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domingo, 11 de dezembro de 2011

Sátira de costumes... Que falta faz!...



Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé no chão, a mãe ordena
Que o furtado colchão fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-se-lhe um colchão?! É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada.

"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Já cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.
Nicolau Tolentino de Almeida

Eis como a segunda metade do nosso século XVIII foi fértil em atenções, carinhos, ternuras e outras delícias que fizeram os encantos dos coevos... Nem as modas importadas de Paris passavam no crivo dos poetas satíricos que esquadrinhavam o quotidiano em busca de alvos a jeito... E, pelos vistos, não tinham grandes dificuldades em fazê-lo...

Quanto a nós, hoje - salvo, desde já, honrosas e pontuais excepções! - estamos longe dessa voragem que tudo varria e nada (ou quase...) poupava... Os actuais «engraçados» têm-se porventura na conta de serem «espectaculares»... Só que... A maioria tem muito pouca graça ou mesmo nenhuma. Mas os «marketings» lá vão dando uma mãozinha e... em terra de cegos, quem tem olho é rei. Por exemplo, os anúncios do «MEO» deixam-me varado de estupor: onde é que estará a graça?!

A todos, um bom resto de fim-de-semana e uma excelente semana!

RIC

sábado, 13 de outubro de 2007

De pulchritudine…

Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, – frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Clepsidra
Camilo Pessanha


Song of the Bronze Statue

Gone that emperor of Maoling,
Rider through the autumn wind,
Whose horse neighs at night
And has passed without trace by dawn.

The fragrance of autumn lingers still
On those cassia trees by painted galleries,
But on every palace hall the green moss grows.

As Wei's envoy sets out to drive a thousand li
The keen wind at the East Gate stings the statue's eyes…

From the ruined palace he brings nothing forth
But the moonshaped disk of Han,
True to his lord, he sheds leaden tears,
And withered orchids by the Xianyang Road
See the traveller on his way.

Ah, if Heaven had a feeling heart, it, too, must grow old!
He bears the disk off alone
By the light of the desolate moon,
The town far behind him, muted its lapping waves.

Li He
Chinese classical poet
9th century A.D.


RIC

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

De Camões dois sonetos...

Memória de meu bem, cortado em flores
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos, que espero infortunados;
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora junto quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não uma só, dura memória!


Um belíssimo fado, todo ele enlevo, na voz de Amália.


O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música, com voz alta e mui sentida
Levanta por a praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada,
E dela está chorando a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim eu, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando postos já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei, por os vossos desfavores,
La vuestra falsa fe, y el amor mío.


… Poesia das subidas esferas
Para deleite das almas inquietas…

RIC

domingo, 2 de setembro de 2007

Aconchego de noctívagos…


UM EXCERTO DE ODE
(FIM DE UMA ODE, NATURALMENTE)

I
..................................................................

Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos…
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora da relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.


Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desesperados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu te tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, xintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde – quem sabe? – Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração…
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente como um gesto materno afagando,
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar,
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.

Álvaro de Campos
30 de Junho de 1914


RIC

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

«Sous le signe du… cygne»

Charles Baudelaire

«Le Cygne»

À Victor Hugo

I

Andromaque, je pense à vous ! Ce petit fleuve,
Pauvre et triste miroir où jadis resplendit
L'immense majesté de vos douleurs de veuve,
Ce Simoïs menteur qui par vos pleurs grandit,

A fécondé soudain ma mémoire fertile,
Comme je traversais le nouveau Carrousel.
Le vieux Paris n'est plus (la forme d'une ville
Change plus vite, hélas! que le cœur d'un mortel) ;

Je ne vois qu'en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l'eau des flaques,
Et, brillant aux carreaux, le bric-à-brac confus.

Là s'étalait jadis une ménagerie ;
Là je vis, un matin, à l'heure où sous les cieux
Froids et clairs le Travail s'éveille, où la voirie
Pousse un sombre ouragan dans l'air silencieux,

Un cygne qui s'était évadé de sa cage,
Et, de ses pieds palmés frottant le pavé sec,
Sur le sol raboteux traînait son blanc plumage.
Près d'un ruisseau sans eau la bête ouvrant le bec

Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre,
Et disait, le cœur plein de son beau lac natal :
« Eau, quand donc pleuvras-tu? quand tonneras-tu, foudre ? »
Je vois ce malheureux, mythe étrange et fatal,

Vers le ciel quelquefois, comme l'homme d'Ovide,
Vers le ciel ironique et cruellement bleu,
Sur son cou convulsif tendant sa tête avide,
Comme s'il adressait des reproches à Dieu !

