terça-feira, 2 de janeiro de 2007

«Por Uns Olhos Glaucos» (1.ª parte)


«A arte está para a vida como o esperma está para o sangue.»
Léon Paul Fargue

E foi num bar próximo do hotel, no quartier du Temple, que naquela última noite uns olhos glaucos iluminaram o espaço que era ainda meu na Cidade‑Luz.

Olhos claros sempre exerceram sobre mim a força de um poderoso feitiço, de um potente magnetismo. Não porque os ache mais belos que os castanhos ou os negros, mas porque me atraem de outra forma, sem que alguma vez tenha conseguido decifrar os motivos. Só os cinzentos me têm deixado indiferente, ao invés dos misteriosos garços, sempre raros, desconcertantes, de uma sedutora iridescência.

Apercebi‑me há já muitos anos desta atracção e tenho‑me interrogado vezes sem conta sobre o que me deixa suspenso daquele brilho metálico quantas vezes gélido, daquela claridade transparente, daquela profundidade insondável. Procuro explicar o inexplicável, dou‑me sempre mal com o propósito, mas volto fatalmente a percorrer o mesmo caminho sem saída, para de novo me confrontar com a desconcertante evidência de que aquilo que não tem explicação explicado está. Talvez a razão seja simples. São apenas muito diferentes dos que vejo todos os dias nos reflexos que os espelhos me devolvem. Há olhos castanhos e olhos negros de indizível beleza, mas nunca me senti tão inebriado, tão manietado, como pela força que emana de uns olhos claros.

É um baque repentino e sempre inesperado, que se repercute por todo o corpo como um raio que, ao fulminar, em vez de destruir, una. O coração a bater descompassado, o sangue a latejar nas têmporas, a visão por momentos toldada, a boca seca, as mãos húmidas e um frio antigo à flor da pele. É o velhinho coup de foudre. O azul intenso de um céu estival de safira ou, mais raramente, o verde profundo de um mar tranquilo de esmeralda parecem ser a reverberação preciosa que entrevejo em olhares ora suaves e ternos, ora incisivos e devastadores como se, desafiado por um absurdo fascínio até à desvairada rendição, me precipitasse por eles em abismos de almas, para explorar mundos interditos em busca não sei bem de quê. Talvez de um fogo, em que depois ardo de raiva, por mais uma vez não ter sabido nem mais nem melhor para escapar à armadilha, quando há muito o saber da experiência deveria já ter‑se imposto. O fascínio e a sedução conhecem ardis que todo o saber acumulado por todas as experiências é incapaz sequer de prever, quanto mais de precaver. E a queda é inevitável.

À parte o encanto de sortilégio que junta dois seres no instante de um olhar relanceado, nunca será a entrega sexual, mera troca de fluidos vitais, dizem alguns, que os fará conhecerem‑se. Quando muito, conseguirão captar o comprimento de onda um do outro, e então a sintonia poderá ser perfeita. Por mais estreito que seja o enlace dos corpos enredados, continuam a ser dois seres desconhecidos que se atraem e que vão agradando um ao outro num crescendo sem limites. Todo o resto, que é tudo, permanece secreto. A menos que aguardem dias, semanas ou meses até aceitarem a rendição física, o que me parece pouco provável e ainda menos recomendável.

Sensações são sensações e sentimentos, sentimentos. Nada impede que se juntem, mas encará‑los e lidar com eles em separado foi uma aquisição, uma conquista, para o bem e para o mal, apesar de o género masculino sempre ter praticado a destrinça, confessando‑o ou escondendo‑o, vangloriando‑se ou penalizando‑se. No género feminino, há muitas ainda, mesmo entre as mais jovens, que garantem que não, que anatomia, fisiologia e psicologia lhes traçam o rumo. Por mim, continuo a não acreditar. Química é química. Tautológico, mas não menos verdadeiro.

