!

RIC

4 comentários:

GMaciel disse...

Ah, a deliciosa sátira na poesia portuguesa, já alvitrada como poesia menor pelos imbecis que se "adonaram" da cultura e língua portuguesas!

Escolheste o que é considerado Maior entre os grandes: Maldonado, Filintu Elísio e, o mais conhecido, Bocage. Na minha mais do que modesta opinião, a poesia com reminiscências das cantigas de escárnio e do Teatro vicentino; a mesma sátira, a mesma caricatura social, a mesma consciência do ser português.

Será karma, esta nossa necessidade de parecermos o que não somos? Este "crescer" em pontas, qual pas-de-deux saloio?

Ou é apenas fruto do meu mau feitio. :)))

Beijocas grandes

RIC disse...

Olá minha querida Graça!
Começando pelo fim, se é fruto do teu mau feitio, então também eu tenho mau feitio... Rsrs. E assim sendo, já somos dois!
É exactamente esse veio da nossa literatura (desde a Idade Média!) que me parece estar completamente adormecido (para não dizer pior...).
Quanto aos incultos que a possam considerar menor, é «forte pena»! A modernidade do género é uma evidência: onde é que antes (ou mesmo depois) há diálogos «corriqueiros» presentes em sonetos?! Mas isso, eles não entendem... Nada a fazer...
E é exactamente isso: a mesma consciência de ser português. Neste caso, o exagero provinciano dos penteados altos.
Para ti, uma excelente semana!
Beijinhos! :-)

Leo Carioca disse...

Ah! Esse é um problema do humorismo no Brasil atual: muitos humoristas brasileiros fazem ´´piadas`` agressivas e sem graça.
E aí, quando alguém reclama da dita ´´piada``, eles dizem que tão sendo perseguidos pelo que eles chamam de censura politicamente correta.
Não se trata de perseguição nem de politicamente correto. Uma coisa que só ofende e que não faz ninguém rir simplesmente não pode ser chamada de piada.

RIC disse...

Olá Leo!
Concordo plenamente contigo. Por vezes penso que este «novo» tipo de humor já não será de todo para a minha geração... Mas não posso deixar de ser crítico quanto à ordinarice gratuita de muitas rábulas e pretensas piadas. E por cá também alguns se queixam de incompreensão e de perseguição. Que pena...
Abração!
:-)