II

Paris change ! mais rien dans ma mélancolie
N'a bougé ! palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,
Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.

Aussi devant ce Louvre une image m'opprime :
Je pense à mon grand cygne, avec ses gestes fous,
Comme les exilés, ridicule et sublime,
Et rongé d'un désir sans trêve ! et puis à vous,

Andromaque, des bras d'un grand époux tombée,
Vil bétail, sous la main du superbe Pyrrhus,
Auprès d'un tombeau vide en extase courbée ;
Veuve d'Hector, hélas ! et femme d'Hélénus !

Je pense à la négresse, amaigrie et phtisique,
Piétinant dans la boue, et cherchant, l'œil hagard,
Les cocotiers absents de la superbe Afrique
Derrière la muraille immense du brouillard ;

A quiconque a perdu ce qui ne se retrouve
Jamais, jamais ! à ceux qui s'abreuvent de pleurs
Et tettent la Douleur comme une bonne louve !
Aux maigres orphelins séchant comme des fleurs !

Ainsi dans la forêt où mon esprit s'exile
Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor!
Je pense aux matelots oubliés dans une île,
Aux captifs, aux vaincus !… à bien d'autres encor !

Les Fleurs du Mal (1857)



«O Cisne»

A Victor Hugo

I

Andrómaca, penso em ti! O pequeno rio,
Pobre e triste espelho onde outrora brilhou tanto
A imensa majestade do teu desvario,
O falso Simóis regado pelo teu pranto,

Fecundou num clarão minha fértil saudade,
Quando eu andava pelo novo Carrousel.
Foi-se a velha Paris (a forma da cidade
Muda mais rápido que o coração, infiel);

Só na memória revejo os velhos sobrados,
Pedaços de colunas, montes de argamassa,
As ervas, o limo nos muros esverdeados
E o bricabraque reluzindo nas vidraças.

Ali havia noutros tempos um viveiro;
Lá eu vi, certa manhã, quando sob o céu
Frio e claro o Trabalho acorda e o nevoeiro
De pó sobe das ruas como negro véu,

Um cisne, que da gaiola havia escapado,
E, esfregando os pés no calçamento incerto,
Arrastava as plumas brancas no chão crestado.
Perto de um rego sem água, o bico aberto,

Banhava as asas na poeira, com aflição,
E dizia, sonhando com o lago natal:
"Água, quando choverás? Onde estás, trovão?"
Vejo a ave infeliz, mito estranho e fatal,

Apontar para o céu como o homem de Ovídio,
Para o céu irónico de um azul maldoso,
Torcendo a cabeça sobre o pescoço ofídio,
Como amaldiçoando o Todo-poderoso!

II

Paris muda! Mas na minha melancolia
Nada mudou! Velhas ruas, nova cidade,
Palácios, para mim tudo é alegoria
E nada pesa mais do que a minha saudade.

Diante do Louvre, uma imagem me oprime.
Penso no meu grande cisne, fora de si,
Como os exilados, ridículo e sublime,
Roído pelo desejo! E penso em ti,

Andrómaca, esposa de um herói bravio,
Escrava que Pirro tratou como um feitor,
Curvada em pranto sobre um túmulo vazio;
Mulher de Heleno, a viúva de Heitor!

Eu penso na negra, esquálida e doente,
Os pés na lama, o olhar perdido a buscar
Um coqueiral da África, inexistente,
Atrás do muro de névoa de um boulevard;

Penso em quem perdeu o que não se recupera
Jamais, jamais! Em quem mata a sede chorando
E mama na Dor como numa boa fera!
Nos órfãos famintos, como flores murchando!

Na floresta onde o meu espírito se esconde
Estas lembranças soam por todos os cantos!
Penso nos náufragos, largados não sei onde,
Nos presos, nos vencidos!… E noutros, tantos!