Quantas vezes, porém, o enlevo não se desmorona por inteiro como construção de areia desfeita por onda furtiva, naqueles instantes em que o abrir da boca para a conversa, livre dos meandros lentos do arreitamento, quebra o encanto do silêncio e se desata mais ou menos descontrolada. Quantas vezes, uma inoportuna inflexão da voz não basta para deitar tudo a perder e impor a indesejada certeza do equívoco. E o equívoco é, nestas circunstâncias, melindrosa, incómoda e vergonhosamente visível. Na idade das introspecções e das retrospecções, as dúvidas da adultícia (que poderá, dizem, culminar ou não em maturidade) substituem os porquês da infância e da adolescência.

Abalado pela surpresa nunca igual, interrogo‑me sempre pela primeira vez como é que a poderosa sensualidade suplanta e esmaga toda a sensatez que, noutras circunstâncias, me impede de perseguir quem não conheço e de me render sem reservas ao primeiro devaneio sensualão que me tolda o juízo e espicaça os sentidos. Em todas as línguas há todas as palavras com todos os cambiantes e todos os matizes para nomear o que bastará uma só para dar o tom certo, sem mitigar o que quer designar. É o desejo, esse contrabandista electroquímico que impõe a rendição absoluta e incondicional, que tem causado desastres históricos, sim, mas também tem lançado milhões e milhões na senda do bem ansiado – o amor, profundo mistério e magno desígnio da existência. O físico, o mais comum, mais fácil e imediato, ou o outro, o espiritual, considerado o mais valioso, complexo e duradouro. Mas nunca poderá saber-se o que se vai encontrar além da esquina que se está a um passo de dobrar. Se o bem supremo, se o mal insidioso. São os riscos de viver e estar no mundo. Tudo ponderado, ampliam as almas e acrescentam vida à vida. E enquanto assim for, está bem.

Entre os lençóis fui acordando envolto por um aroma diferente, num acesso de indolência suave e terna, como um gato que se estiraçasse sobre o teclado de um piano. Poderia estar a sonhar, mas foi a dúvida que me deu a certeza. Nos sonhos reais nunca me pergunto se estarei a sonhar. Devo ter caído no sono com as mãos atrás da nuca, porque as sentia meio dormentes, tal como os braços, percorridos por um suave formigueiro. Havia um perfume subtil ou um odor natural, não conseguia distinguir, que lembrava uma pitada de canela em mistura exótica com um vago aroma a maresia. Estava ainda ensonado, mas a memória foi‑me ajudando. Depois, foram uns olhos risonhos num rosto luminoso, os tais olhos glaucos com cintilações de esmeralda, uma boca promissora, uma covinha desconcertante no queixo, um indefinível tom de pele, um farto cabelo flavo e revolto e a suprema visão entre os lençóis de um corpo escultural de proporções perfeitas, apreensíveis mais pelo tacto, a trazer‑me à mente, naquele preciso instante, saberá só Deus porquê, a sucessão de Fibonacci e o seu lugar supremo entre tudo o que de mais belo houve, há e haverá. Só eu e o meu racionalismo obsessivo para me enlear em tais meandros. Pouco terá faltado para me lembrar então do que me ocorre agora. Que depois de Georges Bataille e Michel Foucault não ficou literalmente pedra sobre pedra no edifício do erotismo e da sexualidade.

A visão veio entretanto em meu auxílio e mostrou‑me um corpo ainda bronzeado do Verão passado, com as apetecíveis áreas a nu interditas às carícias solares. E a imaginação partiu à desfilada por aquele campo fora, naquela cama ainda meio velada pela penumbra da madrugada. Depois ainda, foi uma voz meiga, intensa e segura, de um timbre que me excitava e que me despertou de vez.

«Bonjour, tu as bien dormi?» (1) Mais do que devia. Aliás, nem sequer queria ter dormido. Podias ter‑me mantido acordado, não creio que fosse assim tão difícil. «Mais si, tout à fait! Hier soir, avant même que j'aie pu t'en dissuader, tu t'étais déjà soûlé la gueule. C’était déjà trop tard.» (2) Bom, está bem, mas também podias dizer isso de outro modo… «Tu crois vraiment que d'autres mots pourraient y changer grand-chose maintenant ? Si, par exemple, je t’avais dit 'bois avec modération' ? À quoi bon ? Ce serait la même chose, non ? Quel drôle d'idée !» (3) Calei‑me sem argumentos.
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(1) Bom dia, dormiste bem?
(2) Isso sim, de todo. Ontem à noite, antes mesmo que te pudesse demover, já tinhas apanhado um pifo. Tarde demais.
(3) Crês mesmo que outras palavras poderiam agora mudar alguma coisa? Se, por exemplo, te tivesse dito 'bebe com moderação'? Para quê? Seria a mesma coisa, não achas? Que ideia cómica!

