sexta-feira, 28 de julho de 2006

Maria João Pires, Belgais e Salvador da Baía


Retrato de um Portugal mesquinho e ingrato


Ontem à noite, quando já mal prestava atenção ao Telejornal da RTP1, eis que a notícia me cai em cima, esmagadora. Senti um arrepio percorrer-me o corpo, não pelo conteúdo da mesma, mas porque ainda não há muito me ocorrera a ideia - então sem qualquer motivo - de que algo de menos bom estaria a prejudicar Belgais. Por pessimismo não foi de certeza. Desde o início que considerei a atitude de Maria João Pires muito louvável, ao lançar um projecto daquela envergadura em região tão desamparada. Trocar Paris por Belgais poderá não ter sido sacrifício nenhum para a pianista, mas o facto de pretender dinamizar culturalmente a Beira Interior que de certo modo adoptara ao ter adquirido a quinta só pode ser entendido como um acto de generosidade e de altruísmo.

Sete anos depois, o projecto está bloqueado. Ou mesmo morto. E porquê? Quem duvida que foi mesquinhamente boicotado pelos omnipresentes invejosos que já nem os próprios poderes oficiais se envergonham de acobertar? Logo no governo de António Guterres se ficara a saber que o relacionamento da pianista com as entidades políticas não seria dos melhores. Ei-la agora em terras de Vera Cruz, para se radicar em Salvador da Baía. Ainda não acredito!

Portugal, perdeste toda a vergonha! Não tens emenda!

Por que obscuras razões é o português tão mesquinho e invejoso? Ignorará o ditado que reza que «nunca o invejoso medrou nem quem ao pé dele morou»? Há dias em que sinto uma profunda vergonha de ser português. Hoje é um deles. e as razões sobejam. Dias em que sinceramente desejo que este mísero país se afunde de vez nas profundezas do Atlântico, para que nunca mais se ouça falar de um povo que, a espaços, consegue ser mais imbecil que a própria imbecilidade. Dias em que me apetece chorar de vergonha, de desespero e de raiva por ver partir todos aqueles que nos têm engrandecido - eles sim - aos olhos do Mundo.

E os que por cá ficam vão remoendo entre dentes as suas raivazinhas e despeitos. É mais uma vez a inveja nefanda que os move, por não terem de todo o gabarito daqueles que, não se sentindo aqui tratados como deveriam, são acolhidos, acarinhados e reconhecidos em terras estrangeiras. Quem quer ser lembrado de, por exemplo, Jorge de Sena? Ou José Saramago? Ou Paula Rêgo? Ou... São tantos...

Acredito hoje que poderei vir a sentir uma irremediável vergonha de ser português, o que até há bem pouco tempo jamais me passara pela cabeça. Sei que será então tarde demais para arrepiar caminho e que tudo estará perdido. Mais uma vez, é verdade: «Coragem, Portugueses! Só vos faltam as qualidades!» E que venha agora o primeiro bem-pensante atirar-me em cara que isto são tiradas à Velho do Restelo! Explicar-lhe-ei, ainda assim com toda a bonomia, como ler Os Lusíadas sem recorrer a medíocres caderninhos editados para fazer dinheiro fácil, aliás, o actual supremo anseio de (quase) todo o português.

A Maria João Pires só poderei, naturalmente, desejar o maior sucesso!

ACTUALIZAÇÃO - Em declarações públicas sobre o «caso Maria João Pires», a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, limitou-se a referir os montantes com os quais o Estado vinha a participar no projecto de Belgais desde 2004.

Mais uma vez, dinheiro, mais dinheiro e só dinheiro. Será que hoje em dia não há já lugar para mais nada - nem mesmo numa argumentação que se pretende séria - que não seja o vil metal? Se as declarações da pianista são assim tão «desviantes e infelizes», onde estão os argumentos que nos convençam cabalmente? Que vil tristeza...

2 comentários:

Joel disse...

Hi ric.

lol to your comment on my blog!

It's the opening of the Out Games tomorrow and the beggining of Pride week, the parade is on Sunday.

I'll post pics

J

Joel disse...

Hi ric!

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I'll put you in my list. I always reply to comments via e-mails.

Thanks.

J