Tradução de Jorge Pontual, em «New York on Time»



Tive decerto a inaudita sorte de encontrar esta magnífica tradução portuguesa que me deixou completamente rendido e extasiado…
A tal ponto que já não sei exactamente de que poema gosto mais – se do francês, se do português…
Há tradutores que, porventura, estarão na posse da divina chave secreta…
Uma excelente semana para todos!

RIC

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Ted and Sylvia

Edward James Hughes (August 17th, 1930 - October 28th, 1998) is the English poet and children's writer known as Ted Hughes.

Critics routinely rank him as one of the best poets of his generation. He was British Poet Laureate from 1984 until his death.


Ted Hughes was married from 1956 to 1963 to the American poet Sylvia Plath, who committed suicide in 1963 at the age of 30. His part in the relationship became controversial, particularly to some feminists and American admirers of Plath.

Hughes himself never publicly entered the debate, but his last poetic work – "Birthday Letters", 1998 – explored their complex relationship, and to many, put him in a significantly better light.

Hughes studied English, anthropology and archaeology at Pembroke College, Cambridge. At a party to launch the poetry magazine "St. Botolph's Review" he met Sylvia Plath, and they married just four months thereafter.

The couple moved to the United States, settling in western Massachusetts. After spending time in Boston, they returned to England. They had two children, but separated in the autumn of 1962. Ted continued to live at Court Green, Devon, on and off, with Assia Wevill, after Plath's death on February 11th, 1963.

As Plath's widower, Hughes became the executor of her personal and literary estates. He oversaw the publication of her manuscripts, including "Ariel" in 1966. He also claims to have destroyed the final volume of Plath's journal, detailing their last few months together. In his foreword to "The Journals of Sylvia Plath", he defends his action as a consideration for the couple's young children.

Ted Hughes continued to live at the house in Devon until his death by heart attack on October 28th, 1998, while undergoing treatment for colon cancer.

He received the Order of Merit from Queen Elizabeth II just before his death.

In 2003 he was portrayed by British actor Daniel Craig in Sylvia, a biographical film of Sylvia Plath, portrayed by Gwyneth Paltrow.

Wikipedia (abridged and adapted)


Lovesong

He loved her and she loved him.
His kisses sucked out her whole past and future or tried to
He had no other appetite
She bit him she gnawed him she sucked
She wanted him complete inside her
Safe and sure forever and ever
Their little cries fluttered into the curtains

Her eyes wanted nothing to get away
Her looks nailed down his hands his wrists his elbows
He gripped her hard so that life
Should not drag her from that moment
He wanted all future to cease
He wanted to topple with his arms round her
Off that moment's brink and into nothing
Or everlasting or whatever there was

Her embrace was an immense press
To print him into her bones
His smiles were the garrets of a fairy palace
Where the real world would never come
Her smiles were spider bites
So he would lie still till she felt hungry
His words were occupying armies
Her laughs were an assassin's attempts
His looks were bullets daggers of revenge
His glances were ghosts in the corner with horrible secrets
His whispers were whips and jackboots
Her kisses were lawyers steadily writing
His caresses were the last hooks of a castaway
Her love-tricks were the grinding of locks
And their deep cries crawled over the floors
Like an animal dragging a great trap
His promises were the surgeon's gag
Her promises took the top off his skull
She would get a brooch made of it
His vows pulled out all her sinews
He showed her how to make a love-knot
Her vows put his eyes in formalin
At the back of her secret drawer
Their screams stuck in the wall

Their heads fell apart into sleep like the two halves
Of a lopped melon, but love is hard to stop

In their entwined sleep they exchanged arms and legs
In their dreams their brains took each other hostage

In the morning they wore each other's face.

Ted Hughes

RIC

sábado, 18 de agosto de 2007

«Não lamentes, oh Nise, o teu estado»...























Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta),
Entre mil porras expirou vaidosa.

Todas no mundo dão a sua greta;
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa,
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Mas…

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Corníssimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos têm reinado.