RIC

[Ainda esta semana, a 2.ª parte.]

12 comentários:

disse...

So excuse me forgetting, but these things I do
You see I've forgotten if they're green or they're blue
Anyway, the thing is, what I really mean
Yours are the sweetest eyes I've ever seen


Perdoe-me tomar de empréstimo palavras de Elton John, mas acho que é o melhor comentário que eu poderia fazer! =)

Beijos deste amiguo d'além mar!
=)

RIC disse...

Muito obrigado, meu querido Lê! É uma honra! Na semana passada - não sei se viste - transcrevi «Blue Eyes» de Elton John, a pretexto de uma bela foto de uns belos olhos azuis. Não há dúvida que estou sob o signo do olhar...
Desejo-te um excelente 2007!
Beijos do amigo alfacinha! :-)

JoeL disse...

As you know I don't know what you're saying, but lets pretend you said he was gorgeous, sexy, inteligent and the guy you slept with last night and you'll send pics to your Canadian friend about the encounter.

lol

Just kidding.

I think you're also talking about the movies he played in.

PS and he's moving to Montreal and looking for a place to saty...

lol

Sorry.

Too cute!?

RIC disse...

Hello Joel! To put an end to all your questions and doubts I could advise you to «altavista» the text, but... it's both a long text and its vocabulary is not quite common. So it wouldn't be a good idea anyway.
The photo is there for one single reason: green eyes. And you're not that far away from the truth when you guess there's some bed action...
As to sending photos, I think I wouldn't ever do it: I'm far too oldfashioned for that...
If he's moving to Montréal, Joel, feel free to welcome him. I wouldn't feel the least jealous. After all, he's just a character I created and developed...
Thanks a lot for this quite especial intervention! :-)

Karla disse...

Aguardo com muita vontade a 2ª parte. Não pelas cenas escaldantes que se adivinham ;-), mas pela tua escrita.
Gostei muito.

RIC disse...

Muito obrigado, querida Karla!
Não estou muito certo dos teus dotes de adivinha... Além de que a foto é mera âncora ao verde. Nada mais...
Mas deixo intacto o efeito de surpresa para amanhã.
Beijinhos! :-)

Tongzhi disse...

Gostei muito. Tal como outros fico à espera da segunda parte.
Como já te disse, também sou "vidrado" no olhar!

RIC disse...

Muito obrigado, Tongzhi!
Amanhã (4/1) serão satisfeitas as curiosidades.
Também como já te disse, penso sempre duas vezes antes de mergulhar no olhar de alguém... Já bem basta o que basta...
Há vidrações não muito aconselháveis...
Abraço!

Shadow disse...

Ansiosamente aguardando por amanhã...

Beijinho!

(Para quando o livro?)

RIC disse...

Olá Carla! Já podia ter avançado, mas era longo demais e tornava-se uma monotonia de peso. Pelo menos, visualmente...
Esse está à espera de melhores dias para ser acabado... A experiência bloguística transtornou os planos, ainda que o que falta seja pouco. Mas eu também não sou um exemplo de autodisciplina...
Beijinhos! :-)

pinguim disse...

É curioso, que sem ler os anteriores comentários, tinha pensado dizer o que quase toda a gente disse; ou seja, aguardo a "segunda sessão", mas desde já te digo que a primeira é muito bela.

RIC disse...

Olá Joãozinho! Isso é que é saber gerir o tempo, sim senhor! Ainda sobra uma fatiazinha para blogar! Do coração espero e desejo que estejas a passar uns dias muito bons!... E mais não digo!
Quanto à 2.ª parte, já leste que «sai» amanhã, dia 4.
Fico contente por teres gostado. Vamos aguardar as reacções finais...
Tira o melhor partido!
Um abraço!