Siqueu foi corno, e corno de um soldado:
Marco António por corno perdeu a coroa;
Anfitrião, com toda a sua proa,
Na Fábula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

José Anselmo Correa Henriques

Então, em que é que ficamos?!
É delas o mundo, porque delas é a matriz?…
Ou deles, porque com o membro o comandam?…

Apraz-me muitíssimo reler o soneto de Bocage – o tal que «devorei» num intervalo de galhofa entre duas aulas, nos «muito idos» de setenta… Coisa proibidíssima!
Ainda hoje solto fartas gargalhadas ao chegar ao 11.º verso, que é primoroso!
Riam muito e tenham, já agora, um excelente fim-de-semana!

RIC

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

«E por vezes»…

Τα πάντα ρει, ουδέν μένει.
Tudo flui, nada permanece.
- Heraclito de Éfeso













E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.














David Mourão-Ferreira


A caminho –
pelas vagas de silêncio
nesta praia.

Ante o mar
– mar pretérito,
mar presente,
mar sem tempo –
repouso o olhar
ao de leve
sobre a verde serenidade
deste secreto
entendimento.

Intensa
a Luz de sempre
refulge na vívida certeza
– Amizade.

RIC

domingo, 29 de julho de 2007

«Pater Noster»

de Jacques Prévert

Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuileries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-mêmes d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Avec leurs tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.


Pai Nosso que estais no céu
Ficai aí.
Que nós ficaremos aqui na terra
Que é por vezes tão bela
Com os seus mistérios de Nova Iorque
E ainda os seus mistérios de Paris
Que valem bem o da Trindade
Com o seu canalzinho do Ourcq
A sua grande muralha da China
A sua ribeira de Morlaix
As suas parvoíces de Cambrai
Com o seu oceano Pacífico
E os seus dois tanques das Tulherias
Com os seus bons filhos e os seus maus tipos
Com todas as maravilhas do mundo
Que estão aqui
Simplesmente sobre a terra
Oferecidas a toda a gente
Espalhadas
Maravilhadas elas próprias por serem tais maravilhas
E que não ousam confessá-lo
Como uma jovem nua que não ousa mostrar-se
Com as terríveis infelicidades do mundo
Que fazem legião
Com os seus legionários
Com os seus torcionários
Com os mestres deste mundo
Os mestres com os seus padres os seus traidores e os seus caserneiros
Com as estações
Com os anos
Com as belas raparigas e com os velhos estupores
Com a palha da miséria a apodrecer no aço dos canhões.

© Tradução de RIC

Our Father who art in heaven
Stay there
And we'll stay here on earth
Which is sometimes so pretty
With its mysteries of New York
And its mysteries of Paris
At least as good as that of the Trinity
With its little canal at Ourcq
Its great wall of China
Its river at Morlaix
Its candy canes
With its Pacific Ocean
And its two basins in the Tuileries
With its good children and bad people
With all the wonders of the world
Which are here
Simply on the earth
Offered to everyone
Strewn about
Wondering at the wonder of themselves
And daring not avow it
As a naked pretty girl dares not show herself
With the world's outrageous misfortunes
Which are legion
With legionaries
With torturers
With the masters of this world
The masters with their priests their traitors and their troops
With the seasons
With the years
With the pretty girls and with the old bastards
With the straw of misery rotting in the steel of cannons.

Un beau dimanche à tout le monde!
Um belo domingo para todos!
A nice Sunday for everybody!

RIC

sábado, 28 de julho de 2007

Augusto Gil e Belém


De seu nome completo Augusto César Ferreira Gil, o poeta nasceu em Lordelo do Ouro, Porto, a 31 de Julho de 1873 e faleceu em Belém, Lisboa, a 26 de Novembro de 1929.

Não meço nem avalio os poetas pelos eruditismos (vulgo "palavras caras") que utilizam, mas antes pelo eco que as suas palavras encontram no meu íntimo. E esta é a minha razão maior para considerar Fernando Pessoa o maior poeta português.

Para ser sincero, nunca fui grande apreciador da poesia de Augusto Gil. Porém, reconheço-lhe as qualidades que fazem dela um modelo de discurso poético que, em termos pedagógicos, deveria ser bem mais explorado.

Recordo uma época da minha vida profissional em que leccionei Português ao 7.º ano. Duas turmas tinham aulas ao sábado, o que tornava qualquer actividade lectiva mais tradicional quase impossível. Assim, chegámos a um acordo: os que estivessem interessados em divulgar à turma os seus poetas de eleição deveriam entregar-me, durante a semana, um papelinho dando conta do poema, do poeta e do/a "declamador(a)". Se o número fosse suficiente, sábado seria dedicado à poesia; senão, a aula seria "normal".
Escusado será dizer que quase todos os sábados foram dias de poesia. E aprendi então o que nenhum manual me ensinara: a natural predisposição daquela faixa etária para a memorização (alguns poemas eram bem longos!) e a candura com que os dizem, sentindo cada palavra ao seu modo e de acordo com a respectiva maturidade.
E eu, que só os ouvia falar nos "Duran Duran" e os via andar com a "Bravo" entre os livros e cadernos, fui surpreendido com escolhas como Florbela Espanca, António Gedeão, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almeida Garrett, Bocage, Camões… Nunca poderia imaginar. E também Augusto Gil.

Em Belém, numa pequena faixa relvada entre o Centro Cultural de Belém e as instalações do Planetário Calouste Gulbenkian e de parte do Museu de Marinha, encontra-se esta lápide comemorativa do centenário do seu nascimento.


© RPorter


© RPorter

De «Luar de Janeiro»

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Ou ainda de «A Canção das Perdidas»

IX

Como querem ver contente
Este país desgraçado,
Se dão só livros à gente
Nas escolas do pecado…

… Até parece Eça, livra! Certeiro! Em cheio!

No Ministério da Educação e no da Cultura, talvez não fosse má ideia fazerem, de vez em quando, uma sabatinas culturais, em vez de passarem tanto tempo nos "Messengers" e quejandos. É que os "referrals" não inventam ligações… E o saber não ocupa lugar.

Alguns "sites" contêm informações erradas sobre o poeta, e o artigo da Wikipédia está ainda por escrever, tendo sido iniciado no Brasil. Para um poeta que o povo não esquece… Imaginem o que seria se o povo o tivesse esquecido…
Quanto a fotografias, não consegui encontrar praticamente nada, nem mesmo na página da Biblioteca Nacional. Mas pode muito bem ter sido falha minha.

RIC

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Liberté!

Para uma tradução portuguesa deste poema, queira seguir este elo.
Porventura não será a melhor, mas será decerto melhor do que nenhuma…


For an English version of this poem, please click on "Liberty". I'm sure you'll enjoy it!

Paul Éluard

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.

"Poésie et Vérité", Éditions de Minuit, Paris, 1942.

RIC

terça-feira, 17 de julho de 2007

I. Natália Correia dá-nos D. Dinis...


Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.

Pero que troban e saben loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles poden, soõ sabedor
que os que troban quand'a frol sazon
á, e non ante, se Deus mi perdon,
non an tal coita qual eu ei sen par.

Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven en qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.

D. Dinis
Cancioneiro da Vaticana, 127, e Cancioneiro da Biblioteca Nacional, 489


Os provençais que bem sabem trovar!
e dizem eles que trovam com amor,
mas os que só na estação da flor
vejo trovar jamais no coração
semelhante tristeza sentirão
qual por minha senhora ando a levar.

Muito bem trovam! Que bem sabem louvar
as suas bem-amadas! Com que ardor
os provençais lhes tecem um louvor!
Mas os que trovam durante a estação
da flor e nunca antes, sei que não
conhecem dor que à minha se compare.

Os que trovam e alegres vejo estar
quando na flor está derramada a cor
e que depois quando a estação se for,
de trovar não mais se lembrarão,
esses, sei eu que nunca morrerão
da desventura que vejo a mim matar.

Natália Correia
Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, editorial estampa, p. 251

Expoente da cultura portuguesa do século XX, personalidade única no meio português, mulher irreverente e impetuosa, furacão da política, celebradora do Amor, criadora de vasta obra de qualidade ímpar, cultora do Português clássico e erudito como poucos.
Estes cantares dos trovadores são a prova (se necessária fosse) da mestria com que dominou e assimilou na perfeição séculos de cultura portuguesa.
Da obra poética de Natália Correia destaco, apenas guiado pelo meu gosto,
Sonetos Românticos (1990).

RIC

domingo, 15 de julho de 2007

«Mestre são plácidas todas as horas»

De 1972 data o meu primeiro contacto com a obra de Pessoa, através de "O Menino de Sua Mãe", à época um poema subversivo, só anos depois vim a sabê-lo. Também então havia professores que não se vergavam ao poder dos ignaros imbecis…
Em 1975 comecei a saber distinguir as diversas faces do Poeta, ainda de forma incipiente, mas o suficiente para começar a perceber o diálogo constante entre ortónimo e heterónimos. E o gosto foi crescendo à medida que me ia apercebendo de como "tudo aquilo", afinal, encaixava na perfeição.
Em 1979 foi a revelação. Total e absoluta. Tive o privilégio de ser conduzido através do universo do Poeta pela mão de alguém que tem o condão de o tornar quase transparente, tão perceptível e ao mesmo tempo tão distante e complexo como alguém com quem convivemos diariamente e, mesmo assim, temos sempre a vívida sensação de que jamais chegaremos a conhecê-lo minimamente.
Porque ele é como aquelas bolas de espelhos das discotecas, cintilantes e perturbadoras, multifacetadas e rodopiantes, emitindo reflexos simultâneos em todas as direcções.
É esta personalidade dramática, no sentido de teatral, que aprendi a apreciar e a manter sempre junto de mim pela mão da pessoana poetisa, dramaturga e professora de Literatura que é Teresa Rita Lopes. Obrigado.
Hoje, à distância de trinta anos dessa fantástica viagem que foi essa inesquecível iniciação, homenageio aqui três mestres de uma vez: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Teresa Rita.
Devo ainda acrescentar um quarto elemento (e, pelo caminho, um quinto...): José Saramago, que dedicou o seu melhor romance de sempre a Ricardo Reis, e Antonio Tabucchi, o italiano mais português.
Bem hajam por me darem um mundo onde sou sempre mais português.

Teresa Rita Lopes

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Ricardo Reis
12 de Junho de 1914

[Obras de Fernando Pessoa (poética e em prosa)
Introduções, organização, biobibliografias e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa,
vol. I, pp. 806-8, Lello & Irmãos – Editores, Porto, 1986]

RIC

sexta-feira, 13 de julho de 2007

«O Sentimento de Um Ocidental»

… «E releio, até me arderem os olhos, o Livro de Cesário Verde.»



A Guerra Junqueiro

I

AVE-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!


Devagar se vai ao longe.
As duas partes seguintes deste grandioso poema e sublime políptico da Lisboa do final do século XIX ficarão para a próxima semana, porque cada verso deve ser degustado na sua espantosa perfeição.
Como é que Fernando Pessoa não poderia ser um incondicional admirador de Cesário Verde?...

Se, no ser Português, não amarmos isto, então o que nos resta para amar?

A todos um excelente fim-de-semana!

RIC

sábado, 30 de junho de 2007

«Lisbon Revisited»

Costa Pinheiro, Heterónimos, CAMJAP (FCG)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos
1923

[Obras de Fernando Pessoa (poética e em prosa)
Introduções, organização, biobibliografias e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa,
vol. I, pp. 951-3, Lello & Irmãos – Editores, Porto, 1986]

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Une prédilection cardinalice…

«J'aime mieux un tilleul que la simple nature
Élève sur les bords d'une onde toujours pure,
Qu'un arbuste servile, un lierre tortueux,
Qui surmonte, en rampant, les chênes fastueux.
»

François-Joachim de Pierre, Comte de Lyon et Cardinal de Bernis

Il est né le 22 mai 1715 à Saint-Marcel-d'Ardèche et décédé le 3 novembre 1794 à Rome.
Homme de lettres, il fut aussi un homme d'Église, un diplomate français qui fut Ambassadeur à Venise, ministre d'État de Louis XVIII, secrétaire d'État des Affaires Etrangères, ordonné prêtre et chargé d'affaires auprès du Saint-Siège.


«Gosto mais duma tília que a natureza singela
Ergue à beira de águas sempre puras
Que dum arbusto rasteiro, duma retorcida hera,
Que soberba triunfa dos faustosos carvalhos.
»

(Traduit par RIC)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

II. Avez-vous jamais lu Camoens… en français?

Qu'Amour cherche autres tours et autres ruses
Pour me tuer, qu'il cherche d'autres feintes;
Il ne saurait m'ôter mes espérances
Puisqu'il ne peut m'ôter ce dont je suis privé.

Voyez de quels espoirs je me nourris!
De quelles périlleuses assurances!
À la dérive sur la mer houleuse
Je ne crains ni revers ni changements.

Mais s'il ne peut y avoir déplaisir
Où l'espoir fait défaut, Amour pour moi
Abrite un mal qui tue sans être vu;

Car depuis bien longtemps il a mis en mon âme
Je ne sais quoi, qui naît je ne sais où,
Vient je ne sais comment, et blesse, mais pourquoi?

Trad. de Maryvonne Boudoy et Anne-Marie Quint


Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Luís de Camões & Amália Rodrigues


Com que voz chorarei meu triste fado,
Que em tão dura prisão me sepultou,
Que mor não seja a dor que me deixou
O tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
Onde suspirar nunca aproveitou;
Triste quero viver, pois se mudou
Em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
Ao som nesta prisão do grilhão duro
Que lastima o pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
Devido a quem de mim tenho ausente
Por quem a vida, e bens dela, aventuro.


Abusando de um modismo linguístico, eis uma "dupla vencedora" da cultura portuguesa.
Provavelmente, uma das muito poucas que podemos enumerar.
Sobre ambos já muito/tudo foi dito/escrito. E mais alguma coisa…
Sou um leitor compulsivo de Camões e um ouvinte devoto de Amália.
Este édito é um dever intelectual e moral.
Como homenagem, vale o que vale.
Mas eu fico bem melhor com a minha consciência.

RIC

domingo, 28 de janeiro de 2007

I. Pérolas de humor com sabor alentejano…


Subi acima duma árvori
Pra ver se te via.
Como nã te vi,
Desci‑a.

Atirê um limão rolando,
À tua porta parou.
Depois fiquê pensando…
Será que o cabrão se cansou?

Ê vi‑te no tê jardim,
Andavas panhando hortelã.
Ê cá gosto de ti,
E tu, hã?!

Subi a um ecaliptre
Co tê retrato na mão.
Desencaliptrê‑me lá de cima,
Malhê cos cornos no chão.

Perdi a nha caneta,
Lá pròs lados da várzea.
Se lá fores e a vires…
Traze‑a!

Estas quadras foram coligidas pela ex‑colega e boa amiga Helena, alentejana de Serpa, que mas ofereceu por ocasião de um aniversário meu. Estava bem precisado de dar umas gargalhadas, e o efeito provocado não se fez esperar. Tal como agora!
Divirtam‑se!

RIC

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

II. From «Antinous»…

The rain outside was cold in Hadrian's soul.

The boy lay dead
On the low couch, on whose denude whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.

The boy lay dead, and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight of what he was was dead and dim.

[…]

Antinous is dead, is dead for ever,
Is dead for ever and all loves lament.
Venus herself, that was Adonis' lover,
Seeing him, that newly lived, now dead again,
Lends her old grief's renewal to be blent
With Hadrian's pain.

[…]

«Love, love, my love! thou art already a god!
This thought of mine, which I a wish believe,
Is no wish, but a sight, to me allowed
By the great gods, that love love and can give
To mortal hearts, under the shape of wishes –
Of wishes having undiscovered reaches –,
A vision of the real things beyond
Our life-imprisoned life, our sense-bound sense.
Ay, what I wish thee to be thou art now
Already. Already on Olympic ground
Thou walkest and art perfect, yet art thou,
For thou needst no excess of thee to don
Perfect to be, being perfection.»

[…]

His head was bowed into his arms, and they
On the low couch, foreign to his sense, lay.
His closed eyes seemed open to him, and seeing
The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning.
His hurting breath was all his sense could know.
Out of the falling darkness the wind rose
And fell; a voice swooned in the courts below,
And the Emperor slept.

The gods, came now
And bore something away, no sense knows how,
On unseen arms of power and repose.

Lisbon, 1915
Fernando Pessoa